A Coluna Divã, conduzida pelo psicanalista Lamartine Guedes, propõe um espaço de escuta sensível e acolhedora em meio ao ritmo acelerado das notícias e informações cotidianas. Aqui, conflitos familiares, dilemas amorosos e questões pessoais são analisados à luz da psicanálise, sempre com total preservação da identidade de quem decide compartilhar sua história.
Os textos publicados na coluna nascem dos relatos enviados pelos próprios leitores. De maneira sigilosa, essas vivências são transformadas em reflexões que dialogam com experiências universais, ajudando a compreender sentimentos e situações que atravessam a vida de muitas pessoas.
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Relato enviado por um leitor anônimo
Eu conheço uma família aqui da vizinhança que sempre me chamou atenção. É uma família grande, simples, com muitos irmãos. O pai trabalhava como carpinteiro e morreu há muitos anos, ainda relativamente novo. Lembro que, na época, ele era muito presente, estava sempre cuidando das coisas da casa, inclusive fazendo reformas.
Depois que ele faleceu, tudo mudou. A mãe ficou responsável por tudo e acabou se tornando o centro daquela família. As filhas eram bem jovens, deviam ter por volta dos 18 anos, e a partir dali a vida delas foi se organizando muito em torno daquela casa.
Com o tempo, os filhos homens foram casando e saindo. Mas as mulheres ficaram. E ficaram todas. Construíram a vida ali dentro, trabalhando, ajudando no sustento, sempre muito ligadas ao comércio, à luta do dia a dia.
O que mais chama atenção é que elas até tiveram relacionamentos ao longo da vida, mas nunca trouxeram ninguém para dentro de casa. Era como se existisse uma divisão muito clara entre a vida delas fora e aquele espaço familiar. Nenhuma chegou a formar uma família própria ali. Só uma delas teve um filho, já mais tarde.
Hoje, essas mulheres já estão com 40, 50, algumas quase 60 anos, e continuam na mesma casa. Cuidam da mãe, cuidam da rotina, e de certa forma continuam sustentando tudo ali. Existe um vínculo muito forte entre elas, mas também parece haver uma dificuldade de sair, de construir uma vida diferente daquela que foi ficando.
Sempre tive a impressão de que aquela perda lá atrás marcou muito. Como se, de alguma forma, a vida delas tivesse se organizado a partir dali e nunca mais tivesse mudado de verdade.
Queria ouvir uma análise sobre isso. Até que ponto uma perda como essa pode influenciar toda a estrutura de uma família por tantos anos e dificultar que cada pessoa construa sua própria vida?
Análise do psicanalista Lamartine Guedes:
Cara leitora,
Você traz um exemplo clínico raro de como sociedades matriarcais provavelmente nasceram, remetendo às lendas das Amazonas e das Valquírias ou ao governo das rainhas da Inglaterra, por exemplo. Sociedades matriarcais são regimes sociais e econômicos onde os valores e as leis são ditados pelas mulheres.
Aqui, nesta história clínica, podemos observar a passagem do matriarcado para o patriarcado, possibilitando que a mãe, agora chefe da família, influenciasse para que suas filhas mulheres vivessem num clã e tivessem liberdade sexual, no sentido de não precisar casar para fazer sexo livremente e não precisar de um homem para confirmá-la como sujeito.

Para entendermos este fenômeno clínico, remeto você, leitora, a 2 questões antropológicas e psicanalíticas: o patriarcalismo e o matriarcalismo.
Vivemos, atualmente, no mundo patriarcal em função do pai protetor, que nos empresta uma força fálica norteadora que, ao internalizá-la (significante nome do pai), nos favorece/dá impulsos para sermos sujeito e para nos inserirmos/participarmos da cultura/sociedade. O pai (o patriarca) exerce uma função de corte, limite, fronteira, que nos permite, de forma ordenada e equilibrada, raciocinar melhor, nos diferenciar sexualmente e adentrarmos no mundo da cultura, através da linguagem. O papel da função paterna é protetor/organizador do mundo interno e do mundo externo.
Vivências semelhantes aconteceram a partir da mulher e da sua cultura no início da nossa civilização de coleta, onde a mimetização da força procriadora feminina com a força da natureza gerou um sistema de valores matriarcal. O matriarcalismo é um sistema de poder advindo das transcendências das qualidades maternas de conciliação, fusão e cuidado. A função mãe é a função de cuidar, amparar e tem por base o desejo do todo. Ela dá base para um significante fundamental: a liberdade. Veja, a liberdade é um significante linguístico feminino.
Assim, o pai protege, a mãe cuida, e as duas funções, função paterna e função materna, entram em embate. O resultado deste embate, nos tempos atuais, é a castração feminina e a aceitação e o estabelecimento de regras e limites masculinos, que conciliam e equilibram o mundo subjetivo interno e as relações sociais.
O patriarcalismo e/ou o matriarcalismo são funções que imprimem ideais, ideais identificatórios e modelatórios à figura de um pai ou de uma mãe. A mulher, ao gozar de forma singular e diferente, possui um modelo de relações ideatórias diferente (visão de mundo conciliadora) e abre espaços para outros tipos de relação/criação do mundo, libertando a humanidade da racionalidade excessiva e da ganância desenfreada do acúmulo de poder e da competição masculina (machosfera), introduzindo uma nova ordem através do afeto libertário/afeto integração.
Aqui podemos ver os vários motivos de como o ser humano, em sua fragilidade, é o único animal que fica a depender de um líder para ser e viver, necessitando de uma figura de autoridade para organizar suas vivências e controlar seus impulsos.
Freud, em Psicologia das Massas (1921), explora bem isso, onde a fragilidade pessoal (desamparo) une, como estratégia, o pertencer a um grupo e a um líder (substituto dos pais infantis), com o intuito de buscar desenvolver sentimentos de segurança. A natureza humana é cultural, psíquica e, em grande parte, dependente.
O modelo atual, patriarcal, nos colocou no mundo tóxico das várias nações imperiais, demonstrando perigo e ameaça de ruptura do tecido social e ameaçando a democracia; salto civilizatório que dá a possibilidade de vivências compartilhadas e influenciado por um grupo de pensadores de princípio matriarcal.
Apesar de estarmos, aparentemente, em um mundo de maioria democrática, a fragilidade humana regida pelo sistema patriarcal se sobrepõe à razão e à pulsão de vida, trazendo o fenômeno de massa, de colocarmos um pai e suas ideias e ideais de poder e controle para organizar a vida de todos. Este fenômeno de dependência de um líder é sintomático, fascista e pode influenciar na saúde mental, pois entregar-se na “mão do pastor” (como diz a música) leva à alienação de si e do desejo próprio, e uma vida de gado/alienação se aproxima da loucura/paixão da guerra e do controle absoluto.
Entregar a organização da pólis nas mãos de um líder traz a perspectiva da autoridade/fascismo, dependência emocional e a estrutura da dialética: senhor e escravo. Um exemplo bom disto está no Brasil, onde o gado surta por Bolsonaro, e nos Estados Unidos, onde os zumbis surtam por Trump, líderes que promovem algazarra e a desestabilização social e mental.

Veja, quando não assumimos e colocamos nas mãos dos outros o nosso destino, transferindo para um líder este papel, corremos o risco de perder nossa liberdade, o nosso sentido de Eu e nossa saúde mental. Por isto, a democracia, que quer dizer governo do povo, é a única saída para uma sociedade desescravizada e libertatória.
Bom, aproveito e dou agora exemplos de como o fenômeno de seguir um líder é adoecedor e do seu poder de transformar seguidores em zumbis que vivem o desejo do líder cegamente. Assim, a título de exemplo, podemos dizer que cada povo tem o líder/pai que merece e que estes líderes engendraram em seus cidadãos seus traumas ou sua saúde mental. O problema é quando este líder é adoecido, como no caso de Putin, que engendra no povo russo o sentimento de máfia/guerra; de Trump, o dono do mundo (psicopatia/megalomanias); ou até Bolsonaro, que engendrou em alguns a sensação de loucura e confusão mental. (É hilário perceber quem acredita, entre outros delírios, em ETs e discos voadores chegando para tentar ajudá-lo a dar o golpe de Estado).

A função paterna (lei) x função materna (liberdade), quando bem conciliadas, levam a dois significantes fundamentais: a paz e a liberdade. Lembra, leitor/a, do símbolo da paz: um pombo branco com um raminho, que significa que o dilúvio/tormenta passou e que a paz chegou?
Assim, cara leitora, é a partir deste ponto bíblico que centro a elaboração principal da sua questão clínica inicial; o aparecimento do matriarcalismo e do clã feminino na família da sua vizinha e sua explicação. Observe que esta família teve um patriarca, carpinteiro, inclusive que lembra o mito de São José, carpinteiro também, protetor de Jesus/Maria. Este pai cumpria com excelência a função de proteger/cortar a função materna (cuidar/unir).
Assim, a família funcionava bem, onde todos os papéis eram atuados e as separações e a lei eram assumidas, exemplo de família feliz. A continuar assim, os filhos seguiriam rumos patriarcais e a castração/limite iria fazer com que os homens e mulheres internalizassem uma força fálica direcionada para manutenção do sistema patriarcal: casar, ter filhos e viver, socialmente, regras rígidas morais machistas que frequentemente levam a sintomas graves, como abuso infantil e feminicídio, se não forem balanceadas pela força fálica feminina (matriarcal).
Bom enfatizar que este pai/cortador/influenciador gera internalizações diferentes nos filhos. Para os homens é dada a liberdade, principalmente sexual, e para as mulheres, a reclusão sexual e a subserviência.

Acontece, leitora, que o que se observou no caso clínico por você trazido foi a morte do pai e, com ela, a assunção da mãe e sua lei/função conciliadora. Aqui, literalmente, as funções se sobrepuseram e as mulheres da família ficaram regidas por uma lei menos rígida e não tradicional, o que permitiu às mesmas renunciarem seu destino sexual fálico/castrador de casar e ter filho e poder viver um mundo matriarcal, onde estas poderiam ter um gozo a mais, diferente, libertador: o de poder exercer a sexualidade e construir um clã, um elo de amparo, uma confraria, onde todas se sentem livres, senhoras do próprio destino.
A mulher não se submete totalmente à lógica rígida da castração/leis masculinas. Ela tem um gozo não todo fálico, da ordem da liberdade de se dizer, uma a uma, como quer gozar e da ordem de se reinventar sexualmente, psiquicamente e socialmente.
O significante não todo fálico da mulher quer dizer que as possibilidades dela de gozo vão muito além da sexualidade, e isto é revolucionário, pois a mulher se reinventa e pode ser base para também reinventar o mundo para além do gozo patriarcal: sexo, poder e posse. A mulher, no mundo atual, e seu psiquismo inovador, vira ferramenta necessária e precisa para mudança afetiva/efetiva do mundo e propõe uma revolução pelo afeto, em outras palavras, uma revolução ligada ao natural, respeitando as diferenças e as forças da natureza (revolução integrativa).
Seu caso clínico me fez lembrar, leitora, da dona Lindu, mãe do Lula, nosso presidente, senhora do próprio destino. Em resumo, a mãe de Lula, nordestina e pobre, cheia de filhos para criar, desiste do marido fraco e assume a função fálica. Migra com os filhos para o Sul e transmite força fálica para que estes possam conciliar poder e liberdade de ser, gerando filhos pró-ativos socialmente, dentre eles, um operário que chegou à presidência.

Olha só como a mescla do falo masculino e feminino dá resultados; em síntese, o que se retém é a possibilidade de lei mais humana e a convivência entre opostos: poder e justiça, masculino e feminino, ricos e pobres, ficam suavizados em rica ambivalência.
Aqui reside a força do presidente, também chamado pai dos pobres, e das filhas deste casal, que, como Lula, experienciaram a passagem do patriarcalismo para o matriarcalismo, gerando sujeitos com sentimentos de poder/força pessoal regidos por valores de justiça, igualdade, liberdade e fraternidade.
Chico César, em uma música que traduz a força matriarcal/patriarcal do Nordeste: “A força que nunca seca”. A música fala do Nordeste matriarcal, conduzido pelas mulheres (aqui representadas pela mulher com uma lata d’água na cabeça), região penalizada pela retirada do pai na seca e a assunção da mãe como matriarca, que impulsiona, em detrimento de muitas mortes e vidas severinas, a superação da seca, da fome e da miséria.
Como vê, leitora, a sobreposição/união do patriarcado (masculino/feminino) com o matriarcado possibilita superações inimagináveis, onde se poderia pensar que uma mãe pobre, chamada Lindu (Eurídice Ferreira de Mello), geraria um dos mais ativos presidentes do Brasil, presidente de um país tão elitista e preconceituoso aos pobres. Não devemos esquecer que Lula faz o L, L de Lindu, e que a força do seu nome pega emprestado a força da mãe dele. Estamos no paraíso da linguagem, onde um L feminino faz um presidente.
Dessa forma, só a junção de duas forças complementares causaria isto: o significante nome do pai e o significante fálico da mãe possibilitam que a vida surja como uma força cega que nunca seca. (Parodiando a música do Chico), força advinda da conciliação da função paterna (justiça) com a função materna (liberdade).
Estas forças equilibradas levaram um pobre a ser presidente do Brasil e as mulheres do caso clínico a vivenciarem sua sexualidade sem o crivo excessivo do patriarcado, sem precisar casar. A coexistência destas duas funções/forças permite trocas/construções psicossociais diferentes de realização dos desejos inconscientes, para além das normas rígidas impostas pelo patriarcalismo do nosso tempo.
Sexualidade, para a psicanálise, é tudo aquilo que dê prazer e afaste o desprazer. Assim, a possibilidade de inserir o matriarcalismo/função materna no campo político/social, trazida pela psicanálise e pelos tempos modernos, foi vital para romper com a moral/sexual cristã do sexo só para reprodução e do controle dos corpos para a produção. A psicanálise aponta para a necessidade de trazer a “liberdade” feminina de ser sujeito (não só sexual) e habitar seu corpo e seu desejo de forma mais livre da norma masculina, apresentando uma perspectiva moderna de conciliação e continuidade com o pessoal, o social e a natureza, que é necessária e precisa para barrar a destruição engendrada pelo modo masculino/patriarcal de conduzir o mundo.
Espero, cara leitora curiosa, que a explicação de como essas mulheres do caso clínico vivem e de como a dona Lindu viveu a sua sexualidade e a sua liberdade faça você refletir e te ajude (e aos leitores desta coluna) a superar os entraves de repressão e moralismo machistas em excesso a que todos estamos submetidos, principalmente do fascismo cínico da extrema direita, que quer justificar novamente o retorno do imperialismo, da desigualdade, da escravização, da injustiça, da fome e da guerra.





