60 socos e o golpe que todas as mulheres sentem quando há mais uma vítima de violência e tentativa de feminicídio 

EDITORIAL 

“Eu sabia que ele ia me bater. Então, não saí do elevador. Ele começou a me bater e disse que ia me matar”. A frase foi escrita em um bilhete pela mulher de 35 anos agredida brutalmente com mais de 60 socos pelo ex-namorado, Igor Eduardo Pereira Cabral, ex-jogador de basquete de 29 anos, em Natal. Incapaz de falar no momento, devido à gravidade dos ferimentos, ela encontrou na escrita a única forma de relatar o crime à polícia. A decisão de permanecer no elevador foi consciente: ali, sob o olhar da câmera de segurança, ela sabia que a violência seria registrada e, talvez, isso a salvasse.

As imagens são brutais. O número de vezes em que cada golpe se repetiu, 60, salta os olhos e deixa um gosto e um peso ruim no coração de quem olha. A verdade é que uma mulher é espancada em público, todas sentimos o golpe.

O agressor foi preso em flagrante. A vítima sofreu múltiplas fraturas no rosto e no maxilar e precisará passar por cirurgia. Segundo a polícia, a motivação foi ciúme por mensagens no celular na mulher, uma justificativa comum e socialmente tolerada para práticas que deveriam ser intoleráveis.

A cena expõe de forma crua o que muitas vezes se nega ou se esconde na realidade de mulheres brasileiras. Um grito, um xingamento que se transforma em um empurrão ou um tapa que, um dia, pode vir chegar em uma tentativa de feminicidio. Agressões que, muitas vezes, não chegam sequer a ser denunciadas. 

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma mulher é vítima de feminicídio a cada sete horas no Brasil. O ciclo da violência de gênero muitas vezes começa com xingamentos, desconfianças, até escalar para agressões físicas e, em casos extremos, para a morte. Como explica a filósofa Marcia Tiburi, “Muitas vezes o discurso é velado e o machismo aparece de forma sutil”. O machismo ensina os homens que podem e devem dominar, controlar, punir. 

A antropóloga Débora Diniz, pesquisadora da violência contra mulheres, aponta que a naturalização de comportamentos agressivos é sustentada por uma cultura que associa masculinidade à força e à posse. O feminicídio raramente é um ato impulsivo. É, em geral, o ponto final de uma história marcada por controle, medo e silenciamento. 

Apesar de campanhas e de legislações como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, o Brasil ainda falha em proteger mulheres antes que seja tarde. A vítima do elevador, ao se recusar a sair dali, sabia: só sobreviveria se a violência fosse gravada. E isso é revelador. Revela que, para muitas mulheres, a justiça só acredita quando a dor é visível. E registrada.

Casos como este precisam ultrapassar a comoção momentânea. Precisam gerar responsabilização, investimento em políticas públicas e, acima de tudo, mudanças culturais que ensinam meninas a obedecer e meninos a dominar.

A cena do elevador choca, sobretudo, porque ainda acontece todos os dias fora do alcance das câmeras. Choca porque os 60 socos não foram o começo. Foram o desfecho de uma história que, quase sempre, continua terminando em tragédia. 

PAREI PARA VER 

Se a sensação de liberdade pudesse ser descrita em imagens, provavelmente se pareceria com esta. 

A paisagem por si só já chama atenção, mas é o olhar técnico e sensível de quem filma que dá outro peso à cena. O registro é do @daysonfilmmaker, no povoado Pedra Miúda, distante 10 km do centro de Batalha, no norte do Piauí. 

Um verdadeiro cartão postal da beleza sertão piauiense. 

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