Divã – Solidão é fera, solidão devora: por que o destino do homem é o amor?

A Coluna Divã, conduzida pelo psicanalista Lamartine Guedes, propõe um espaço de escuta sensível e acolhedora em meio ao ritmo acelerado das notícias e informações cotidianas. Aqui, conflitos familiares, dilemas amorosos e questões pessoais são analisados à luz da psicanálise, sempre com total preservação da identidade de quem decide compartilhar sua história.

Os textos publicados na coluna nascem dos relatos enviados pelos próprios leitores. De maneira sigilosa, essas vivências são transformadas em reflexões que dialogam com experiências universais, ajudando a compreender sentimentos e situações que atravessam a vida de muitas pessoas.

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Relato enviado por um leitor anônimo

Tenho sentido que faço parte do grupo, talvez das milhares de pessoas, que sofrem com a solidão.

Dias atrás, conversava com uma amiga sobre a solidão de quem vive sozinho. Lembrei dos relatos da minha avó, que constantemente reivindica a presença dos filhos para que não a deixem só. Uma idosa que mora sozinha e que, mais do que companhia, parece pedir testemunho da própria existência.

Percebo que a solidão se manifesta de muitas formas sutis: à noite, quando sentimos falta de alguém ao lado para dormir; quando ligamos a televisão apenas para que o silêncio não nos engula; quando sentimos necessidade de ver alguém, encontrar alguém, porque conviver com os próprios vazios se torna exaustivo.

Ao mesmo tempo, observo mulheres que se submetem a relacionamentos falidos, com homens de quem nem gostam tanto assim, relações conflituosas e, por vezes, desrespeitosas, apenas para sustentar um status social e interno de “ter alguém”. Como se a validação do outro fosse um antídoto contra o medo de ficar só. Muitas acabam sucumbindo ao peso do olhar social para as mulheres solteiras, das críticas e da passagem do tempo.

Como diferenciar o desejo genuíno de compartilhar a vida de alguém da necessidade angustiada de preencher um vazio? Como sustentar a própria companhia sem que isso se torne um fardo?

Análise do psicanalista Lamartine Guedes: 

Cara leitora, você me lembra da canção de Jair Rodrigues (1971), Bloco da Solidão. Você participa da estatística moderna do bloco da solidão, considerada uma “epidemia silenciosa” e a maior ameaça global à saúde pública da atualidade no mundo. Vamos explorar, durante todo este texto, essa música e sua letra que, no início da canção, fala e resume sua questão: “Angústia, solidão, um triste adeus em cada mão, lá vai meu bloco, vai só deste jeito que ele sai.”

Assim, leitora do bloco da solidão, sentiu no peito alguma identificação?

A definição de solidão é importante e tem relação com a dor psíquica e emocional advinda de uma sensação de que estou só (desamparado), mesmo acompanhado. O que representa melhor esta dor é o famoso vazio existencial. Como diz outra música moderna, de Alceu Valença (1984): “Solidão é fera, solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo”, e faz nossos relógios caminharem lento e o coração descompassar e descompensar.

Pesquisas revelam que 1/4 da população do mundo se sente muito ou bastante solitária e, pasmem, a solidão acomete estatisticamente mais jovens do que idosos e é responsável diretamente por 100 mortes por hora no mundo. Seria este fenômeno gigantesco e anti-humano a prova de que a civilização fracassou? Tentaremos, leitora, dar resposta a esta questão, implicitamente colocada por você.

Este tema é tocante e faz lembrar o livro “Por quem os sinos dobram?” (Hemingway), no qual Maria, a personagem feminina principal, após sofrer grandes abusos de guerra (assassinato dos pais e estupro) e encontrar-se sozinha, com um grande desespero, busca encontrar sentido para continuar vivendo no amor que seu namorado devotou a ela. Guarde, leitora, a analogia do título deste livro com a questão da solidão, tema do seu caso clínico, pois será explicada mais à frente.

Mas como e por que a solidão virou epidemia? Remeterei você, leitora, a duas épocas distintas: o mundo medieval (antigo) e o mundo capitalista de hoje.

No mundo medieval havia transcendência por Deus, fé na humanidade e senso de amparo coletivo e social. Este mundo fica sintetizado no lema dos três mosqueteiros, na obra de Alexandre Dumas: “Um por todos e todos por um.” Era o mundo do escambo, da feira livre, da corporação de ofício, onde um artesão produzia sua arte e vendia na comunidade; as casas não tinham os quartos modernos de hoje, e sim grandes espaços coletivos; havia mais caridade e senso de comunidade.

Pois bem, Maria (vou lhe chamar assim, leitora, para fazer alusão à heroína do livro de Hemingway: “Por quem os sinos dobram?”), aquele mundo mudou com a evolução do capitalismo desde 1500. O discurso do capital engendrou o modelo social mais cínico e egoísta, onde a lógica “você S/A” (você empresa de si mesmo), da subjetividade individual e não coletiva, é a que permanece, e o sujeito é levado ao individualismo máximo, enquanto a competição entra em cena. Neste mundo, o Deus cristão é trocado pelo deus dinheiro, e os grupos se individualizam para enfrentarem outros grupos, e não para decidirem sobre o bem da humanidade (narcisismo das pequenas diferenças).

A partir de agora, o sujeito é responsável, sozinho, por sua sobrevivência, num reatualizar do darwinismo social e da força individual narcísica constante. De agora em diante, cada um é super-herói de si mesmo, provedor de si mesmo. O lema muda: “cada um por si e Deus por todos”, mas, como Deus morreu (como bradou Nietzsche), o lema fica restrito a: “cada um por si e salve-se quem puder”.

Assim, cara Maria, vivemos, como dizia Freud, no narcisismo exacerbado, onde o homem é levado a achar que, para sobreviver, tem que lutar sozinho e que é normal ser só. Lembra da letra da música de Tom Jobim: “Eu preciso aprender a ser só”? Bem-vindo ao mundo moderno, que incentiva e enaltece a solidão.

Freud já dizia, Maria, que o mundo moderno vai na contramão da saúde mental e exige do homem uma condição de ser de “aço”, impossível de cumprir. Não temos condição de ser super-homem ou super-mulher; somos seres coletivos, humanos, e este super “eu”, que dá conta de tudo só, só existe no imaginário heroico criado para fins de incentivar sermos assim. Não é à toa que a lenda do super-homem nasce nos Estados Unidos (país narcísico e imperialista).

Já vimos até aqui que este mundo, engendrado pelo discurso do capitalista, criou o sujeito narcísico e competidor, sujeito cuja a essência é o egoísmo e a falta de sentido, sujeito perdido quando não se opera mais com o coletivo, e sim com os objetos. Seguindo os ritmos da ideologia capitalista, o que traz felicidade hoje, Maria, não é mais as amizades, amor e fraternidade, e sim o acúmulo de dinheiro e as relações utilitaristas de objeto.

Desta forma ilusória, a humanidade se desumaniza sob a foice brutal da morte: a fome e a guerra. Na psicanálise, dizemos que o pulsão de morte está avançando, dominando e tentando destruir a pulsão de vida, representada pela paz mundial. Como consequência disto, o discurso capitalista (do capital) engendrou o eco do discurso histérico das pessoas, adoecidas da falta de confiança no outro, adoecidas da falta de amor. Freud já dizia que o mundo moderno vai de encontro à saúde mental e joga o sujeito no limbo da alienação e adoecimento psíquico.

Mas que mundo vazio é este, tão falado, Maria?

É o mundo habitado por sujeitos narcisistas, mundo da objetificação das coisas e das pessoas, mundo onde a confiança em Deus e nas pessoas minguarem. O mundo narcísico é o mundo da competição desenfreada da posse dos objetos: emprego, casa, carro, pessoas, joias etc. Bens materiais que são ideologicamente veiculados como essenciais para a sobrevivência do indivíduo. Aqui está o X da questão: esta forma de vida objetificadora é realmente necessária para a sobrevivência pessoal/física ou é mas um veneno/desafio para a sobrevivência psíquica/emocional do sujeito, nos colocando na era do adoecimento mental?

Aliado a isto, vemos o mundo patriarcal (capitalista) produzir o machismo e, junto com ele, a lógica do amor de prateleira. Atualmente, o medo da solidão e das suas vidas vazias é o que fazem os homens quererem colocar as mulheres no lugar de objeto e posse; não há negociação nisto. As relações atuais são relações de utilidade, onde o amor só vai até o limite de uso. Pergunte-se, Maria, para a maioria das suas relações vividas, onde está o amor quando você não está mais sendo útil?

No plano pessoal/sexual/subjetivo, é bem delicado saber que a saúde mental depende de outros sujeitos narcísicos, sujeitos cada vez mais alienados, gados e zumbis modernos (fechados em propósitos próprios de egoísmo, competição e lucratividade). Vivemos no mundo do vale que tem (lembra do bairro de Teresina que homenageia este tipo de relação/vivência?).

Maria, você coloca o seu estado solitário em que se encontra e o vazio que este estilo de vida lhe trouxe. A relação de objeto e de uso mútuo vai, inevitavelmente, fracassar. Freud vai dizer: sexo e amor precisam vir juntos e que a maioria das pessoas não vão conseguir se relacionar neste parâmetro. Para ele, é necessário se comprometer com a felicidade autentica e humana: onde sexo e amor não tenha conotação utilitarista. Esta felicidade passa por estes pontos:


1. Ser autêntico e não se deixar viver como “ma(io)ria vai com as outras” (não virar gado ou zumbi);
2. Lutar para ter não só seu direito de cidadão preservado, mas também para ter seus DESEJOS preservados;
3. Buscar dar chance ao amor e à felicidade conjugal; isto implica em arriscar se relacionar, ousar confiar e querer crescer com o outro. Correr riscos é a única forma de saber se uma relação vai dar certo;
4. Buscar amar e ser amado, por mais estranho que pareça nos dias atuais, é a única saída;
5. Quebrar o discurso alienante capitalista de que ser só é melhor que ser junto;
6. Perceber que somos seres de relação e que é preciso quebrar o excesso de narcisismo, exercitando o amor e a vontade de estar junto ao outro com sua diferença;
7. Se envolver em um projeto sublimatório.

Mas, infelizmente, Maria, o que se vê é um mundo difícil, duro, árido, onde o amor e a sua demonstração é tido como sinal de fragilidade/fraqueza e sofre preconceito. Voltando ao bloco de solidão, bloco do amor utilitarista, a música do Jair Rodrigues tem uma Maria que leva o estandarte de um amor não narcísico como se fosse uma alegoria carnavalesca impossível de acontecer no resto das semanas ou meses que sucedem o carnaval: “…Levo o estandarte de um amor, amor que se perdeu no carnaval. Lá vai meu carnaval e lá vou eu também, mais uma vez, sem ter ninguém, no sábado, domingo, segunda e terça-feira, e no ano inteiro é sempre assim…”

Em síntese, o que vivemos é o seguinte, Maria: o mundo é regido pelo discurso do capital; discurso onde ter vale mais que ser (olha o que aconteceu na Palestina); para “sobreviver” (luxar?), as pessoas trocam amor por utilidade; estes fatos reforçam o narcisismo e o machismo patriarcal, criando um abismo entre homem e mulher e entre guerra e paz.

Preste atenção, Maria, se já não estamos vivendo a 3ª guerra mundial e se já não vivemos em tempo de brigas, chamado por Freud de disputa narcisistas das pequenas diferenças. É tanto grupo que se une não por amor à causa/humanidade, mas para duelar em causa própria: o grupo dos machistas, dos LGBTQIA+, das feministas, dos centros, de direita, de esquerda etc… todos com uma característica comum: buscar o seu próprio bem. Claro que aqui tem a base da busca de sublimação, quando a causa do grupo não se limita a seus problemas e há, efetivamente, quebra do narcisismo.

Veja, Maria, a solidão é um sentimento pessoal regado pelos tempos modernos, no modo de relação narcisistas, onde o amor é substituído pelo utilitarismo e o outro é reduzido à categoria de objeto. Para pôr fim à sua solidão, é necessário trabalhar este vazio existencial/emocional que plantaram em você, e aconselho buscar ajuda profissional de um analista para isto, além de tentar restabelecer conexões emocionais com você, seu parceiro, sua cidade/comunidade em que vive (veja lá as pontuações que coloco no meio deste texto).

Apesar da dificuldade do encontro e da crise do masculino e do feminino, Maria, é essencial buscar amar e se relacionar. Aliás, Judith Forest, no seu livro “Casamento para sempre”, diz que o casamento e o encontro íntimo e de escuta que este engendra ainda está em voga hoje em dia, pois é uma das poucas possibilidades do ser humano moderno se colocar numa posição de quebra de narcisismo e amadurecer.

Dessa forma, voltando ao livro “Por quem os sinos dobram”, vou falar desta necessidade humana de quebra do narcisismo através de Maria, personagem central do livro. O livro é um clássico de redenção e quebra narcísica por amor. Assim, temos a seguinte situação: Maria mora com a família em uma cidade do interior da Espanha que é atacada por fascistas na guerra espanhola. Sua família é morta e ela é estuprada. Na vila, um rapaz chamado Robert Jordan lidera a resistência aos fascistas que atacam a cidade e se apaixona por Maria, e Maria por ele.

Em meio à guerra e à dor irracional causada por ela, Maria se apega ao presente e ao que sobrou: o amor pelo seu namorado, e junta-se a ele no plano de salvar a cidade (dos que sobreviveram).

Assim, Roberto Jordan derruba a ponte que dá acesso à vila, impedindo os fascistas de massacrarem o vilarejo, mas, devido à dificuldade da tarefa, este perde a vida na explosão. Ele morre por amor a Maria e à comunidade (para salvá-los).

Isto é amor.

Com a morte de Roberto Jordan, os sinos da cidade dobraram mais uma vez, e o prefeito da cidade homenageia Roberto Jordan através de um discurso. O exemplo, a coragem e amor de Roberto Jordan dão força e sentido para Maria continuar sobrevivendo a mais uma tragédia.

Nesta passagem do livro, Hemingway mais uma vez mostra que o caminho da salvação da humanidade vem pela quebra do narcisismo e a instalação do amor no seu lugar. A verdadeira morte vem/existe quando nos desumanizamos e deixamos de agir para o bem do outro/grupo. Os sinos, quando lamentam, dobram, batem por Roberto Jordan e também anunciam a morte de cada um de nós quando o que nos faz humano (amor) começa a desaparecer, lembrando que corremos o risco de desaparecermos enquanto humanidade.

E você, Maria leitora, por quem seus sinos dobram? Por quem você está disposta a sacrificar, amar e construir um futuro oposto ao narcisismo, à solidão, ao vazio existencial que os tempos atuais engendram?

Aliás, Maria, quais são os seus planos (pessoais e comunitários) sublimatórios para sair da solidão?

Lembre-se: já dizia Freud, a tarefa de busca de felicidade é pessoal e intransferível e carece da quebra das alienações sociais e da busca do verdadeiro sentido pra vida: amar o próximo. Quem ama o próximo, autenticamente, preenche o seu vazio interior e não se sente sozinho.

Importante pontuar que Hemingway, neste romance, parodia a história de Jesus, que tem também como personagem principal uma Maria, e é nele que ele faz um discurso tocante, uma obra-prima textual que aponta, no título, tudo que tentamos sintetizar nestas elaborações: “NENHUM HOMEM É UMA ILHA.”

Lamartine Guedes

Lamartine Guedes é psicólogo/psicanalista/ clínico, especialista, mestre e doutor em psicanalise pela Unifor. Professor da Uespi e vice-coordenador do Corpo Freudiano.
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