Entre o espanto e o prazer: as primas de Aurora Venturini

Nunca confessei que só aprendi a ler as horas nos relógios de ponteiro aos vinte anos. Essa confissão me envergonha e surpreende. Me envergonha e surpreende pelo motivo que vocês depois vão saber de mim e muitas perguntas me vêm à memória. Principalmente a pergunta: que horas são? A bem da verdade, eu não sabia as horas e o movimento dos ponteiros me assustava como o girar das rodas da cadeira ortopédica da minha irmã. Ela sim, mais cretina do que eu, sabia ler os ponteiros dos relógios embora ignorasse como ler nos livros. Não éramos comuns, para não dizer que não éamos normais. Vrum-vrum-vrum… murmurava Betina, minha irmã passeando sua desgraça pelo jardinzinho e pelos pátios de lajota. O vrum costumava ficar empapado nas babas da boba que babava. Coitada da Betina. Erro da natureza. Coitada de mim, erro também e mais ainda minha mãe, que carregava esquecimentos e monstros. Mas tudo passa neste mundo imundo. Por isso não faz sentido se afligir demais por nada nem ninguém.”

Transcrevi este longo trecho do primeiro capítulo de “As primas” (tradução de Mariana Sanchez), livro de Aurora Venturini vencedor do Prêmio Nueva Novela em 2007 sob o pseudônimo Beatriz Portinari, para ilustrar do que se trata quando digo às pessoas que foi uma leitura ao mesmo tempo de espanto e prazer. Devorei as cento e sessenta páginas em um domingo qualquer, porque não consegui largar a história absurda e incrível de Yuna e sua família.

Nascida em La Plata, Argentina, em 1921, Aurora Venturini foi uma intelectual, formada em Filosofia e Ciências da Educação, amiga íntima de Eva Perón e exilada em Paris após o golpe de 1955, onde conviveu com figuras o Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Já havia publicado mais de trinta obras, entre poesia, contos e ensaios, mas sua consagração chegou somente aos 85 anos, com este romance eufórico vencendo um prêmio de destaque.

Vencer o prêmio sob o pseudônimo Beatriz Portinari é, em si, um ato de transgressão e ironia, uma espécie de piscadela para a história literária que tardou a reconhecer a força implacável de sua escrita. Não posso me furtar de pensar que a própria vida de Venturini, repleta de exílios e encontros com o monstruoso, como ela mesma disse, tenha servido de matéria para a brutalidade e a candura que irrompem em suas páginas.

O romance, descrito como “a meio caminho entre a autobiografia delirante e a etnografia íntima” pelo autor argentino Alan Pauls, é repleto de sustos. A própria sintaxe de Venturini é uma forma de rebeldia, por vezes radical e deformada, e tal escolha estilística, longe de ser um descuido, mimetiza o fluxo caótico da mente da narradora e a velocidade do horror narrado. A crueldade exposta pela experiência da pobreza, da deficiência e da violência é incessantemente temperada por um humor quase lúdico. É essa mistura desconcertante que intensifica o incômodo da leitura, nos deparamos com o riso em meio ao sofrimento e nos confrontamos com o monstruoso sem o filtro do didatismo.

Logo no começo um desconforto físico se apresenta diante das descrições que recusam qualquer moralismo, mas, o incômodo se transforma em fascinação, porque a obra comprova que a literatura está além do que, num determinado tempo e espaço, consideramos moralmente adequado. O texto escapa ao politicamente correto, e, talvez justamente por desviar do óbvio, permite debates e abre espaço para reflexões profundas sobre inúmeros temas sociais. “As primas” expõe, com honestidade radical a violência estrutural imposta àqueles que vivem à margem.

A narradora, Yuna, é uma jovem com deficiência intelectual que fala de suas dificuldades sem rodeios, conta sobre sua família demarcando a monstruosidade e o inusitado sem pudor algum. O texto de Aurora Venturini é acelerado e chega ao frenético para logo em seguida, suspender e recomeçar. São ondas de uma sonoridade que a tradutora conseguiu manter na versão em português, que dão indícios de como a mente da protagonista é caótica.

A atriz Marcela Ferradás conheceu e se encantou com a escritora Aurora Venturini, que lhe disse: “Yuna sos vos”; ela interpretará a protagonista de As Primas em uma peça dirigida por Horácio Peña (Foto: Radio Pública de la Provincia de Buenos Aires)

Não fica claro qual a deficiência de Yuna, ela relata dificuldades com a fala, diz que aquilo que pensa é falado de outra forma, distorcida, e, por isso, não a compreendem bem. Ao longo das páginas testemunhamos seus esforços em adquirir vocabulário e falar para ser melhor compreendida. Em um determinado momento, explica que tal palavra aprendeu no dicionário, na palavra seguinte que veio do mesmo lugar inclui (idem), e assim por diante, todas as palavras aprendidas têm esse (idem). Um recurso inusitado que confere humor às passagens mais aterrorizantes.

Além da escrita, foi a pintura que transformou a realidade de Yuna. É através da arte que ela encontra uma brecha para escapar das limitações que o corpo, a família e a sociedade impõem. Um professor da Escola de Belas Artes reconhece seu talento e a incentiva a desenvolver as habilidades artísticas e a divulgar seus quadros. A arte, neste contexto de exclusão, atua não apenas como refúgio, mas como uma forma de escapar, garantindo a Yuna não só a possibilidade de se expressar, mas também de obter melhorias materiais. É pintando que ela consegue autonomia financeira para existir como gente, contrariando o destino de impossibilidades previsto. 

No álbum da família temos ainda Betina, a irmã de Yuna que além da deficiência intelectual, tem limitações físicas e passa os dias numa cadeira de rodas; a prima Petra, que tem nanismo e se autodenomina liliputiane, começa a prostituir-se ainda adolescente; a prima Carina, que engravida de um vizinho e tem um desfecho trágico; Maria, a mãe de Yuna e Betina, que é professora de régua na mão e foi abandonada pelo marido, vive a maternidade com desprezo; as tias e avó são descritas em termos de asco e horror.

O lugar dos homens na história de Venturini é marcado pela ausência e pela violência, estão à espreita para abusar, explorar e tirar proveito das meninas e mulheres, mesmo quando de alguma forma ajudam, como é o caso do professor que abre caminho para a relação de Yuna com a pintura, o fim é necessariamente trágico. Não há acordo possível em um mundo estruturado pela dominação. A obra nos lembra, com urgência visceral, que, às vezes, as histórias mais perturbadoras são também as mais necessárias para confrontar as feridas da condição humana.

A consagração tardia da autora argentina com este livro prova que a genialidade, quando real, rompe barreiras de tempo e convenção, garantindo a permanência de uma obra que, ao falar do insólito, revela a face mais brutal e, paradoxalmente, mais humana de nossa existência. Ler Venturini é aceitar o convite para um mundo imundo, sim, mas onde a arte e a palavra são as ferramentas para uma vida além do silêncio imposto.

As primas
2022 [2007]
Aurora Venturini
Tradução Mariana Sanchez
160 páginas

Ananda Marques

Ananda Marques é cientista política e professora. Escreve sobre política, literatura e psicanálise. Doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília e mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (2017). Pesquisadora de políticas públicas, faz parte da Red de Politólogas e da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas. Associada do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise - Seção São Luís. Nascida no Piauí e de coração maranhense, atualmente mora em Brasília.
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