“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”, assim começa “A metamorfose” de Franz Kafka (tradução de Petê Rissati) e este é, talvez, um dos inícios de livro mais célebres da história da literatura (e não é possível que alguém duvide que seja literatura). Aos onze anos me deparei com esta frase e percebi, depois de cento e tantas páginas, que não era mais criança.

Essa semana estive lendo “As primas” de Aurora Venturini (tradução de Mariana Sanchez), que espero resenhar muito em breve por aqui, e numa determinada passagem a narradora fala sobre ter se dado conta de que a infância acabara, o que me fez perguntar quando foi que isso aconteceu para mim. Lembrei da leitura de Kafka que me partiu ao meio e fraturou a existência, foi quando entendi que apesar de não ser adulta, não fazia mais parte do reino da infância.
Conheci esse clássico bisbilhotando a estante de ferro abarrotada de livros que ficava no corredor da casa de um padrinho, o tempo em que tive acesso à sua estante foi de fartura literária. Quando chegava, ia direto para as prateleiras e perguntava “esse pode?” e ouvia um “claro, você vai gostar”, assim conheci Alexandre Dumas Filho, Kafka, Tolstoi e muitos outros autores que nunca tinha ouvido falar, a resposta aos meus pedidos de leitura era sempre sim e essa permissão teve efeitos duradouros na minha personalidade.
A história de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que trabalha em demasia para sustentar a família e pagar a dívida contraída pelos pais, causou uma angústia dilacerante. Não há qualquer explicação para o fato de que o protagonista transforma-se num inseto, e apesar dos debates nas aulas de literatura do ensino médio sobre qual inseto seria este, o que me deixou em frangalhos foi a solidão da criatura. Que desespero são os parágrafos e parágrafos descrevendo sua empreitada para descer da cama, que resulta numa queda violenta. O quão terrível é acompanhar os movimentos da família, primeiro de choque, depois de repugnância e, por fim, de abandono.

Lembro que passei noites em claro tentando entender por que alguém escrevia uma história como aquela. Quem era esse Kafka, por que ele teve uma ideia dessa? De onde veio tanto sem sentido para se pôr num livro? Eu ainda não conhecia obras assim, era uma enorme novidade ler algo que precisava ser decifrado. E depois de muito sono perdido, cheguei a uma conclusão: era sobre uma pessoa com deficiência ou louca. Pronto, encontrara um sentido, contei aos adultos que aquele era um livro sobre quando uma pessoa é vista pela família como um fardo, alguém a ser escondido, como nas histórias que conhecia sobre gente que vivia trancada num quarto ou internada em hospício.
A interpretação pueril que aquietou meu coração durou pouco, porque alguns anos depois esse foi o livro do bimestre que deveríamos ler para as aulas de literatura. E ao ouvir a professora falar sobre quem era o tal do Kafka, em que contexto escreveu e que outras obras ele tinha criado, compreendi que eu inventara uma metáfora para suportar o sem sentido. O resultado do choque foi um texto ainda mais sem sentido que acabou sendo usado pela mesma professora numa prova de português e me rendeu gente perguntando que diabo de metamorfose ao contrário era aquela que eu descrevera. Bom, eu também não sabia.
Na terceira vez que li “A metamorfose”, já adulta, era quase fim da pandemia de Covid-19 e eu havia começado a formação em psicanálise. Escolhemos ler Kafka para pensar a neurose obsessiva, uma das estruturas clínicas formuladas por Freud. Debatemos a posição familiar de Gregor Samsa, a relação dele com o trabalho, com a repetição e as regras, o esforço desse personagem em dar conta de uma dívida que não era sua porque, talvez, havia uma dívida simbólica. Ali também eu buscava, mais uma vez, interpretar. Não era uma tentativa pueril, como aos onze anos, mas era uma tentativa de dar sentido à invenção desse tcheco atormentado que viveu no século passado.

Pesquisando para escrever esta coluna encontrei professores universitários¹ dando os mais diversos caminhos para ler “A metamorfose”, pensar como um livro sobre a puberdade, uma ode à estranheza e singularidade, uma alegoria existencial. Também encontrei discussões sobre a forma, como a escrita desse burocrata escritor é clara e direta, uma “prosa inimitável”. O que penso, depois dessas três voltas lendo Kafka, é que a gente lê com o próprio corpo, com a bagagem que temos e fazemos as conexões possíveis a partir do que sabemos. Mas, não há hierarquia, nem certo ou errado. As definições do que é literatura, deixo aos acadêmicos, como leitora, reivindico apenas o direito de ler. E desse lugar que convido os leitores da coluna a conhecer esta obra, pelo valor conhecido, mas, principalmente, pelo desconhecido de cada encontro de uma pessoa com um livro.
Notas
¹Ver mais em: https://www.bpp.pr.gov.br/Candido/Pagina/Especial-100-anos-de-metamorfose

A Metamorfose
Franz Kafka
Tradução de Petê Rissati
Editora Antofágica
2020 [1915]
232 páginas




