“Agora tem até ônibus no Aeroporto de Teresina”, disse um passageiro. “Pois é. Nem parece que cheguei em casa”, completou o homem ao lado. O diálogo é entre dois viajantes enquanto desciam do avião no Aeroporto Senador Petrônio Portela num voo vindo de Minas Gerais, no início de setembro. O ônibus logo chegou, ainda que para um trajeto tão curto. E junto com ele, veio também a sensação de um “Piauí menos atrasado”, em relação a outras regiões do país. Se há quem pense que no Piauí só tem estrada de terra, jumentos pelas ruas e seca (versão estereotipada e até xenofóbica compartilhada por brasileiros do Sul do país), o aeroporto, uma das principais portas de entrada do estado, até pouco tempo atrás não ajudava a combatê-la. Mas algo mudou. Eis o tema da semana.

Em março de 2022, a empresa CCR Aeroportos assumiu a gestão do Aeroporto de Teresina. O terminal passou por uma ampla reforma com investimento de R$ 166 milhões, que contemplou a modernização do prédio, ampliação das áreas de embarque e desembarque, climatização, novo estacionamento, adequação viária e a construção de um novo pátio com capacidade para oito aeronaves. Além disso, forma implantados fingers (aqueles túneis de embarque até o avião), conectores e o uso dos ônibus para o transporte de passageiros entre o terminal e o avião no embarque remoto, deixando os viajantes menos expostos à chuva e ao calor.

O advogado e viajante assíduo Roland Jacob, compartilhou sua vivência recebendo turistas. “Eu acredito que precisamos fazer o melhor com o que temos. E a reforma do aeroporto foi muito, muito importante. Diversas vezes recebi amigos, advogados, investidores de São Paulo e do Rio, que vinham me visitar, seja a turismo ou a negócios, e sempre comentavam negativamente sobre o aeroporto. Minha mãe, que trabalha com turismo há 40 anos, sempre me conta uma história que eu passo adiante: Teresina é a única capital do Nordeste que não está no Atlântico. Além disso, o aeroporto de Teresina era, até então, um dos poucos do Nordeste menor que a própria rodoviária”, narrou Roland Jacob à Coluna Ápice.

SALA VIP JÁ ESTÁ FUNCIONANDO
Com a reforma, em julho deste ano o aeroporto ganhou também a sua primeira Sala Vip, espaço confortável com comidas e bebidas, espaço para 50 visitantes, espaço kids, área de trabalho e de descanso. O acesso pode ser grátis para passageiros que têm cartões de crédito parceiro ou é possível acessar com pagamento avulso, no valor promocional de R$ 120.
“Está aprovada. É boa, ainda mais que é um local agradável com acepipes [aperitivos] e bebidas, face aos preços altos praticados no aeroporto (risos)”, avaliou o advogado Roland Jacob.

CRÍTICA À LOGÍSTICA DE EMBARQUE
Se em aeroportos com o de Brasília, Congonhas, Campinas e Galeão, são longos os trajetos e caminhos para encontrar o seu portão em meio a algumas dezenas deles, em Teresina são três portões de embarque. Com a reforma, alguns passageiros não ficaram satisfeitos com a nova logística.
“Quando você está na área mais antiga — tanto no térreo quanto no piso superior —, tem uma sensação de espaço ultrapassado. Mas, ao ir para a parte reformada, a experiência se aproxima de aeroportos internacionais, como o Aeroporto Pinto Martins, em Fortaleza. Isso foi muito positivo. Por outro lado, algumas sensações negativas também surgiram. O passageiro caminha bastante até chegar ao embarque: primeiro sobe para fazer o check-in e despachar a bagagem, depois desce novamente para embarcar. E são apenas três portões (A, B e C), dois deles localizados em níveis diferentes. Esse espaço poderia ter sido melhor aproveitado. O projeto, nesse ponto, não foi tão inteligente”, opinou o publicitário Luan Leal.

O trajeto curto de translado pelo ônibus também causou dúvidas sobre a utilidade do serviço. “É um aeroporto pequeno para já fazer uso do recurso de ônibus entre o trajeto do avião e da sala de embarque. Parece um desperdício de espaço e uma experiência desnecessária de distanciamento para um terminal desse porte”, apontou o passageiro Luan Leal.
ADAPTAÇÃO DO USUÁRIO A NOVA OPERAÇÃO
Por outro lado, embora a ampliação tenha demandado do passageiro mais esforço físico (caminhada maior) e alguns embaraços em termos de sinalização, deslocamento e localização do embarque, estes são pontos que passam pelo processo de adaptação do usuário ao novo perfil de operação.
“O ambiente de aeroporto, geralmente, tende a ser caótico e confuso. Quando há locais mais amplos, bem sinalizados e organizados, a experiência do passageiro melhora bastante. Outro ponto importante: muitos passageiros são de primeira viagem. Então, ter um espaço bem identificado, com orientações claras de como se movimentar, desde o check-in, passando pelo embarque, pelas escadas rolantes, com sinalização no chão e no teto, facilita muito. Isso é extremamente positivo”, considerou o passageiro Roland Jacob.
PRINCIPAIS OBRAS FORAM CONCLUÍDAS E MUDANÇAS DEVEM SER FEITAS NO ATENDIMENTO
O Aeroporto de Teresina foi inaugurado em 1967, e ao longo do tempo evoluiu de forma bem tímida. O Boletim Brio conversou com a superintendente do aeroporto, Chirlayne Torres. Segundo ela, o Piauí passou a ter um aeroporto em linha com os melhores terminais do Nordeste.

“A concessão permitiu que esses investimentos fossem realizados, resultando em um terminal mais amplo, moderno e preparado para atender às novas demandas da capital e do estado. A maior parte das obras já foi concluída e entregue à população. Hoje temos um terminal ampliado, estacionamento reformado e áreas de embarque mais confortáveis. Para os próximos meses, seguiremos avançando com ajustes de infraestrutura e melhorias contínuas no atendimento ao cliente, sempre com foco em conforto, acessibilidade e eficiência operacional“, destacou a superintendente do Aeroporto de Teresina.
NOVAS OFERTAS DE VOOS
A modernização é essencial, além da experiência do passageiro, para oferecer condições de operação e atratividade para novas rotas e companhias aéreas. O desafio: garantir que as rotas de voos que são ampliados ou inauguradas não deixem de existir com o passar dos meses. A partir de outubro, a companhia aérea Latam, vai trazer sete novos voos de Teresina para o Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por semana. Subindo de 14 para 21 aeronaves fazendo o trajeto a cada sete dias. Em dezembro, Teresina voltará a contar com voos diretos para o Aeroporto de Congonhas, também em São Paulo, um dos principais do país.
“Estamos sempre em diálogo com as companhias aéreas para buscar novas rotas que atendam à demanda dos piauienses e reforcem a conectividade da cidade. Um dos desafios é equilibrar essa oferta com a demanda, garantindo sustentabilidade às operações. Mas, com a nova infraestrutura, o aeroporto se torna mais competitivo e preparado para receber esse crescimento. A ampliação do terminal foi fundamental para nos preparar para esse crescimento”, contou Chirlayne Torres.
Durante a fase de reforma, quase 600 empregos foram gerados. A expectativa é para que haja também um crescimento no número de usuários. 97 mil passageiros passaram pelo Aeroporto de Teresina em agosto. Mas, uma realidade que atinge grande parte da população são os altos preços para decolar e pousar em Teresina. São muitos os relatos de passageiros que vão de ônibus para Fortaleza, no Ceará, ou São Luís, no Maranhão, porque saindo de lá as passagens aéreas são consideradas bem mais baratas. O jornalista Naã Furtavo já teve que recorrer a essa opção.
“A gente espera que o aeroporto cresça ainda mais, mas existe uma questão importante: que Teresina não vire uma ilha. Ou seja, que não haja dificuldade para vir ou sair daqui em direção a outras cidades. É essencial que os acessos sejam melhores, que haja mais linhas e voos ligando Teresina a outras capitais e até mesmo a cidades turísticas, de forma mais acessível. Para mim, o verdadeiro desenvolvimento também passa por isso: não apenas pela infraestrutura, mas pela possibilidade real de ir e vir, de conectar Teresina a outros lugares”, relatou o jornalista piauiense Naã Furtado.

CÉU DE BRIGADEIRO? AINDA NÃO
A recente reforma do Aeroporto de Teresina representa, sem dúvida, um avanço. Embora, além dos benefícios estruturais, é preciso reconhecer que permanecem desafios relevantes, sobretudo no campo da logística e da operação. Em momentos de transição, como o atual, é natural que haja críticas, ajustes e até mesmo certo estresse tanto por parte da gestão aeroportuária quanto dos usuários do sistema. Os apontamentos devem ser incorporados como oportunidades de aprimoramento contínuo.
Não se pode ignorar, que a modernização demorou – muito – a chegar. O atraso reflete, em grande medida, a condição histórica de subdesenvolvimento do Piauí: um estado cujo potencial turístico e industrial existe, mas não foi devidamente explorado. A reforma do aeroporto pode simbolizar um sinal do processo de desenvolvimento em curso, viabilizado, neste caso, por meio de uma parceria público-privada.
Importa ainda sublinhar que o aeroporto carrega limitações próprias de sua localização, dentro da cidade, sujeitando-se a restrições estabelecidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Soma-se a isso um gargalo antigo: o elevado custo das passagens aéreas, que afasta boa parte da população de viagens regulares. Uma parcela da população piauiense nunca andou de avião. Em um dos estados mais pobres do Brasil, garantir acessibilidade tarifária deve ser prioridade, pois somente assim a infraestrutura modernizada cumprirá plenamente sua função à sociedade.



