64 piauienses que se chamam “Neymar” e a queda de “Francisco” no Piauí: uma história dos nomes raros e dos comuns

“Quase ninguém acerta meu nome. Já me chamaram até de Aladin”

Com essa frase, o motorista de aplicativo Alain Kardec, 32 anos, resume uma vida de boas histórias desencadeadas pela forma como o seu pai decidiu lhe nomear quando nasceu.

Alain Kardec (Foto: Paula Sampaio)

Embora tenha nascido em uma família católica praticante, ele recebeu o nome em homenagem ao francês Allan Kardec, pai do espiritismo. Acontece que, na certidão, o pai decidiu registrar com a grafia francesa Alain, inspirada também no lendário piloto de Fórmula 1 Alain Prost, um dos maiores rivais de Airton Senna. O resultado foi um nome híbrido, estrangeiro, religioso e difícil de acertar na primeira tentativa. E, por mais raro, que esse nome pareça, segundo a Todavia checou, e há pelo menos 22 Alains no Piauí, conforme os dados do Instituto de Geografia e Estatística do Piauí (IBGE)

“Quando pego um passageiro, geralmente não acertam, falam Alian, Alien, já ouviram de tudo. Difícil mesmo é alguém me chamar de ‘Alain Kardec’”, conta, rindo.

Allan Kardec e Alain Prost (Foto: Montagem/ Boletim Brio)

Apesar da origem espírita do nome, Alain segue outra fé. “Hoje eu sou evangélico. Meu nome é uma controvérsia daquilo que eu sigo, né? Mas eu gosto demais dele” A situação, para ele, não é problema. Ele contou que já pesquisou bastante sobre o verdadeiro Allan Kardec e descobriu, por exemplo, que o francês usava um pseudônimo, e que seu nome de batismo era, na verdade, Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Inêz, Kwame e Khayuri: identidade, raça e uma homenagem merecida

“A nós, negros, foi contada uma história muito diferente do povo negro. A gente quis contar para os nossos filhos uma história diferente da que foi contada pra nós”, fala a jornalista Inêz Saraiva ao contar sobre a escolha do nome dos filhos, Kwame e Khayuri, de 22 e 16 anos.

Integrante do movimento negro, a escolha de Kawami, para a filha mais velha surgiu de uma eleição feita entre amigos de um coletivo do qual a família participava. O nome tem origem africana e quer dizer “presença de Deus”, expressando espiritualidade e suas raízes e foi escolhido também por ser único.

Kaiuri, o caçula, continuou na mesma lógica. “O nome dele significa mensageiro da boa notícia, o abençoado por Deus. A gente quis que seguisse a mesma linha de força”, contou.

“Eles amam o nome. Têm orgulho de explicar de onde vem. Eu acho lindo quando a minha filha começa a contar o porquê do nome dela”, relatou Inêz.

Inêz e sua família (Foto enviada ao Boletim)

Para a jornalista, o nome é o primeiro território de identidade e foi por isso que ela não queria que os filhos tivessem nomes sem história. “A identidade que você começa a criar de você mesmo, ela parte do nome”, avaliou. Ao contar a história de Kawami e Kaiuri, ela reforçou que, no Piauí, como em todo o Brasil, os nomes mostram quem somos, mas também de onde viemos, o que acreditamos e que futuro queremos construir.

 “A gente quis contar para os nossos filhos uma história diferente da que foi contada pra nós. Por quê? Porque pra nós foi contada a história de que o negro é escravo. A gente quis contar a história pra eles, partindo do nome deles. Embora a gente viva num país miscigenado, em que a sociologia e a antropologia provaram que nós somos uma raça misturada, a gente vive num país muito racista. E o negro, ele ainda é muito visto com esse olhar do racismo estrutural […] Mas foi também um nome que a gente queria afro, com um significado também muito forte, falando de Deus”, explicou.

O que os nomes de piauienses dizem sobre o estado?

A Todavia desta edição analisa com outro olhar os dados trazidos pelo IBGE, que revelam informações sobre os nomes das pessoas do Piauí. O Boletim trouxe histórias como a de Alain, Kawami e Kaiuri para mostrar que, além de um registro formal, o nome diz muito sobre a trajetória das famílias, seus valores, suas crenças e até as lutas que atravessam gerações. No Piauí, os nomes mais comuns são Maria (mais de 381 mil) e Francisco (130 mil), segundo a apuração constatou, são nomes de origem bíblica e amplamente presente na tradição cristã, o que reforça um traço cultural particular do estado.

Esculturas de Jesus e Maria e de São Francisco, figura bíblicas (Foto: montagem/ Boletim)

No caso de Maria, o nome se conecta diretamente à religiosidade popular, ao catolicismo profundamente enraizado no estado e à simbologia da maternidade, da devoção e da proteção espiritual. Já Francisco, amplamente associado a São Francisco de Assis, evidencia a influência religiosa, mas também uma valorização da simplicidade, da humildade e da fé, características que atravessam a identidade cultural piauiense.

Esses nomes, ainda que comuns, são marcados por histórias carregadas de afeto e tradição.

A Todavia também constatou, a partir dos dados do IBGE, que nomes que já estiveram em alta em décadas passadas hoje aparecem quase como testemunhos do tempo. Lá por volta de 1940, por exemplo, o nome Osvaldo figurava entre os mais escolhidos pelas famílias piauienses, chegando a quase 30 mil pessoas em seu pico, e refletindo um período marcado por influências europeias e por sonoridades mais formais.

Essa tendência, porém, cedeu espaço a uma nova leva de nomes curtos, globais e com forte apelo contemporâneos. Entre eles, Gael, que hoje aparece com idade mediana de apenas 1 ano, indicando um crescimento acelerado e também mostrando os valores das novas gerações: brevidade, sonoridade moderna, fácil pronúncia em vários idiomas e significados positivos (belo e protetor).

Fonte: IBGE

Em entrevista à Todavia, o Chefe da Sessão de disseminação de informação do IBGE no Piauí, Eyder Mendes, pontuou que, embora nomes como Maria e Francisco permaneçam no topo entre os piauienses, ambos apresentam queda proporcional ao longo das gerações. Ele lembrou que tendências nacionais como Enzo, João, Gabriel ou até influências pontuais, como personagens de novelas e figuras esportivas como Neymar, podem interferir nas escolhas, mas relembrou que esse tipo de correlação não é objeto do estudo oficial.

 “Maria é um dos nomes mais, dos mais comuns. José também. Francisco, no caso, no Piauí era um dos mais populares. Silva também era um dos nomes mais populares pela pesquisa. Mas a gente não entrou em detalhe de por que que é assim. Vários nomes estão caindo. Maria ainda é um dos maiores, mas está em queda de quantidade, de proporção. Francisco também, por exemplo, está em queda. Mas o que foi que levou? Foi uma novela que teve um personagem X que utilizou mais? Ou um cantor, ou um jogador tipo Neymar? Sobre isso a pesquisa não se debruçou somente ao aumento ou o que diminuiu”, descreveu.

De Elvys a Elves, Estefhany e Lennon… Os nomes mais incomuns no Piauí

Apesar desses movimentos mais amplos, o Piauí também abriga um conjunto de nomes raríssimos, que mostram a criatividade e as marcas de épocas específicas. A apuração, inclusive, constatou que existem pelo menos 64 Neymars no Piauí com até 9 anos. A Todavia fez uma triagem entre os nomes mais raros do estado, aqueles usados por menos de 15 pessoas, ainda de acordo com o Censo, e encontrou um mosaico curioso que atravessa épocas, modas e histórias familiares.

A seguir os nomes mais incomuns no Piauí listados pela Todavia:

Alto – média de idade de 60 anos

Brasília – média de idade de 57 anos

Elvys – média de 28 anos

Elves – média de 27 anos

Estefhany – média de 11 anos

Leydi – média de 30 anos

Lennon – média de 30 anos

Woshiton – média de idade de 30 anos

Luizinha – média de 52 anos

Belchior-  média de idade de 70 anos

Alto: média de idade 60 anos
Nome raríssimo hoje, escolhido em décadas passadas e tem um significado literal de altura, grandeza ou força.

Brasília: média de idade 57 anos
Claramente ligado a capital federal ou a famoso carro protagonista da música “Pelados em Santos” do grupo Mamonas Assassinas.

Elvys: média de 28 anos
Provável variação do nome Elvis, associado ao cantor Elvis Presley, que ganhou força no Brasil com influências da cultura pop.

Foto: reprodução

Elves: média de 27 anos
Grafia adaptada de “Elvis” que segue a mesma linha cultural, mostrando criatividade das famílias na hora de registrar.

Estefhany: média de 11 anos
Nome mais recente, refletindo a onda dos anos 2010 de grafias diferenciadas, comuns em famílias que buscavam nomes únicos.Também tem grafia igual a da, na época, cantora do Piauí,  Stefhany Absoluta ou Stefhany do Crossfox.

Leydi – média de 30 anos
Adaptação brasileira de “Lady”, muito popular nos anos 1990 e 2000, quando nomes de sonoridade inglesa ganharam espaço, também relacionado a popularidade da Lady Diana, princesa de Gales.

Foto: reprodução

Lennon: média de 30 anos
Diretamente inspirado em John Lennon, dos Beatles, refletindo pais influenciados pela música internacional.

Foto: reprodução

Woshiton: média de 30 anos
Variação fonética de “Washington”, típica criatividade brasileira que ajusta o som ao repertório local.

Luizinha: média de 52 anos
Diminutivo afetivo transformado em nome próprio, muito comum em gerações mais antigas, especialmente no interior.

Belchior: média de 70 anos
Nome tradicional e bíblico, associado também ao cantor Belchior; hoje raro, mas ainda muito forte em gerações mais velhas

“Somos fruto do que estamos vivendo”, avalia professor

Professor Vagner Ribeiro (Foto enviada ao Boletim)

O professor Vagner Ribeiro, do Instituto Federal do Piauí (IFPI), pesquisador de assuntos voltados para a cultura popular, avaliou que não existe uma única lógica capaz de explicar por que certos nomes surgem, desaparecem, viram moda ou se tornam raros. Para ele, os nomes próprios são um reflexo direto do momento cultural, das influências da mídia, das aspirações das famílias, da religiosidade, da tradição e até de tentativas de criar algo “chique” ou “original”. Em resumo, os nomes contam histórias, mas cada nome conta uma história diferente, e por isso não dá para criar uma regra única que explique tudo.

“Eu imagino que a gente é fruto de muita interação com o que se está vivendo, principalmente hoje, mais do que nunca, com esses retornos das mídias. Não deixa de ser influenciado, sempre foi, mas eu acho que há uma leva de nomes que acabam embarcando no momento ali de alguma celebridade ou alguma coisa que marque. E outras coisas também são essas tentativas de inovar, à exemplo de quando se junta o nome do pai com o da mãe em um só.

Vagner também destaca que, paralelamente às invenções e aos nomes midiáticos, continua forte a tradição religiosa. Ele mesmo é fruto desse costume. “Quando eu nasci, meu pai colocou o nome Antônio em função de eu ter nascido em junho, próximo de Santo Antônio. Mas colocou Antônio Wagner, que era o nome de um médico da época”. Segundo o professor, essa motivação religiosa aparece há décadas no Piauí, como confirma o próprio Censo. Porém, ele alerta que muitos pais nomeiam os filhos sem saber o significado e considera isso um risco: “O nome é um negócio muito forte e, queiramos ou não, acaba influenciando um tanto na pessoa. Saber o que significa o nome… isso já é bem interessante”, avaliou.

Assim, o que os dados revelam (e as histórias confirmam) é que a escolha de um nome nunca é aleatória. Ela responde às tensões do tempo, às influências da cultura, às expectativas das famílias e até às disputas simbólicas de cada geração. No Piauí, essa marca é evidente com os nomes que surgem, desaparecem, resistem ou renascem dizem muito menos sobre moda e muito mais sobre como as pessoas se enxergam e desejam ser vistas.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Cadastre-se na nossa lista de transmissão
Receba nossos boletins no seu WhatsApp
  • ← Voltar

    Cadastro efetuado

    Você receberá nossos boletins no seu WhatsApp.

Deixe o seu comentário