Uso de cetamina e estimulação no crânio: os custos e o que há de mais avançado para o tratamento da depressão no Piauí
31/07/2025
Os números jogam luz para um sofrimento silencioso. O Piauí figura ao longo do tempo entre os estados brasileiros com níveis elevados de casos de suicídio. Se existe demanda de saúde mental, existe mercado. E com ele, há também o estigma, a desinformação, as barreiras econômicas de acesso, entre múltiplos fatores que tornam a adesão aos tratamentos psíquicos complexa. Essa edição traz um panorama de dois mundos: a psiquiatria intervencionista e os métodos tradicionais, dois caminhos que trazem esperança e, na maioria dos casos, a remissão dos sintomas aos pacientes do Piauí.
É importante frisar que a psiquiatria intervencionista é uma subespecialidade da Psiquiatria que se concentra em tratamentos avançados e direcionados para transtornos mentais resistentes aos métodos tradicionais, como medicamentos e psicoterapia. Embora o uso dessas técnicas pareçam modernas e inovadoras são procedimentos estudados há décadas. O que mudou foi que, nos últimos anos, a quantidade e a qualidade das evidências científicas aumentaram consideravelmente.
Lara Barbosa atua como psiquiatra intervencionista com formação pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e em entrevista ao Boletim Brio, esclarece os tipos de tratamentos da área já disponíveis no estado.
COMO O TRATAMENTO É FEITO NO PI?
“A cetamina [substância psicodélica] pode ser administrada por infusão intravenosa ou via spray nasal. São tratamentos rápidos, especialmente para casos de depressão grave. No Brasil, e também no estado do Piauí, esse tipo de tratamento tem sido ofertado principalmente por profissionais e centros credenciados, que atuam em Teresina. Entre os tratamentos intervencionistas mais utilizados, temos a estimulação magnética transcraniana, a eletroconvulsoterapia (ECT) e a infusão de cetamina”, explicou a psiquiatra piauiense Lara Barbosa, especialista nesse tipo de tratamento.
A psiquiatra Lara Barbosa – Foto: Arquivo pessoal
A cetamina foi reconhecida pela comunidade científica internacional como uma das maiores revoluções em saúde mental das últimas décadas. É regulamentada pela FDA (Federal Drug Administration), órgão governamental dos Estados Unidos que faz o controle, para uso no tratamento de depressões resistentes. Mas ainda não é regulamentada no Brasil para essa finalidade. A substância atua na transmissão do glutamato, um neurotransmissor relevante para a manutenção do humor e para a cognição.
E QUANTO CUSTA?
A Ápice apurou que em média, cada aplicação do spay com cetamina, custa de R$4 mil a R$6 mil. A aplicação venosa tende a ter um custo muito mais baixo. Uma ampola custa R$50 reais e consegue suprir a demanda de alguns pacientes. Em tratamentos iniciais, a indicação costuma variar de seis a oito sessões e cada uma custa entre R$800 e R$1 mil. Boa parte dos pacientes não costuma ter indicação para doses adicionais. O Piauí acompanha a mesma média de preços do tratamento disponibilizado em outros estados.
Métodos da psiquiatria intervencionista – Foto: Reprodução
“A cetamina representa uma nova esperança para pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais. Cerca de 30% das pessoas com depressão não respondem aos antidepressivos tradicionais. Para essas pessoas, a cetamina é uma alternativa. Não que ela seja ‘melhor’ ou mais eficaz, mas ela atua por mecanismos diferentes, com respostas mais rápidas. A psiquiatria intervencionista não substitui a psiquiatria clínica tradicional. Ela complementa. Muitas vezes, usamos as duas abordagens juntas, porque elas se somam”, detalhou a psiquiatra Lara Barbosa.
TEM NA REDE PÚBLICA?
Em 2021, o estado do Piauí registrou que 11,83% de todas as mortes contabilizadas foram causadas por suicídio, ocupando o segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas do Rio Grande do Sul, que teve um percentual de 12,37%. As informações constam em um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, que analisou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Mesmo assim, os tratamentos mais avançados para a saúde mental não são ofertados nos hospitais públicos.
“Infelizmente, ainda não temos esses serviços na rede pública. Como é uma medicação que pode alterar a consciência do paciente, ela precisa ser administrada em ambiente controlado. É necessário monitoramento constante, equipe de enfermagem e, idealmente, a presença de um anestesista para garantir segurança. No Piauí, a rede pública ainda não dispõe dessa estrutura. Em outros estados, como São Paulo, por exemplo, o Instituto de Psiquiatria da USP (do qual eu faço parte) já realiza esses procedimentos pelo SUS”, afirmou Lara Barbosa.
A ASSISTÊNCIA VIA SUS
Atualmente, no Piauí, a maior parte da assistência em saúde mental pelo SUS é fornecida pelo estado e pelos municípios, que são os responsáveis pela atenção mais básica composta pela Estratégia Saúde da Família, pelos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), ambulatórios especializados e pelo Hospital Areolino de Abreu. Cientificamente, o tratamento padrão ouro para depressão é intervenção com medicamentos e sessões de psicoterapia, ambos oferecidos pelo SUS.
De acordo com o Ministério da Saúde, a taxa de suicídios no Piauí teve um crescimento de 66,7% ao longo dos últimos 11 anos. Durante o período da pandemia de Covid-19, entre 2019 e 2021, o aumento foi de 11,9%. Ainda segundo o estudo, o percentual de mortes autoprovocadas no estado manteve-se consistentemente acima da média nacional, que variou entre 6,65% e 7,45% no mesmo intervalo. O Boletim Brio conversou com a psiquiatra Débora Leal, que atua no Hospital Universitário, em Teresina, e vivencia a realidade da rede pública há 11 anos.
“A maior parte dos nossos atendimentos é voltada para pacientes com transtornos de humor, depressão, transtorno bipolar, além de transtornos de ansiedade, como transtorno de ansiedade generalizada, transtorno do pânico, e ansiedade. Temos também pacientes com quadros mais graves, como psicose e esquizofrenia, mas, como o hospital tem um perfil ambulatorial, não atendemos muitos casos em crise aguda. Nosso foco são pacientes com quadros mais estáveis ou em crises mais leves, que não demandem internação, já que o HU não possui vagas para internação psiquiátrica“, frisou Débora Leal.
A psiquiatra Débora Leal – Foto: Arquivo pessoal
POR ONDE COMEÇAR?
O tratamento se inicia na unidade básica de saúde, com o médico da família tentando as primeiras estratégias. Quando não há boa resposta, eles encaminham para o atendimento especializado no HU. A principal dificuldade dos pacientes é a escassez de medicamentos gratuitos contra a depressão.
“Infelizmente, as opções de antidepressivos disponíveis pelo SUS são muito limitadas. Atualmente, só duas opções de antidepressivos são fornecidas gratuitamente. São boas, resolvem muitos casos, mas não todos. Em casos mais complexos, precisamos recorrer a outros medicamentos que o SUS não oferece. Então, o maior gargalo hoje na saúde pública é esse: a escassez de opções de medicamentos gratuitos. A farmácia de alto custo, gerida pelo estado, contempla bem os transtornos como esquizofrenia e transtorno bipolar, mas ainda não cobre bem depressão e ansiedade”, contou a psiquiatra Débora Leal.
SAÚDE MENTAL NÃO É LUXO
Se a pandemia trouxe perdas irreparáveis e dores latentes, ela também contribuiu para a expansão do debate sobre saúde mental no Brasil. Mais pessoas adoeceram psiquicamente ou presenciaram adoecimentos. Em larga escala, passos relevantes foram dados. Saúde mental virou pauta nas redes e no mundo físico. São passos contra o preconceito.
Foto ilustrativa
“Ao mesmo tempo, cresceu muito o debate sobre saúde mental. As pessoas passaram a reconhecer mais os sintomas, a entender melhor o que estavam sentindo e a procurar ajuda com menos vergonha. Isso ajudou a diminuir o estigma. Saúde mental não é luxo, não é só para quem tem dinheiro. Hoje há atendimentos gratuitos no SUS, em faculdades, clínicas-escola, além de atendimentos com valores sociais. O importante é não ter medo de procurar ajuda. Existem recursos disponíveis para todos os públicos. E sem saúde mental, não há saúde”, defendeu a psiquiatra Débora Leal.
Os médicos que atendem no Piauí destacam que há poucos profissionais qualificados, especialmente fora de Teresina. São longas as filas no SUS, alto custo no setor privado e uma rede de saúde ainda muito fragmentada, com pouca articulação entre atenção primária, CAPS, ambulatórios e hospitais. Quanto ao Poder Público, é necessário mais investimentos e atenção à saúde mental dentro dos orçamentos e repasses às unidades de saúde. Há avanços. Os CAPS revolucionaram a atenção à saúde mental no Brasil. No Piauí, eles estão implementados em todos os municípios elegíveis.
Independente das barreiras, das dificuldades no enfrentamento, é fundamental que a rede de apoio dos pacientes atue com diligência na defesa do tratamento e das inúmeras possibilidades de remissão dos sintomas. O tratamento da depressão continua sendo a intervenção com maior evidência de impacto na redução do sofrimento psíquico e investir nele, em qualquer nível, é afirmar que a vida vale o esforço coletivo e individual de ser cuidada.
Shelda Magalhães
É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.