A definição de “super-rico” é ampla, mas o conceito é de fácil compreensão. Imagine piauienses dispostos a pagar milhões em casas de veraneio em outros estados e um mercado de incorporadoras atento e afinado. Já é realidade. Segundo especialistas ouvidos pela Ápice, o avanço de empresas que vêm de outros mercados em busca dos consumidores do Piauí está na percepção de confiabilidade. O mercado piauiense vai reagir? Como fica a concorrência e o consumidor ? A edição dessa semana aborda o comportamento de consumo de alto padrão e os reflexos desse intercâmbio de mercados entre os dois estados.
Na última semana, aconteceu na zona Leste de Teresina um evento entre representantes imobiliários do Piauí, promovido por uma incorporadora cearense, a BSPAR. O público: integrantes do mercado imobiliário de luxo, empresários, representantes institucionais, além de proprietários de imóveis/terrenos com elevado valor de mercado. Um termômetro para medir o “potencial” do público piauiense, em meio ao networking e a apresentação de empreendimentos.
“O mercado piauiense é um mercado promissor, um exemplo disso é Construtora Mota Machado, empresa cearense que vendeu 100% de suas unidades de alto padrão meses antes da entrega. Temos uma valorização expressiva em destinos específicos do Piauí, como Barra Grande, onde possui imóveis valorizando até 900% nos últimos 8 anos. Temos o Alphaville que já está indo para o seu 5° lançamento de alto padrão com 100% das unidades vendidas”, analisou Lucas Matos, corretor imobiliário há quase vinte anos e diretor comercial da Imobiliária Evaldo Matos.

“CONSTRUTORAS PIAUIENSES LANÇARAM NEGÓCIOS QUE NÃO CONSEGUIRAM ENTREGAR”
Os consumidores piauienses têm se mostrado um público altamente atrativo não apenas para negócios no Ceará, mas também para empreendimentos feitos no próprio Piauí por empresas de fora do estado. A exploração desse mercado passa pelo fortalecimento da presença local, entendimento das preferências e necessidades do consumidor e pela construção de relacionamentos duradouros.
“Aqui no Piauí, algumas construtoras passaram por dificuldades, lançaram imóveis e não conseguiram entregar para a população. Isso causou uma certa rejeição para muitos nomes famosos da cidade e do estado como um todo. Então, o Ceará conseguiu ganhar esse mercado principalmente na questão de garantia”, avaliou Marcelo Rebelo, presidente da Comissão de Direito Imobiliário da OAB-PI e proprietário da Imobe Imobiliária.

COMO O PIAUÍ É VISTO
Teresina é considerada a segunda melhor capital do Nordeste em qualidade de vida, atrás apenas de João Pessoa (PB), segundo levantamento do Instituto Imazon. O mercado local é visto como composto por um público relativamente estável para o mercado de luxo. Parte dessa solidez vem do perfil empreendedor dos piauienses, cujos negócios muitas vezes têm como principais financiadores e pagadores da região vindos de iniciativas públicas. Além disso, as famílias tradicionais de grande patrimônio do estado exercem forte influência, garantindo uma base sólida para o mercado imobiliário e de negócios, tornando-o confiável para incorporadoras e investidores que buscam segurança e previsibilidade.
“Além da performance das construtoras de fora, que entregam imóveis com acabamento melhor, elas conseguem, pelo poder aquisitivo, oferecer empreendimentos em locais de melhor acesso e de maior valorização imobiliária. É claro que essas vantagens também encareceram o produto, mas trouxeram maior garantia para os consumidores. Teresina vem crescendo cada vez mais nesse modelo de casas e condomínios, e as construtoras do Ceará estão liderando esse movimento. Essa conexão é fruto justamente desse intercâmbio que se fortaleceu desde a pandemia. Hoje, os principais nichos imobiliários mais requisitados são de construtoras cearenses. De forma geral, acredito que, para o piauiense, o Ceará é visto como lazer, descanso. Já para o cearense, o Piauí é visto como uma oportunidade de investimento”, pontuou o empresário Marcelo Rebelo.
BSPAR VAI CONSTRUIR NO PIAUÍ?
A BSPAR é um grupo empresarial cearense com atuação destacada no setor imobiliário, reconhecido por empreendimentos de alto padrão e soluções financeiras. O grupo é presidido pelo empresário Beto Studart.

“Teresina sempre tem sido uma cidade próxima, eu diria até em termos de relacionamentos pessoais e profissionais. É uma cidade que a gente está perto, sempre escuta. A BSPar, através de outras empresas do grupo, acabou tendo uma atuação, um trabalho comercial em Teresina. Um público de bom gosto, qualificado em termos de renda e estabilidade. Essa foi a motivação: um conjunto de pessoas interessadas, que nos falaram, nos mostraram, reconheceram Teresina como um bom mercado e como um público que também gosta de Fortaleza. Nos receberam de braços abertos, tanto as imobiliárias como os empresários locais e proprietários de terrenos. Foi bem impressionante”, narrou o superintendente de negócios da BSPar, Fábio Albuquerque, ao Boletim Brio.

O Piauí segue despertando interesse de grandes investidores do Nordeste, que apostam numa tendência de crescimento e nas oportunidades do mercado local.
“Como eu disse, a gente olha o Piauí há muito tempo com bons olhos. A visita que fizemos foi muito agregadora. Sem dúvida, vamos estar atentos às oportunidades. Fizemos muitos contatos e estamos analisando alguns projetos. Ainda não temos nada fechado, nenhum terreno adquirido, mas recebemos propostas e estamos aprofundando os estudos. Se formos atuar, será com o mesmo padrão de qualidade e solidez que entregamos no Ceará”, declarou Fábio Albuquerque.
PIAUIENSES QUEREM MORAR EM LOCAIS MAIS AFASTADOS PÓS-PANDEMIA
Seguindo uma tendência observada no mercado nacional pós-pandemia, os piauienses passaram a demonstrar maior interesse por moradias em áreas mais afastadas dos centros urbanos, mais próximas da natureza, e por opções que ofereçam maior conforto e qualidade de vida. Esse novo jeito de consumir também elevou as exigências em relação a investimentos em infraestrutura, tecnologia e projetos arquitetônicos diferenciados por parte do mercado imobiliário.
“Nos últimos anos houve uma valorização e sofisticação crescentes nos imóveis de alto padrão. Foram lançados empreendimentos classe A com espaços amplos, acabamentos sofisticados e tecnologias modernas ( como automação e interatividade) e o mercado abraçou adquirindo quase 100% de todas as unidades disponíveis. No 4° trimestre de 2024, o mercado piauiense registrou uma alta de 39% no Índice de Velocidade de Vendas, acima da média nacional que foi 20% quando comparado no mesmo período. Então vejo o alto padrão piauiense como um publico exigente, informado e disposto a investir em luxo e conforto”, mencionou o corretor imobiliário Lucas Matos.
O QUE MUDOU NAS CONSTRUÇÕES
O avanço do home office acelerou a busca por imóveis mais adaptados, tanto compactos quanto de maior metragem, que oferecessem funcionalidade no dia a dia. Paralelamente, cresceu a procura por loteamentos e residências com áreas privativas, como churrasqueira e piscina, refletindo o desejo por mais conforto e autonomia. No mesmo movimento, o crescimento dos serviços de entrega levou incorporadoras a repensarem seus projetos, incluindo espaços como delivery rooms, pensados para receber encomendas com segurança e praticidade.
“Não é que o cliente deixou de querer apartamento ou espaços amplos, mas criou-se uma nova tendência: alguns clientes preferem morar mais longe, porque conseguem conciliar trabalho remoto e home office. Não só os funcionários, mas até os empresários. Hoje, muitos dizem: ‘Sexta eu trabalho em casa, segunda de manhã fico em casa, quarta à tarde também’. Antes, isso era menos permitido. Essa tecnologia de trabalho online — Teams, Zoom, Google Meet — veio para ficar. Tudo isso mudou o setor. Então, adaptamos os empreendimentos com delivery room, conectividade, coworking e também produtos de praia. Antes, eram vistos só para veraneio; hoje, muita gente opta por comprar para morar”, frisou o superintendente de negócios da BSPar.

COMPETITIVIDADE
A leitura sobre o futuro do mercado de imóveis de luxo em Teresina é otimista, sobretudo quando se fala em valorização dos bairros e empreendimentos considerados nobres. As incorporadoras já identificaram esse movimento e devem apostar em inovação para se manterem competitivas.
Já no campo dos investimentos, a busca por diferenciação, no entanto, leva investidores a diversificarem seu portfólio e buscarem apostar em mercados com atrativos distintos. Ainda que a decisão de entrar em outros mercados exija maior preparo e análise criteriosa.
“A entrada em mercados externos exige avaliação de riscos, análises de regulamentações e liquidez, o que acaba por demandar uma maior maturidade e assessoria. Nesse momento, com a robustez do mercado piauiense, sugerindo uma forte confiança em nosso território, especialmente em bairros mais valorizados, creio que há uma preferência pelo mercado local. Todavia, como eu falei antes, a valorização e liquidez em praças mais consolidadas fora do Piauí pode levar oportunidades de investir fora”, ponderou Lucas Matos.
HORIZONTES
Quando se trata de investimento em imóveis, não basta apenas o prestígio da marca: é preciso construir confiança de longo prazo com os novos públicos consumidores. Incorporadoras e construtoras não vendem somente móveis, mas precisam passar durante todo o processo de compra a segurança na entrega.
De um lado, os cearenses enxergam o Piauí como um mercado estável e promissor; de outro, os piauienses reconhecem nos vizinhos diferenciais de credibilidade, luxo e atrativos urbanos, como os que Fortaleza oferece. A concorrência, portanto, já existe e tende a se intensificar, impulsionada pelo crescimento de um público consumidor de alto padrão cada vez mais abrangente no estado.
O desafio é equilibrar forças: os cearenses têm mais capital para investir e transmitir segurança? Enquanto aos piauienses cabe os próprios diferenciais do mercado local e do relacionamento de longo prazo com seus próprios investidores? Nesse jogo entre confiança e capital, se constrói o futuro do setor. Veremos.



