(Há muitas pessoas emocionalmente envolvidas com política, que tomam decisões com base em boatos, tendências de curto prazo e informações insuficientes. Tentamos ficar longe dessas pessoas. A colunista, e certamente o leitor, enxergam a análise política como uma aposta intelectual para ver quais tendências e projeções são as melhores. A tolerância às oscilações inerentes a esse exercício não é para todo mundo.)
Boletim 26/08/25
Conversava com uma fonte integrante do núcleo duro do ministro do Desenvolvimento Social e senador Wellington Dias. Falávamos sobre o jogo de forças (ou cabo de guerra, depende) para definir o candidato a vice-governador de Rafael Fonteles (de novo essa história, fazer o quê?).
Gosto do exercício de pensar de trás para frente. Por exemplo, não me interessa se A ou B “estão chateados”, mas sim se eles irão agir ou são capazes de modificar cenários baseados na “chateação” que sentem. O que vale são mais os resultados e menos os sentimentos dos atores políticos (me perdoem os emotivos). Perguntei depois de 30 minutos da conversa que se encaminhava ao fim: “Então, dito tudo isso, qual probabilidade você estima que seja a mais próxima do Rafael indicar o vice que ele quer?”.

Resposta do interlocutor privilegiado: “Bom, 70%…”. Isso é muito alto, mas se a humilde cronista fosse calibrar, diria que não é menos de 85% as chances de Rafael colocar o secretário estadual de Educação, Washington Bandeira, como vice na chapa de 2026. Já um participante de altas rodas do Governo estadual discorda de ambos: “Pode botar aí que é 100% (chance de indicar Bandeira)!”. Ok.
Não obstante, o boletim de hoje, portanto, não é sobre isso (a indicação de Rafael sobre quem será o vice dele, isso já está precificado), mas sim sobre tudo aquilo que os grandes jogadores dessa partida preferem deixar oculto: o preço, as consequências e as picuinhas, claro, dessa decisão.
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São amigos que discordam de vez em quando
Um petista da geração Z, pró-Wellington desde criancinha, defende que não há nenhum conflito aberto entre ele e Rafael Fonteles. “Parece que o pessoal quer uma trama de novela, mas não tem briga. Estavam os dois curtindo no casamento da Iasmin (filha de Wellington), cantando juntos (no final de semana, em João Pessoa, Paraíba). Às vezes o WDias concorda e, às vezes não concorda (com as estratégias de Rafael), mas ele (Dias) não vai bater o pé”.

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Corrida armamentista
Como em qualquer esporte, o ataque paga mais. E os profissionais da política jogam no ataque a maior parte do tempo. O objetivo número 1 do político é fazer sua vontade prevalecer, lembre-se disso.
Ok, na parte em que Wellington e Rafael discordam, qual é o motivo da discordância? “O nome do vice para 2026. Não é nada pessoal contra ele (Washington Bandeira) e ninguém questiona a capacidade dele, ótimo secretário jovem e tal, mas só representa o Rafael, é isso que todo mundo está querendo dizer mas não diz”, pondera um ponta de lança, aliado de Wellington Dias, em off.
Tecla SAP: então esse movimento de bastidores não é sobre a competência de Bandeira, ou a confiança, que são incontestes, mas sim sobre a construção de legitimidade no mundo político (algo que, ainda assim, está sendo trabalhado com esforço dentro do seio governista, fazendo o dever de casa e conversando com gregos e troianos). Esse é o alvo de disputa com os diversos clãs da política tradicional e da elite sindical nesse exato momento (escrevi sobre os clãs da política piauiense nesse texto, caso você ainda não tenha lido).
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Lula reeleito, Rafael ministro e Bandeira governador em 2027?
Vou elencar em dois tópicos numerados para que o leitor entenda o raciocínio (as linhas de pensamento abaixo não são da colunista, frise-se, e sim da base, especialmente aqueles integrantes que não são rafaelistas – ou seja, a maioria dos quadros de políticos profissionais de siglas aliadas, com mandato e da máquina partidária do PT):
LINHA DO TEMPO 1: Se o presidente Lula ganhar a presidência da República em 2026 (cenário incerto, mas hoje bem mais positivo para Lula pós-tarifaço Trump e desordem no clã Bolsonaro) e Rafael Fonteles for reeleito: rafaelistas acreditam que Rafael seria ministro convidado por Lula (a pasta é assunto para outro dia), portanto, o vice, Bandeira, viraria governador já em 2027.

A turma de políticos profissionais considera que “não conhecem Bandeira o suficiente” para carimbar a carteira de trabalho com o cargo de governador (se o cenário 1 se confirmar, atenção aqui) numa trajetória política de dois anos. Não aceitam a comparação de Rafael com o próprio Bandeira, pois Fonteles foi socializado na política pelo pai (Nazareno Fonteles, ex-deputado federal pelo PT) e por muitos anos secretário de Fazenda (dono da chave do cofre) de Wellington Dias.
LINHA DO TEMPO 2: Lula perde a reeleição (ou lança outro candidato que também perderá), o presidente é de direita (provavelmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas), Rafael se reelege e fica no mandato até o final. Nessa linha do tempo, Wellington Dias busca a reeleição ao Senado em 2030 enquanto Fonteles ficará sem mandato.

Dinossauros do PT duvidam que Rafael fique sem mandato. Ponto de discordância. Rafaelistas retrucam garantindo que Fonteles vai tentar carreira política nacional em 2030, sob qualquer hipótese (sucessão de Lula ou sucessão de um presidente de direita) e nunca cogitou ser senador. O pano de fundo de tudo sempre é confiança: a turma de profissionais teme que Rafael Fonteles mude seu plano nacional sob condições adversas (o imponderável da política) lá para frente e decida mesmo disputar o Senado.
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Fique com o vice e passe as pastas importantes pra gente
E, novamente, como não está em dúvida se Rafael tem força para indicar o vice (ele tem), a questão é a precificação disso. “Ele (Rafael) abre um flanco quando aposta no Washington (Bandeira). Ok vai ser ele, o cara que só ele quer, mas também vai ceder muita coisa. Saúde é dele (Rafael), Educação, Segurança… e vai ter que abrir mão de alguma coisa. Tá bom, o vice é seu, vamo abrir pra negociar”, pontua um águia político, discreto e observador das mesas privilegiadas, em conversa restrita com o boletim.
Tudo isso é conjectura para 2026, óbvio, em caso de sucesso nas urnas. Não botemos os carros na frente dos bois, leitor.
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Tem que combinar com os russos
Então, desdobrando elocubrações sobre o assunto vice, vamos partir do pressuposto de que a política piauiense é menos um espaço de soberania popular e mais um campo de disputa entre elites que buscam legitimação periódica, certo? Certo.
Sendo assim, a divisão interna que opera no seio do Governo Fonteles é a seguinte: elite tradicional e elite sindical (MDB, PSD, PT e partidos aliados) preferem um nome deles de vice, referendado por Wellington Dias, em quem confiam por terem feito muitos acordos ao longo de décadas de governo conjunto.

Rafael Fonteles, governador popularíssimo com o povo (é o que dizem as pesquisas até da oposição), quer um nome que represente a continuidade de seu estilo de gestão – que todo mundo sabe que é bem diferente do estilo Índio (nome que os políticos chamam informalmente Wellington Dias). Os nomes preferidos por cada um não são os mesmos, isso todo mundo já entendeu.
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Se continuar popular, pode indicar até o mordomo
Nesse tipo de trabalho, é preciso saber mastigar perto do osso. “Rafael reafirmou para o X (líder de outra seara, mais técnica) que era o Bandeira o vice, mas os dinossauros não se deram por vencidos. Pode sair dia 29 o nome, na grande reunião do PT”, disse um dos dinossauros, em conversa com o boletim. Beleza, então é prego batido e ponta virada? “Sim, até que as pesquisas digam o contrário. Pesquisa mostra Rafael nas alturas. Se não cair, ele pode indicar até o mordomo”. Como a colunista disse no início…
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O futuro a Deus pertence
Como escrevi algumas colunas atrás, a verdadeira informação aqui é que não tem “briga” de Wellington e Rafael (realmente não tem, pois opiniões e interesses divergentes, além de desconforto, são inerentes ao exercício político), nem tem ninguém que ache a sério que o vice não será Washington Bandeira.
Bandeira vice sob a influência de Rafael e o olhar de Wellington é uma conversa para o futuro, caso se concretize. “Isso me lembra quando eu era secretário e tinha que atender a três ‘governadores’: a Regina Sousa, governadora em exercício, o Wellington, de longe, e o Rafael, que era o futuro governador e cada um me pedia alguma coisa. É pressão de todo lado, mésti!”. Puxado!1

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Papo Cabeça
O que nos leva, finalmente a concordar com o cientista político e economista austríaco Joseph Schumpeter, que foi um dos primeiros a romper com a visão idealizada da democracia como expressão pura da “vontade popular”. Por favor, né? Para ele, eleições não passam de um “método competitivo para a escolha de líderes”. Shcumpeter diz que a maioria das pessoas não tem tempo, interesse ou informação suficientes e o eleitor é “mal informado, facilmente manipulável e desinteressado”.
Então é assim: eleição é a competição periódica entre elites políticas por meio do voto. O povo não governa, mas escolhe entre diferentes lideranças que disputam o cargo de governar. A democracia é muito menos deliberação popular e muito mais concorrência entre elites organizadas em partidos. Fim de papo.
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Categorias do voto
Isso aqui serve para tudo que envolve disputa pública (não vale para ditaduras, monarquias absolutistas e teocracias, atenção, favor não confundir). O voto é definido em categorias de saber, conhecer, poder fazer e querer. O candidato sabe os temas da cidade/estado/país? Conhece a fundo sobre aquilo que diz saber? Tem como articular (com outros Poderes e gestores) a solução para os problemas?

E, por fim, ele realmente deseja encarar essa dura missão? Exemplo: em 2024, o agora eleito prefeito de Teresina, Sílvio Mendes, venceu nas três primeiras categorias, mas patinou na última, pois era sempre lembrado pelos adversários que Sílvio deixou a PMT no passado para disputar o Governo estadual. Parece magia, mas é Ciência.
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Três formas de se eleger
Outra maneira de visualizar os critérios reais de escolha de líderes políticos são essas três dimensões: (1) identificação simbólica com o eleitorado (como no caso de Lula, cuja trajetória de ex-retirante nordestino e ex-metalúrgico dialoga com a experiência das classes populares), (2) capacidade de articulação com elites e instituições (como no caso de Fernando Henrique Cardoso, respaldado por sua imagem intelectual – era chamado de “O Príncipe” – e alianças políticas), e (3) mobilização de afetos e polarizações (como Bolsonaro, que capitalizou ressentimento social e a pauta moral).

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Prêmio 180
Há algum tempo, fui surpreendida com o anúncio de que o tradicional portal de notícias 180 Graus, do empresário Hélder Eugênio, havia me escolhido como “melhor jornalista de 2024” do Piauí (clique aqui para ler a matéria do 180 e conferir os outros premiados). Agora, recebi o prêmio das mãos do diretor de conteúdo, Sebastian Eugênio e do publicitário Gualberto Sousa.
Curiosidade (que ninguém perguntou, mas acho interessante falar): fui estagiária no 180 Graus em 2008. Comecei cobrindo Polícia e depois consegui encher tanto o saco do meu editor da época que, por pena, ele deixou que eu começasse a cobrir Política e o resto é história.

Treino minha mente para buscar e destilar significados. Prêmios são validações simbólicas exteriores de reconhecimento. Dessa forma, como trabalho para o público, considero que esse prêmio é um bom ponto de ancoragem para seguir confiando que se fazemos algo com alma e coração, ele frutifica. Escrever e publicar é a única forma de autodoação que consigo fazer bem. Obrigada, leitor, pela confiança.
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Se conselho fosse bom
A maioria das pessoas fracassam por não terem controle emocional. Dificilmente é uma questão de inteligência ou força de vontade. Se você pensa demais no que os outros podem pensar sobre você, provavelmente você está num ambiente em que as pessoas não possuem um objetivo significativo e estão com tempo livre o suficiente para se dedicar a julgar os outros em vez de trabalhar para melhorar a si mesmos.
Aqueles que não são felizes com quem são tendem a ser paranoicos e reagem de maneira desproporcional a qualquer inconveniência. Já quem consegue o que quer da vida, passando a maior parte do tempo onde quer estar, fazendo o que deseja fazer, com as pessoas com quem se importa, costuma ser gentil e tranquilo.
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Cifrada dos Contracheques Reais Zerados
O dia raiava feliz no Reino do Conhecimento (localizado logo ali próximo a Hogwarts), até que os servos, indicados por cavaleiros estaduais, acordaram com uma bomba: seus contracheques reais estavam zerados. Zero, um zero bem redondo. Quase 3 mil servos, especialmente aqueles que trabalham “home office”, digamos assim, correram para seus padrinhos cavaleiros estaduais em busca de uma explicação, reversão, uma luz no fim do túnel, qualquer coisa que colasse números nos papéis zerados.
“Era o interior todinho, povo revoltado, aí é loucura!”, revela um articulador que busca revolver com extrema urgência a questão. Mas será se a turma já não tinha sido avisada que ia ser assim e duvidou da coragem de Harry Potter de tocar adiante a empreitada controversa em ano pré-Torneio Quadrienal?
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Foto do dia
Qual foi mesmo o motivo da troca de Trabulo Neto (filho de Trabulo Júnior, que é do círculo próximo do senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP) pelo advogado Gabriel Costa na presidência do Jovem Progressistas do Piauí? “Ah, é a renovação do partido…”, respondeu uma fonte oposicionista, que calculou um pouco para menos o grau de ingenuidade da colunista. Pera lá.
Tentando saber como andam os jogos internos do círculo de poder da direita no estado, um emissário de lá resolveu ser sincero. “O Gabriel é uma liderança da zona Norte de Teresina ligada ao Joel (Rodrigues, ex-prefeito e presidente estadual do PP), mas a troca foi porque houve declaração pública de voto do Trabulinho ao Tony Rodrigues (jornalista e pré-candidato ao Governo do Piauí pelo PL)”. Ahhh, explicado!

“Ora, se vai ser a Margarete (Coelho, ex-deputada federal) ou não a candidata (a governadora), não importa, todo mundo filiado e em cargo de direção tem que apoiar o escolhido no momento!”, completou, chateado, o direitista. Essa geração Z promete!
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A frase para pensar
“É uma regra geral da natureza que as pessoas desprezem quem as trata bem e admirem aqueles que não fazem concessões”, Tulcídides, historiador da Grécia Antiga e general. Escreveu a História da Guerra do Peloponeso, da qual foi testemunha e participante, em narra a guerra entre Esparta e Atenas em V a.C.
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Feito à mão
Para pensar junto com nosso chargista Rico:

- Parto do pressuposto de que todos os jogadores de alto nível da política são muito inteligentes (
mesmo que alguns não demonstrem, digamos assim), o que resulta num tabuleiro eficiente em que há pouca margem para tirar uma grande vantagem sobre algum adversário. Para isso, é necessário alguma esperteza e vivência. ↩︎





