Carnaval de Teresina ainda tem salvação? Corso menos elitizado e vida pulsando nos blocos de rua

Corso de Teresina (Foto: reprodução)

Mais de 300 veículos enfileirados na Avenida Raul Lopes, todos adornados com cores, fitas e adereços festivos. Foi assim que o Carnaval de Teresina, por alguns anos, ganhou projeção nacional e entrou para o Guinness Book como o maior corso do mundo. Na época, em 2012, o então prefeito Elmano Férrer, vestido de havaiano e usando capacete de operário na cabeça, disse em entrevista, “esse é o melhor corso da história e o que vem pela frente será ainda melhor. Está consolidado nacionalmente”, falou. A previsão não se concretizou. Com o passar dos anos, o corso foi perdendo fôlego, diminuindo de tamanho até desaparecer do calendário oficial. Há pelo menos dois anos, em 2025 e, agora, em 2026, não acontece mais.

Elmano Férrer em 2012 (Foto: Cidade Verde/ reprodução)

Nesta edição, a Todavia conversou com pessoas em diferentes campos de atuação, mas com presença forte nas festas carnavalescas, buscando entender o que é, afinal, o Carnaval hoje em Teresina. Uma das questões que atravessa os depoimentos é a ideia de “resgate” da festa. Para alguns, a memória do corso ainda funciona como referência um parâmetro de sucesso, para outros, o Carnaval não se resume a ele, é um ecossistema espalhado pela cidade. Ao longo de fevereiro, a cidade se organiza de muitas outras formas com bloquinhos espalhados por bairros, festas promovidas pela iniciativa privada, ensaios e desfiles de escolas de samba, trabalhadores temporários, músicos, ambulantes, produtores culturais e foliões que faziam do período um evento em si.

A última vez que o corso de Teresina aconteceu foi em 2024, onde o desfile aconteceu com o desfile de seis carros alegóricos e tendo como atração principal, o show do cantor Ricardo Chaves, ex-vocalista da banda Eva. Em 2025, ao assumir a gestão municipal, o prefeito Sílvio Mendes optou por cancelar o evento, argumentando sobre dificuldades financeiras deixadas pela administração anterior do ex-prefeito Dr. Pessoa e desequilíbrio nas contas públicas do município. A decisão foi justificada pelo contingenciamento orçamentário e pela necessidade de priorizar áreas como saúde, educação e serviços essenciais.

Dr. Pessoa em lançamento da programação de Carnaval (Foto: reprodução)

Silvio Mendes confirma que PMT não financiará Corso em 2026

A Todavia entrevistou Silvio Mendes nesta segunda-feira (12) e ele confirmou que, novamente, neste ano de 2026, não haverá corso e acrescentou que segue as diretrizes dadas pela Fundação Monsenhor Chaves (FMC): “As prioridades na área da Cultura são sugeridas pela FMC, este ano a prefeitura não financiará o corso”, pontuou.

Silvio Mendes reuniu líderes de blocos para anunciar apoio (Foto: divulgação)

Prioridade são os bloquinhos, mas corso não foi “abandonado”, diz FMC

Procurada pela Todavia, a FMC respondeu por meio do gerente de Promoção Cultural da Fundação, Júlio César. Segundo ele, a principal diretriz é consolidar um Carnaval “sustentável, descentralizado e inclusivo”, com prioridade para a valorização dos artistas e trabalhadores da cultura de Teresina. Para ele, há “plena capacidade artística instalada na cidade”, o que justifica a opção por direcionar os recursos públicos para bandas, grupos, cantores, produtores e técnicos locais, em vez da contratação de atrações externas. A visão da gestão, segundo Júlio César, é de que o recurso público deve circular dentro da própria cidade.

“A política pública mais necessária e urgente para o Carnaval de Teresina é a consolidação de um modelo de festa popular sustentável, descentralizado, inclusivo e com forte valorização dos artistas da cidade. Isso significa priorizar os grupos, bandas, cantores, charangas e manifestações culturais locais, evitando a contratação de atrações de fora quando há plena capacidade artística instalada em Teresina. Trata-se de uma diretriz estratégica de fomento à economia criativa local, geração de renda, fortalecimento da cadeia produtiva da cultura e valorização dos talentos da cidade […] O Carnaval deve ser tratado como política cultural permanente, não como ação pontual, com foco na democratização do acesso, na identidade cultural local e no desenvolvimento cultural sustentável”, destacou.

FMC (Foto: reprodução)

Ele pontuou que a FMC reconhece o evento do corso como “um dos mais simbólicos e afetivos da história do Carnaval da cidade”, mas que a prioridade neste ano é a valorização dos blocos de rua e da programação popular nos bairros e nas regiões da cidade, com eventos gratuitos, abertos à população e distribuídos territorialmente. Entre os fatores apontados estão as restrições orçamentárias da Prefeitura, a reorganização administrativa em curso, além de uma recomendação do Ministério Público (MPPI) quanto à realização de eventos na Avenida Raul Lopes e a redução da adesão de caminhões nos últimos anos.

“A decisão de não realizar o Corso neste momento é técnica, responsável e fundamentada, e não representa abandono da tradição. Ao contrário, representa cuidado com a cidade, com os recursos públicos, com a segurança urbana e com a própria história do evento”, pontuou.

Modelo do evento passa por “avaliação interna”: “Possível retorno às origens”

Corso em edições anteriores (Foto: reprodução/ O Dia)

Júlio César ainda acrescentou que o evento passa por avaliação interna e só poderá ser retomado se houver um modelo viável do ponto de vista financeiro, urbano e de segurança, enquanto o Carnaval segue acontecendo na cidade por meio de blocos de rua e programações descentralizadas.

“O Corso está sendo objeto de reflexão e avaliação interna quanto ao seu formato, modelo e viabilidade futura. Há a compreensão de que o evento precisa ser repensado, seja por meio de uma reformulação, seja por um possível retorno às suas origens, com foco mais cultural, participativo, popular e menos dependente de grandes estruturas e altos custos. A FMC entende que, para voltar, o Corso precisa retornar de forma organizada, segura, financeiramente responsável e alinhada à realidade urbana da cidade, dialogando com o modelo de valorização da cultura local e dos artistas da terra”, disse.

Corso em edição mais atual (Foto: reprodução)

Blocos resgataram o Carnaval de Teresina, diz idealizador do Pinto na Morada

Para Raulino Neto, diretor e idealizador do Bloco Pinto na Morada, o Carnaval de Teresina tem sido resgatado pelos bloquinhos de rua. Na visão dele, a festa na capital tem passado por uma descentralização das festas e ocupação dos bairros, com iniciativas organizadas diretamente pelas comunidades. Para ele, o Carnaval deixou de estar concentrado em um único grande evento e passou a funcionar como um conjunto de manifestações espalhadas pela cidade.

Esse movimento, de acordo com Raulino, alterou inclusive o comportamento do folião teresinense.

“Teresina está de parabéns porque conseguiu resgatar o Carnaval. E esse resgate aconteceu por meio dos blocos descentralizados. Hoje há blocos na Matinha, no Parque Piauí, no Saci, na Barão de Gurgueia, na Zona Leste, além do Pinto, do Capote, da Fuleira, da Vacatolada, do Patrão da Beka. A cidade passou a ter um calendário de blocos muito forte. Com isso, o folião não precisa mais sair de Teresina para brincar Carnaval. Antes, muita gente ia para Barras, Água Branca, Luís Correia, Parnaíba, Floriano. Hoje isso não acontece mais, porque Teresina tem Carnaval”, afirmou.

Raulino Neto (Foto: reprodução/ Clubenews)

Ao falar especificamente do Bloco Pinto na Morada, que completa dez anos, Raulinho apontou o compromisso com o chamado “Carnaval raiz” como um dos diferenciais. “Lá com a gente é marchinha e frevo. Um pouquinho de axé, claro, mas é o Carnaval de outrora”, explicou. Segundo ele, essa escolha ajudou a consolidar o bloco como um espaço seguro e acolhedor para famílias da região do Morada do Sol, fortalecendo a identidade comunitária da festa. “E para comemorar os 10 anos estamos preparando uma atração nacional, não posso falar ainda, mas estamos organizando”, disse.

“As pessoas esqueceram de celebrar a festa”, diz primeiro lugar em concurso do corso

Empresário, proprietário da marca Mundoposto, e um dos participantes da fase de maior visibilidade do Corso de Teresina, Igor Leite, conversou com o boletim brio e avaliou que o esvaziamento do Carnaval de grandes alegorias começou quando a criatividade deixou de ser o centro da festa.

Ele lembrou que participou diretamente do período de renovação da festa, quando o desfile passou a ser cogitado para entrar no Guinness Book. Ao lado de amigos, construiu um caminhão cenográfico inteiramente feito de papel, iniciativa que rendeu o primeiro lugar na disputa naquela edição. Nos anos seguintes, segundo ele, essa lógica se expandiu. Os caminhões ficaram mais sofisticados e o investimento criativo estimulou outros grupos a fazerem o mesmo. O cenário, no entanto, começou a mudar quando os custos passaram a crescer. O aumento no valor do aluguel dos caminhões e das estruturas básicas, tornou a participação cada vez mais cara.

Caminhão de Igor e amigos em 2015 teve investimento de mais de R$ 35 mil (Foto: reprodução/ 180 Graus)

Para Igor, esse processo foi decisivo para o esvaziamento do Corso. À medida que a preocupação financeira se sobrepôs ao espírito de celebração, o evento perdeu parte de sua força estética e popular. A festa, que antes se destacava pela inventividade e pela diversidade de propostas, foi se tornando menos acessível e menos atrativa.

“Eu venho de uma geração da renovação do corso quando ele começou a ser cogitado a sair no Guinness Book e daí a gente começou a fazer um caminhão totalmente de papel e levamos o primeiro lugar e estampamos esse feito no Guinness Book. Eu e meus amigos. E daí nos anos seguintes, nos anos seguintes a gente começou a fazer caminhões mais sofisticados, investimos muito e com essa leva conseguimos levar várias pessoas a fazer a mesma coisa. Só que o grande problema dos três anos consecutivos foi o aumento de aluguel de caminhões e isso foi impedindo de a festa ficar mais bonita. E daí eu percebi que o corso foi morrendo. Eu acho que as pessoas pensaram muito no financeiro e esqueceram de celebrar a festa”, descreveu Igor Leite.

 Para ele, o potencial da cidade segue intacto, mas depende de uma mudança de estratégia. A aposta, segundo defende, está na ampliação do calendário, com blocos e programações nos dias que antecedem oficialmente o Carnaval, capazes de movimentar diferentes regiões da cidade e criar um ambiente contínuo de festa. “Teresina poderia ganhar não só o Carnaval, mas também as prévias”, avaliou, ao apontar que planejamento e investimento são importantes para transformar o evento em uma política cultural sustentável, e não apenas em uma celebração pontual.

Em 2023 caminhão “Perola Negra” ganhou prêmio de R$ 20 mil como mais bem produzido (Foto: TV Clube)

“Não é risco de acabar, já acabou”, diz presidente da Liga de Escolas de Samba

Jamil Moisés, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Piauí, afirmou, em entrevista à Todavia, que não foi chamado para o diálogo sobre o Carnaval deste ano. Segundo ele, não houve comunicação formal por parte do poder público, nem por ofício, nem por telefone, nem por mensagens. As informações chegaram de forma indireta, por meio de comentários em redes sociais e declarações na televisão. “Eu não fui comunicado. Por escrita, nem nada”, disse.

Jamil também fez uma declaração contundente ao afirmar que o Carnaval de escolas de samba, como ele chama o Carnaval-espetáculo em Teresina, e o próprio corso, da forma como eram conhecidos, já chegaram ao fim. O dirigente argumentou que esse tipo de Carnaval exige investimento contínuo, planejamento anual e preparação ao longo de todo o ano.

“Não é risco de acabar, não. Já acabou. O corso e o Carnaval-espetáculo já acabaram. Porque todo mundo fala em resgatar, resgatar, e eu já resgatei esse Carnaval duas vezes e ele acaba de novo. Por isso é que hoje não tem Carnaval. Fazer um Carnaval-espetáculo demora, leva dinheiro, exige trabalho o ano inteiro, preparação, tempo. Não é uma coisa simples. Antes, o corso era feito por quem entendia de Carnaval. As pessoas faziam seus próprios carros, enfeitavam, iam brincar, era animado, era popular. Depois entrou a autoridade e resolveu mudar o modelo. Tiraram os carros pequenos, que eram do povo, e colocaram os caminhões. Aí ficou caro. Foi a própria organização do Carnaval que acabou com o corso”, avaliou.

Jamil Moisés, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba (Reprodução)

Questionado sobre quais soluções poderiam fortalecer as escolas de samba no Carnaval de Teresina, Jamil Moisés afirmou que a principal necessidade é a criação de um espaço próprio para as agremiações. Segundo ele, durante a gestão do ex-prefeito Dr. Pessoa, chegou a doar um terreno com esse objetivo, para a construção de um local destinado aos desfiles, à guarda de carros alegóricos e à organização das escolas. A proposta foi formalizada por meio de um projeto de lei, mas não avançou na Câmara Municipal após ser considerada inconstitucional.

“Eu apresentei um projeto e doei um terreno para isso. A ideia era que aquele espaço se tornasse um equipamento urbano, próprio para o Carnaval e para outros eventos culturais. O projeto chegou a tramitar, foi encaminhado para análise, para saber se era constitucional ou não, mas não avançou. Sem esse tipo de estrutura fixa, fica muito difícil fazer Carnaval-espetáculo, porque as escolas não têm onde trabalhar, onde guardar carros, onde se organizar”, declarou.

O Carnaval está voltando a ser “popular” em Teresina?

Aquele Carnaval de meados de 2012 é uma memória forte no imaginário, nesta época do ano, talvez menos pelo que foi e mais pelo que representou. Como em qualquer outro lugar, o povo teresinense busca símbolos que ajudem a organizar a própria identidade, algo que possa ser contado, lembrado, uma tradição para “chamar de sua”. A cidade mudou, o cenário econômico também, e Teresina atravessa hoje um período de restrições financeiras que impõe escolhas e prioridades.

O que é possível ver nos depoimentos, é a constatação de que o Carnaval continua vivo, ainda que em outros formatos, com outras escalas e outros protagonistas e de certa forma, voltando a ser das camadas populares, desta vez, diretamente nos bairros.

O grande debate não é “ter ou não ter o corso”, mas qual Carnaval está em disputa: o grande evento concentrado versus o ecossistema descentralizado que voltou para mais perto do teresinense das camadas mais populares.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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