A primeira vez que ouvi falar em “Triste tigre” (trad. Mariana Delfini) foi porque Annie Ernaux elogiou o livro de Neige Sinno, ainda não havia sido traduzido para o português brasileiro e ao buscar informações, entendi que aquela era uma obra de difícil leitura para mim. Ao chegar na Flip deste ano, me deparei com a autora na programação, numa mesa com a tradutora brasileira, Mariana Delfini. Resolvi escutar.

Neige Sinno foi abusada sexualmente pelo padrasto dos sete aos catorze anos, aos dezenove ela conta à mãe sobre as violências e o denunciam à justiça. Ele é condenado e cumpre nove anos de prisão. “Triste tigre” é o livro que narra, de modo autobiográfico, os estupros e as marcas que permanecem nela, que hoje tem 48 anos e é mãe. Essa é a sinopse. Porém, ainda que você saiba que este é um livro escrito por uma mulher adulta a respeito dos abusos que sofreu na infância e adolescência, saber não é suficiente para navegar as páginas de modo seguro.
É um livro arriscado, não apenas pelo tema que causa ojeriza na grande maioria de nós, mas, também, pela forma. É um exercício de escrita que desafia os gêneros literários, as caixinhas com as quais organizamos as obras, um texto híbrido de memórias e ensaio, que se utiliza de recursos estilísticos para registrar que não se trata de ficção. Para quem escreve, é uma lição sobre como contar o trauma, aquilo que, para a psicanálise, não tem inscrição anterior e, por isso, rompe as defesas do aparelho psíquico.
Ernaux disse que este é “o livro mais poderoso e profundo que leu sobre a devastação da infância por um adulto” e que “ler Triste tigre é como descer de olhos abertos em um abismo. Você é obrigado a ver, a realmente ver, o que significa ser uma criança abusada por um adulto, por anos”. Ora, Ernaux escreveu, dentre tantas obras, “O acontecimento” (trad. Isadora de Araújo Pontes) e “A vergonha” (trad. Marília Garcia), dois livros que narram o trauma, primeiro, de um aborto ilegal e depois, de testemunhar uma cena de violência catalizadora do sentimento de vergonha que a acompanha por toda a vida. Portanto, o reconhecimento que ela manifesta a respeito do que escreveu Neige Sinno é um indicativo da qualidade do texto, ela sabe do que está falando.
Na Flip, Sinno declarou que não é salva por nada, nem pela literatura, nem pelo amor, nem pela terapia. Recusa os clichês sociais de que escrever é terapêutico, de que há um lugar depois da violência em que se retorna ao antes da fratura, não há retorno para o que se partiu. E o livro, fissurado, fragmentado, feito em mosaico, comprova, o que se faz com o trauma é um corpo novo. Ela escreve para ser mais que uma vítima, como nas notícias de jornal que resgata no livro, desafia o discurso midiático por vezes mórbido que coloca no primeiro plano a curiosidade sobre a violência e aponta para o feito estético que alcançou com o texto.
“O que nos salva? Será que a literatura pode nos salvar? A escrita como terapia é um tipo de pensamento que sempre achei questionável. É como se contar, contar a própria história, compartilhar o próprio sofrimento, fosse o caminho para a redenção. Essa ideia sempre me revoltou. Aliviar-se por meio da escrita, da arte, como quem se livra de uma substância tóxica indo vomitar seus males nos outros. Não, realmente não consigo me convencer disso.” (pág. 272)
E na mesa com Mariana Delfini, anotei em meu caderninho ela dizer que escreveu este livro para leitores inteligentes, pessoas para quem o prazer de pensar compense a leitura desconfortável e árdua. Falou ainda da relação da linguagem com a justiça, pois colocar em palavras o trauma nos permite criar outra realidade. E que se perguntou ao longo da escrita sobre quais palavras usar, como contar essa história, e assim como Ernaux, questiona se aquela é a narrativa de um eu ou de um ela. Além disso, ressalta que não se trata de uma vingança individual, mas sim, uma rebelião ontológica, ela diz, uma revanche contra o destino.
Bem no começo do livro, depois de fazer um retrato de seu estuprador, que, diga-se de passagem, não era um monstro como as manchetes gostam de nomear estupradores, Neige Sinno discute Lolita de Nabokov. Além de escritora, ela é tradutora e professora de literatura, especializada em literatura americana. E foi aí que me convenceu a atravessar essa leitura difícil, com as páginas de ensaio que analisam o clássico tantas vezes mal lido. Ela foi vítima de violência sexual na infância, é verdade, mas, fez-se uma mulher que maneja as palavras com maestria, aprendeu a navegar a linguagem. Ela é escritora, por isso seu livro pode ser lido, não apenas pelo tema, mas pela forma. E essa é uma grande lição que ela oferece a nós leitores.

Triste Tigre
Autora: Neige Sinno
Tradutora: Mariana Delfini
Editora: Amacord
2023





1 comentário
Beth Medeiros
Excelente análise, Ananda Marques!