Valeria Cossati é uma mulher de 43 anos, mãe de dois filhos adultos, é chamada de “mamãe” pelo marido. Ela trabalha em um escritório e vive na Roma do pós-guerra, uma cidade e uma sociedade em reconstrução. Num domingo qualquer, em busca de cigarros se depara com um caderno preto na venda do bairro, proibido de ser comercializado naquele dia, burla a regra e compra o item, passa a escrever um diário e esconde de todos que conhece esse pequeno delito.
Assim começa “Caderno Proibido”, obra da escritora ítalo-cubana Alba de Céspedes, traduzida por Joana Angélica d’Avila Melo para o português brasileiro em 2022, e originalmente publicada semanalmente no periódico La Settimana Incom Illustrata, em 1950 e 1951. Chegou ao mercado editorial italiano em 1952, e virou uma febre no Brasil sete décadas depois.
De Céspedes veio de uma família abastada, seu pai, por exemplo, foi embaixador cubano na Itália e até mesmo ocupou a presidência de Cuba em 1933. Nascida em 1911, casou com um nobre romano aos quinze anos e aos trinta e cinco, com um diplomata italiano. Trabalhou como jornalista para importantes periódicos, chegou a ser presa por sua atuação anti-fascista e teve romances proibidos no país. Depois da guerra, mudou-se para Parir, onde veio a falecer em 1997. Escreveu especialmente sobre as experiências de mulheres italianas no contexto do fascismo.

O que há de tão sedutor no texto? Annie Ernaux, nobel da literatura de 2022, disse que “ler Alba de Céspedes foi como aceder a um universo desconhecido, classes sociais, sentimentos, atmosferas” e considera Caderno Proibido um dos livros que lhe fazem boa companhia durante a escrita. Elena Ferrante, pseudônimo da autora da tetralogia napolitana, reconhece “Na voz dela”, também traduzido para o português brasileiro por Joana Angélica d’Avila Melo, como um dos seus livros de encorajamento. Ao que parece, a escrita de Alba de Céspedes inspira grandes escritoras.
Caderno Proibido é um livro no formato de diário, com entradas em primeira pessoa, e conta a vida pacata de Valeria, esta mulher inventada há décadas que segue um tanto atual. Ela viveu a juventude em função da maternidade e agora, com os filhos criados, se pergunta sobre quem é e o que deseja. O casamento tornou-se hábito, para além da cultura da época, acostumaram-se com a companhia, ainda que morna, um do outro. É na escrita das páginas sobre seus dias que a narradora percebe a decadência do casamento, as expectativas que tem em relação aos filhos, o julgamento que faz das amigas. Ela reflete sobre o que fez da própria vida até ali.
O ato de escrever esse diário parece a ela uma grave contravenção, precisa esconder de todos ao redor que escreve e até mesmo que o caderno existe. “Por mais de duas semanas mantive o caderno escondido, sem poder escrever nele. Desde o primeiro dia foi muito difícil mudar de esconderijo o tempo todo, encontrar lugares onde não fosse logo descoberto. Se fosse achado, Riccardo o usaria para suas anotações na universidade, e Mirella para escrever o diário que mantém trancado à chave em sua gaveta. Eu poderia dizer que é meu, ficar com ele, mas deveria justificar seu uso.”
No processo de narrar os acontecimento de sua vida tão comum percebe o quanto esteve distante da própria subjetividade para ser mãe, esposa e funcionária exemplares, despertando para uma lucidez surpreendente. A narração começa tímida e ao longo das páginas, vai ganhando força. O caderno se torna um espaço de elaboração, através da escuta e análise dos próprios pensamentos, o que a encoraja a viver o que nunca antes havia cogitado: o próprio desejo.
Certa vez ouvi alguém falar que o diário de Valeria foi como uma análise, porque a fez escutar a si mesma, questionar as certezas que tinha sobre o que queria e o que achava que queriam dela. O simples questionamento provoca deslocamentos. Não sei se é possível comparar a uma análise, já que é preciso analista para que esta aconteça, mas, concordo que a escrita pode ter efeitos analíticos, muitas experiências podem, inclusive a leitura.
Este é um livro que nos coloca diante de uma das mais importantes perguntas da psicanálise, formulada por Jacques Lacan: fostes fiel ao teu desejo? Em determinada passagem Valeria diz “essa escravidão se tornou também a minha força, a auréola do meu martírio. Temo que, admitindo haver desfrutado nem que seja de um certo repouso, de uma distração, eu perca a fama de me dedicar à família cada instante do meu tempo”. De fato, é preciso muita franqueza para reconhecer a parcela de prazer que há no próprio sofrimento.
A riqueza do livro de Alba de Céspedes é justamente contar uma história com a qual muitas pessoas podem se relacionar, de tal maneira que setenta anos depois, Valeria ecoa atual. O texto tem ainda um valor histórico, pelo retrato que apresenta da sociedade italiana no pós-guerra, pois personagens do livro ilustram significativas mudanças sociais do período. E o choque geracional e ético entre a protagonista e sua filha, Mirella, talvez seja o mais relevante, muitas das páginas poderiam retratar a relação mãe e filha hoje.
Por exemplo, sobre o relacionamento com o marido ela constata “pensava que Michele talvez também tenha fingido dormir algumas vezes. E que desse contínuo fingir dormir e permanecer acordado na própria angústia, sem que o companheiro se dê conta, é feita a história de um casamento exemplar”. Verossível e hodierno. Como leitora de diários, fico maravilhada com o que a ficção pode fazer. Por esses e tantos outros motivos, Caderno Proibido é a primeira indicação da Oráculo, uma obra que nos leva aos anos cinquenta em Roma, mas que aborda temas e experiências contemporâneas, afinal, a busca pelo desejo segue atual.

Caderno proibido
Alba de Céspedes
Trad. Joana Angélica d’Ávila Melo
Editora Companhia das Letras





3 comentários
Beth Medeiros
Gosto de diários! Me deu vontade de ler Caderno proibido.
Isabella
Excelente escolha de livro para a primeira coluna.
Bruno
👏👏👏👏👏