Cavalo de óculos, cachorro Uber e a rotina de uma Shih Tzu: pets piauienses dão aula de autenticidade nas redes sociais

O que faz um vídeo ter 10 ou 100 mil curtidas no Instagram ou Tiktok? Essa parece ser a pergunta do milhão da vez em um mundo onde o sucesso de quase tudo passa pelas redes sociais. A Todavia dessa semana se debruça sobre um “case” de sucesso curioso, direto do município de Simplício Mendes, no interior do Piauí: um cavalo de óculos, que foi comprado na OLX e que, aos sete meses de fama, soma meio milhão de seguidores em ambas as plataformas. 

Por trás do sucesso está Maicon Marcos Roldão, 23 anos, estudante de Medicina  de Petrolina, em Pernambuco, a voz que aparece narrando com leveza, sotaque carregado e muito humor o dia a dia do cavalo. 

Cavalo Quanan (Foto: arquivo pessoal)

A história começa quando o irmão de Maicon teve a ideia da compra de um cavalo que pudesse se tornar um “garanhão” de destaque. Para isso, o cavalo precisaria ter títulos em competições ou ser registrado, com genealogia conhecida. Bem, o Quanan não teve sucesso nesses dois objetivos, digamos assim. Mas, o que faltou aí sobrou em carisma para o animal. O viral veio quando a família adquiriu um segundo cavalo, a égua Gaara, e postou o processo de transporte dela para o Piauí. Toda a história da compra foi documentada: desde o primeiro anúncio, visitas e negociações até o transporte do animal para o interior do Piauí.

“O Reels tem um limite de um minuto e meio, aí quando eu fui postar o vídeo, eu vi que não ia todo, eu fui e coloquei no final, ‘galera, infelizmente não deu postar tudo, sigam para a parte dois’. A gente tinha 70 ou 100 seguidores, eu não sabia que alguém ia se interessasse pela história, mas no outro dia, quando chegou a 8 mil seguidores, o Instagram e o Tiktok começaram a crescer juntos na mesma proporção. E pronto, no outro dia realmente o pessoal bombou”, explicou. 

Sem grandes planos de marketing, ele abriu o perfil de Quanan para registrar o dia a dia do animal e, por acaso, encontrou um filão. 

O toque definitivo foi o óculos. Inspirado por um cavalo gringo fantasiado de Harry Potter, Maicon improvisou o acessório. O objeto virou marca registrada e hoje está na logomarca, em vídeos temáticos e até em fantasias completas, com cachecol e manto. “Na época, a gente colocou só o óculos, porque não tinha como botar a roupa toda, mas, hoje a gente já conseguiu fazer uma gravação com a fantasia toda”, brincou. O segundo capítulo foi a história estilo romance entre Quanan e Gaara feita na narrativa do perfil: “Prendeu os românticos, as pessoas realmente esperam o dia do casamento deles e vamos providenciar, será em uma viagem dos dois para Sergipe”, adiantou. 

Quanan fantasiado de Harry Porter (Foto: arquivo pessoal)

O sucesso nas redes sociais também se traduziu em patrocínios e parcerias comerciais, que hoje garantem que Quanan seja totalmente patrocinado, com ração, suplementos, produtos de higiene e acessórios custeados pelas marcas. Apesar da monetização, Maicon diz manter o foco no prazer de produzir conteúdo e na satisfação dos fãs, mostrando que, quando feito com autenticidade e dedicação, um projeto pode crescer de forma inesperada e impactar positivamente a vida de muitas pessoas.

“Nunca imaginei que ele fosse crescer. A verdade é essa. Não criei o Instagram para pensando que realmente ele fosse ficar famoso. Mas quando ele começou a crescer, a meta que eu tinha era de criar de graça, no caso ter um patrocínio de ração, patrocínio de suplementos, patrocínio de feno e graças a Deus hoje a gente tem tudo isso. O Quannan se paga, ainda paga a namorada dele, paga tudo […] Eu também recebo muita mensagem de pessoas que falam que o sonho é ter um cavalo, que não gostava de cavalo, mas agora acompanha, que os vídeos ajudaram a passar por situação difícil. Então é o que me motiva a fazer vídeos”, contou. 

O case do Quanan mostra que o segredo está no enredo. Contar uma história da forma que as pessoas se identificam. 

Os seguidores acompanham Quanan e Gaara como se fossem personagens de uma telenovela com uma linguagem que eles mesmos usam. No fundo, Quanan é espelho de uma geração que prefere rir, comentar e torcer pela vida de dois animais a acompanhar a timeline de gente de carne e osso mas que não se expressa com leveza ou verdade. Como diz Maicon, “As pessoas realmente torcem por eles dois. Não adianta você produzir um conteúdo que não seja o que quem está ali no Instagram queira ver”.

Maicon e Quanan (Foto: arquivo pessoal)

Bruce Segundo: o cãozinho Uber de Teresina verificado no Instagram

Bruce Segundo (Foto: reprodução)

Outro case de sucesso, vem de Teresina, capital do Piauí e, além das redes ele já foi até destaque nacional na televisão. A conta também já reúne mais de meio milhão de seguidores. A trajetória do buldogue francês nas redes sociais começou por uma coincidência também. Ariano Silva, tutor de Bruce Segundo, junto com a esposa, iam para uma confraternização e levaram o animal porque viram que o restaurante era pet friendly, mas, chegando lá foram informados de que ele só poderia ficar na parte externa. “Na época eu disse que não daria para o Bruce ficar lá, por causa do calor, e como eu ia fazer corridas enquanto esperava a confraternização acabar, eu decidi levar ele comigo”, conta Ariano. Bruce ainda era filhote, e a primeira corrida encantou a passageira, que pediu para levar ele no colo e tirou várias fotos. A mesma situação se repetiu com quase todos os outros passageiros da noite. 

Ariano Silva conta que, apesar da impressão de que criar conteúdo é fácil, manter a presença digital do Bruce exige planejamento, gravação, edição e consistência. “Antes eu até criticava quem trabalhava como criador de conteúdo digital, eu imaginava que essas pessoas não trabalhavam. Só que hoje eu vejo como é dificil ter ideias para os vídeos, gravar, editar e postar algo que faça sucesso. Por sorte eu conto com a ajuda da minha esposa, ela e eu nos dividimos na tarefa de cuidar das redes sociais do Bruce”, brincou. 

Esse início casual mostra como a autenticidade e situações do dia a dia podem viralizar. Segundo o tutor, pelo menos, 85% dos passageiros respondem de forma positiva. Isso destaca que o sucesso dele não é apenas pelo pet, mas pela interação genuína com humanos e pelo respeito à individualidade de cada um. O Bruce é tratado como um filho, com cuidados semelhantes aos de uma criança pequena, e tem uma história afetiva forte, sendo “o segundo Bruce” após a perda do primeiro cachorro da família. Essa dimensão emocional conecta o público e fortalece a empatia com ele.

“Aliado à forma educada com a qual eu tento sempre tratar os passageiros, há ainda essa interação carinhosa do Bruce com todos. Nosso diferencial, acredito eu, é justamente mostrar esse contato direto dos pasageiros com o Bruce e o poder que os animais tem de melhorar o humor das pessoas. Existem muitos pets que são influenciadores mas os que fazem mais sucesso são justamente os que mostram sua rotina de intereação com pessoas. Direntemente de muitos outros artistas, que a gente só vê na TV ou em teatro, ou ainda de outros influenciadores que a gente sabe que não vai encontrar pessoalmenete, nossos seguidores adoram a possibilidade de encontrar com o Bruce simplesmente pedindo um carro de aplicativo”, explicou. 


A cachorrinha Sansa: vínculos reais e a importância de compartilhar conhecimento 

Cachorrinha Sansa (Foto: arquivo pessoal)

Outro pet também se destaca nas redes sociais teresinenses: a cachorrinha Sansa. Segundo sua tutora, Bruna Nathasya, a ideia de criar um perfil para ela, quando surgiu, tinha outro objetivo. “Quando a Sansa chegou, começamos a tirar muitas fotos dela. Acabei criando o perfil quando ela tinha mais ou menos 1 ano, e era basicamente só para que tivéssemos um local para ‘guardar’ esses registros que fazíamos dela”, explicou. 

A inspiração para os conteúdos, segundo ela, vem de perfis que admirava e acompanhava. “Um perfil que gosto muito e sou seguidora fiel, é o da Moana (@hausmoana). Amo as diquinhas que a Thamires dá e é uma delícia acompanhar aquela linda família. Também gosto muito da @mypetlolla. Elas são inspirações”, conta.

Um dos momentos mais marcantes para o crescimento do perfil, no entanto, aconteceu durante o lockdown de 2020 na pandemia de Covid-19. Com os pet shops fechados, a tutora aproveitou o tempo em casa para ensinar cuidados básicos com os pets, como banho e higiene da pelagem.

“Não foi uma publicação em si, mas, com o lockdown em 2020, muitos Pet shops fecharam. Como eu tinha muito mais tempo para ficar em casa, e como forma de ensinar as pessoas como cuidar do pet em casa, passei a mostrar esse conteúdo. Ensinava a banhar e a cuidar da pelagem, mostrava os produtos que eu gostava, e então o perfil aumentou o engajamento. Passei a trocar mais experiências com os seguidores, e gostei demais. Também fiz várias amizades por causa do ig. Então esse momento foi bem marcante pra mim”, relembrou. 

Cachorrinha Sansa (Foto: arquivo pessoal)

Para ela, além dos seguidores , há um grupo engajado e uma comunidade de seguidores fiéis. “É engraçado. Temos um perfil relativamente pequeno (pouco mais de 11 mil seguidores), mas, ainda assim, as pessoas nos reconhecem nos lugares. Todos as pessoas desse mundo Pet aqui em Teresina que seguem o perfil, sempre falam conosco quando nos encontram, ainda que a gente não esteja com ela. Mas, no geral, ela também é fácil de reconhecer, já que tem o rabinho colorido, que virou a marca registrada dela. Acredito que criamos sim uma comunidade, gosto de pensar que fizemos amigos, porque, quando nos param, as pessoas nos tratam com tanto carinho e até com intimidade, por causa das trocas que temos no perfil. Busco sempre responder as mensagens, gosto de dar atenção a todos. Sansa só tem recebido amor, e sou muito grata por isso”, afirma a tutora.

Além do engajamento, a vida de Sansa e de sua tutora mudou de forma significativa. “Para ela, qualidade de vida. A gente consegue experimentar diversos parceiros, provar os melhores produtos, conhecer os melhores lugares. Um mundo inteirinho se abriu, para que ela o aproveite. Para mim, com certeza passei a ser mais comunicativa, e a ter menos vergonha de falar em público. Gosto bastante dessa proximidade com quem nos segue”, completa. Assim como Bruce, Sansa mostra que o sucesso de um pet nas redes sociais vai muito além da fofura: é resultado de cuidado, dedicação e da capacidade de criar vínculos reais entre animais e pessoas.

Valores que unem as pessoas 

Além dos pets influencers, também acumulam sucesso em Teresina perfis ligados à causa e à proteção animal, como o Instagram Gatinhos Amarexal, que registra a rotina dos animais abandonados na avenida de mesmo nome. O perfil conquista grande engajamento porque vai além do entretenimento: é uma luta, uma bandeira e um valor que muitas pessoas compartilham. Mesmo aqueles que não conseguem ajudar adotando ou doando dinheiro acabam se mobilizando, compartilhando vídeos e espalhando a mensagem, mostrando que a força das redes sociais também pode estar em unir pessoas em torno de causas significativas.

O que podemos aprender com Quanan, Bruce e Sansa? 

Quanan, Bruce e Sansa mostram que há algo universalmente atraente em autenticidade e leveza. Cada um deles conquistou seguidores porque quem cuida deles se dispôs a ser verdadeiro, a mostrar momentos reais, engraçados, emocionantes e, muitas vezes, imperfeitos.

1)O que encanta é a vida como ela é, com seus detalhes singulares. 2) cada um tem a sua própria personalidade e história e os quem se permite mostrar isso, sem tentar copiar fórmulas prontas, conseguem gerar empatia e identificação. 3) quando você compartilha o que torna sua vida única, mesmo que seja apenas a rotina com seu animal de estimação, convida outras pessoas a participarem dessa experiência, e é isso que transforma seguidores em fãs que torcem, se encantam e querem estar mais perto.

São três histórias que nos lembram que o que realmente faz sucesso nas redes sociais não é o que se mostra, mas a sinceridade, o cuidado e a vontade genuína de se conectar com o outro (humano ou animal). 

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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