“É prepotência. A própria teologia católica diz: uma vez padre, padre para sempre. A ordenação imprime um caráter indelével”, afirmou. “Eles estão dizendo que o nosso batismo não é válido, que o sacramento que nós realizamos não é válido. Como que não é válido? Eu sou padre, e ordenado, inclusive pela Igreja Romana”, a declaração à Todavia é do padre José Dutra.
Após mais de três décadas exercendo o ministério sacerdotal na Igreja Católica Apostólica Romana, ele teve suas atividades suspensas pela Diocese de Bom Jesus, no Sul do estado. Hoje, celebra missas, orienta fiéis, mas, sob outro teto: o da Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB), uma dissidência fundada em 1945 por Dom Carlos Duarte Costa, ex-bispo romano. A ICAB, que será tema desta edição da coluna, cresce de forma tímida no Piauí, especialmente nas periferias, onde já contabiliza mais de 1 mil pessoas batizadas.

José Dutra afirmou à apuração que a fé segue a mesma e que seu objetivo permanece o de ajudar as pessoas. Sua mudança, no entanto, é o desfecho de um atrito com a cúpula da igreja no estado. Ele não poupa críticas ao atual bispo da Diocese de Bom Jesus, Dom Marcos Antônio Tavoni, a quem chamou, em conversa com a Todavia, de vaidoso, elitista e incapaz de diálogo.
“Nunca fez uma visita pastoral, é um bispo burguês, é um bispo de elite e tem dificuldade de se relacionar com os padres que o contrariam. Ele nunca me aceitou porque eu o questionei em reunião, pedi uma prestação de contas e um plano de saúde para os padres”, disse.
Também o responsabiliza, direta ou indiretamente, pela saída de outros padres da instituição. Embora a Igreja Romana não tenha se manifestado oficialmente sobre as acusações, membros consultados pela reportagem discordaram da avaliação e classificaram Tavoni como um “bispo do povo”.
Nos últimos anos, Dutra atuou em duas dioceses: Bom Jesus e Balsas, no Maranhão. No estado vizinho, após um desentendimento, que teria levado à demissão de um funcionário, ele relata que pediu licença para cuidar da saúde, mas foi dispensado por telefone pelo bispo de Balsas. “Nem voltei para pegar minhas coisas”, disse.
A fala do padre é marcada por um misto de sentimentos. Entre eles, a decepção com pessoas de sua antiga comunidade: “Até hoje, para você ter uma ideia, não recebi sequer uma ligação de um padre da diocese de Bom Jesus, para saber como é que eu estou. Colegas que vão para o púlpito, sobem no altar para falar de fraternidade, solidariedade, uma hipocrisia, né? Uma incoerência muito grande”, disse. “Estou fazendo a experiência na ICAB. Já conhecia há 17 anos, quando morei no Rio. É uma igreja menor, simples, mas que acolhe”, pontuou.
Processo em sigilo e atuação em Teresina: a saída do padre Antônio Marcos
Demitido, ou seja, impedido de continuar a realizar atividades pela Igreja Católica Apostólica Romana após um processo canônico autorizado pelo Vaticano e conduzido sob sigilo, o padre Antônio Marcos Morais voltou a celebrar missas em Teresina, agora pela ICAB. Em entrevista à Todavia, ele afirmou que sua nova casa espiritual lhe oferece “acolhimento e liberdade para trabalhar”.
“Não se tem tanta burocracia na Igreja Católica Apostólica Brasileira, eu vou usar essa expressão burocracia, não sei se é mais adequada, tanta dificuldade para que as pessoas tenham acesso ao sacramento. A pessoa, se ela procura o sacramento, significa que ela tem necessidade, ela precisa, e a ICAB não coloca essa dificuldade, ela facilita o sacramento para as pessoas”, ressaltou.

A mudança de denominação veio após um processo eclesiástico em que os detalhes seguem sob confidencialidade. Segundo nota da própria Arquidiocese, ele foi formalmente dispensado após um processo administrativo canônico autorizado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, no Vaticano. A instituição informou que, em respeito ao sigilo e as pessoas envolvidas, não divulgará os motivos. Contudo, a coluna obteve informações com membros da Arquidiocese, que falaram em reserva, de que a dispensa teria ligação com supostamente “uma denúncia envolvendo comportamento inadequado”.
Sem entrar nos detalhes do caso, Antônio Marcos comentou a situação:
“Cada um tem direito de falar o que bem quer e a gente tem consciência do que a gente faz, da personalidade, da maturidade, do trabalho que eu realizei”, pontuou. Agora vinculado à ICAB, afirma estar em período de experiência e que deve ser formalmente encardinado em breve. Apesar da semelhança nos nomes e ritos entre as duas instituições, faz questão de marcar a diferença:
“Não queremos nos passar pela igreja de Roma. Pelo contrário. Queremos seguir atuando próximos do povo”, concluiu.

Cabe ressaltar que para o afastamento de padres há três ciclos: primeiro são suspensos, deixam de ter autorização para o exercício do ministério temporariamente, depois podem ser demitidos do estado clerical e proibidos permanentemente de exercer o ministério. E, por fim, a expulsão recebe o nome de excomunhão, e só acontece em casos extremos e muito raros.
Arquidiocese teme “confusão” entre fieis e reage com nota
A atuação dos padres, tanto em Teresina quanto em outras cidades do estado, gerou nova manifestação da Arquidiocese e do próprio arcebispo Dom Juarez. Em nota oficial publicada nas redes sociais, a Arquidiocese citou nominalmente José Dutra e Antônio Marcos, esclarecendo que ambos não pertencem mais à Igreja Católica Apostólica Romana. O texto destaca que os dois foram dispensados após processos regulares e que atualmente estão ligados a grupos religiosos que “não mantêm comunhão com a Igreja Católica Romana, embora utilizem símbolos, vestes e ritos semelhantes”.
A nota também alerta a população para a existência de denominações que utilizam os termos “católico” ou “apostólico” sem comunhão com o Papa e os bispos da Igreja. Segundo a Arquidiocese, os sacramentos realizados por esses grupos não têm validade canônica. O comunicado pede que os fiéis estejam atentos à orientação dos “líderes legítimos” da Igreja.

Fontes ligadas à Igreja Romana no Piauí explicaram à Todavia que o posicionamento busca evitar confusões entre os católicos, especialmente em comunidades mais vulneráveis. Há preocupação com o fato de a ICAB realizar sacramentos que depois não são reconhecidos, como o batizados, além de incômodo com a cobrança por celebrações em contextos considerados impróprios:
“A Igreja Católica Apostólica Romana, por exemplo, não faz casamento na praia, não se comprovadamente tiver uma igreja ou capela, próxima, mas a Apostólica Brasileira faz, se pagar”, afirmou uma das fontes em reserva.

Padre alega perseguição e desavença já foi parar até na Justiça

Um dos mais antigos membros da Igreja Católica Apostólica Brasileira no Piauí, o padre Jocimar da Silva, denunciou o que considera uma perseguição institucional por parte da Arquidiocese de Teresina. Em entrevista à Todavia, ele criticou o tom da nota divulgada recentemente pela Arquidiocese, e afirmou que o texto desqualifica a atuação dos padres José Dutra e Antônio Marcos. Segundo Jocimar, a exposição pública dos nomes dos sacerdotes compromete sua integridade e a imagem de suas famílias.
“A gente entende mais como uma perseguição, porque se você é médico e trabalha no hospital, ao se desligar daquele hospital e ir para outro, aquele hospital não vai colocar no mundo, que você não trabalha mais aqui. Simplesmente é uma questão interna […] Isso acaba instigando uma situação que desqualifica e expõe o nome do sacerdote perante a sociedade, como se ele estivesse fazendo algo errado. Essa atitude prejudica também suas famílias, que são pessoas idôneas, comprometendo sua imagem simplesmente pelo fato de terem se desligado daquela igreja”, declarou.
Ele ressalta que os fiéis da Igreja Brasileira são sempre informados sobre a identidade da instituição, e que todas as celebrações são realizadas com transparência. O embate entre as duas igrejas, no entanto, já ultrapassou os púlpitos e chegou ao Tribunal de Justiça. No Piauí, duas pessoas foram condenadas a pagar indenização por danos morais ao padre Jocimar, após acusá-lo publicamente de ser um “falso padre”, “pilantra” e de “enganar as pessoas”.
Mas afinal, qual é a diferença entre as duas igrejas?

A Igreja Católica Apostólica Brasileira, fundada em 1945, é uma dissidência da Igreja Católica Romana. Uma de suas principais diferenças é que permite que seus padres se casem e tenham filhos. Além disso, adota uma liturgia própria e tem uma abordagem mais inclusiva em relação aos sacramentos, incluindo o matrimônio para pessoas divorciadas e o celibato flexível para padres.
Atualmente, a ICAB afirma estar presente em todos os estados do país, com 39 bispos e mais de 100 padres. No Piauí, conta com cinco sacerdotes em atividade, com presença em cidades como Teresina, Parnaíba, Altos, Coivaras, União e Picos. Já são mais de mil batismos registrados apenas no estado. A frequência às missas ainda é modesta, mas o trabalho pastoral segue avançando, especialmente nas comunidades periféricas.
A história da Igreja Católica Apostólica Brasileira no Piauí começou com missões isoladas, mas ganhou força a partir dos anos 2010, época em que o padre Jocimar, que atuava como leigo na Igreja Romana, decidiu abraçar o sacerdócio na nova tradição. Segundo ele, sua escolha foi motivada pela vontade de servir ao povo sem abrir mão de constituir uma família. Desde então, outros padres se juntaram à missão no estado, organizando paróquias, promovendo celebrações e tentando consolidar espaços de culto, como na ocupação Dandara dos Cocáis, em Teresina.
Impasse com padres expõe feridas dentro da própria igreja

O episódio revela muito mais do que uma disputa institucional entre denominações religiosas. Expõe feridas abertas dentro da própria fé cristã, que deveria, acima de tudo, acolher aqueles que desejam servir ao povo e a Deus. No entanto, como qualquer instituição organizada, a igreja também opera com regras, limites e estruturas de hierarquia.
A igreja, especialmente em contextos de vulnerabilidade, cumpre um papel social: é espaço de refúgio, pertencimento e orientação. Por isso, a forma como é administrada importa, tanto para garantir a preservação de sua função simbólica quanto para assegurar que continue sendo um lugar seguro para todos que nela buscam apoio.
O crescimento da Igreja Católica Apostólica Brasileira em territórios populares e periféricos do Piauí revela, sobretudo, a vulnerabilidade de uma população marcada pela pobreza, que muitas vezes ancora sua esperança na fé, independentemente, da forma como ela chega até si. Em lugares onde o Estado frequentemente falha, é a religião que oferece presença, ajuda e solidariedade ou, às vezes, uma simples palavra amiga.
Nesses contextos, a igreja que chega primeiro e chega com alguma forma de apoio, ainda que simbólico tende a ser aceita. A escolha por uma denominação ou outra nem sempre é teológica: muitas vezes, é concreta, prática e atravessada por urgências cotidianas. É também uma busca por acolhimento, por vínculo e por um sentido de pertencimento diante de realidades marcadas pela ausência.
A fé, nesse sentido, é menos uma escolha isolada e mais um reflexo das condições sociais em que ela se realiza.






1 comentário
Antônio Reginaldo Barrocas Marques
OH CHRISTÓS QUE BILHE A TUA LUZ!NESTA TERRA 🌎 COM AMOR JUSTIÇA E PAZ MUNDIAL ⚖️ FAMILIAR COMUNITARIA IN NOMINE PATRIS ET FILLI ET SPIRITUS SANCT. AMÉM