Prestígio, influência, beleza e carisma… O que faz a relevância social no Piauí? Péricles, David Carvalho, Ítalo John e Nylbert respondem

Uma foto é publicada em uma coluna social. Em poucos minutos, acumula curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações. Um empresário inaugura um negócio, uma influenciadora aparece em um evento, uma família celebra uma conquista ou uma figura tradicional surge em uma agenda prestigiada. Ali forma-se um circuito de atenção que ajuda a definir quem está em evidência, quem desperta curiosidade e quais histórias (e negócios) ganham espaço no imaginário social como importantes.

A Todavia desta semana reúne histórias de alguns dos colunistas sociais mais influentes e destacados do Piauí. A partir de suas histórias e reflexões sobre a profissão, a coluna busca compreender o que torna uma pessoa relevante na vida social piauiense, como esse universo se transformou ao longo dos anos e quais são os elementos que continuam despertando atenção em uma época em que a influência passou a ser disputada em tempo real nas redes sociais. 

Reinvenção e permanência em um cenário em transformação

O colunista social Péricles Mendel completa, em 2027, 20 anos nessa área do Jornalismo. O primeiro contato com esse universo aconteceu ainda em 2005. Na época, ele auxiliava a então prefeita de Altos, Elvira Raulino, na produção da coluna que ela assinava no Jornal O Dia, no impresso. Era ele quem recebia as informações, organizava o material e preparava os conteúdos que, naquele período, ainda chegavam principalmente por e-mail, uma dinâmica bastante diferente da velocidade imposta hoje pelo WhatsApp.

Péricles e Elvira em feijoada promovida pelo jornalista (Foto reprodução Cidade Verde)

Mais tarde, o jornalista e publicitário Cliff Villar, atualmente diretor corporativo do Grupo de Comunicação O POVO em Fortaleza, o convidou para assumir a coluna Prisma, também no O Dia. A proposta, no entanto, foi recebida com certa resistência. Naquele momento, Péricles se identificava mais com a cobertura cultural do que propriamente com o colunismo social.

“Eu falei para o Cliff que eu achava que não dava certo, porque não era o que eu queria, embora eu trabalhasse com cultura no Jornal O Dia. Aí ele falou: ‘Mas é só você dar uma pegada mais cultural, informativa também na sua coluna’. É tanto que isso me acompanha até hoje. Eu procuro fazer o social, mas sempre com notícias, algo diferenciado”, pontuou explicando que busca construir uma coluna que mistura cobertura social, informação, curiosidades, bastidores e personagens de diferentes áreas.

Péricles Mendes (Foto reprodução)

De lá para cá, já fez coberturas em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e até em Paris, onde acompanhou uma exposição durante uma viagem em 2017. Durante a pandemia da Covid-19, quando eventos foram suspensos e o convívio social ficou restrito, Péricles pontuou que precisou trazer um novo formato ao trabalho.

“Um dos momentos mais marcantes foi a pandemia, porque naquele momento eu fiquei sem saber como é que ia ser. Eu trabalho com eventos. Não vai ter mais eventos, está todo mundo em casa. E agora? Foi quando eu tive um insight e decidi mudar. Dei esse pulo do gato, como o povo diz, e tive que ir para uma pegada diferente no Instagram. Além da coluna no Cidadeverde.com, eu me reinventei, sobretudo no Instagram, porque o meu segmento foi um dos mais afetados por conta da pandemia”, lembrou.

Questionado pelo Boletim Brio sobre o que torna uma pessoa socialmente relevante no Piauí, Péricles afirmou que notoriedade não está necessariamente ligada apenas à posição econômica ou ao prestígio social. Além de registrar pessoas que já ocupam espaços de destaque, os colunistas também atuam como agentes capazes de apresentar e destacar personagens, ampliando a visibilidade de determinados nomes.

“Sobre essa questão, muitas vezes vai além. Às vezes é um amigo, alguém que tem um trabalho relevante que merece esse destaque por algum motivo e que às vezes não tem essa oportunidade. E a gente dá esse direcionamento.”

Para Péricles, a relevância social resulta de uma combinação de fatores.

“Às vezes tem essa questão da posição social, mas também tem a questão da influência. Hoje a gente vive cada vez mais num universo que isso conta muito. Tem o carisma, além do trabalho. Tem gente que se destaca pelo trabalho e vira notícia, sem dúvidas, por isso. É uma série de fatores. Às vezes a pessoa é bonita também. Acho que beleza todo mundo gosta de ver, quem acompanha a coluna social, sobretudo”, acrescentou.

Péricles Mendel (Foto reprodução)

Perguntado pela apuração se pessoas com muitos seguidores ocupam hoje o mesmo espaço das figuras tradicionais da sociedade piauiense, o jornalista afirmou que não acredita que o sucesso digital substitua automaticamente a relevância social.

“Tem gente que tem 300 mil, 500 mil seguidores, mas não tem uma relevância social. Às vezes é um público específico que segue por determinada razão. Não é a mesma pessoa que é notícia na rede social que vai ser notícia na coluna social. A rede social abriu muito caminho nesse sentido. A pessoa se torna conhecida, mas nem sempre ela é relevante para o colunismo social”, ponderou.

David Carvalho e a cyber-shot, do hobby à profissão 

Em 2004, quando as redes sociais ainda engatinhavam e o registro da vida social circulava principalmente em sites e colunas impressas, David Carvalho começou a fotografar festas em Teresina com uma câmera Cyber-shot. O material abastecia o Girafesta, página criada por ele para reunir imagens das baladas da época. O hobby logo se transformou em profissão. Pouco tempo depois, veio o convite para integrar o Portal Meio Norte, onde passou a assinar a Coluna Clicks. Da coluna impressa no Jornal Meio Norte, esteve em um quadro no programa Super Top, até chegar ao Vipi, projeto do qual se tornou administrador em 2024 e hoje um dos braços do projeto digital da TV Meio Norte. Atualmente, a página tem 59,9 mil seguidores nas redes.

“Foi nesse período que decidi cursar Jornalismo, unindo duas paixões: imagem e comunicação. Desde então, além da coluna online, mantive a mesma coluna no Jornal Meio Norte até 2024. O Vipi surgiu em 2014, inspirado no crescimento de perfis e portais de entretenimento e sociedade, e passei a integrar a equipe em 2018. Atualmente continuo cobrindo festas e eventos, mas com um olhar mais voltado para a produção de conteúdo estratégico e curadoria de imagem”, destacou. 

Imagem ilustrativa de como é uma Cyber-shot (Foto reprodução)

Ao longo de duas décadas acompanhando a vida social piauiense, David, questionado pela Todavia, avaliou que riqueza e influência não são sinônimos. Há pessoas com grande patrimônio que despertam pouco interesse público, enquanto outras, sem a mesma condição financeira, possuem capacidade de mobilização e relevância dentro de seus grupos sociais. Na avaliação dele, a influência está menos ligada ao dinheiro e mais à construção de reputação e poder de articulação.

“É uma combinação de fatores, mas, sobretudo, relacionamento e influência. Há pessoas muito ricas sem grande relevância social, assim como integrantes da classe média com enorme capacidade de mobilização e representatividade. O dinheiro pode abrir portas, mas é a forma como se constrói poder que realmente gera influência”, disse. 

David Carvalho (Foto reprodução)

“A elite de verdade é uma bolha com códigos muito próprios”

A convivência frequente com empresários, políticos, profissionais liberais e famílias tradicionais também lhe permitiu observar os códigos que organizam os círculos de maior prestígio social. Embora reconheça que o trabalho de colunista facilite o acesso a esses ambientes, ele afirma que nunca enxergou isso como um caminho para pertencimento. Seu interesse sempre esteve mais na observação das dinâmicas sociais do que de integrar esses grupos.

“A gente, como fornecedor, consegue frequentar esses ambientes, ser convidado, criar relações e até fazer boas amizades. Mas a elite de verdade é uma bolha com códigos muito próprios, e furar essa barreira não é algo simples. Na verdade, a pessoa precisa querer muito fazer parte daquele círculo para conseguir se integrar de fato. Como colunista, nunca tive essa ambição. Sempre gostei mais da posição de quem observa do que da de quem ocupa os espaços de poder e influência”, ponderou. 

Essa posição também influencia a forma como escolhe os personagens que aparecem em suas publicações. David afirma que os critérios do colunismo social são inevitavelmente subjetivos, mas diz buscar algo além da popularidade. Em sua avaliação, relevância, influência e representatividade costumam ser indicadores mais importantes do que alcance ou fama. “Muitas vezes, uma pessoa discreta, low-profile, mas com patrimônio, poder de decisão e credibilidade, gera muito mais interesse jornalístico do que alguém extremamente famoso, porém sem influência concreta nos ambientes em que circula”, apontou. 

David Carvalho (Foto reprodução)

Redes democratizaram a fama, mas não a influência, defende colunista 

As transformações provocadas pelas redes sociais alteraram parte desse cenário. Hoje, qualquer pessoa pode construir audiência, criar uma marca pessoal e conquistar visibilidade. Ainda assim, David acredita que a lógica do poder continua funcionando de maneira diferente da lógica do engajamento. Para ele, as redes democratizaram a fama, mas não necessariamente a influência.

As redes sociais democratizaram a visibilidade e permitiram que muitos novos ricos construíssem imagem, reputação e posicionamento por meio de estratégias de branding e marketing pessoal. Hoje, é possível parecer relevante para um público enorme sem necessariamente ocupar espaços tradicionais de poder. Mas poder de decisão continua sendo outra história. Há pessoas muito conhecidas que influenciam comportamentos, e há pessoas quase invisíveis ao grande público que influenciam decisões”, refletiu o jornalista

Ítalo John, as fotos no Super8, a vitrine social teresinense e o perfil no Instagram

Ítalo John, colunista social (Foto reprodução)

A história do jornalista Ítalo John no colunismo social começa em um almoço de domingo. Foi ali, há cerca de dez anos, que conheceu o também jornalista Rivanildo Feitosa, um encontro que mudaria os rumos da vida profissional. Na época, trabalhava no Portal 45 Graus, onde permaneceu por cerca de um ano. O convite de Rivanildo era para uma função de fotografar as baladas da cidade para a então coluna Inside, do Jornal Meio Norte.

Nomes em alta da época, o Super 8, Casual Bar e Baruc eram alguns dos cenários por onde circulava com a câmera nas mãos. As fotografias publicadas na Inside ocupavam espaço privilegiado no jornal e ajudavam a construir uma espécie de vitrine social da Teresina daqueles anos.

“Comecei a conhecer as pessoas, fazer amizades com elas, com o tempo, passei a saber quem elas eram. Nesse tempo, na Inside elas apareciam com foto gigante. Todo mundo queria aparecer na Inside, e claro, trabalhando e convivendo com o Rivanildo aprendi bastante, sobre legendas, como selecionar fotos, tanto que quando ele tirava férias ou viajava, eu ficava interino na Inside, que durante muitos anos foi a maior e melhor coluna social do Piauí. Foi uma época maravilhosa e de muito aprendizado”, contou.

Um dos pontos de virada na carreira coincidiu com uma transformação mais ampla do colunismo social. Se antes a legitimação vinha das páginas dos jornais, hoje ela também passa pela capacidade de dialogar diretamente com o público. “O momento mais marcante foi a virada de chave, em que eu fazia muitos trabalhos para outros perfis e quando passei a cuidar do meu, tudo melhorou, ganhei destaque, relevância e continuo meu trabalho!”, completou.

Nessa década trabalhando e acompanhando eventos sociais, pontuou que a maior lição que aprendeu foi sobre limites. “Vou citar a lição que aprendi, a respeitar as pessoas que não querem ser fotografadas, que são extremamente discretas, tímidas, a fotografar e destacar quem ama aparecer, ser vista, notada e ter cuidado com a foto que vai ser postada. Muito do nosso trabalho também vem dos feeds e dos stories das pessoas que seguimos. Tem gente que ama aparecer, mas não ajuda em nada e não valoriza o nosso trabalho!”, pontuou.

(Foto reprodução)

O que faz a relevância social de piauiense?

Quando questionado sobre o que torna alguém interessante para uma coluna social, Ítalo descartou fórmulas únicas. Para ele, notoriedade não depende apenas de dinheiro, beleza ou status. É resultado de uma combinação de elementos que despertam interesse coletivo.

“Pra ser sincero, acho que tudo isso, uma combinação mesmo, tem gente muito bonita, com estilo, simpatia e carisma que é sucesso, todo mundo curte, acompanha a vida. Tem gente com muito dinheiro que as pessoas querem saber a rotina, tem pessoas que têm um trabalho incrível, que inspira, que gera emprego, que todo mundo gosta! Todo mundo respeita! Tem pessoas que não são ricas de dinheiro, mas têm valor, essência, que as pessoas dão valor verem elas no perfil!”, avaliou.

Colunismo social ajuda a contar sobre identidade do estado, diz Nylbert Andrade

O jornalista e colunista social Nylbert Andrade iniciou sua história no colunismo social em janeiro de 2020, quando lançou a Coluna Nylbert Andrade com a proposta de registrar os principais acontecimentos da sociedade piauiense. Atualmente, a página da coluna reúne 94 mil seguidores no Instagram. Apaixonado pela comunicação e pelas relações humanas, ele afirma que sempre teve interesse em acompanhar eventos e histórias que ajudam a contar a identidade social do estado.

“Sempre gostei de acompanhar os acontecimentos da sociedade piauiense, os eventos, as conquistas profissionais e os momentos especiais das famílias. Em janeiro de 2020, iniciei oficialmente a Coluna Nylbert Andrade com o propósito de registrar e divulgar o que acontece de mais relevante na sociedade do nosso estado. Ver a coluna se consolidar como uma referência social no Piauí e receber o carinho e a confiança dos leitores é, sem dúvida, uma das maiores realizações da minha vida profissional”, afirmou.

Nylbert (Foto reprodução)

Perguntado pelo Boletim Brio, Nylbert disse acreditar que características como credibilidade, respeito, solidariedade e capacidade de contribuir para a sociedade são fatores que diferenciam as pessoas que permanecem em evidência ao longo do tempo. Ele acrescentou que as redes sociais ampliaram a visibilidade de novos personagens da vida pública, mas ressaltou que a construção de uma reputação sólida, baseada em legado e boas relações, continua sendo um dos elementos mais importantes para quem deseja ocupar um espaço de destaque na sociedade.

Nylbert (Foto reprodução)

Ápice e a importância do olhar no colunismo social 

A jornalista Shelda Magalhães inaugurou uma coluna social em um novo formato dentro do Boletim Brio. Em entrevista à Todavia, ela afirmou que a coluna surgiu a partir de uma leitura de mercado e de audiência, ao perceber a existência de um público interessado em acompanhar conteúdos sobre bastidores, negócios, vida social, estilo de vida e moda.

Segundo Shelda, dentro do que é chamado de Economia da Atenção, conceito popularizado pelo economista e cientista cognitivo Herbert A. Simon, onde a atenção está em constante disputa, sobretudo nas redes sociais, esse é um público fiel e engajado. Por isso, a criação da coluna também parte de uma decisão editorial de atender a essa demanda, oferecendo ao leitor uma contribuição própria dentro do ecossistema do colunismo social no Piauí.

Jornalista Shelda Magalhães (Foto reprodução)

Para a jornalista, o diferencial de uma colunista social está principalmente no olhar construído diante desse universo. Ela cita Joyce Pascowitch como uma de suas principais referências profissionais, especialmente pela trajetória no jornalismo e pela capacidade de atualizar o colunismo social para novos formatos, como a newsletter.

“As minhas referências estão no campo das minhas vivências pessoais e são um misto, um caldeirão. Eu escrevo sobre negócios, não sou uma empresária, mas sempre gostei muito de consumir esse tipo de conteúdo. O meu pai foi comerciante por muitos anos. Eu nasci e cresci em uma casa de um empreendedor, então isso vem da minha trajetória. Tenho esse olhar e essa inclinação que são naturais. As referências estão por toda parte. As referências estão na minha história”, afirmou.

Publicada semanalmente às sextas-feiras ou aos sábados, a coluna Ápice integra o e pode ser acompanhada tanto no portal quanto no perfil @boletimbrio no Instagram.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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