Na última semana, os teresinenses foram surpreendidos com publicações nas redes sociais anunciando o encerramento das atividades presenciais do Empório do Zeca, localizado na Avenida Jockey Clube, um espaço muito conhecido e frequentado, principalmente para o café da manhã na zona Leste de Teresina.

O anúncio foi feito com ares de mistério, ao mesmo tempo em que uma campanha de marketing sobre os itens do cardápio circulava. O Boletim Brio conversou com o proprietário, o empresário Zeca Pinheiro, de 56 anos, e descobriu que em janeiro o “Empório do Zeca” deve ter novos espaços físicos na cidade, através de lojas menores espalhadas pela capital e pelo interior do estado. É um novo momento da marca e, certamente, o termômetro para um mercado que tem muito a dizer.

Aberto desde 2019, o Empório do Zeca nasceu com uma proposta de reunir vários tipos de serviços, como padaria, lanches, mercearia, pizzaria e casa de massas. A ideia era unir a cozinha internacional a sabores típicos do Piauí, como a bomba e o bolo de caroço. “As pessoas querem um atendimento mais rápido, sem perder a personalidade, o que consolida nossa a proposta de lojas menores e mais próximas dos clientes, democratizando nossa atuação que hoje está concentrada na zona Leste de Teresina”, pontou o proprietário Zeca Pinheiro, ao explicar os motivos da mudança de rota.

A loja segue aberta no formato delivery e, numa versão reduzida, que já está em funcionamento dentro de uma universidade particular de Teresina.
CENTRO DE PRODUÇÃO SERÁ ABERTO
“Todo negócio exige adequação ao longo do tempo. Entendemos que esse formato de loja grande já não atende ao que atendia lá atrás, quando abrimos o Empório. Entendemos agora, com a experiência, que estruturas menores, que é o que traremos a seguir, permitem atendimento mais personalizado, sem comprometer qualidade e sabor. Não vamos falar em dificuldades, mas em vantagens. O piauiense é muito fiel ao seu sabor, a sua culinária, mas também é aberto ao novo, à descoberta, à fusão de sabores”, explanou o empresário Zeca Pinheiro.

Ainda este ano, deve ser aberto um centro de produção da marca, com a mesma linha de produtos mas com outras abordagens de serviço.
“Ficamos felizes quando lembramos de episódios como a nossa bomba viajando de avião até São Paulo, como se fazia antes com a paçoca, por exemplo, e também de pessoas que moram fora e que não deixam de vir ao Empório quando visitam Teresina. De algum modo, nos tornamos referência para Teresina e esse é um ativo muito importante. Sempre acho que o óbvio é sempre o mais impressionante. E em qualquer tipo de negócio saber ouvir o cliente e seus anseios é o mais importante”, destacou Zeca Pinheiro.
Quando questionado sobre dificuldades, o gestor minimizou. Mas é de conhecimento público que as mudanças nos hábitos de consumo somado aos custos fixos de um negócio presencial contribuem sobremaneira para o rearranjo de uma empresa. O fechamento não é isolado, o Floriano Café, empreendimento localizado na Rua Angélica também na zona Leste de Teresina, a unidade da Avenida Anfrísio Lobão da padaria “Bolo de Vó” e a franquia da cafeteria “Go Coffee” do bairro Morada do Sol também encerraram suas operações nos últimos meses.
A APOSTA EM UM NEGÓCIO MINIMALISTA
O empresário André Nogueira, proprietário da franquia da rede de cafeteria “The Coffee”, localizada na Avenida Nossa Senhora de Fátima, na zona Leste de Teresina, tem um negócio que vai na contramão das grandes lojas de alimentação. A “The Coffee” é uma rede de cafeterias inspirada na cultura japonesa, teve a sua primeira loja fundada em 2018 em Curitiba, no Paraná, e tem um modelo minimalista, tecnológico e focado em café para viagem.

“Para os nossos clientes, por exemplo, já é possível a realização de pedidos através de autoatendimento em loja ou por um aplicativo próprio. Acredito que, assim como em outras situações da nossa vida, isso vai ser cada vez mais frequente. Vejo um público cada vez mais interessado em experiências. O consumo deixou de ser apenas sobre o café em si e passou a envolver tudo: do ambiente à forma de preparo. As pessoas querem provar métodos de preparo diferentes, conhecer novos grãos, experimentar harmonizações. Os clientes estão mais abertos para provar novidades e, ao mesmo tempo, não abrem mão de bom atendimento”, frisou André Nogueira à Ápice.

Não é a estrutura da loja que fideliza os clientes da “The Coffee”, mas a diferenciação do produto, por ser um café especial de alta qualidade. Nesse contexto, é um modelo de negócio que permite que os custos de funcionamento também sejam menores.
“O Piauí é um estado em crescimento, com um público que está cada vez mais aberto a novidades. Isso cria espaço para quem quer se diferenciar. Aqui ainda existe a vantagem de se poder participar ativamente da formação de um mercado ainda em desenvolvimento, ajudando a educar o consumidor e construir tendências. Sempre gostei de café e fui fisgado pelo café especial em uma viagem para São Paulo. De volta a Teresina, constatei a dificuldade que era ter acesso a cafés especiais e isso me fez acreditar que empreender no setor poderia ser interessante. Transformar isso em negócio foi desafiador, principalmente pelo fato de não existirem, na época, empreendimentos atuando nesse nicho na cidade”, relatou André Nogueira.
PECULIARIDADES DO MERCADO TERESINENSE
Para a professora Nayara Cardoso, do curso de Engenharia de Produção da Universidade Federal do Piauí (UFPI), que é amazonense, Teresina tem hábitos de consumo e operação que destoam de outras regiões. Independente do cenário, é imperativo a necessidade de ter a tecnologia como uma aliada.

“Estou morando aqui há sete anos, mas percebo esse movimento: muitos empreendimentos abrem, ficam um tempo em atividade e depois fecham. Em seguida, surgem outros, como se estivessem migrando de lugar. O comércio em Teresina começa a explorar espaços, e dá para perceber que o mercado precisa ser expandido para além de pontos fixos. Por outro lado, vejo que o comércio está crescendo bastante, com novidades chegando a Teresina. É um movimento natural de adaptação: alguns negócios ficam, outros fecham. O delivery, em especial, ganhou muito espaço durante e depois da pandemia. Empreendimentos que antes não trabalhavam com isso precisaram se adaptar. Hoje, quem não tem um delivery bem estruturado está em desvantagem no mercado”, opinou a professora da UFPI.
Na corrente das tendências mundiais, vale frisar que trazer automação (o trabalho que seria só seu e a tecnologia pode fazer por você) para o processo de gerenciamento aumenta a produtividade e a organização. Entretanto, na lógica de vendas, é preciso cuidado com a experiência do cliente: entender se o público consegue usar o sistema com facilidade, se a plataforma é simples, dinâmica e não afasta quem não tem familiaridade com tecnologia.
“Se a automação for interna, focada em gestão, ajuda bastante na produtividade. Mas, se o cliente for impactado diretamente, é essencial avaliar a usabilidade. Na minha visão, o caminho é olhar para o público-alvo, entender as necessidades dele e inovar para atendê-las. Inovação não é só tecnologia: pode ser um serviço diferenciado, um atendimento melhor, algo que realmente coloque o empreendimento à frente dos concorrentes. E isso nem sempre exige um investimento alto; pode ser uma nova forma de atender ou um produto diferente que faça a diferença”, defendeu Nayara Cardoso.
UMA MARCA NÃO É UMA LOJA
Em um cenário de concorrência acirrada e alta carga tributária, além de bons produtos; a construção de uma marca relevante passa produzir boas experiências, comunicação e memória afetiva. Para muitos, nos últimos seis anos, o Empório do Zeca soube fazer isso. Outro ponto positivo: a campanha de marketing que, mesmo breve e envolta em mistério, reforçou a essência da marca, falou de seus produtos e aguçou o desejo. Saber ler o momento exato de mudar de rota evita prejuízos.
O verdadeiro patrimônio de um negócio não é o ponto físico, mas o significado adquirido na cabeça das pessoas. Ambientes podem fechar, produtos podem sair de linha, mas marcas fortes permanecem no imaginário coletivo e podem renascer em novos formatos ou lugares. O desafio está em ouvir o público, acompanhar suas mudanças e ajustar o modelo sem perder a identidade.



