O livro de hoje conheci por causa de Elena Ferrante. Para quem não sabe, esta que vos escreve é uma mulher obcecada pela obra da escritora italiana, publicada sob pseudônimo e que não sabemos realmente quem é. Até acho que seja mesmo a tradutora casada com Domenico Starnone, Anita Raja, mas, prefiro acreditar que a autora Ferrante é uma invenção. Em 2020 foi publicada uma lista de 40 livros escritos por mulheres indicados por ela e, desde então, sigo o rastro desse parentesco.
Dentre as autoras que descobri está Rachel Cusk, britânica nascida no Canadá em 1967, conhecida por explorar temas como maternidade e divórcio, publicou livros de não-ficção sobre experiências pessoais em ambos os assuntos, e passou por uma mudança de estilo com a trilogia de “Esboço” (tradução de Fernanda Abreu). Cusk estudou inglês em Oxford e iniciou sua carreira literária com Saving Agnes, de 1993, que lhe rendeu premiações.
“Esboço” é o primeiro de uma trilogia e impressiona por apresentar uma narradora que conta do que ouviu dos outros, são histórias dentro da história, relatos breves sobre a vida de outras pessoas como numa matrioska literária. Portanto, a pergunta “sobre o que é o livro?” fica sem resposta, é difícil definir o tema, já que são relatos do que a narradora escutou e não há um caminho previsível quando se está aberta a ouvir os fragmentos alheios.

A narradora, Faye, cujo nome descobrimos muitas páginas depois, é escritora e viaja para dar um curso de escrita criativa em Atenas. Começa o romance contando o que ouviu de um homem no avião. Os capítulos seguintes trazem o que ela recolheu de diversas pessoas na cidade, alunos nas aulas, amigos em restaurantes, gente que conhece por acaso, gente que reencontra anos depois.
Contando dos outros, pouco é contado sobre a história dela, mas algo se revela nas entrelinhas. Afinal, quando um fala de outro, sabemos mais do um do que do outro. E o que Faye nos mostra, escondida sob as histórias alheias, é a dificuldade de narrar a si mesma, um certo esvaziamento do eu narrativo. Efeito curioso que Rachel Cusk alcança na escrita e a tradução de Fernanda Abreu nos transmite em português.
Entretanto, esse esvaziamento do eu não é uma mera ausência, mas um dispositivo narrativo radical que reflete uma crise existencial profunda. A crítica acadêmica frequentemente interpreta a narradora Faye como uma “tela em branco” ou um “contorno” onde os outros se projetam, e cuja aparente passividade esconde um método de redefinição. Ao se tornar puramente escuta, Faye busca entender sua própria experiência de divórcio e trauma, os elementos autobiográficos que marcaram as obras anteriores de Cusk, de maneira oblíqua.
Esboço, pode ser lido como uma investigação sobre a identidade relacional na modernidade, pois a compreensão do sujeito se dá através do mosaico de vidas alheias; o livro se mostra, assim, uma obra metalinguística, na qual a impossibilidade de uma narrativa pessoal direta é substituída por uma poderosa meditação sobre a própria arte de contar histórias.
A trilogia se completa com Trânsito (Transit, 2016) e Mérito (Kudos, 2018), ambos traduzidos por Fernanda Abreu, mantendo a narradora Faye como o “contorno” que absorve os relatos de terceiros. Em Trânsito, o foco se desloca para o retorno de Faye a Londres, onde ela tenta reconstruir sua vida após o divórcio, encarando dimensões práticas da vida, omo a reforma da casa ou a pintura do cabelo, que revelam camadas e camadas de complexidade emocional. São situações que funcionam como metáforas para a reorganização pessoal e a tentativa de construir uma nova realidade para si e para os filhos.
Já em Mérito, Faye viaja pela Europa para participar de conferências em festivais literários, e o livro atinge o clímax da despersonalização ao abordar questões de fama, sucesso e a responsabilidade moral do artista e do leitor, fechando o trio de livros com uma reflexão sobre a natureza da arte de contar histórias em si.

Além da trilogia, também li “A Segunda Casa” (tradução de Mariana Delfini), que marca um retorno e uma reinvenção para Cusk, afastando-se da técnica de “contorno”. A narradora aqui é M, uma escritora de meia-idade que relata, em retrospectiva e com grande subjetividade, o verão em que convidou o famoso artista plástico L a se hospedar em sua cabana à beira de um pântano – a “segunda casa” do título.
O livro, inspirado nas memórias da mecenas Mabel Dodge Luhan, explora a obsessão de M por L, depositando no olhar do artista a esperança de que sua arte possa penetrar e dar sentido à vida pacata e isolada dela. No lugar da escuta passiva de Faye, vemos uma mulher se contorcendo em sua subjetividade, lançando faíscas de dúvida sobre a arte, o privilégio masculino e a eterna luta da mulher em viver moralmente entre seu mundo interior e as demandas externas. É o retorno da voz exposta de Cusk, mas agora mediada pela ficção, como se a autora pudesse, finalmente, usar o fogo da sua própria experiência para iluminar temas de arte e redenção.
O que nos leva de volta a Elena Ferrante e ao rastro de parentesco literário que ela deixa. No final das contas, o projeto de Rachel Cusk, desde a escuta silenciosa de Faye em Esboço até a voz incandescente de M em Segunda Casa, é o mesmo: a tentativa de encontrar uma linguagem para o trauma. Cusk nos mostra que, depois que a vida se rompe, o caminho para refazê-la não está, necessariamente, na narrativa direta do sofrimento, mas em uma nova forma de contar. Ferrante, em sua tetralogia napolitana, nos mostra os efeitos da narração de uma outra na complexa relação de Lila e Lenu. Cusk nos ensina o valor da ausência e da reinvenção para sermos capazes de nos narrar. Ambas nos convocam, como leitores, a pensar: qual o rastro que queremos deixar da nossa própria travessia?





