Chapa da vitória é “esquerda+direita+centro”: Marcelo consolida e Ciro e Júlio brigam pelo voto da centro-direita no Senado

Boletim 12/07/25

Geralmente não publico textos aos finais de semana, mas estou esses dias no Piauí e acumulei um volume insano de informações que ainda estou tentando decifrar ao lado de uma xícara de expresso (sem açúcar, como as coisas devem ser). Vou compartilhar algumas dessas ideias e dados com vocês, fechado?

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Se o mundo fosse justo, nenhuma das partes de uma negociação consideraria que está perdendo e ninguém acharia que está levando vantagem. Mas o mundo não é justo, leitor, e isso você já sabe…

Eu gosto de pensar as engrenagens do poder em termos de categorias. O Piauí viveu séculos de embates eleitorais geográficos entre as elites do Norte e do Sul (vou falar mais disso logo abaixo). Hoje, com o crescimento das massas urbanas, o embate virou definitivamente ideológico e a eleição para o Senado em 2026 prova meu ponto. Essa é, nada mais e nada menos, do que uma disputa para saber quem é o dono do voto da centro-direita no Piauí: o senador Ciro Nogueira, do PP e ou deputado federal Júlio César, do PSD. Ponto final.

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A chapa da vitória sempre vai ser: direita, esquerda, centro

Em 2018, o grupo era um só e a chapa vitoriosa foi assim (direita + esquerda + centro): Ciro (voto de direita), Wellington Dias (reeleição ao Governo, voto de esquerda) e Marcelo Castro (o voto de centro). Beleza. Ciro Nogueira rompe em seguida e o rompimento prova que, sem o grupo de centro-esquerda de Wellington (e agora de Rafael Fonteles, sucessor do PT), a oposição não consegue eleger o governo central (até agora), mas disputa competitiva uma cadeira ao Senado.

Corta para 2026: o senador Marcelo Castro está consolidado como candidato a senador com o voto da esquerda (o PT sempre o considerou um aliado fiel) e do centro e a única disputa real hoje é entre Ciro e Julio, num embate que tem escalado com batedores (leia a coluna sobre esse tema aqui) e “vazamentos”/divulgações de listas de apoios de prefeitos (ferramenta de pressão para prefeitos aliados, mas em cima do muro, e elemento discursivo na guerra de narrativas). Por favor, acompanhe meu raciocínio, leitor.1

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A força do Norte (THE e PHB) e a revanche do Sul do Piauí

Com os Portelas no Sul e os Mão Santas no Norte, a política piauiense era um revezamento entre líder do Norte e líder do Sul, um ou outro. O que mudou? O sindicalista Wellington Dias (PT) em 2002 chegou e se equilibrou entre essas elites. Fez a conciliação e ligou, literalmente, as elites antagônicas.

Qual foi o grande legado dos governos Wellington Dias? (e você pode discordar, claro): estradas. Wellington fez a interligação definitiva do Piauí através de estradas (e baixou as armas das oligarquias locais em eterna guerra). A divisão entre o Norte (Parnaíba e Teresina) e o Sul (cerrado) remonta ao período imperial, quando a capital deixou de ser Oeiras e passou a Teresina. A nova capital se beneficiou dos fluxos comerciais do rio Parnaíba e da influência das elites do litoral. Mas deixou o Sul isolado (e ressentido). 

O Sul do estado, especialmente o cerrado piauiense, tradicionalmente marginalizado pelas decisões do poder central, permaneceu por décadas relegado a uma posição periférica na economia e na representação política. Essa exclusão alimentou as tensões regionais que só começaram a se alterar com o avanço do agronegócio no final dos anos 2000. Uruçuí, Corrente e Bom Jesus são estratégicos na economia estadual. O Sul reconfigurou o mapa do poder no Piauí: prefeitos, deputados e lideranças reivindicam mais e mais representação política.

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Firmino e a barreira das elites do interior

Poder é sobre acesso. Que lugares você pode ou não entrar.

Mesmo sendo um prefeito reeleito sucessivas vezes e bem avaliado em Teresina, por que Firmino Filho não conseguiu se tornar um político estadual se tantos outros, menos capacitados do que ele (não vamos citar nomes…), obtiveram êxito? É que para ser um político estadual você tem que ter liga, sentar e negociar com as elites do interior.  Wellington fez. Sílvio Mendes (prefeito de Teresina) e Firmino, não fizeram. Deu no que deu.

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Os prognósticos e as variáveis de Ciro, Júlio e Marcelo (hoje)

Ciro Nogueira: as variáveis de risco incluem menos o conflito de discurso e agenda campanha local com a pré-candidatura a vice-presidente – hoje cada vez mais distante no conturbado cenário nacional, e mais a ameaça de travamento de emendas parlamentares pelo governo Lula em Brasília. Essa é a maior força de CN, pelo argumento de cumprimento de bons (e robustos) acordos com lideranças piauienses.

Tem sofrido uma ofensiva nos últimos dias do grupo de Rafael Fonteles, que visa enfraquecer a imagem de Nogueira como “candidato forte” ao Senado, incutindo nas lideranças ligadas a Ciro a dúvida sobre a manutenção da sua candidatura ao Senado. Provavelmente prepara um contra-ataque.

Disputa o voto de direita e centro-direita com Júlio César: ou seja, quer mostrar que o voto é do segmento ideológico, enquanto Rafael e o grupo petista quer provar que o voto é do time, e não de Ciro, mesmo que se mantenha o mesmo recorte ideológico (direita e centro com Júlio, esquerda e centro com Marcelo Castro).

Marcelo Castro: o mais confortável dos três candidatos, não tem concorrente efetivo nadando em sua raia: a centro e a esquerda. Tem as emendas da capital federal, a simpatia dos petistas e a capilaridade dos prefeitos. Sua variável para baixo é o risco de ser prejudicado na dobradinha informal que tem com Ciro em diversas cidades caso escale a guerra discursiva do governo Fonteles contra Ciro Nogueira.

Também precisa equacionar o fato de ter um filho candidato a reeleição como deputado federal (Castro Neto), o que eventualmente gera críticas de aliados ao favorecimento a ele em detrimento da distribuição de recursos e espaços aos demais membros do grupo.

Júlio César: a variável de risco está clara nessa altura do campeonato: não conseguir ser o voto número 2 de Marcelo Castro, seja pelas resistências da base ao filho, deputado Georgiano Neto, seja por uma contra-ofensiva futura de Ciro Nogueira, que ninguém sabe o que será, mas todos apostam que virá.

Por ter uma trajetória municipalista, um partido forte (como mostrou o evento de sexta-feira com o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab em Teresina), Júlio precisa se firmar como a dupla de voto de Marcelo Castro pois as dobradinhas com Ciro, mesmo que existam, não serão as decisivas para o êxito da sua eleição.

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Joel pode assumir o leme da oposição

Na oposição, há a expectativa (torcida, alguns afoitos diriam) para que o ex-prefeito de Floriano e ex-candidato a senador, Joel Rodrigues, reflita se não seria melhor encarar a eleição ao Governo do Estado ao invés da bem confortável suplência do senador Ciro Nogueira (Margarete poderia ser a suplente de Ciro ou ir para a chapa de federal? Aí é querer saber demais, leitor…)

A troca de Margarete Coelho por Joel seria uma estratégia, como apontam oposicionistas ouvidos pelo boletim, de dar um gás/susto no grupo de Rafael Fonteles pois Joel carregaria, simbolicamente, a imagem que casa como contraponto a Fonteles (“simplicidade/experiência/humildade” são os adjetivos que seriam explorados na campanha, uma abelhinha ventilou à colunista).

Ele tem tempo para pensar. Mas não muito.

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Os notáveis do Quinto: quem coordena e quem faz as “dobradinhas” I

Busque as respostas para essas perguntas caso deseje saber se tem rumo ou não tem rumo a campanha de um candidato a desembargador pelo Quinto Constitucional do Tribunal de Justiça do Piauí (vaga da advocacia): 1) Quem é o coordenador da campanha? (Se for, por exemplo, uma pessoa relevante, de um lado importante, é porque os acordos foram feitos. Sabe como é , né?) 

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Os notáveis do Quinto: quem coordena e quem faz as “dobradinhas” II

E 2) com quem o pretenso (a) jurista irá fazer sua “dobradinha” (ou seja, casar os pedidos de votos, já que os advogados podem votar em mais de um nome na fase de consulta aberta e on-line). Geralmente, a pessoa que propõe a dobradinha considera o outro “inofensivo”. O problema é que o advogado que aceita costuma pensar o mesmo do propositor (nesse jogo, não costumam entrar crianças e amadores). A campanha começou! E como!

Bônus: Essa história de Quinto é um cemitério de ressentimento. Se quiser incrementar, busque saber quem pede voto e quem pede veto (atenção).

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Por que a Leopoldina está na FMS 

Muita gente não entendeu por que a secretária de Saúde de uma cidade relativamente pequena como Miguel Alves, foi escolhida para gerir a Saúde de Teresina. Não seja por isso. Miguel Alves tem como prefeito o Veim Da Fetraf, que vota em deputado do MDB mas tem como senador o oposicionista Ciro Nogueira. Pronto, temos uma parte da história.

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Na época, a Sesapi apanhava do Cosems

Mais do que isso, Leopoldina Cipriano, a nova presidente da Fundação Municipal de Saúde, anunciada por Sílvio Mendes após a saída de Charles da Silveira, é a presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Piauí (Cosems-PI). Nos Governos Wellington Dias, junto com o Sindicato dos Médicos do Piauí, os órgãos eram braços fortes de oposição à política de saúde petista. 

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Friends

Mas não vislumbrem uma escalada. Novos tempos. Agora, com Antônio Luiz na secretaria estadual de Saúde, por incrível que pareça, interlocutores apostam que haverá um melhor diálogo institucional entre FMS e Sesapi, pelo bem de todos (estou falando do povo, esqueceram deles?). “Eles (Cosems) seguem fazendo as críticas deles, mas o diálogo com o Antônio Luiz flui melhor e mesmo em lados opostos, não tem como a FMS prescindir da Sesapi”, destacou ao boletim um entendido dos corredores médicos.

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Se conselho fosse bom

O mais perigoso numa sala não é o mais agressivo, é aquele que não se incomoda. Não discuta, não se explique. Se você não precisa trabalhar em um emprego que você odeia, se não é forçado a passar tempo com pessoas que não combinam com você e, principalmente, se não precisa fingir ser alguém que não é, você está à frente de 90% das pessoas. Lapide mais até chegar aos 1%. 

Só os idiotas acham que o símbolo máximo de sucesso é dinheiro. Nunca foi. A realização do topo da cadeia alimentar é ter liberdade: expandir a si mesmo sem se ver limitado ao jogo dos outros. Seja sempre o comprador. O comprador é quem rejeita. O vendedor está desesperado para que uma determinada situação aconteça porque precisa dela. Não se fixe a nada. Somente aquilo que pode mudar, é capaz de continuar.

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Cifrada do Reino Redondo

Na bolsa de apostas do Reino Redondo, a Casa Marrom, que estava sendo dada como morta até ontem, parece que tem aliados mais fortes do que demonstra. A reação para não ceder espaço à Casa Rubro-Negra é silenciosa, no entanto, eficaz. A chave para entender o mistério é um processo especial está parado na Casa de Magia.

Lá, reside um sábio que não conversa com ninguém e tampouco deseja ajudar o adversário interno (que vem a ser um padrinho muito forte do pretenso candidato a presidente do Reino Redondo). Como esse é um jogo para nervos de aço, ninguém aposta (numa bet ou não) o placar. Mas uma certeza: o prêmio é muito maior que uma taça!

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Foto do dia

Quando o cientista político Francis Fukuyama defendeu em seu célebre ensaio de 1989 “o fim da História” com a tese de que, com o colapso do bloco soviético estava estabelecido o fim das grandes disputas ideológicas entre sistemas de governo, ele não poderia ter previsto uma pedra (Donald Trump) no meio do caminho.

A guerra tarifária iniciada pelo presidente dos Estados Unidos contra parceiros como China, União Europeia e, agora tendo como alvo o Brasil (taxado em 50%), representa uma guinada oposta aos ideais do livre comércio globalizado pós-Guerra Fria. Ou seja, senhor Fukuyama, as tensões da história não apenas persistem, como se reconfiguram em novas formas de antagonismo. Luta de classes e nacionalismo não são, portanto, temas superados, mas sim assuntos do eterno agora. 

Se o presidente Lula conseguirá, via diplomacia e comunicação, capitalizar eleitoralmente (estamos falando de 2026) esse sentimento pró-Brasil, indicando o bolsonarismo como o causador de males ao país originados por interesses próprios (anistia a Bolsonaro), é um jogo a ser jogado (e está sendo). A única certeza é que a História nunca para. Enquanto houver bambu, há flecha.

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A frase para pensar

“Um homem sério não perde tempo emitindo a mesma opinião da maioria”, G.H. Hardy (1877-1947), matemático.

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Feito à mão

Charge do Rico sobre as taxações de Trump ao Brasil. Veja mais charges aqui:

  1. Como afirmou Aristóteles, “é absurdo supor que o propósito não está presente, só porque não observamos o agente deliberando” ↩︎

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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