Triste tigre e a escrita do trauma

A primeira vez que ouvi falar em “Triste tigre” (trad. Mariana Delfini) foi porque Annie Ernaux elogiou o livro de Neige Sinno, ainda não havia sido traduzido para o português brasileiro e ao buscar informações, entendi que aquela era uma obra de difícil leitura para mim. Ao chegar na Flip deste ano, me deparei com a autora na programação, numa mesa com a tradutora brasileira, Mariana Delfini. Resolvi escutar. 

Mariana Delfini e Neige Sinno na Mesa “Em busca da verdade” na Casa Record na Flip 2025 (arquivo pessoal)

Neige Sinno foi abusada sexualmente pelo padrasto dos sete aos catorze anos, aos dezenove ela conta à mãe sobre as violências e o denunciam à justiça. Ele é condenado e cumpre nove anos de prisão. “Triste tigre” é o livro que narra, de modo autobiográfico, os estupros e as marcas que permanecem nela, que hoje tem 48 anos e é mãe. Essa é a sinopse. Porém, ainda que você saiba que este é um livro escrito por uma mulher adulta a respeito dos abusos que sofreu na infância e adolescência, saber não é suficiente para navegar as páginas de modo seguro. 

É um livro arriscado, não apenas pelo tema que causa ojeriza na grande maioria de nós, mas, também, pela forma. É um exercício de escrita que desafia os gêneros literários, as caixinhas com as quais organizamos as obras, um texto híbrido de memórias e ensaio, que se utiliza de recursos estilísticos para registrar que não se trata de ficção. Para quem escreve, é uma lição sobre como contar o trauma, aquilo que, para a psicanálise, não tem inscrição anterior e, por isso, rompe as defesas do aparelho psíquico. 

Ernaux disse que este é “o livro mais poderoso e profundo que leu sobre a devastação da infância por um adulto” e que “ler Triste tigre é como descer de olhos abertos em um abismo. Você é obrigado a ver, a realmente ver, o que significa ser uma criança abusada por um adulto, por anos”. Ora, Ernaux escreveu, dentre tantas obras, “O acontecimento” (trad. Isadora de Araújo Pontes) e “A vergonha” (trad. Marília Garcia), dois livros que narram o trauma, primeiro, de um aborto ilegal e depois, de testemunhar uma cena de violência catalizadora do sentimento de vergonha que a acompanha por toda a vida. Portanto, o reconhecimento que ela manifesta a respeito do que escreveu Neige Sinno é um indicativo da qualidade do texto, ela sabe do que está falando. 

Na Flip, Sinno declarou que não é salva por nada, nem pela literatura, nem pelo amor, nem pela terapia. Recusa os clichês sociais de que escrever é terapêutico, de que há um lugar depois da violência em que se retorna ao antes da fratura, não há retorno para o que se partiu. E o livro, fissurado, fragmentado, feito em mosaico, comprova, o que se faz com o trauma é um corpo novo. Ela escreve para ser mais que uma vítima, como nas notícias de jornal que resgata no livro, desafia o discurso midiático por vezes mórbido que coloca no primeiro plano a curiosidade sobre a violência e aponta para o feito estético que alcançou com o texto. 

O que nos salva? Será que a literatura pode nos salvar? A escrita como terapia é um tipo de pensamento que sempre achei questionável. É como se contar, contar a própria história, compartilhar o próprio sofrimento, fosse o caminho para a redenção. Essa ideia sempre me revoltou. Aliviar-se por meio da escrita, da arte, como quem se livra de uma substância tóxica indo vomitar seus males nos outros. Não, realmente não consigo me convencer disso.” (pág. 272)

E na mesa com Mariana Delfini, anotei em meu caderninho ela dizer que escreveu este livro para leitores inteligentes, pessoas para quem o prazer de pensar compense a leitura desconfortável e árdua. Falou ainda da relação da linguagem com a justiça, pois colocar em palavras o trauma nos permite criar outra realidade. E que se perguntou ao longo da escrita sobre quais palavras usar, como contar essa história, e assim como Ernaux, questiona se aquela é a narrativa de um eu ou de um ela. Além disso, ressalta que não se trata de uma vingança individual, mas sim, uma rebelião ontológica, ela diz, uma revanche contra o destino. 

Bem no começo do livro, depois de fazer um retrato de seu estuprador, que, diga-se de passagem, não era um monstro como as manchetes gostam de nomear estupradores, Neige Sinno discute Lolita de Nabokov. Além de escritora, ela é tradutora e professora de literatura, especializada em literatura americana. E foi aí que me convenceu a atravessar essa leitura difícil, com as páginas de ensaio que analisam o clássico tantas vezes mal lido. Ela foi vítima de violência sexual na infância, é verdade, mas, fez-se uma mulher que maneja as palavras com maestria, aprendeu a navegar a linguagem. Ela é escritora, por isso seu livro pode ser lido, não apenas pelo tema, mas pela forma. E essa é uma grande lição que ela oferece a nós leitores.

Triste Tigre
Autora: Neige Sinno
Tradutora: Mariana Delfini
Editora: Amacord
2023

Ananda Marques

Ananda Marques é cientista política e professora. Escreve sobre política, literatura e psicanálise. Doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília e mestra em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (2017). Pesquisadora de políticas públicas, faz parte da Red de Politólogas e da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas. Associada do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise - Seção São Luís. Nascida no Piauí e de coração maranhense, atualmente mora em Brasília.
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