Condenado a 100 anos de prisão por ser o mentor do estupro coletivo que vitimou quatro adolescentes em Castelo do Piauí, em 2015, Adão José Silva Sousa, 54 anos, permanece encarcerado uma década após o crime. Hoje, cumpre pena na Penitenciária Regional Irmão Guido, onde, segundo apurou a Todavia com um agente penitenciário, não exerce qualquer atividade laboral.
A informação de que Adão segue cumprindo pena foi confirmada pela Secretaria de Justiça (Sejus). Por meio da assessoria de comunicação, o órgão informou que não pode divulgar a localização dos custodiados por questões de segurança. Já o destino específico de Adão foi confirmado à reportagem por um agente penitenciário que pediu para não ser identificado.
Nesta edição, a Todavia buscou saber onde estão e como vivem hoje os envolvidos nesse crime brutal que chocou o Piauí e todo o país. Por quê? Porque uma década se passou desde que a tragédia aconteceu, e por entender que este é um episódio que, embora doloroso, não pode cair no esquecimento. As falhas que permitiram que ele ocorresse, assim como as marcas profundas deixadas em uma cidade inteira, e principalmente nas vítimas, ainda exigem memória e reflexão.

O caso em questão ocorreu em maio de 2015, quando quatro adolescentes, meninas com idades entre 15 e 17 anos, foram ao local conhecido como “Morro do Garrote”, uma área de difícil na cidade, para tirar fotos que seriam postadas nas redes sociais e lá encontraram um grupo de outras cinco pessoas, em maioria também menores de idade.
Segundo relatos de quem acompanhou a investigação do caso de perto, o desfecho desse encontro foram duas horas de terror. As meninas foram despidas à faca, amordaçadas com as próprias roupas íntimas, amarradas a um cajueiro, torturadas e obrigadas a manter relações sexuais com os menores. Depois disso, foram atiradas de um penhasco. A queda no terreno de pedregulhos pontiagudos provocou ferimentos severos. Elas ainda ficaram cravejadas de espinhos pelo corpo.

Uma das vítimas, Danielly Rodrigues Feitosa, não resistiu aos ferimentos e morreu 10 dias depois.

Além de Adão, que foi acusado de vender drogas aos outros envolvidos, e que como já foi dito aqui permanece preso até hoje, as investigações apontaram a participação de mais quatro adolescentes, condenados a foram condenados à medida socioeducativa de internação, de três anos no Centro Educacional de Menores (CEM).
Vítima e família convivem com sequelas e preferem não comentar caso
A Todavia chegou a fazer contato com familiares e também tentou ouvir uma das jovens vitimadas pelo crime brutal ocorrido há dez anos em Castelo do Piauí. Inicialmente, a sobrevivente concordou em relatar como se encontra hoje, mas, posteriormente, desistiu e pediu que nenhuma informação pessoal fosse publicada. A decisão será prontamente respeitada.
O Boletim Brio compreende que se trata de uma experiência profundamente traumática e que o amparo oferecido pelas instituições públicas, somado ao esforço amoroso da família, jamais será suficiente para preencher o vazio deixado por uma violência dessa magnitude. Por isso, a emocionante história que ela compartilhou não será detalhada aqui.
O que fica é a impressão dolorosa de que, para aquelas jovens, que em parte ficaram com sequelas severas e que lhes impede de viver a vida de um adulto comum na casa dos 25/30 anos, o que lhes foi tirado não foi apenas um dia comum no interior do Piauí, mas um pedaço inteiro de futuro.
Gleison Vieira: morto dentro de cela e deixou carta para mãe
Gleison Vieira da Silva, que tinha 17 anos à época do crime, chegou a cumprir internação, mas foi brutalmente assassinado dentro da unidade onde dividia alojamento com os outros três adolescentes envolvidos no estupro coletivo. Ele foi espancado com socos, pontapés e violentas pancadas na cabeça pelos outros que acreditavam que ele pretendia delatar o grupo.
Gleison cursou apenas até o quinto ano do ensino fundamental e, segundo relatos divulgados pela imprensa da época, foi expulso de várias escolas ao longo da infância e adolescência. Em uma carta escrita para a mãe, ele pediu desculpas: “Mãe, sinto muita sua falta. Quero que você me perdoe pelo que eu fiz. Eu sei que Deus me perdoou”. A Justiça chegou a condenar o Estado do Piauí a pagar R$ 60 mil a família dele. Segundo a apuração ouviu de pessoas próximas as vítimas e também de moradores de Castelo do Piauí, as informações sobre a indenização causaram um sentimento de injustiça em familiares e amigos das vítimas. A apuração não conseguiu contato com a mãe de Gleison ou acesso a documento que comprove o real pagamento do valor.

Bento Fernando: permanece em Castelo e acumula passagens pela polícia
Outro, na época, menor envolvido no crime foi o Bento Fernando Oliveira, 15 anos. Atualmente, ele deve estar na casa dos 25 anos e, segundo a Todavia confirmou com moradores locais ainda vive em Castelo do Piauí. Ao longo desses 10 anos se envolveu em outros crimes.
Em abril de 2019, um conflito envolvendo familiares de um dos condenados pelo caso de Castelo do Piauí terminou com a mãe de Bento Fernando Oliveira ferida. A confusão começou quando a esposa de um homem relatou ter sido assediada por Bento ao passar na rua. Ao saber do ocorrido, ele invadiu a casa do rapaz armado com uma faca, iniciando um confronto. No tumulto, a mãe de Bento tentou proteger o filho e acabou sendo a principal atingida: recebeu um golpe de raspão na testa durante a investida.
À época dos fatos, durante apuração realizada pela signatária desta coluna para a reportagem “Mãe é esfaqueada ao defender filho condenado por estupro coletivo em Castelo”, publicada no portal OitoMeia, o policial responsável pelo atendimento da ocorrência relatou que Bento enfrentava forte rejeição na comunidade em que vivia, em razão de seu envolvimento no caso do estupro coletivo ocorrido anos antes. Segundo ele, desde que deixou o CEM, Bento apresentava mudanças perceptíveis no comportamento e até mesmo na forma de falar: “Ele é rejeitado pelos outros na região onde mora, pois teve o envolvimento no caso do estupro coletivo que aconteceu. Desde que retornou do CEM até mesmo a forma de falar dele mudou”, contou. (Leia aqui)
Mais tarde, em junho do mesmo ano ele foi preso novamente por tentativa de assalto a um comércio na cidade, onde rendeu as pessoas com uma faca, pedindo “dinheiro e biscoitos”.

Paradeiro de outros dois envolvidos é desconhecido e tem diferentes versões
O paradeiro dos outros dois envolvidos, porém é uma incógnita. O boletim conversou com moradores e autoridades locais da cidade que não souberam especificar o paradeiro dos outros dois jovens envolvidos e que na época tinha 15 e 16 anos. A apuração deparou-se com duas versões, sem muitos detalhes ou certezas de que um deles teria morrido e outro teria ido para fora do estado. A checagem, no entanto, não conseguiu confirmar nenhuma das duas versões.
Na época, um policial militar que, segundo apurou a Todavia, teria uma empresa de segurança no município, também chegou a ser investigado pelo Ministério Público do Piauí (MP) por suposto envolvimento no crime, após representação da Defensoria Pública do Piauí. Mas, ainda no mês de setembro daquele mesmo ano, o homem foi inocentado, após investigação da Corregedoria da PM.
A Todavia tentou falar com promotores que estiveram à frente do caso de Castelo. Mas, segundo a assessoria do órgão atualmente já estão em outras comarcas e não manifestaram interesse em entrevistas sobre o caso. A apuração também tentou contato com o defensor público Leandro Ferraz, que foi responsável pela defesa dos acusamos, mas, também não obteve uma resposta.
Dias atuais: “As famílias pelos dois lados são fechadas em copas” e não tocam no assunto
Um morador de Castelo do Piauí, que aceitou conversar com a Todavia em condição de anonimato, descreveu um cenário de silêncio absoluto em torno do caso. Segundo ele, o episódio se transformou em um tabu intransponível tanto para familiares das vítimas quanto dos acusados. “Todo mundo é fechado em copas, ninguém fala absolutamente nada”, resumiu. Ele contou que o pai de uma das meninas não admite tocar no assunto. “Se você quiser perder a amizade dele, é só mencionar isso”, disse.
Esse silêncio não está restrito ao núcleo familiar das vítimas. Do lado dos acusados, a dinâmica também é marcada por afastamento e desagregação. Ele citou a irmã de um dos adolescentes envolvidos, “uma menina de 19 anos com cinco filhos”, um exemplo de como vulnerabilidade social continuou atravessando aquele contexto familiar. Outros familiares, acrescentou, sequer querem contato: “Quando ele aparece aqui, botam ele pra correr”, falou. “E tem mais um lá que ninguém nem sabe onde é que ele tá. Se ele tá preso, o que que tá acontecendo com ele. Então, é difícil, para você produzir uma matéria aqui, porque não tem, não existe facilidade, de jeito nenhum, nem por um lado nem pelo outro”, aconselhou.

Dia do crime: restos de couro cabeludo, pais alcoólatras e clima pesado em toda cidade
Segundo o professor da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e jornalista Orlando Berti, que cobriu o caso à época e esteve diversas vezes em Castelo do Piauí, os adolescentes envolvidos no estupro coletivo vinham de contextos familiares profundamente marcados por desestruturação, abandono, violência e histórico de conflitos com a polícia. Ele descreveu em entrevista à Todavia que nenhum deles vivia uma rotina mínima de proteção ou convivência saudável.
A origem social desses jovens mostra também histórias de ruptura muito antes do crime, com lares desorganizados, uso precoce de drogas, evasão escolar, ausência de referências e, em alguns casos, convivência com violência doméstica.
Berti relatou que, segundo moradores da cidade, havia entre os adolescentes perfis distintos: um deles era descrito como reincidente em brigas e episódios de pequenos crimes, outro vivia em uma família vulnerável, com um irmão com deficiência e relatos antigos de violência familiar. Já um terceiro tinha pais em processo de separação e morava com os avós e outro era o único que residia com pai e mãe, mas cuja família também enfrentava dificuldades, inclusive com o pai tendo histórico de prisões.
“A gente foi para, além do fato, as histórias desses menores de idade e coincide muito com as histórias do Brasil e dos brasileiros, sempre quando tem uma tragédia, tanto para as vítimas, quanto para os acusados é um conjunto de histórias que levam para aquele momento. Histórias essas que se tivessem políticas públicas seriam evitadas. Quando chegamos lá chamou atenção que eram quatro famílias dos menores desestruturadas, uma medianamente e outras três de maneira extrema, entre elas a do que já tinha sido apreendido e a do que morreu. Eram meninos que tinham problemas com a escola, metade não tinha pai e os que tinham ou eram pais alcoólatra e um outro que nos contaram que quando bebia entrava na casa das mulheres”, relatou.

Além dos jovens, Orlando Berti também contou que as famílias dos adolescentes ficaram marcadas: “Os comerciantes se recusavam a vender para uma das mães, que já era uma pessoa bem vulnerável no sentido de poder comprar coisas”, disse.
Ao longo da cobertura, Berti destacou que a atmosfera emocional em Castelo era de enorme tristeza e tensão. As famílias dos acusados passaram a sofrer forte rejeição social, mesmo aquelas que também viviam em condições de vulnerabilidade extrema e não tiveram participação no crime.
“No caminho, até o local onde tudo aconteceu encontrávamos pedaços de couro cabeludo, foi algo brutal e macabro e me marcou muito como o ser humano ainda detem esse estado de ‘animalessência’. As meninas tinham a mesma idade deles, uma das hipóteses era de que estavam muito drogados, que infelizmente ainda domina a população […] “Foi um caso que você sentia aquela negativa na cidade, a tristeza na cidade, o local assim bem encarregado [durante a cobertura]”, descreveu.
O dia que roubou um futuro inteiro
A violência sexual produz marcas que transbordam o corpo, atravessam o tempo e moldam a vida de formas que pessoas que nunca passaram por isso, apesar de se solidarizarem, raramente compreendem. E, assim como os relatos apresentados em obras assim, a percepção é de que algo irreversível aconteceu, de que uma violência humana, gratuita e covarde se impôs sobre vidas que estavam apenas começando.
E é impossível não pensar na cena que antecedeu a tragédia. As jovens subiram um morro no interior do Piauí, um hábito absolutamente comum a quem vive em cidades pequenas, onde muitas vezes faltam equipamentos de lazer e sobram apenas os pequenos encantos naturais locais como fuga para o tédio. Poderia ter sido qualquer grupo de adolescentes. Poderia ter acontecido com qualquer pessoa. Mas eram elas que estavam ali, naquele dia, naquele horário, naquele fragmento de mundo. E essa combinação de acaso e vulnerabilidade escancara o caráter mais cruel da violência sexual. Ela pode acometer qualquer um.
E suas consequências atravessam famílias inteiras, uma cidade inteira.

O que emerge, após uma década, é a certeza de que o caso de Castelo do Piauí não terminou quando as condenações foram dadas ou quando manchetes deixaram de circular. A tragédia mostrou, de forma dolorosa, a brutalidade a que pode chegar um ser humano, inclusive adolescentes, quando vulnerabilidades profundas se somam a escolhas individuais. Há, sim, omissões do Estado, desestrutura familiar e ausência de políticas públicas atravessando essas vidas. Mas nada disso apaga que mesmo diante das piores circunstâncias, há pessoas que escolhem um caminho correto e outras que escolhem ferir, às vezes, até sem razão nenhuma.
Revelou também como o trauma se prolonga no tempo, nas famílias que não conseguem falar, nos sobreviventes que lutam para seguir adiante, nos acusados que carregam histórias quebradas. O que permanece, enfim, é o alerta de que nenhum horror surge do nada e que lembrar com rigor e reflexão é a única forma possível de impedir que tragédias como essa se repitam.



