Por que os museus de Teresina estão vazios? Escala 6X1, insegurança, transporte e até PIX dificultam acesso

Museu do Piauí, no Centro de Teresina (Foto: Divulgação/ Governo do Estado)

O Museu do Piauí, no Centro de Teresina, passará por uma reforma a partir deste mês de junho. A informação obtida de forma antecipada pela Todavia prevê que a revitalização deve ser anunciada oficialmente no próximo dia 28, em alusão ao aniversário Secretaria de Cultura do Estado, criada após a extinção da antiga Fundação Cultural.

A supervisora do museu, Margareth Torres Veloso, adiantou que entre as melhorias previstas, estão a climatização do andar superior, que hoje ainda não conta com refrigeração, e a modernização das duas principais galerias: a permanente, que abriga obras de artistas piauienses, e a temporária, dedicada a exposições rotativas. Também está incluída a reestruturação do antigo auditório do Tribunal de Justiça do Estado (TJ-PI), que funcionou ali entre 1926 e 1975.

Outros pontos que devem receber intervenção incluem telhado, esquadrias e áreas de circulação, com foco na conservação estrutural do prédio histórico, inaugurado em 1934 e abriga mais de 7 mil peças, que juntas, contam a história do Piauí.

Piso superior receberá climatização (Foto: Divulgação/ Secult)

Segundo a apuração constatou, um reforço na segurança da estrutura também deve ser feito. Parte do museu está desde ano passado sem ar-condicionado por conta do roubo de partes externas do sistema de ar-condicionado por vândalos.

“Na reforma vamos ter um pouco de tudo, uma porção de detalhes que um prédio daquele porte necessita quanto a preservação”, avaliou a supervisora.

Supervisora do museu, Margareth Torres Veloso (Foto: Arquivo pessoal)

Museu busca se modernizar para aderir ao PIX, diz supervisora

Prédio foi construído em 1858 por coronel português (Foto: reprodução)

Atualmente, o museu cobra uma taxa de R$ 5 por visitante. Uma medida implementada em 2015 na gestão do deputado Fábio Novo (PT), ex-secretário de Cultura. A taxa é simbólica e, segundo a coordenação do prédio, ajuda na manutenção básica: limpeza, encerar piso, consertos pequenos, compra de água, copos, sabão, detergente.

“Às vezes, precisamos de um marceneiro, por exemplo, para fazer a recuperação de algo, se formos solicitar, demora muito, ficamos muito amarradas, então, o recurso da taxa ajuda para que o museu não fique descaracterizado”, avaliou.

Foto: Reprodução

O problema em relação a taxa é que, atualmente, o Museu do Piauí só aceita o valor físico. PIX ou transferências bancárias ainda não podem ser recebidos por questões burocráticas que envolvem a máquina pública. Principalmente os mais jovens, a Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, tem mostrado uma tendência a andar cada vez menos com cédulas e moedas e optam por fazer operações por dispositivos móveis.

Segundo Margareth, a situação não tem passada despercebida e será levada ao secretário de Cultura:

“A gente está, no momento, recebendo em espécie, porque nós dependemos da autorização para ter esse tipo de coisa, depende do governo e do Estado, porque nós somos ligados a Secretaria de Cultura. Em reunião próxima, nós vamos falar isso com o secretário, porque muita gente já chega, e tem apenas pix, mas nós, infelizmente, ainda não temos como receber”, informou.

Horário de funcionamento também é uma questão a ser resolvida!

O Museu do Piauí funciona de terça a sexta-feira, das 8h às 17h, sem fechar para almoço. Aos sábados, abre das 8h ao meio-dia. E fecha às segundas-feiras, dia reservado à conservação das peças. Aos domingos, permanece fechado, por uma questão menos poética e mais prática: insegurança no Centro da cidade, ausência de transporte público e dificuldade de deslocamento dos funcionários.

“No domingo, no momento não abrimos, devido ao perigo ainda que está no Centro, né? Então, nós estamos esperando a revitalização do Centro pra isso acontecer, porque a segurança lá é muito pouca. A maioria dos nossos mediadores e funcionários que trabalham aos sábados e domingos atuam em regime de plantão. Muitos deles moram em bairros distantes e dependem do transporte público, o que tem dificultado bastante o deslocamento, especialmente após os problemas recentes com o sistema de ônibus”, afirmou a supervisora.

“Às vezes, ‘os de fora’ valorizam mais”

Fundado em 1934, o Museu do Piauí abriga hoje mais de 7 mil peças expostas, distribuídas em salas temáticas que atravessam os tempos: do Piauí indígena ao colonial, do Império à República, passando por espaços dedicados à cultura afro-brasileira e à vida nas fazendas do interior. Entre as peças, está inclusive uma pia de batismo do século 17, utilizada pelos portugueses na catequização dos povos indígenas. Provas concretas de como o Piauí se formou e enraizou-se da forma como é. 

Pia de batismo é um dos itens mais antigos do Museu do Piauí (Foto: Paula Sampaio)

É uma viagem pela história de um estado que aprendeu a resistir, mas, em alguns casos não aprecia o valor de si próprio. Hoje, no entanto, o museu enfrenta a contradição de ser um ponto turístico querido por estrangeiros e desconhecido por muitos piauienses.

“A gente não recebe visitantes só do Piauí, mas de várias partes do Brasil e até do exterior. E, muitas vezes, quem vem de fora valoriza mais a nossa identidade do que nós mesmos, que vivemos aqui”, finaliza.

Foto: Paula Sampaio

Teresina tem público, mas por que não vai aos espaços culturais?

Economista de São Paulo João Leiva (Foto: Arquivo pessoal)

A pesquisa “Cultura nas capitais” revelou dados interessantes sobre o acesso a cultura em Teresina. Um exemplo: apenas 18% dos moradores de Teresina frequentaram museus nos últimos 12 meses, número que embora abaixo da média nacional, que é de 27%, não é a pior entre as capitais nordestinas.

Para se aprofundar mais no que esse conjunto de informações que dizer, a Todavia conversou com o responsável pela pesquisa, João Leiva, economista pela Universidade de São Paulo (USP), com mestrado em Cinema e Gestão Cultural e doutor em filosofia.

Circulo azul representa o acesso em Teresina comparado a média de capitais (Fonte: “Cultura nas capitais”)

Apesar dos índices baixos, o economista e pesquisador João, responsável pelo estudo, afirma que há grande margem de crescimento. “No caso dos museus, você tem 18% que foram e mais 24% que demonstram interesse, mas não foram. Isso mostra que dá para mais do que dobrar o público”, analisou.

O mesmo se repete em outros aparelhos culturais da cidade. A pesquisa identificou um grande número de pessoas que têm interesse, mas não frequentam.

Na prática, os dados mostram que Teresina tem um público amplo e interessado em atividades culturais, disposto a vivenciar o que a capital do Piauí tem a oferecer. A pergunta que se impõe, então, é: por que essas pessoas ainda não estão frequentando esses espaços? O que está, de fato, impedindo esse acesso?

Foto: Reprodução

Rotina de trabalho, comunicação e renda influenciam acesso a espaços culturais

Segundo o pesquisador, três fatores explicam o baixo acesso: horários pouco atrativos, falta de divulgação e barreiras sociais como renda e escolaridade. Ele analisa o caso de museus:

“Para atrair o morador, o museu precisa ter uma boa divulgação e funcionar em horários mais acessíveis. Estar aberto apenas no horário comercial acaba limitando o acesso, porque é justamente quando a maioria das pessoas está trabalhando. Isso pode estar afetando o público local. Outro ponto é que muitos museus, especialmente os de história, trabalham com exposições permanentes. Aí o morador que já foi uma vez sente que já viu tudo, porque não há novidade. É diferente do turista, que vai pela primeira vez. É comum, aliás, que a gente visite mais museus fora da nossa cidade do que dentro dela”, avaliou.

Na pesquisa, quando questionados, mais teresinenses citaram o Museu de São Paulo (Masp) do que espaços importantes do Piauí, como o Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato, fundado por Niède Guidon e ou até mesmo o Museu Dom Avelar, que tem um rico acervo, na zona Sul. O Museu do Piauí foi mais citado:

Fonte: Pesquisa Cultura nas capitais

Acesso é menor entre classe “D e E”

A pesquisa também indica que o acesso à cultura aumenta com o nível de escolaridade e renda. Pessoas com ensino superior frequentam mais todos os tipos de atividades culturais. Já entre as classes D e E (mais pobres), o acesso é muito abaixo da média.

Nessa realidade, além da escala de trabalho de 6X1 (onde as pessoas trabalham seis dias por semana e folgam apenas um), há problemas estruturais da cidade, como o transporte e a segurança. Muitas vezes, o teresinense até gostaria de fazer uma programação naquele local, mas, a pessoa mora longe e não tem como chegar.

Teresina enfrenta grave crise no transporte público desde a pandemia (Foto: Reprodução)

Ainda no caso de Teresina, as festas populares e shows de música têm alta adesão: 44% dos moradores de Teresina participaram de festas populares no último ano, segundo maior índice entre as capitais nordestinas. “É uma vocação da cidade que precisa ser reforçada”, diz João.

Para ele, a cidade tem potencial para crescer no acesso à cultura, desde que haja ações objetivas: ajuste de horários, melhor comunicação e inclusão social.

“É preciso olhar para o cardápio de atividades culturais disponíveis na cidade e buscar um diálogo mais direto com a população. Isso passa por abrir os espaços em horários mais adequados ao público local, melhorar a comunicação e avaliar a qualidade das exposições. Cada perfil de público exige um ajuste específico. Em várias cidades, por exemplo, vimos um adaptar dos horários ajudou a atrair públicos diferentes. Uma coisa que ficou clara é a importância de segmentar a comunicação e esse é um desafio grande hoje, porque tudo está nas redes sociais. É onde se divulga desde eventos culturais até o que se vai comer no jantar. A disputa por atenção é enorme”, declarou.

Teresina segue sem um Plano Municipal de Cultura

O último presidente do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Teresina, Pedro Vidal, afirmou que Teresina está sem um Plano Municipal de Cultura. O documento, que traz 12 metas e 239 ações propostas por artistas e agentes culturais, foi enviado à Câmara Municipal e chegou a ser recepcionado, através de uma audiência pública, mas, após esse momento, segue no Legislativo há pelo menos um ano.

“Nessa minuta nós temos princípios, orientações e ações listadas, que foram colhidas através de quatro conferências e de uma série de escutas públicas feitas ao longo de 10 anos. Então, nós temos esse documento potente que fala o que que é a interpretação da população, especialmente dos fazedores de cultura, do que deve ser a política cultural, do que deve ser a atuação da prefeitura, da Câmara, do Poder Público Municipal na cultura. E isso não virou lei ainda, está há quase um ano na Câmara e não tivemos um retorno”, relatou.

Pedro Vidal, último presidente do Conselho de Políticas Culturais (Foto: Arquivo pessoal)

Conselho está em vacância desde fevereiro

Pedro Vidal também cita que, o Conselho Municipal de Políticas Culturais de Teresina está em vacância, desde fevereiro de 2025. O mandato anterior acabou e os novos conselheiros ainda não foram chamados pela Prefeitura de Teresina para tomar posse. Para ele, o impasse mantém a cidade sem representantes essenciais justamente no momento em que Teresina se prepara para receber R$ 6 milhões em aporte da Política Nacional Aldir Blanc, verba federal que exige controle social na aplicação.

“Isso também mostra falta de interesse do Executivo, porque eles colocam que só podem fazer a posse quando tiver todo o Conselho fechado, o que não é uma verdade. É possível dar posse do Conselho parcialmente e depois aos outros conselheiros, o que não pode ficar sem Conselho, que é o que está acontecendo agora. Inclusive, em um momento muito frutífero para a política cultural, porque Teresina está para receber R$ 6  milhões de transferência da União pela Política Internacional Aldir Blanc que, na verdade, são um aporte de R$ 4 milhões que foi recebido no ano passado, em 2023, na gestão passada”, disse.

Afinal, por que os teresinenses não vão aos museus?

O cenário traçado revela uma equação conhecida, mas ainda sem solução: o público existe, os recursos estão disponíveis e há propostas construídas para fortalecer a cultura, mas, falta que as engrenagens institucionais e políticas se movam com maior interesse para fazer essas ideias aconteceram.

Teresina não carece unicamente de interesse por parte da população. O que faltam são especialmente as são condições objetivas para o acesso acontecer. A maior parte dos aparelhos culturais ainda operam em horários pouco compatíveis com a rotina do trabalhador, carecem de infraestrutura moderna e enfrentam burocracias que não dialogam com os hábitos das novas gerações e nem trazem novidades para aquelas mais velhas.

Os teresinenses não estão afastados da cultura por desinteresse. Estão distantes por falta de acesso, divulgação e prioridade. E isso é responsabilidade do poder público.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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