Nada justifica

A tragédia em Itumbiara, Goiás, onde o secretário de Governo, Thales Machado, assassinou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida, chocou o país. O pano de fundo para esse ato bárbaro, segundo uma carta deixada pelo agressor, seria uma suposta traição conjugal. Durante a quinta-feira (12/02), a repercussão do caso nas redes sociais revelou um padrão perturbador e profundamente enraizado em nossa sociedade, que é a culpabilização da mulher pela violência masculina. É pedir o mínimo que a imprensa, formadora de opinião, e a sociedade em geral deem os nomes corretos aos fatos: Thales Machado foi um assassino, que tirou a vida de dois inocentes, e sua esposa é uma vítima, condenada em vida à dor da perda e à injustiça da culpabilização.

A traição não é um crime, e se as mulheres fossem assassinar alguém toda vez que fossem traídas, pode-se presumir que humanidade estaria extinta. A reação desproporcional de Thales Machado é a de um agressor com frágil honra masculina ferida, fruto da cultura do patriarcado e da visão de objetificação da mulher. Desde o momento em que a notícia se espalhou, a internet foi inundada por comentários que atribuíam à esposa de Thales Machado a responsabilidade pela tragédia. Frases como “ela foi a causadora de tudo isso”, “ela dizimou a família inteira”, se tornaram frequentes nas publicações sobre o caso, transformando a vítima indireta de um crime hediondo em ré.

Ele puniu os filhos, que nada tinham a ver com qualquer desentendimento, duas crianças que tinham um futuro pela frente e tiveram seus sonhos ceifados pelo ódio paterno. Vamos ao óbvio: o ato de Thales Machado também condenou a mãe das crianças a uma dor inominável e ao escrutínio público injusto. O que, provavelmente, era o objetivo: que ela levasse a vergonha e a culpabilização por escolhas pessoais. A vida dos filhos foi o instrumento da vingança. Essa é uma manifestação extrema de controle e posse, onde a mulher é vista como propriedade e sua autonomia é negada até mesmo na morte. A sociedade, muitas vezes, demonstra uma complacência perigosa com a violência masculina e romantiza a posse nas relações românticas. Recai sobre os homens, em muitos casos, o peso da dúvida, a comoção social e até mesmo o perdão do imperdoável. Há uma tendência a buscar justificativas para seus atos, como um suposto descontrole emocional ou um quadro psicológico preexistente. Mais uma vez: nada justifica.

A família não é um refúgio para a violência e a felicidade individual pode ser refeita com compaixão e honestidade. Já o assassinato de inocentes jamais pode ser relativizado. Há uma dor que não deveria ser atravessada também pela crueldade pública e pelo moralismo punitivo.

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