“São João” move a economia e faz de Teresina referência nacional, mas faltam apoio e valorização para artistas juninos

“É nesse momento que a gente entra em quadra, independente do resultado, quando a gente vê uma senhorinha que ás vezes com dificuldade está empurrando uma cadeira para nos ver ou aquela criança quando nos vê com o figurino montado dá aquele sorriso, aquele brilho, são esses os momentos que a gente mais gosta”.

A fala é do Kleuton Jonhsom, idealizador e organizador da quadrilha junina Chapadão do Corisco, que conquistou o título de melhor do Norte e Nordeste em 2016. Ele reflete sobre a realização desta época do ano para os estados da região e avalia que são esses momentos que mostram o poder que a cultura tem de tocar, transformar e aproximar as pessoas.

Quadrilha Chapadão do Corisco se apresenta (Foto: Reprodução/ TV Clube)

A quadrilha, diz ele, é uma “brincadeira grande”, mas nem um pouco simples. Exige investimento, suor e muita preparação: os ensaios começam logo após o fim da temporada anterior. Um espetáculo com figurinos, adereços, enredo e performance pode custar até R$ 80 mil. Para levantar o dinheiro, é comum que os grupos recorram a rifas, bingos, vaquinhas e aos apoios de empresários que enxergam valor nesse tipo de arte. “Geralmente, tiramos um mês de férias e aí já começamos. Hoje a maior dificuldade é a financeira e a de material humano mesmo”, explicou.

O lamento de Kleuton é ecoado por outros quadrilheiros ouvidos pela Todavia. As apresentações seguem encantando. Mas o orçamento aperta a cada ano. Em 2025, os grupos receberam apoio do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Cultura (Secult), e de parte da iniciativa privada. Mas a Prefeitura de Teresina, que apoiava anos anteriores, não contribuiu desta vez.

 “A prefeitura fica jogando para lá e para cá e nós. E a gente tem nossa vida, nosso trabalho, nossas correrias. Ficar sendo tratado assim, feito rebolo, a gente não gosta, não, porque é uma cultura, uma tradição. Eu acho, na verdade, que eles é que teriam que vir atrás da gente para dar continuidade, porque somos nós que fazemos a cultura, muitas vezes, para levar o nome de Teresina e do Piauí para outros estados e ser uma referência”, avaliou com sinceridade.

Kleuton Jonhsom (Foto: Arquio pessoal)

Se a falta de incentivo público incomoda, outra inquietação vem da mudança geracional. Desde a pandemia, segundo ele, o desinteresse entre os mais jovens cresceu. “Hoje em dia, a geração vive só de celular e trancada no quarto. A gente já teve casos de jovens que feriam a si mesmos, recebemos situações assim lá na nossa sede. Já vi mãe chegar chorando, dizendo que começou a colocar o filho na quadrilha porque ele só vivia dentro de casa, e a dança conseguiu tirar ele daquele quarto, daquela tristeza. A verdade é que a quadrilha vira um alívio. É ali, dentro da quadra, que a gente solta todo o estresse do dia. Ela transforma”, contou.

No fim, talvez seja essa a função mais antiga e mais moderna das festas populares: criar espaço para que a cultura regional siga viva e trazendo alegria para quem a aprecia.

Público assiste apresentação de brincantes de quadrilha (Foto: Reprodução TV Assembleia)

“Nós somos uma potência”, diz presidente da federação do Piauí

A rotina é puxada, o planejamento é meticuloso e o investimento pode ultrapassar R$ 1 milhão de reais por temporada. Para dar conta disso, valem rifas, bingos, vaquinhas, editais públicos e o empenho pessoal de cada brincante. “Senão, não dá”, resume o professor João Rodrigues, presidente da Federação das Quadrilhas Juninas do Piauí. Para ele, o desafio financeiro é crônico. Mas, há também um orgulho que transborda: o Piauí, segundo ele, é hoje “protagonista” nas festas juninas do país. João afirma com segurança que os grupos do estado são referência nacional e “adversários a serem batidos” em qualquer festival interestadual.

“Eu vejo que nós estamos uma crescente, até porque o Piauí hoje é uma potência junina, hoje nós somos esperados, hoje nós somos os protagonistas de qualquer festival pelo Brasil afora, hoje nós temos esse respaldo, através dos nossos resultados. Hoje nós somos os atuais campeões. Nós somos atuais campeões do Brasil, do Nordeste. Então, ou seja, nós somos a referência, nós somos os grupos a serem batidos. Quando o pessoal de fora pensa em fazer um festival interestadual, ele já pensa logo no Piauí, porque aqui tem grandes quadrilhas”, destacou.

Atualmente, a federação reúne 86 grupos espalhados pelo estado.

Quadrilha Luar do São João foi finalista em competição da Globo em 2024 (Foto: Divulgação)

São João nos bairros incrementa até R$ 500 na renda de famílias

Arraiá no Dirceu (Foto: arquivo pessoal)

E nos bairros, o tradicional São João com um “arraiá” nos bairros também é um símbolo das festas. O Arraiá do Mercado do Dirceu II, por exemplo, reúne até 2 mil pessoas. “A diversão maior é a econômica”, brinca Alberto Machado, que é um dos organizadores.

Ele explica que, além do entretenimento, o  grande objetivo da festa é gerar oportunidade de renda para pais e mães de família que, em um único dia, conseguem vender tudo que produzem e lucrar até R$ 500, um valor significativo para as famílias fazerem em um único dia que o evento acontece.

“A comunidade fica muito ansiosa para fazer suas vendas. É uma chance de garantir uma renda extra para as mães, os pais de família. Esse é o principal objetivo, mais até do que a diversão, que também é um espetáculo à parte, principalmente para a juventude e para as crianças. Cada pessoa, dentro da sua realidade, consegue tirar um bom lucro: em uma noite, chega a ganhar até R$ 500. Tudo que colocam pra vender, acaba rápido”, contou.

Além disso, Alberto destaca que, mesmo sem apoio direto do poder público, prefeitura ou governo, o evento se mantém há cerca de 20 anos pela força do esforço coletivo e do sentimento de continuidade.

Professor Alberto Machado (Foto: arquivo pessoal)

FMC afirma que não há recursos

Procurada pela apuração a Fundação Municipal Monsenhor Chaves (FMC) informou, por meio da assessoria de comunicação, que não tem recursos em caixa, devido crise financeira, para o apoio aos eventos populares e grupos de quadrilhas na capital. Acrescentou também estar promovendo eventos no Centro e nos bairros, à exemplo do “Concerto Reboco”, ação com música e dança. (Veja a nota na integra ao final da coluna)

“Informamos que, neste ano, em razão das limitações orçamentárias decorrentes da grave crise financeira enfrentada pelo Município, não foi possível realizar repasses diretos de incentivo financeiro para os grupos culturais ligados ao ciclo junino. Ainda assim, a FMC tem buscado garantir a presença das manifestações culturais nos bairros e pontos centrais da cidade, por meio de atividades descentralizadas organizadas em sua programação própria”, escreveu.

É preciso celebrar a cultura regional com os nossos!

As festas juninas são uma das mais fortes expressões da identidade cultural do povo nordestino e, no Piauí, esse sentimento também se renova. De Norte a Sul do estado, os festejos ocupam ruas, praças e centros culturais, reunindo tradições que atravessam gerações: das quadrilhas à culinária típica, da fé popular à música que embala o mês inteiro.

Mas não se trata apenas de festa. O ciclo junino movimenta a economia local, gera emprego e renda para comerciantes, costureiras, músicos, produtores culturais e pequenos empreendedores. Nos bairros, são os arraiás comunitários que mantêm viva a raiz da tradição. Já nos grandes centros, eventos de grande porte atraem multidões, criando oportunidades que vão muito além do entretenimento. É nesse cenário que também é preciso estar a atento a valorização dos próprios artistas que atualizam essa cultura regional. Não faz sentido celebrar a cultura popular nordestina deixando de fora os fazedores dela.

Artista faz desabafo nas redes sociais após ter show cancelado

Na última semana, o cantor piauiense, Cristian Ribeiro, usou suas redes sociais para relatar um episódio que aconteceu durante participação dele no Arraiá da Capitá, um dos maiores eventos juninos de Teresina. Segundo o artista, ele e sua equipe chegaram com 2h de antecedência para o show, que estava previsto para acontecer às 2h30, mas acabaram aguardando até as 4h sem receber confirmação se realmente iriam se apresentar. A indefinição terminou com Cristian não subindo ao palco naquela noite. Em conversa com a Todavia ele falou sobre o tratamento desigual em grandes eventos dado aos músicos locais em comparação com as atrações de fora do estado.

“Quando a gente passa por uma situação dessas a gente vê que no nosso Piauí é desorganizado com a classe dos artistas. Já aconteceu várias vezes em eventos grande assim da produção se preocupar mais com os ‘de fora’ do que com os de dentro’ […] No tratamento da cidade no interior do Piauí, eles valorizam mais que a própria capital, essa questão de eventos grandes. Eu fiz um show agora recente lá em Santa Rosa, lá foi eu e Maria Cecília e Rodolfo, e a diferença do meu camarim para o deles não mudava nada, tudo do mundo melhor, lá era fartura, fartura de coisas boas”, comparou.

Cristian Ribeiro (Foto: Divulgação)

Além da própria trajetória de vida para realizar um sonho, a rotina de quem é artista é puxada. Cristian relata que começou aos 14 anos na sua cidade natal, Caracol do Piauí, chegou a viver em Brasília, São Paulo e retornou para começar do zero em Teresina. A rotina hoje em dia é por todo o Piauí. “O desabafo que fiz, foi porque não aguentava mais, quem vê de fora não sabe o que a gente passa”, contou.

Grandes eventos tem priorizado “números” nas redes sociais

O artista ainda fez uma reflexão importante: para ele, o espaço para bandas de forró tradicional e artistas locais tem diminuído, dando lugar a atrações do momento, populares no TikTok, mas desconectadas da essência cultural do São João.

“Hoje é difícil você ver hoje em um arraiá uma banda de forró. O Piauí tem muito sanfoneiro bom que toca pé de serra e canta. Mas, as bandas que trazem são mais essas que fazem sucesso no TikTok. Eu vejo que estão mais preocupados com multidões, né? Às vezes, trazem alguém que está estourado no TikTok para um evento que não tem nada a ver, mas vai lotar. Eu acho fica fora do comum”, ponderou.

Orquestra de sanfonas de Teresina (Foto: Divulgação/ PMT)

A Todavia entrou em contato com a organização do Arraiá da Capitá, por meio do perfil oficial no Instagram, mas, não obteve uma reposta até o fechamento deste texto.

Orgulho da tradição deve vir junto ao apoio para quem a faz!

A quadrilhas e as festas juninas são uma grande paixão no Nordeste, mas, é verdade, estão cada vez mais difíceis de manter. Falta apoio, está caro, os jovens não estão mais tão envolvidos como antes e elas acabam passando até por descaracterização para acompanhar as tendências mais atuais. Mesmo assim, há quem insiste, por saber que a cultura precisa de base, de apoio, de respeito. Nunca foi só uma festa, é identidade.

Nota da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves (FMC)

A Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves reconhece a importância das quadrilhas juninas e sua profunda representatividade na preservação da cultura popular nordestina, sendo expressão legítima das tradições, da identidade e da criatividade do povo teresinense.

Informamos que, neste ano, em razão das limitações orçamentárias decorrentes da grave crise financeira enfrentada pelo Município, não foi possível realizar repasses diretos de incentivo financeiro para os grupos culturais ligados ao ciclo junino.

Ainda assim, a FMC tem buscado garantir a presença das manifestações culturais nos bairros e pontos centrais da cidade, por meio de atividades descentralizadas organizadas em sua programação própria.

Reforçamos nosso compromisso com a valorização das tradições juninas e destacamos que o apoio às quadrilhas e demais grupos culturais será fortalecido por meio dos editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), cuja execução está sendo estruturada com critérios públicos, transparentes e voltados à democratização do acesso aos recursos.

Teresina, 16 de junho de 2025.

Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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