Boletim 09/07/25
Na política, o verbo antecede o gesto: a luta pelo poder começa, e frequentemente termina, na disputa pela narrativa.
De todos os amigos do governador Rafael Fonteles (PT), alguns se distinguem por serem (segundo eles próprios acham, na cabeça deles), os “mais parecidos”, “os de confiança”, “os de negócios” e mais uma série de categorias distintas e peculiares. Marcelo Nolleto (secretário estadual de Comunicação, com os dois pés na articulação política) é hors concours, o que é francês significa, literalmente, “fora da competição, fora do concurso”.

É o preferido? “Leve, divertido, mas sério quando precisa, trabalhador, leal” e outros predicados que o G12 (grupo dos 12 nomes que orbitam esse restrito círculo do poder) elenca a ele. Nolleto assumiu a Comunicação (como o boletim antecipou, a despeito dos descrentes) e depois que a turma cansou de falar do Instagram dele (que tinha muitas trends e uma pegada de humor) agora parece encarnar um novo papel: porta-voz e, bom, o batedor de Rafael Fonteles.
Vamos entender o que está acontecendo. Já pegou sua xícara de expresso sem açúcar?
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Guerra simbólica
O batedor tem função estratégica na engenharia do discurso eleitoral: ele vocaliza os ataques, tensiona o ambiente político e ocupa o campo do confronto direto, poupando o candidato principal da exposição a desgastes.
O batedor é uma espécie de linha de frente do discurso ofensivo, preparando terreno para que o candidato (no caso, Rafael) mantenha sua imagem institucional e moderada. O gestor fica tranquilo em seu lugar de “estadista” e o batedor (Nolleto) fala por ele, com mais acidez, mais liberdade e menos risco.

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Uma granada do mais absoluto nada
A postagem (que veio sem aviso e pegou muita gente de surpresa) de Marcelo Nolleto no X (antigo Twitter) e Instagram na noite de terça-feira, 08, chamando o senador Ciro Nogueira (Progressistas) de “Ciro Bolsonaro”, “05 (referência a ser o “quinto filho” do ex-presidente de direita) e afirmando que Nogueira estaria prestes a desistir de disputar a reeleição ao Senado (fato negado por Ciro), caiu como uma pequena, mas potente granada, surpreendendo até mesmo a base de Rafael Fonteles, que estava acostumada nos últimos meses a ver Ciro colar a própria imagem a de deputados e prefeitos petistas e governistas, sem nenhuma reação contundente do grupo de Fonteles.

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O negócio que saiu no Metrópoles
Um frequentador de salas geladas no Palácio de Karnak, explica que o post não chegou “do nada” e não tem a ver com uma suposta escalada de críticas de Ciro Nogueira a Rafael Fonteles. Exemplo da tal “escalada”, percebida, no entanto, por gente que respira política, foi a reportagem no site Metrópoles (que petistas creditam, em reserva ao grupo de Ciro) afirmando que “premiado nas Olimpíadas de Matemática, o governo de Rafael Fonteles contratou empresa de saúde online sem licitação e com erro de cálculo”(leia aqui).

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Ele e o ringue dele
“Fui muito menos a questão da escalada do CN, não foi isso. Foi colocar ele no ringue dele. Ele (Ciro Nogueira) sabe o poder que tem o Lula e o Rafael, que está numa popularidade bem maior que a do Lula no Piauí. A opinião (da desistência do Ciro, que foi negada pelo senador) é verdadeira, pois é melhor pra ele arriscar uma candidatura a vice-presidente e fazer de tudo pra não concorrer ao Senado”, pontuou o governista do núcleo duro ouvido, em off, pelo boletim.
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Os petistas e governistas que votam em Ciro
A despeito de todos os pedidos feitos por figuras de proa da base aliada, é um fato que prefeitos, deputados e vereadores do PT e de outros partidos do grupo governistas marcham com Ciro, num voto cruzado seja com Marcelo Castro (MDB), que tem a preferência até agora do primeiro voto governista, seja com Júlio César (PSD), que tem crescido gradativamente em apoios.
“Os prefeitos estarem com ele (Ciro) não implica do povo estar com ele, pois ele (Nogueira) sabe do poder do grupo numa campanha majoritária”, minimizou um aliado de Rafael.

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E o Ciro não era um problema do WDias e do Lula?
Não é de hoje que petistas pedem a ouvidos mocos que se “desconstrua” o senador Ciro Nogueira no Piauí. Mas é um dado da realidade que Rafael Fonteles preferiu evitar o confronto direto ao longo dos últimos dois anos. Nomes relevantes da gestão estadual enxergam que esse era um “problema do Lula e do Wellington (Dias, ministro)”, pois Ciro atua na esfera federal, sendo um importante líder do Centrão, com força de coordenação de votos no Congresso Nacional. O que mudou então de 2022 até ontem?

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Quem apanha calado, consente
“Sempre fui a favor de não entrar numa onda de desconstrução antecipada, mas ficar só apanhando, além de demonstrar que a gente está aceitando pode soar um ‘quem cala consente’. Tem que mostrar um poder de reação sem colocar o adversário – que está com a popularidade baixa – para ser o protagonista”, argumentou outro governista que entende de “poder de agenda”.
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Quem diz qual é a agenda, manda
Existe uma teoria na Comunicação chamada “Agenda-Setting”, que diz mais ou menos o seguinte: os meios de comunicação não dizem às pessoas o que pensar, mas sobre o que pensar. Quando mostram a exposição repetida de certos temas, os critérios pelos quais os cidadãos julgam seus governantes, também mudam. Resumindo: o controle da agenda (seja por políticos, mídia ou atores híbridos) molda não apenas a cobertura, mas a própria percepção da realidade social e política.
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Claramente querem colocar a pecha de “fugir”
Muito provavelmente, o Governo Fonteles trabalha com dados de pesquisas qualitativas que colocam Ciro Nogueira como um político que poderia, se quisesse (aqui está a questão: “querer”), disputar o Governo estadual, mas optou por não o fazer. Para a construção discursiva petista, a escolha vira “covardia, fuga”. É uma disputa de narrativa.
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A reação
A oposição reagiu com prints do post de Nolleto, a tarja de “fake news” e um vídeo do provável candidato a suplente de Ciro Nogueira ao Senado, Joel Rodrigues, antagonizando com Nolleto e negando a desistência. Veja abaixo:
O próprio Ciro respondeu ao GP1, na clássica pegada de diminuir o adversário: “Quem é Marcelo?”, questionou. O grupo de Nogueira é conhecido por “fazer muito com pouco”, isso é, sem domínio dos meios de comunicação tradicional, conseguem sim emplacar conteúdos e narrativas favoráveis ao time do Progressistas e aliados através de uma estratégia que envolve blogueiros e influenciadores de direita, especialmente nas redes sociais, e alguns veículos e profissionais da imprensa tradicional (mas nada ostensivo, nesse caso).
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O ringue de Ciro e Rafael
A colunista é uma analista de discursos mais ou menos enferrujada (pelo menos meu mestrado é nisso, então sei os rudimentos, mas não me considero uma expert) e tem um fraco pelo poder da palavra. O sociólogo Michel Foucault, disse em 1971 que “o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por onde, e pelo qual, se luta”.
Quem controla as palavras, controla também as fronteiras do pensável e do dizível. Quem molda o debate, molda a própria realidade que esse debate constrói. Com seus batedores, ciristas e rafaelistas estão nesse ringue.
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A palavra política não é neutra
Quando um líder fala, ele não apenas representa sua visão de mundo, ele performa alianças, produz exclusões e organiza afetos. Numa crise, uma frase pode, sozinha, incendiar ou acalmar uma nação. Hitler, o terrível ditador nazista, não matou com as próprias mãos 6 milhões de judeus. Ele fez discursos e inflamou, via oratória e retórica, alemães, italianos e japoneses que se uniram no Eixo contra os Aliados. Mas havia (ainda bem) um discurso mais forte, e esse venceu.
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Se conselho fosse bom
Em um mundo de ruídos, diminua sua disponibilidade. Só apareça quando for importante. Sendo escasso, sua presença vira prestígio pois a ausência sempre queimará mais do que a presença. As pessoas competentes são aquelas realmente boas em ignorar tudo que não tem nada a ver com suas vidas, portanto, use esse tempo para focar no que o tornará o eixo pelo qual todos os outros giram.
O verdadeiro poder é silencioso e não precisa de título. É a pessoa para quem os demais olham antes de falar, consultam antes de decidir. A marca da autoridade é a execução calma sob pressão, sem drama desnecessário, sem barulho, somente resultados. A única coisa que você precisa é ser aquele que diminui a temperatura numa sala caótica. Quando seu retorno é mais desejado do que sua presença, você venceu.
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Cifrada de Trás pra Frente de Novo
No Reino de Trás para Frente, as coisas se assentaram em relação ao Cavaleiro Acelerado, que depois de ter a orelha puxada, agora só asfalta as estradas das cidadelas medievais com ordem de serviço assinada e carimbada pelas instâncias reais! Mas é claro que quando algo é bom (depende pra quem) e funciona (também não disse pra quem), sempre haverá aqueles que permanecerão atuando pela perpetuação das benfeitorias.
Um dos comerciantes das corporações de ofícios que constroem coisas do nada, relata, confiante: “Eu faço sim (obras reais) sem ordem de serviço pra X (cavaleira estadual) e pro Y (cavaleiro estadual) pois eles sempre resolvem tudo direitinho depois”. Confiança é tudo e quem sai na frente, leva?
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Foto do dia
“O pobre do Leônidas (Júnior, suplente de vereador do PSB que entrou na vaga de Tatiana Medeiros em Teresina) não tem um minuto de paz”, lamentou uma fonte ouvida pelo boletim a respeito da seguinte informação que chegou (e foi checada) aos ouvidos da colunista (atenção): a Polícia Federal está investigando chapa do PSB por suspeita de candidaturas laranjas1 de mulheres na capital durante a eleição de 2024.

Um advogado, questionado pela colunista, respondeu se o caso era preocupante ou uma boa justificativa resolveria o problema. A resposta: “Ora não… Cassa só a chapa toda se for comprovado!”. Ihhh…
O PSB, através do presidente, Washington Bonfim (que vem a ser também secretário estadual de Planejamento) precisará explicar por que a então candidata a vereadora Iara Caroline Viana teve apenas 7 votos na eleição, considerando o gasto com material e estrutura de campanha. Alguém providencia, urgente, um incenso, banho de sal grosso e defumador de ambientes para sede do PSB, por gentileza?
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A frase para pensar
“Se você tem que explicar algo muito importante, não tente ser sutil: bata. Então, volte e bata de novo. Finalmente, bata uma terceira vez”, Winston Churchill (1874-1965), ex-primeiro-ministro britânico.
- Os candidatos laranjas são, em sua maioria, mulheres usadas para preencher a cota mínima de 30% do sexo feminino nas chapas de partidos. A Justiça Eleitoral, quando comprova a fraude, costuma cassar a chapa toda. ↩︎





