EDITORIAL
Enquanto muitos ainda tratam as mudanças climáticas como algo distante, quase uma ficção de filmes alarmistas, os fatos seguem ardendo diante dos nossos olhos. O incêndio que devastou quase 7 mil hectares (70 km) de caatinga nos municípios de Pavussu e Canto do Buriti, no Sul do Piauí, é uma prova disso.
Para efeitos de comparação, a área devastada pelo fogo é equivalente a quase uma viagem de ida e volta de Teresina a Picos. Para um maratonista que corre 42 km, 70 km seriam quase duas maratonas seguidas. Só corredores de ultramaratona encaram algo assim. Esse é o tamanho do estrago feito pelas chamas em nosso estado.
Dados do Censipam, no entanto, apontam que essa área foi ainda maior: cerca de 98 km², o equivalente a 13.625 campos de futebol.
São chamas que encontraram combustível em uma vegetação seca, num clima cada vez mais quente e irregular. A caatinga, que já enfrenta longos períodos de estiagem, é um pasto fácil para as chamas. Brigadistas lutaram dias para controlar o incêndio, com apoio de helicóptero da Polícia Militar.
Mas o fogo não queima só o solo, ele atravessa a vida. Centenas, talvez milhares de animais silvestres sofreram com esse incêndio: tatus, teiús, tamanduás, cobras, aves como a juriti, o nambu e o gavião-carcará. Animais pequenos, frágeis, que não têm para onde fugir, morrem sufocados ou queimados, enquanto tentam escapar de um inferno criado seja pela ação ou omissão humana. E os que sobrevivem acabam sem alimento, sem abrigo e à mercê de predadores.
O bioma da caatinga já é um dos menos protegidos e mais negligenciados do Brasil. O calor extremo, a seca prolongada, os ventos mais fortes, tudo isso não são coincidências: são sintomas de uma Terra que responde aos excessos cometidos contra ela.
As mudanças climáticas não são futuro, são presente. E não precisam de grandes catástrofes para nos afetar: basta olhar para os pequenos bichos carbonizados no chão seco do sertão, para perceber que o desequilíbrio já chegou.
Precisamos de políticas públicas sérias, fiscalização rigorosa, educação ambiental e, acima de tudo, respeito ao planeta. A natureza está gritando, mas é necessário consciência, compromisso e vontade para poder escutar.


