
A preparação para a 23ª edição da Parada da Diversidade de Teresina, marcada para setembro, ganhou contornos de disputa política. O Grupo Matizes, responsável pela ação desde 2002, acusa a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) de tentar interferir no formato da manifestação, propondo restrições à participação de ambulantes. Há também no imbróglio um outro evento, o “Parada Day”, que contará com a participação da cantora Marina Sena que, em abril, lançou o álbum “Coisas Naturais”, e ficou no top 10 das produções estreantes mais ouvidas no Spotify em todo o mundo.
O Parada Day deve acontecer no dia 14 de setembro. Enquanto a Parada da Diversidade está prevista para o dia 12 do mesmo mês.
A presidente do Matizes, Marinalva Santana, que classificou toda a situação como um “boicote”, afirma que a Secult apresentou ao Matizes condições para a realização da parada, como a cobrança de taxas aos ambulantes e compra obrigatória de determinadas marcas, o que segundo os ativistas, prejudicaria mais de 100 famílias que tradicionalmente vendem alimentos e bebidas no evento.
“A gente se recusou a aceitar uma coisa, que para mim, é até desumano isso aí, para mim é desumano você tirar o ganha pão de uma pessoa que precisa. Colocar empresas privadas no lugar dos ambulantes, dos trabalhadores de informais, que vendem coisas, um cachorro-quente, uma caipirinha, isso nós não aceitamos. Isso que eles querem fazer é como uma ‘micareta’. E aí, obviamente, nós não aceitamos uma coisa desumana, porque para nós, além de ser desumano, é uma coisa que seria como segregação”, disse.

Repasse para Parada da Diversidade teria sido reduzido para R$ 50 mil, diz Matizes
Para o Matizes, a exclusão desses trabalhadores é uma questão social, mas também política. “Nós somos LGBTs, mas LGBTs que têm consciência de classe”, resumiu Marinalva, explicando que a Parada da Diversidade perderia seu caráter de luta ao, na visão dela, ser transformada em uma festa elitizada, com camarotes e áreas VIP com a entrada de empresas privadas e outros organizadores.
O desgaste entre Matizes e Secult se aprofundou após a redução dos recursos para o evento. O impasse começou ainda no início deste ano. Segundo a presidente, o projeto da parada foi inscrito pelo Sistema de Incentivo Estadual à Cultura (Siec) com o orçamento estimado de R$ 405 mil para a realização do evento. O pedido ao governo, foi de R$ 279 mil. O valor aprovado: R$ 50 mil.
No ano anterior (onde a apresentação principal foi de Urias, reunindo 70 mil pessoas na Ponte Estaiada) a Secult havia garantido R$ 200 mil via Lei Paulo Gustavo.

Marinalva conta que em junho, o grupo foi a uma reunião com o secretário de Cultura, Rodrigo Amorim. Encontraram na sala também outros produtores culturais e organizações chamadas pela própria pasta, o que causou incomodo.
A relação foi esfriando, até que, segundo a presidente, o Matizes foi surpreendido com a notícia de que a Secult anunciara o “Parada Day”: um evento a ser realizado com a cantora Marina Sena como atração principal.
“É uma tentativa da Secult, ela tentou interferir no formato da parada, como não conseguiu, fez algo mais grave: usou o povo à revelia da sociedade civil”, criticou.
Matizes afirma que não recuará e realizará evento
A Parada da Diversidade deste ano será do Centro de Teresina, na praça Pedro II, como acontecia até 2010, antes de migrar para a Raul Lopes. O motivo é político: voltar às ruas históricas da cidade, aproximar-se do movimento de revitalização do centro e resgatar o caráter de manifestação, em vez de apenas festa.
“Depois que começamos a trazer artistas nacionais, de certa forma isso criou um problema para nós, porque a cada ano a cobrança do público aumenta. Muita gente passou a ir para a Parada não porque entende a sua finalidade, mas apenas esperando uma festa, quase como uma micareta. Com isso, o tom político acabou se perdendo um pouco. A nossa expectativa é que, com a parada voltando para a Praça Pedro II, esse caráter político se fortaleça novamente. O perfil das pessoas que frequentam o centro é diferente, acreditamos que irá atrair mais artistas locais, mais formadores de opinião e um público que compreende melhor o sentido da Parada, diferente do que acontecia na Raul Lopes”, avaliou.
Logo abaixo, um registro da primeira edição compartilhada pelo organização nas redes sociais:
O grupo também buscou a Prefeitura de Teresina. No dia 24 de julho, Marinalva e outros integrantes do Matizes se reuniram com o prefeito Silvio Mendes (União Brasil). Segundo ela, o encontro foi positivo.
“Ele achou uma boa ideia [levar a parada para a praça Pedro II], deu aval, deu ok para nós, disse que a prefeitura ia colaborar na medida do possível”, afirmou.
Ambulantes relatam vida cada vez mais difícil no Piauí!

Para Renildo César, presidente da Associação de Barraqueiros do Piauí, o impasse em torno da Parada da Diversidade, organizada pelo Grupo Matizes, revela uma ferida antiga: a cobrança de taxas para a venda de bebidas e comidas em festas populares.
“Antes a gente pagava 20, 30, 40 reais para se cadastrar na Secult. Todo mundo tinha chance de trabalhar. Hoje, estão cobrando dois mil, três mil, até quatro mil reais. O barraqueiro não tem como pagar isso”, afirmou.
Segundo apurou a Todavia, em 2019, a inscrição para um barraqueiro vender produtos dentro de um evento que tem recursos do governo, custava R$ 22, recolhidos pela Secult. Depois da pandemia, a lógica mudou: empresas privadas passaram a ter uma presença maior nessas festas, cobrando até R$ 2 mil por uma barraca. Segundo Renildo, os vendedores também têm, obrigatoriamente, que comprar e revender as bebidas e alimentos de fornecedores credenciados.
“A gente é obrigado a comprar bebida direto com eles [empresas privadas] e revender no evento. Um fardo de cerveja que no mercado custa 30, 40, lá sai por 70, 80. Aí fica difícil demais trabalhar. Quando a gente cobra 10 numa cerveja ou seis, sete num refrigerante, o ladrão é o barraqueiro. Mas ninguém sabe que já compramos tudo com preço exorbitante. Hoje está muito difícil ser barraqueiro no Piauí. Tem barraqueiro passando necessidade”, disse.
Como alternativa, muitos vão para os eventos mesmo assim, mas, fazem as vendas do lado de fora. O público também responde: quem tem dinheiro, geralmente, faz a compra da bebida dentro dos eventos, e quem prefere economizar, vai aos ambulantes do lado de fora. Essa é uma realidade piauiense em eventos públicos e privados.
Renildo considera incoerente que festas bancadas com verbas públicas (e ele disse que isso acontece nas esferas municipais e estaduais) não abram espaço para os pequenos comerciantes. “A gente gera renda, gera emprego, leva três, quatro pessoas para trabalhar com a gente”. Como contraponto, ele cita o exemplo de um espaço no Centro da capital, conhecido como o bar do Seu Javas. “Lá ninguém paga nada para montar barraca. Ele vende o produto deles e nós vendemos o nosso e conseguimos tirar o sustento. Além de dar emprego e renda, ele garante oportunidade para todos. É assim que devia ser, no estado e no município”, conclui.
O que a Secult diz?
Procurada pela Todavia, a Secult respondeu, por meio da assessoria de Comunicação, às questões apontadas pelo Grupo Matizes em relação à organização da Parada da Diversidade.
Sobre os ambulantes: A Secult afirma que não impôs a retirada dos ambulantes. Segundo a secretaria, a reunião mencionada foi para ouvir diferentes grupos da sociedade civil e coletivos ligados à causa LGBTQIAPN+, solicitando propostas de realização da Parada, e que todos fossem incluídos na organização.
Sobre a diminuição de verba: A Secult explica que o apoio financeiro varia de acordo com editais, emendas parlamentares e orçamento próprio. O valor de R$ 50 mil via Sistema de Incentivo à Cultura aprovado para 2025 não seria um “corte” arbitrário, mas uma destinação dentro do orçamento disponível e com base em recursos já em execução: “Ano passado ocorreu apoio de 200 mil via Lei Paulo Gustavo e que ainda está em fase de execução. O Matizes deverá ainda prestar conta até setembro de 2025. Ainda foi aprovado recurso de R$ 50 mil via Sistema de Incentivo a Cultura para este ano“, esclareceu.
Sobre o “Parada Day” e o caráter político do evento: A secretaria deixa claro que não é responsável pela realização da Parada da Diversidade, e que seu papel é apoiar e promover momentos culturais, incluindo manifestações políticas. “Vamos continuar apoiando causas importantes. Os eventos estão sendo idealizados por produtores do cenário cultural como SUNSET, BASE, LIGTHS, Matizes e outros e vamos apoiar todos dentro do que for possível”, pontuou.
A apuração também obteve com exclusividade um registro feito durante a reunião em que o impasse teria começado, onde a Secult aponta ter convidado diversos grupos e lideranças LGBTQIAPN+ para discutir propostas, de modo que todos fossem incluídos na realização do evento.

Reunião tensa e com pontos de vista diferentes
Com esses dois pontos de vista em mãos, a Todavia buscou um terceiro olhar sobre o fato e conversou com fontes que fazem parte do meio. A palavra usada para descrever a reunião foi “tensa”. “Eu vejo algo 50 a 50 de que ambos estão certo e errados”, explicou uma fonte à coluna.
Segundo a mesma fonte, um dos pontos de discussão foi a necessidade de repensar a estrutura do evento, permitindo que ele se autofinanciasse por meio de parcerias com empresas, de forma semelhante a outros grandes eventos LGBT que recebem patrocínios de marcas como Itaú, Hinike ou Amstel. Um exemplo dado foi o da Cidade Junina. Houve também boa receptividade sobre a ideia de uma cota específica para pessoas trans, buscando garantir maior inclusão e diversidade dentro do evento. Ainda foi informado à apuração que a taxa proposta para os ambulantes seria inferior a de R$ 2 mil citada, chegando a pelo menos R$ 500.
No entendimento das pessoas ouvidas pela coluna, entre os demais, não houve 100% de concordância com a forma como o diálogo foi conduzido, através da Secult, mas, também havia a percepção de que o Matizes precisa reconhecer que algumas práticas ficaram no passado e que os tempos mudaram, de modo que certos ajustes seriam necessários para a Parada crescer e se fortalecer em Teresina.
Mas, afinal, o que é e qual a importância de uma Parada da Diversidade?
As paradas da diversidade nasceram como um ato político. A primeira grande manifestação aconteceu em Nova York, em 1969, depois da revolta de Stonewall, quando pessoas LGBTQIAPN+ reagiram contra uma série de batidas policiais em bares gays. As primeiras paradas eram marchas de protesto, feitas com cartazes improvisados e enfrentando olhares hostis e dava início a um movimento que luta para se manter vivo até os dias atuais: “existimos e não vamos mais nos esconder”.

No Brasil, a história ganhou força nos anos 90, quando São Paulo realizou sua primeira Parada do Orgulho LGBT em 1997. De lá para cá, o evento cresceu a ponto de se tornar uma das maiores manifestações do mundo, reunindo milhões de pessoas na Avenida Paulista. Mas não ficou restrito à capital paulista: praticamente todas as capitais brasileiras e diversas cidades do interior passaram a organizar suas próprias paradas.
Para a comunidade LGBTQIAPN+, a importância dessas paradas está justamente nisso: mostrar que o orgulho é uma estratégia de sobrevivência e de futuro.

E onde Teresina entra nessa história?
A Parada da Diversidade é realizada há 23 anos na capital piauiense, sem vacilar, mesmo em épocas onde o conservadorismo era ainda maior.
No Piauí, dados recentes indicam um aumento nos casos de violência contra a população LGBTQIAPN+, com destaque para violência verbal, moral e psicológica, especialmente entre pessoas trans e travestis.
Segundo o 2º Boletim de Dados sobre Violência contra a Pessoa LGBTQIAPN+, lançado pela Secretaria de Segurança Pública do Piauí, em 2023 foram denunciados no estado 68 crimes de discriminação especificamente ligados à identidade de gênero ou orientação sexual das vítimas. Houve ainda o registro de 10 mortes de pessoas LGBTQIAPN+ no estado.
Assim, em um estado onde ainda se registram assassinatos e discriminação, movimentos que exaltam e celebram as vivências LGBTQIAPN+ não podem ser descontinuados. É momento de colocar as diferenças de lado, de unir mentes e fortalecer vozes para garantir que essa visibilidade se transforme em proteção, respeito e políticas públicas efetivas. Cada parada é mais do que uma festa. É um momento para não temer, justamente, porque estão todos juntos com resistência, afirmação de identidade e lembrança de que a luta por direitos continua necessária, hoje e sempre.





