Kassio Gomes: “Salipi ajuda a tirar pessoas do isolamento cultural”, uma curadoria de viagens pelo mundo por Celso Barros e a trajetória empreendedora de Rennata Paolla

O que torna o Salão do Livro do Piauí (SaLiPi), que chegou a sua 24ª edição este ano, verdadeiramente relevante? A sua capacidade de atrair e engajar um público diversificado. Os corredores lotados, mesmo em dias de semana, com piauienses de todas as idades. A presença de crianças das escolas estaduais, visitando os estandes e interagindo com o universo literário, e com incentivos públicos adquirindo seus próprios livros, ainda que o fomento a eventos dessa magnitude possa ser um desafio, e talvez careça de mais investimentos quando comparado a outros estados brasileiros.

Dentre as melhores promoções, você leva três livros por R$50. Ou um por R$20. A oportunidade de lançamentos e divulgações por autorais locais é das melhores qualidades do evento. É nesse palco que as lendas, as histórias, a memória e a cultura se materializam, ganhando voz e forma, e se perpetuando através das gerações, um reconhecimento da riqueza imaterial que nos define como povo piauiense. A consolidação do SaLiPi também traz desafios que merecem ser observados. Em algumas das atrações mais aguardadas, especialmente quando escritores de grande projeção nacional participam da programação, o Cine Teatro da UFPI frequentemente atinge sua capacidade máxima, fazendo com que parte do público fique do lado de fora sem conseguir acompanhar as atividades. Cabe a sugestão sobre a necessidade de ampliar os espaços ou buscar alternativas que permitam acolher um número maior de participantes. 

Realizado de 5 a 14 de junho no Espaço Rosa dos Ventos, na UFPI, reuniu alguns dos principais nomes da literatura e do jornalismo brasileiro. Entre os destaques estiveram Itamar Vieira Júnior, Martha Medeiros, Jeferson Tenório, Djamila Ribeiro, Raphael Montes, Fernando Morais, Jamil Chade, Socorro Acioli, Carina Rissi, Bárbara Carine e Geraldo Carneiro.

É preciso conhecer a arte e a literatura para que se possa se orgulhar. À frente dessa construção está Kássio Gomes, presidente da Fundação Quixote e uma das figuras mais ligadas à trajetória e ao crescimento do SaLiPi. Nesta entrevista ao Boletim Brio, Kássio reflete sobre os avanços da literatura no Piauí, os desafios para a formação de leitores, o impacto social do SaLiPi e o papel da cultura como ferramenta de transformação. Uma conversa que ajuda a compreender por que o maior evento literário do Estado se tornou também um dos seus mais importantes patrimônios culturais, um espaço que se inscreve na memória afetiva e intelectual de gerações.

Boletim Brio: Qual o grande diferencial desta edição do SALIPI em relação às anteriores?

Kássio Gomes: O SaLiPi é um evento que procura se reinventar a cada nova edição. Esta, por exemplo, trouxe, além dos espaços já cativos, como Arena Cordel, Arena SaLiPinho, Estação Letras e Expressões, Seminário Língua Viva, Curso de Escrita Literária, Palco Marcus Peixoto, Praça e Café Assis Brasil, um Encontro de Clubes de Leitura. A ideia é que esse Encontro passe a ser uma programação permanente do evento. Temos hoje muitos clubes de leitura que transitam do digital para o analógico, fazendo um caminho inverso, ou uma via de mão dupla, entre o meio digital e o físico.

Boletim Brio: Em que momento o Piauí vive, do ponto de vista literário? O que avançou concretamente na cena literária piauiense nos últimos anos, e o que ainda precisa avançar?

Kássio Gomes: Vivemos a época da literatura contemporânea. Isso não anula, muito pelo contrário, engrandece os períodos anteriores. De um modo bem didático, a partir da revolução cultural promovida pela Semana de Arte Moderna, em 1922, o Brasil e, consequentemente, o Piauí vivem um momento de novas escritas, com foco primordialmente na escrita feminina/feminista, escrita ancestral e de gênero, fortalecendo e ampliando vozes que eram silenciadas.

Não é à toa que o SaLiPi tem sido um desses espaços de ampliação e amplificação dessas vozes tão importantes, mas que foram, ou pelo menos se tentou deixar, no silêncio, ainda que suas resistências estivessem sempre ali abrindo caminhos. Foi assim com Nego Bispo, Sueli Rodrigues, para citar ao menos dois. O SaLiPi, nesse sentido, abriu um espaço de viabilidade para a literatura piauiense e abriu uma oportunidade para a troca de experiências com o restante do Brasil e do mundo.

Boletim Brio: Como avalia a autoestima literária do piauiense? O autor daqui acredita na força do que produz, ou ainda carrega uma relação de subestimação com a própria obra?

Kássio Gomes: O autor não. Penso que há ainda uma lacuna estatal capaz de promover, de maneira mais significativa, a produção literária e cultural do Piauí. No caso da literatura, em especial, pois é difícil convencer alguém a patrocinar um evento literário, um livro. É mais fácil convencer para uma festa de uma hora do que para um evento que tem duração de dez dias, com programação das 9h às 22h, em torno do livro e da leitura. Mas nós provamos, nesses 24 anos, que é possível. O legado de um evento como esse será sempre maior que o de uma festa de uma ou duas horas. Então, o que talvez desmotive um pouco os escritores seja esse tímido incentivo a um produto que leva tempo, talvez gerações, para ser consumido e entendido.

As pessoas querem resultado imediato e, com o livro e o escritor, esse reconhecimento muitas vezes não é tão rápido. Nesse sentido, não há uma subestimação da própria obra, mas um certo desencanto quando não veem a obra na escola, com os alunos e professores, ou nas mãos dos leitores. Mas já mudamos muito essa realidade. E estamos contribuindo para isso com os salões de livros.

Boletim Brio: Uma feira literária como o SALIPI produz resultados que muitas vezes não aparecem em números. Quais são as transformações invisíveis que você percebe nas pessoas que passam pelo evento?

Kássio Gomes: Inúmeras, desde a de retirar as pessoas do isolamento cultural a casos de superação de estágios de depressão. Foi assim com o Assis Brasil. Ele veio receber a homenagem do SaLiPi sem muitas expectativas. Ele estava em um momento emocional muito crítico. Ao entrar, à época, no auditório como Patrono do SaLiPi.

Boletim Brio: A inteligência artificial e as novas tecnologias representam uma ameaça ou uma oportunidade para a literatura e para a formação de leitores?

Kássio Gomes: Certamente uma grande oportunidade. Claro que tudo isso passa por questões éticas, de compromisso com o leitor e consigo mesmo enquanto escritor. A máquina jamais substituirá a inteligência humana. Na verdade, a artificial prescinde da humana. Por isso tivemos essa ideia de fazer um encontro de clubes de leitura que unam as duas modalidades.

Boletim Brio: Se você pudesse apontar uma política pública prioritária para transformar a relação dos piauienses com a leitura nos próximos dez anos, qual seria?

Kássio Gomes: Gostei da sua pergunta. Não há como fazer uma política pública de resultado em tão curto espaço de tempo. O mínimo, de fato, seriam 10 anos. Acredito que fortalecer os acervos de bibliotecas e incentivar os clubes de leituras à partida da alfabetização é um grande passo. Mas, para isso, precisamos reintroduzir o professor no universo da leitura. Não há como eu cobrar leitura de alguém se eu não leio.

Precisamos ler juntos com os alunos nas escolas, nos clubes de leitura e promover eventos como o SaLiPi, que permitem que os leitores tenham contato direto com os livros e os escritores, nas mais diversas modalidades e faixas etárias. Temos um projeto que em breve será socializado para fortalecer os vínculos entre leitores e escritores.

Boletim Brio: Para encerrar: qual indicação literária pode deixar aos nossos leitores? Se possível, um livro que lhe marcou e um livro de autor piauiense.

Kássio Gomes: Um livro que me marcou profundamente foi Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. De autores piauienses, eu teria uma infinidade de livros e autores, mas vou indicar Noite Grande, de Permínio Asfora.

Curadoria cultural e de viagens pelo mundo por Celso Barros Coelho Neto

Advogado, professor, escritor, ex-presidente da OAB-PI, Celso Barros Coelho Neto construiu ao longo da vida uma trajetória marcada pelo conhecimento, pela curiosidade e pelo olhar atento sobre o mundo. Em uma conversa que transita de Roma a Berlim, da Serra da Capivara ao Chile, Celso revela como os lugares que visitou ajudaram a ampliar sua visão de mundo e reforçaram sua convicção sobre a importância de conhecer a própria terra, valorizar a cultura e investir na formação intelectual das novas gerações. 

Ao longo de décadas, acumulou experiências em diferentes cidades e países, com o olhar de quem observa a história, as instituições, a cultura e os comportamentos humanos para além dos roteiros turísticos. Há pessoas que viajam para conhecer lugares. Outras viajam para compreender melhor o mundo. Ao Boletim Brio, ele revisita algumas dessas experiências e compartilha impressões sobre cidades históricas, gastronomia, bibliotecas, patrimônio cultural e os desafios do desenvolvimento turístico. 

Boletim Brio: Qual cidade no mundo oferece a melhor aula de história?

Celso Barros: Eu já tive o privilégio de conhecer inúmeras cidades, apesar de não conhecer ainda o Oriente Médio e nem a Grécia, e dentre as que conheci eu indicaria certamente Roma. É uma cidade em que se caminha contemplando o passado em cada esquina e isso é inesgotável pois quanto mais se vai a Roma mais se tem vontade de retornar. Já Berlim é uma cidade que foi dividida pelo muro. O Muro de Berlim ficou Alemanha Ocidental, Alemanha Oriental, e Berlim foi uma cidade que, nitidamente, dá ainda hoje para perceber essa divisão por uma parte do muro que está lá.

Então, quando você está em Berlim, você sente que tem realmente ainda as consequências dessa divisão, mas também ainda da guerra, com prédios ainda em ruínas, com uma cidade que foi muito devastada, que se recuperou, que ressurgiu e que hoje é uma grande cidade, uma belíssima cidade, em que pese ter tido esses fatos relacionados à divisão e relacionada à destruição diante da guerra.

Boletim Brio: Qual livraria, biblioteca ou espaço cultural deveria ser considerado uma parada obrigatória para qualquer pessoa interessada em ampliar repertório intelectual?

Celso Barros: Primeiramente, deveria haver um forte incentivo para a proliferação de bibliotecas em cada cidade e nisso haver no entorno espaço de cultura e de esporte. Lamento muito que ainda hoje não haja esse tipo de política pública concreta. Aqui lembro de um livro que li: “Encaixando minha biblioteca”, do Argentino Albert Manguel, onde ele diz que cada biblioteca é um instrumento de luta contra a solidão e nelas somos transportados para uma outra dimensão de conhecimento pela generosidade dos livros. Então, cada livraria, biblioteca ou espaço cultural há de ser frequentado cotidianamente, porém devem existir. Quanto às livrarias hoje, infelizmente, muitas fecharam suas lojas físicas (até mesmo as bancas de revistas vendem menos revistas e mais outros produtos) mas há o amplo acesso virtual, inclusive com muitas obras disponibilizadas gratuitamente e isso facilita a formação de uma biblioteca virtual por cada cidadão que se interesse e não tenha recursos ou espaço para uma biblioteca material.

Boletim Brio: Entre todas as culturas que conheceu, qual oferece a experiência gastronômica mais rica e memorável? E qual a mais desafiadora?

Celso Barros: Bem, eu costumo dizer que a culinária do Piauí é inigualável, não sei se é porque sou daqui. Em cada cidade tem sempre um prato de galinha caipira saboroso e por isso digo sempre que é o prato mais popular nosso porque em toda cidade se tem uma ótima opção e isso sem falar nos nossos outros pratos típicos. A mais desafiadora para mim foi a culinária peruana porque difere muito do nosso hábito daqui e não me apeteceu.

Boletim Brio: Qual e onde foi o maior choque cultural que enfrentou?

Celso Barros: Em 2006 fui fazer um curso na Espanha, na cidade de Salamanca, em Direito Administrativo, e naquela turma eu era o único brasileiro, além de um colega que era juiz em São Paulo. Tínhamos colegas de vários países como: El Salvador, Peru, Uruguai, Argentina, Costa Rica e México. Ali pude ter uma experiência incrível porque falávamos de literatura, direito, esporte. Lembro que cheguei a uma vez discutir com um colega do Peru sobre futebol (ele dizendo que Maradona era melhor que Pelé) e chegou ao ponto de eu pedir o seu endereço de sua cidade (Lima) e ele me perguntou para que eu queria o endereço. Daí eu disse que quando chegasse no Brasil eu lhe mandaria um Dvd com o filme “Pelé Eterno”. Com isso eu tinha certeza que ele mudaria de ideia. Passaram-se algumas semanas e ele me mandou um email agradecendo muito e me pedindo desculpas porque Pelé realmente foi melhor do que Maradona.

Boletim Brio: Uma cidade/ país que não voltaria?

Celso Barros: Não tenho algum lugar para dizer que não voltarei, pois cada lugar tem seu aspecto positivo e podemos extrair boas experiências, desde as cidades menores (como uma ilha, e recomendo fortemente Fernando de Noronha) até uma grande cidade como Nova York, na qual por vezes nos sentimos meio que inferiores logo na chegada ao aeroporto, na imigração, mas, aos poucos, vamos descobrindo sua rica cultura e modernidade.

Boletim Brio: Há algum país cuja organização institucional o levou a refletir sobre os desafios contemporâneos do Brasil? Por qual motivo?

Celso Barros: Eu tive uma boa impressão do Chile nas duas oportunidades em que lá estive. Uma vez, passando por um prédio na capital, em Santiago, eu perguntei para um taxista que prédio era aquele e ele me disse: “Ali é o Tribunal, temos uma Justiça que funciona. Aqui, depois da ditadura, temos Justiça e não queremos saber de corrupção, porque vai para a cadeia. Aí é um Tribunal da Justiça mesmo, doutor!”. E nisso, outras situações, como, por exemplo, possuir o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da América Latina, formatam um país em que, pelo que eu pude perceber, a população confia nos agentes públicos porque vê os resultados pelos serviços públicos como um todo.

Boletim Brio: Se pudesse recomendar uma única viagem a um jovem que deseja ampliar horizontes, formar espírito crítico e compreender melhor o mundo, qual seria?

Celso Barros: Ao jovem piauiense eu sempre digo: “Procure conhecer a sua gente, o seu povo, o seu Estado”. Não podemos avançar nas fronteiras e nos desafios da vida sem conhecermos a nossa terra, o nosso quintal! Como dizia Fernando Pessoa: “Todo homem é a sua aldeia, é do tamanho não de sua altura, mas do que vê”. Assim, devemos conhecer onde vivemos, a nossa cultura, o nosso meio e podermos, desde já, inclusive, ser parte desse desenvolvimento progressivo das comunidades, procurando agir enquanto cidadão.

Boletim Brio: Existe algum destino pouco conhecido que merece mais atenção?

Celso Barros: Infelizmente, o pouco conhecido que considero é o Parque Nacional da Serra da Capivara e sua região. É um lugar belíssimo, em que estive pela primeira vez em 1989. É um lugar único em todos os aspectos, não só relativo às inscrições rupestres, mas também quanto à fauna e à flora. Estive em Machu Picchu, no Peru, que é um destino turístico incrível e que tem uma estrutura ao redor muito organizada, cujo acesso é muito difícil. Porém, funciona desde o traslado de trem das cidades vizinhas até o acesso de ônibus/carro ao parque, que fica numa montanha, além de hotéis de vários níveis, com as comunidades progredindo nitidamente por conta do turismo e do apoio governamental e da iniciativa privada, fatores que redundam em 1 milhão e meio de turistas por ano (somente para o parque, fora o do país).

Então, é possível, sim, termos no nosso Parque um fluxo turístico intenso. Basta profissionalizar a pauta do turismo local, estadual e nacional. Como pode alguém ser titular de uma pasta de turismo se não conhece boa parte do mundo? Quais parâmetros concretos esse dirigente tem? São coisas assim que desnaturam o progresso do turismo, e isso influencia negativamente, deixando de gerar empregos e maior renda para as comunidades vizinhas, principalmente.

Boletim Brio: Se pudesse retornar a apenas um lugar visitado ao longo da vida, pelo valor intelectual e humano da experiência, qual escolheria?

Celso Barros: Eu gosto muito de viajar pelo Piauí. Do Piauí, já pude conhecer cerca de 160 cidades e tenho a meta de conhecer as 224. Do Brasil, só não conheço os estados do Amapá e do Amazonas.

Mas, dentre todas as cidades em que já estive, a cidade do Rio de Janeiro tem sempre algo de especial, porque, para mim, é a cidade mais bonita do mundo e reúne a questão histórica, da cultura, do esporte, da música etc. E, no Piauí, o meu lugar de lazer que mais procuro visitar é a Praia do Coqueiro.

Perguntas para a empresária Rennata Paolla 

Goiana de origem, residindo no Piauí, Rennata Paolla, proprietária das lojas Tommy Hilfiger e Clube Morena Rosa em Teresina, trilhou um caminho que a levou dos bancos universitários e salas de aula para o comando de negócios de moda  na capital. Com uma formação que inclui Psicologia, Mestrado em Educação e um MBA em Gestão de Pessoas, levou na sua bagagem de experiências o rigor acadêmico para a efervescência do mercado, apostando que o conhecimento teórico pode ser sim, um alicerce sólido para a prática empresarial. Mas, com a clareza, de que nada vale a teoria sem a prática. 

Em suas reflexões, ao Boletim Brio, sobre o mercado de franquias de moda, Rennata Paolla elenca um conselho aos futuros empreendedores: a distinção entre o prazer de consumir e a responsabilidade de gerir. Segundo ela, é importante que o empreendedor compreenda que o amor pelo produto deve ser acompanhado por uma rigorosa gestão de custos, capital de giro e fluxo de caixa. A paixão, embora essencial, não substitui a consciência de que o negócio é um processo que exige resultados e um propósito claro, alinhando expectativa e realidade, desejo e responsabilidade para a perenidade do empreendimento.

Boletim Brio: Rennata, você possui um histórico acadêmico e na psicologia antes de mergulhar no varejo. De que forma sua formação em Psicologia e sua experiência como docente influenciam hoje a sua maneira de gerir pessoas e entender o comportamento do consumidor em Teresina?

Rennata Paolla: Para mim, foi essencial essa minha experiência prévia na área acadêmica, na Psicologia, porque, querendo ou não, eu estou num universo diverso, complexo e desafiador, que é o varejo. Independentemente de ser no varejo de moda ou no varejo de uma forma geral, o varejo em si traz um desafio que é lidar com pessoas. Então, a gente precisa ter essa habilidade constante de lidar com diferentes pessoas em diferentes contextos. Há um desafio. Eu falo que sempre que se mistura dinheiro e pessoas há um desafio iminente. Então, a gente sempre tenta dosar da melhor maneira, porque eu acho que toda relação é mediada por respeito. É mediada por respeito, mas ela é estabelecida por meio de processos.

Eu acho extremamente importante. A Psicologia, principalmente a Psicologia Organizacional, fala da importância dos processos, de como é relevante você estabelecer processos e padrões que nem sempre são fáceis. A gente percebe que as pessoas muitas vezes não estão acostumadas a trabalhar com processos bem definidos, formas de atuação com direcionamentos e estratégias. Então, acho que isso traz para a gente uma habilidade de lidar com situações adversas. Quando você tem um padrão, quando você tem um método, quando você tem um processo, quando você tem uma prática que vai sendo estabelecida e amadurecida com o tempo, assim como a cultura da empresa é estabelecida e amadurecida com o tempo, a Psicologia me trouxe essa maturidade.

Eu acho que um outro ponto também extremamente relevante, e que aconteceu quando entrei nesse processo de transição entre ser empresária e ser docente e psicóloga, é a validade que você precisa ter, ou o entendimento que você precisa ter, o estudo necessário para gerir um negócio, uma empresa. Isso é fundamental. Então, antes de abrir a empresa, eu fui mentorada pela Rita, que é uma grande conhecedora de moda em Teresina, embora esteja em Recife agora. Ela foi uma grande mentora nesse começo para eu entender realmente o negócio, porque eu tinha a moda como espectadora e não como dona de um negócio.

Negócio mesmo, ainda que fosse uma franquia, que já traz alguns direcionamentos. Mas, sendo um negócio próprio, sendo um negócio meu, e atuando num mercado com tantas particularidades como o mercado piauiense, a gente precisa entender do mercado, entender das pessoas e entender do negócio. É extremamente relevante que você estude processos, produtos, pessoas e contextos para que a sua marca consiga se consolidar e permanecer consolidada. Isso é extremamente relevante.

Boletim Brio: A sua transição para o empreendedorismo ocorreu em um período desafiador, durante a pandemia. Qual foi o “estalo” que a fez trocar a estabilidade da área acadêmica pelo risco e as oportunidades do varejo de moda?

Rennata Paolla: Então, em relação a esse período de transição, esse estalo, na verdade, não. Eu não tive esse estalo. Na verdade, esse estalo, esse empurrãozinho, aconteceu por meio do meu marido. Ele sempre teve esse desejo de empreender. Eu sempre fui um pouco mais segura. O ambiente acadêmico sempre foi muito confortável. Vou nem dizer confortável, porque não é um ambiente confortável. É um ambiente que te desafia, mas já era um ambiente conhecido para mim. Então, eu já estava dentro da minha zona de conforto, no sentido de que já era aquele ambiente em que eu estudei, fiz meu mestrado, minhas especializações. Era algo que eu já dominava. E você ir para algo que não domina, para um completo desconhecido, era um frio na barriga absurdo. Na época, eu era coordenadora de desenvolvimento profissional no SESC/SENAT. Conversei com meu gestor algumas vezes e, antes de sair, sentei e conversei com ele. Falei que sairia dali para abrir um negócio próprio, porque eu não conseguia administrar o que eu já fazia com o negócio novo. Então, eu precisei fazer escolhas.

Eu acho que vai muito disso. O desafio maior de você empreender é ter que fazer escolhas. E toda escolha que você faz exige que abra mão de algo, em detrimento de uma evolução, de um momento novo. E não foi fácil escolher esse momento novo. Eu confesso que a perna tremeu algumas vezes, mas foi uma decisão que tomei muito consciente do desafio que assumiria. Por isso me preparei, estudei e entendi esse universo de uma forma mais profunda. Eu me apropriei desse universo para entrar da melhor maneira, o mais preparada possível. E é claro que, ao longo do caminho, você também vai aprendendo muita coisa. Principalmente ao longo do caminho, você aprende muita coisa porque vai vivendo. Eu falo que a teoria sem a prática é vazia, em tudo o que você faz na vida. Então, eu tinha muita ideia, eu tinha muito estudo e precisava viver. E foi quando vivi o varejo, quando vivi o empreendedorismo, com todas as dores e delícias, que fui entendendo o tamanho do desafio que a gente tinha assumido. Mas, ao mesmo tempo, é um desafio pelo qual você se apaixona. Empreender, se você não tiver paixão, dedicação e empenho no que faz, não é suficiente. Mas isso é muito do que você precisa para fazer o negócio dar certo. 

Boletim Brio: Na Tommy Hilfiger, você assumiu o desafio de ser uma “Tommy Girl” e aumentar a participação do público feminino em uma marca que, globalmente, é 90% masculina. Quais estratégias foram fundamentais para humanizar a marca e conquistar as mulheres de Teresina?

Rennata Paolla: Essa questão de ser a Tommy Girl foi algo que eu assumi e é engraçado dizer isso, porque foi muito por demanda das próprias clientes, que falavam: “Renata, por que você não faz? Por que você não aparece?”. Era uma coisa que eu achava que não fazia sentido. Como eu não tirava foto, como eu não sabia, como eu não entendia, eu não me sentia, vamos dizer assim, com propriedade para assumir esse papel, para assumir essa posição. E era algo que eu não entendia na época: que essa autoridade acontece a partir do momento em que você se coloca no lugar, entendendo seu produto, entendendo seu cliente, entendendo o que a marca precisa e entendendo o desejo que isso vai transparecer no seu cliente, é claro, com total identificação com aquilo que você oferece. Foi aos poucos que eu fui me desafiando a me tornar essa Tommy Girl. E, realmente, se você olha o produto da Tommy, 90% dele é oferecido ao público masculino. Mas nós conseguimos uma exceção. A própria marca disse para a gente, no começo do negócio, que quando tem uma figura feminina você consegue abrir essa margem, ampliar essa margem, porque existe a questão da identificação.

Então, acho que isso é fundamental. As clientes pediram essa identificação, e eu ouvi esse pedido. Fui cada vez mais saindo da minha zona de desconforto, porque não era uma zona de conforto, para entender e atender uma demanda que era do meu cliente, porque a gente trabalha para atender essa necessidade do cliente. Ele tinha necessidade de ver uma pessoa real à frente e usando os produtos, até para poder tirar um pouco dessa característica de que só homem usa Tommy Hilfiger. Não. A Tommy também tem uma figura feminina forte, que tem essa elegância, que tem esse poder, que tem essa visibilidade, que carrega essa marca com orgulho.

Então, eu assumi muito nesse sentido. E é muito fácil quando você tem um produto com o qual se identifica, de que gosta. É muito fácil você vestir uma peça, se sentir bem e compreender esse poder da marca em você. Então, acho que é algo que, ao ouvir o meu cliente e assumir essa perspectiva e essa responsabilidade, que eu entendi que eram minhas, acabou gerando resultados. Hoje, temos cerca de 80% do faturamento da loja vindo do público feminino, mas também temos 20% de crescimento do nosso produto. E está cada vez mais diminuindo um pouquinho a participação do masculino e aumentando a do feminino por conta dessa figura. Então, acho extremamente relevante, para quem tem uma marca, que assuma essa persona da marca, porque é algo que faz muita diferença e que traz muita validade, muita autoridade para aquilo que você oferece. Você não só fala sobre a marca, mas usa e vive essa marca no seu cotidiano. 

Boletim Brio: Muitos empreendedores sonham em ter uma loja em shopping, mas desconhecem os custos e a complexidade operacional. Na sua visão, quais são os três pilares inegociáveis para manter uma operação saudável e lucrativa dentro de um shopping center hoje?

Rennata Paolla: Quando a gente fala de três pilares que são inegociáveis para manter uma operação saudável, eu estou falando de custo, custo de operação, capital de giro e os custos em geral, que eu acho que a gente tem muito que levar em consideração. Como eu disse, por mais que você goste da marca, que você se identifique com a marca, que seja uma marca desejada, você tem que entender o custo: aluguel, condomínio, fundo de promoção, royalties, quando a gente trabalha em shopping. Então, sim, são custos consideráveis que a gente tem que levar em consideração, porque o que a loja fatura e o que a loja lucra são coisas diferentes.

O faturamento que ela tem e o lucro que ela obtém a partir desse faturamento precisam ser colocados na ponta do lápis. Então, se você fatura X ou Y, tem que levar em consideração que também existem outros custos que vão ser deduzidos desse faturamento para você chegar ao seu lucro. Tudo isso tem que ser levado em consideração. E o capital de giro é fundamental para suportar períodos de sazonalidade. Isso é extremamente importante. Você precisa ter sempre um capital forte, um capital relevante para o estoque que possui, para o produto que tem e para os custos que enfrenta mês a mês, mantendo a operação em momentos de adversidade ou de sazonalidade, que é o que acontece naturalmente.

Isso leva muito em consideração também um outro ponto que eu acho extremamente importante: estoque. Você precisa entender o seu giro de peças, a quantidade de peças por atendimento, que a gente chama de PA, e o ticket médio da sua marca, para não ficar sem produto na loja e também para não comprar produto demais e acabar com estoque parado, porque estoque parado é dinheiro parado.E um terceiro e último pilar que eu acho extremamente relevante são as pessoas, a equipe, o que envolve processos, direcionamento e comunicação. Eu acho que o marketing também é extremamente relevante, mas, se você não tiver um custo definido, uma compra e um estoque equilibrados e saudáveis, além de uma equipe alinhada, o negócio não acontece.

É claro que o marketing vai ajudar, os processos vão ajudar, e um controle de custos bem estabelecido na ponta do lápis é essencial. Mas eu acho que esses três pilares custo, estoque e equipe são pontos aos quais precisamos dar máxima atenção, porque eles sustentam o negócio nos momentos de alta e de baixa. Por isso, tudo isso precisa ser levado em extrema consideração e com muita responsabilidade.

Boletim Brio: O mercado de luxo e o comportamento de consumo mudaram drasticamente nos últimos anos. Para quem deseja investir em uma franquia de moda hoje, qual o erro mais comum que deve ser evitado na fase de planejamento e o melhor conselho que você pode dar?

Rennata Paolla: Falando de mercado, de comportamento e de consumo, um grande conselho que eu dou para quem deseja investir em franquia de moda é que entenda se aquilo que você gosta de usar é, de fato, aquilo que você gosta de vender. Isso é fundamental, porque muitas vezes você gosta de um produto, se identifica com ele, vê esse produto no seu dia a dia, mas precisa enxergá-lo também como um trabalho, como uma função, como resultado de um processo, de um investimento, de algo que você vai desenvolver a médio e longo prazo. Então, é extremamente importante não confundir o prazer de consumir com a roupa como um negócio. Porque, por mais que exista prazer em se vestir e vestir bem, você tem que entender que aquela roupa tem um fim, que você precisa obter um resultado daquele processo, daquele investimento e daquela entrega.

É muito importante que a gente tenha esse entendimento: é preciso existir o desejo, sim, mas também é preciso entender se ele é um desejo por algo que eu gosto de consumir aleatoriamente, como um hobby, um desejo pontual, ou se é algo com que eu quero ganhar dinheiro, investir meu tempo, meu dinheiro e minha energia, compartilhando esse desejo, essa vontade e esse prazer, transformando essa peça em trabalho, função e produto final. Então, acho muito importante essa reflexão. Você precisa avaliar se consegue transformar o seu desejo por determinado produto em algo que outras pessoas também queiram consumir. Acho que isso é essencial e é algo que a gente tem que levar em consideração, juntamente com aqueles outros pontos de planejamento que eu falei anteriormente: capital de giro, custo e estoque.

Isso precisa ser muito levado em consideração porque, muitas vezes, as empresas não deixam de se perpetuar no mercado porque o empreendedor não gosta do produto, não o consome ou não fez uma boa compra. Muitas vezes, elas não prosperam porque os custos foram desconsiderados. E os custos do negócio são o coração que bombeia, que faz o negócio funcionar. Então, se você não tem caixa, se você não tem fluxo de caixa, se você não tem capital de giro, se você não tem uma boa gestão dos custos operacionais, por mais que ame o seu negócio, pode ser que ele não vá em frente.

Por isso, é extremamente importante que você tenha amor pelo negócio, amor pelo produto, mas também tenha a consciência de que tudo isso tem custos. Conseguir alinhar expectativa e realidade, prazer e responsabilidade, desejo e resultado são pontos essenciais quando a gente fala de franquia de moda ou de franquias de uma maneira geral.

Manual da Moda: os looks destaques da semana 

A empresária Assunção Lages em dia de passeio por Amsterdã. Ela escolheu peças da Colcci Teresina, deixando claro que vive o produto antes de vendê-lo. À beira dos canais holandeses ela apostou numa composição que reúne renda, couro e uma calça gráfica com uma onça que roubou a cena. Uma viajante com repertório de moda!  

A empresária Ana Thereza Merij em dia de evento posou usando um vestido branco canelado, de gola alta e cintura marcada por amarração, transmitindo refinamento e segurança. A peça é da marca brasileira Topan, que cria coleções autorais com foco em design contemporâneo e modelagem exclusiva.

A coordenadora no Nordeste do Club Casa e Designer, Olga Bezerra, apostou na elegância atemporal da combinação preto e branco, para agendas na capital paulista. A blusa é da queridinha das brasileiras, Zara e a calça da loja piauiense Claudia Barroso.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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