A Coluna Divã, assinada pelo psicanalista Lamartine Guedes, é um espaço dedicado à escuta sensível em tempos de excesso de informações. Ali, conflitos afetivos, dilemas familiares e questões subjetivas ganham interpretação à luz da psicanálise, sempre com o compromisso do anonimato.
Os relatos que dão vida à coluna são enviados pelos próprios leitores, de forma confidencial, e transformam-se em reflexões que dialogam com experiências comuns a muitos.
Quem desejar participar pode encaminhar sua história para o e-mail contato@boletimbrio.com ou pela página no Instagram @boletimbrio.
Relato enviado por uma leitora anônima
Cresci com uma mãe narcisista. Sou a filha primogênita e, desde cedo, ela colocou sobre mim responsabilidades que não cabiam a uma criança. Muitas vezes, quando enfrentava dificuldades em seus relacionamentos amorosos, ela transferia para mim o peso da casa e o cuidado com o restante da família.
Sei que a vida dela não foi fácil e, de certa forma, entendo que ela me usava como uma espécie de muleta: alguém que estava ali para aliviar suas dores, para ajudá-la a enfrentar seus problemas, para tentar tornar sua vida um pouco melhor. Só que isso me fez refém do amor dela. Para continuar sendo a filha preferida, eu precisava me doar além da conta, atender suas expectativas, me anular. Lidar com tratamentos de silêncio e hostilidade dela quando eu não fazia o que ela queria. Isso se estendeu até boa parte da minha vida adulta, as chantagens emocionais. E, nesse processo, fui me apagando, me esquecendo de mim mesma, passando por cima dos meus próprios desejos apenas para agradá-la.
Hoje eu já tenho consciência de tudo isso, mas sinto que ainda carrego muitas camadas de mágoa. Não é leveza o que me domina quando penso nela. A pergunta que me faço e que gostaria de lhe fazer como psicanalista é: como posso melhorar a minha relação com a minha mãe? Eu compreendo a dinâmica que vivi, mas como transformar esse entendimento em algo que me permita sentir menos peso e mais liberdade?
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
Cara e sofrida leitora, você divide o destino com muitas mulheres: a infelicidade de ter tido uma mãe má, vingativa, tirânica e autofágica, que se destrói e, por tabela, acaba destruindo (quando deveria construir) a pessoa que mais ama: a própria filha. Bem-vinda à lenda da Porca do Dente de Ouro e à lenda da Branca de Neve arcaica.
A lenda da Porca do Dente de Ouro ilustra o fenômeno da mãe narcísica no Piauí. Começaremos pelo título: “A Porca do Dente de Ouro”. A porca traz o significante da lama, sujeira e julgamento, preconceitos e perversões das ações. O “dente de ouro”, o significante fálico, do desejo, poder, destruição e guerra (conflito), presente no mito, remete à vida real de uma mãe e uma filha envoltas em um extremo conflito mortífero narcísico em Teresina/Piauí/Brasil e no mundo. Já a lenda da Branca de Neve arcaica ilustra o fenômeno de forma global/europeia e é simplesmente igual ao conto dos irmãos Grimm com uma diferença crucial: a mãe da Branca de Neve era a própria algoz dela, e não a madrasta.

A lenda da Porca do Dente de Ouro é a seguinte: uma mãe mal resolvida no seu Édipo, solitária, tirânica, invejosa e sem marido, tem uma filha que chega na fase do namoro e, então, resolve que não deixará a filha em paz e nem ser feliz. Esta mãe não abençoa o namoro da filha, destrói a possibilidade de ela casar e faz a filha enlouquecer. A filha é tratada como inferior, doente e é colocada no quarto dos loucos, no fundo da casa (esta lenda deve ter origem em Oeiras, pelo visto). Uma vez que essa mãe abre a porta do quarto para dar comida à suposta filha louca, a filha morde a mãe no pescoço, mata a mãe e vira uma porca de dente de ouro, vagando pela cidade. Aqui, no final da lenda, percebemos que o mal é o que sai da boca da mãe: suas posturas ditatórias e impositivas de voz: “filha, não vai ser assim como você deseja, e sim como eu quero”. Por isso a filha escolhe a garganta, instrumento de voz/poder da mãe, para matá-la.
A Branca de Neve arcaica é igual à que todos já conhecemos nos contos de fadas, com a diferença de que a madrasta, na verdade, era a própria mãe, e o desfecho será mais trágico ainda que nos contos de fadas dos irmãos Grimm, pois, no conto arcaico, Branca de Neve mata a própria mãe.

A mãe narcísica das duas lendas é uma mulher tirânica e vingativa, que busca, na relação com a filha, uma autofagia: consumir a si mesma e todos ao redor. Sendo a filha sua extensão, esta acaba virando seu alvo principal. Essas lendas são uma metáfora de como relações mal resolvidas (no caso: a mãe com ela mesma, com a mãe dela e com a filha) causam conflitos, embates e tropeços e, no final, provocam tragédias e loucura.
Aqui no Piauí temos uma sociedade matriarcal que produz, em abundância, mães fálicas e narcísicas. O princípio patriarcal da mãe narcísica é o mesmo nas duas lendas: a devastação feminina com o enfoque inconsciente do ódio da mãe pela filha. Acontece que, no caso de mães narcísicas, a devastação ganha outro contorno, uma vez que estas têm grande poder e a sua ira/vingança contra quem a decepciona é muito forte e, tantas vezes, cruel. Veja, leitora, o exemplo da mãe da Porca do Dente de Ouro, que preferiu ver a filha louca do que feliz.
Assim, a antiga fórmula do velho processo patriarcal: uma mãe bela, sedutora e boa para um homem (na busca do falo) e o momento em que este homem troca a mulher por outra é o momento disparador da mãe narcísica e vingativa. Nessa hora, a mãe fica possessa de raiva, vingança e ressentimento, e escolhe como alvo detonar a própria filha, por dois motivos: a filha lembra a ela (causando inveja na mãe) e, segundo, porque a mãe não quer permitir que a filha trilhe o caminho percorrido por ela quando jovem. Se a filha faz e realiza o desejo da mãe (se alienando/apagando), fica tudo bem. Mas, se, ao contrário, a filha recusa os desejos da mãe e a desafia, torna-se alvo de destruição. Somado a isso, tem o fato de que a mãe narcísica tem um complexo de Electra (com a própria mãe) mal resolvido, origem de todo conflito.

A filha, por sua vez, se dissolve em culpa ou aceitação de martírio (culpa quando contraria a mãe e martírio quando aceita a via crucis imposta pela mãe). Assim, observamos a paixão dolorosa da filha impossibilitada de desejar por conta própria, que terá dois destinos possíveis: matar simbolicamente a mãe e seguir sem ela, ou sucumbir e ser marionete do desejo da mãe, tornando-se uma morta-viva (um zumbi). Veja, leitora sofrida, estar no mundo sem poder ter desejos próprios e sem ter a possibilidade de realizá-los é como morrer em vida. Hoje em dia, são tantos fatos que levam a apagamentos de desejos que a lenda do morto-vivo, do zumbi, ressoa de forma visceral. É só olhar a quantidade de filmes, livros e seriados sobre o tema.
No entanto, devido ao impasse cultural/moral (educacional), as filhas escolhem mais o destino “zumbi”, que as impede de se rebelarem contra a mãe, se libertarem e serem felizes a seu próprio modo.
Convoco então você, leitora, a enfrentar simbolicamente a sua mãe, mesmo sabendo que isto gerará um conflito e que a saída dele nem sempre será feliz. No caso da Porca do Dente de Ouro e da lenda original da Branca de Neve, em ambos acontece o matricídio por parte das filhas. A Porca do Dente de Ouro mata a mãe com uma mordida na garganta e a Branca de Neve da lenda arcaica, depois de enfrentar a mãe com a ajuda dos seus fãs (anões e o príncipe), obriga a mãe a ir para sua festa de casamento e lá esquenta um par de sapatos de ferro, obrigando a mãe a calçá-los até morrer “dançando” em seu festim macabro. Com certeza, ambas pagaram o preço por tamanha vingança. O destino da Porca foi viver como monstro e o da Branca de Neve arcaica foi tornar-se tão má quanto a própria mãe.

Então, como sair deste impasse mortífero vivido por você, leitora? Arrisco a lhe dar conselhos baseados na minha experiência clínica psicanalítica:
1º – Cara e angustiada leitora, tente não ceder aos desejos de sua mãe, pois eles levarão você à depressão/autoabandono (a morte de si/zumbi).
2º – Corra atrás dos seus sonhos e desejos próprios, pois uma mãe narcísica, por mais que você faça os desejos dela, nunca será suficiente (a dívida dela com a mãe, o pai e o mundo é simbólica e de difícil pagamento). Lembre-se: por mais que sua mãe se frustre, ela não é dona de você. A barreira simbólica entre seus desejos e o desejo dela é difícil de romper, mas necessária.
3º – Você tem que ter sua vida, realizar seus próprios sonhos, senão você adoece psicossomaticamente, o que a fará se sentir sem alma/perdida/vazia. Não são poucos os casos de suicídio, anorexia, bulimia, lúpus etc. derivados dessa relação adoecida com a mãe narcísica.
4º – Busque a ajuda da sua avó. Sim, leitora, a avó que também é vítima da sua mãe. A avó pode ser uma ótima aliada para neutralizar o rancor e a ambivalência da sua mãe (na história da Branca de Neve arcaica, quem morre, na verdade, é a avó; por isso ela ficou tão vulnerável e teve que enfrentar sozinha a própria mãe).
5º – Cuide para entender sua mãe; aceitar o que não pode ser mudado e tentar minimamente perdoá-la. Use, entre outras coisas, esta análise textual para isso. Lembre-se de que ela, de certa forma, foi empurrada para esse destino. Lembre-se também de que isso não é desculpa para as maldades dela; assim, se precisar, para ter paz, feche as contas com ela e se afaste. Às vezes, a distância será o único antídoto para esse mau encontro.
6º – Por fim, leitora, ressignifique-se. Veja como está o seu desejo de ser mãe e cuide para não repetir a história da sua mãe. Caso necessário, siga os passos desta análise textual e busque uma análise para compreender ainda melhor o que acontece entre você e sua mãe, ok?
Assim, não deixe de aceitar a sua singularidade/desejo por ninguém (nem mesmo a sua mãe). Parafraseando Clarice Lispector: “Desistir de si mesmo é a única imoralidade existente.” Portanto, siga os passos/compreensão desta análise textual para tentar ser feliz. Levante a cabeça, vá em frente com ou sem a sua mãe. A sua saúde mental agradece!
Observação: no Piauí temos uma profissional de psicanálise, professora da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), especialista e referência em trabalhos culturais/mitológicos: a professora Ana Lúcia Omega. Seus trabalhos podem ser encontrados na biblioteca da Uespi.





