O potencial econômico “oculto” do Centro de Teresina: uma juventude que quer ter para onde ir

“Vim pro Centro e, de repente, fui tomada por uma saudade doce. Sentei na Praça Pedro II, o teatro à minha frente e entre uma pipoca e um algodão doce, me vi criança outra vez”, o relato nostálgico compartilhado no Instagram é do artista piauiense Bruno Mattarazzo, mas poderia ser de tanta gente que sente e vive – ou viveu – o Centro de Teresina. Fragmentos do tempo. Um lugar de identidade. Memórias, um visível abandono e o futuro incerto.

Registros do Centro de Teresina – Foto: Reprodução/Instagram

Na última semana, as redes sociais foram espaço de debate intenso sobre as novas opções culturais que estão surgindo no Centro de Teresina. Imagens de uma juventude feliz e volumosa pelas ruas. E muita gente se perguntando “quando o Centro se tornou assim?”. A edição dessa semana da Coluna Ápice veio para falar sobre identidade, sobre economia e as “boas surpresas”. Um movimento recente de pessoas, o fator empreendedorismo e uma cultura que resiste pelas mãos de quem é da terra.

“COLOCAMOS 10 MESAS E RECEBEMOS 500 PESSOAS”

No último dia 15 de maio, o empresário e arquiteto Fábio Nery, inaugurou, no Centro de Teresina, o Seu Javas Bar. Ele e os sócios já conduziam uma hamburgueria que fica ao lado do novo bar e em virtude do sucesso das vendas, decidiram expandir o empreendimento. Você deve estar esperando que a pauta seja a bebida que acabou ou o atendimento que demorou, mas essa parte fica com o pessoal do X (antigo Twitter).

Fábio Nery – Foto: Reprodução/Instagram

“A ideia era trazer esse movimento pro Centro. Nós só não esperávamos que fosse desse tamanho — extrapolou o que esperávamos, bem mais do que a gente estava guardando que fosse a aceitação. Até porque a gente é um bar. Por exemplo, a Casa Barro [estabelecimento muito conhecido, situado na mesma rua] já tem sete anos de história ali na área, conseguindo reviver, né? Reavivar e também resistir à decadência do Centro que, como todos bem sabem, naquela região ali e mais adentro do Centro, descendo ali na Avenida Lisandro Nogueira, tem muito imóvel pra alugar, muito imóvel abandonado, que já foi demolido, casas históricas do nosso Centro que estão sendo demolidas”, explicou Fábio Nery.

Centenas de pessoas nas ruas do Centro de Teresina – Foto: Reprodução/Redes Sociais

“TEM GENTE QUE LIGA PARA AGRADECER”

O “sucesso” imediato de público revela uma demanda reprimida do teresinense por espaços que fogem da eixo da Zona Leste e acolhem com mais acessibilidade e diversidade determinados perfis de consumidores. Um potencial econômico até então “oculto” e subestimado pelo setor de bares e restaurantes.

Usuários do X comentam sobre o Centro de Teresina – Foto: Captura de tela

“A gente ficou: ‘Meu Deus, e agora? Como é que a gente vai atender esse tanto de gente?’ Então, assim, todo mundo que está conhecendo o bar, ou já conhecia quem são os sócios, tem falado que era uma necessidade muito grande para a cidade, que a cidade precisava ter mais empreendimentos como esse. A nossa ideia era dez mesas, quarenta pessoas. Deu mais de quinhentas! Olha que loucura. Tem gente que liga agradecendo pra gente, é muito massa: ‘Muito obrigado por vocês terem feito isso aqui. Isso aqui era o que a cidade precisava, essa vida de rua'”, narrou o empresário Fábio Nery.

O QUE QUEREM OS JOVENS TERESINENSES?

A jornalista e cantora piauiense Bruna Leão reflete sobre as barreiras de renda impostas para o acesso à música e a ambientes de lazer aos jovens teresinenses, como um ponto de preocupação negligenciado pelo Poder Público.

“Na Zona Leste, as opções são um pouco limitadas e apelam para um público diferente do público que vai para o Centro. A gente vê bares um pouco mais caros, tanto o couvert quanto a consumação. Tem os bares que são especializados em um só tipo de música, e há muito tempo o jovem teresinense, principalmente aquele que busca se inteirar dessa parte mais piauiense, da cultura piauiense, vinha buscando alternativas. Aí chegou a Casa Barro, uns anos atrás, fez sucesso e conseguiu conquistar justamente esse público”, opinou Bruna Leão.

Bruna Leão – Foto: Reprodução

Para fugir dos estereótipos e até do cancelamento, cabe perguntar à Inteligência Artificial o que é ser “alternativo”. Segundo a dona IA, é não seguir as normas e tendências dominantes, optando por caminhos diferentes, estilos de vida e valores que desafiam o convencional. Em outras palavras, é abraçar o que é diferente. Que Teresina é uma cidade conservadora, todos sabem. Teriam, então, os teresinenses que fogem dos padrões dificuldades em ter suas demandas – enquanto público consumidor – enxergadas?

“A gente vê que o jovem, principalmente ali os universitários, buscam coisas diferentes, coisas mais acessíveis. Falta mais incentivo para que Centro volte a ter aquela vida, aquela energia. Por que que a Casa Barro faz tanto sucesso? Porque ela atrai um público que antes não tinha muito pra onde ir, ela tem um aconchego, eu acho que o nome vem até daí”, observou a cantora piauiense Bruna Leão.

Casa Barro – Foto: Reprodução/Instagram

A GENTE QUER COMIDA, EDUCAÇÃO E ARTE

Muito se fala em pressa, em sociedade do espetáculo, nesse mundo acelerado tão questionado pela Geração Z. O direito ao descanso, por exemplo, passou a estar em voga, o que anos atrás era impensável. Nada de ócio produtivo. Especialistas em saúde mental alertam para a necessidade de cultivar o seu próprio mundo, interior e subjetivo, ao se proteger do bombardeio de estímulos digitais.

Ainda na seara da saúde mental, cito a necessidade que o ser humano tem de ter seu hobbies, ou ainda, uma das mais latentes, a demanda humana por sociabilidade. O que somos é constituído por muitas trocas com o outro. A frase é famosa de Jean Paul Sartre: o inferno são os outros. E não seria o céu também? O direito ao lazer e à cultura não tem CEP, nem classe social e é urgente, sim.

“Os jovens precisam de sociabilidade, então eles vão procurar esses espaços também, que isso seja possível. A gente vive hoje muito da valorização das identidades, da disseminação e da valorização da cultura. Às vezes, é uma busca de uma identidade própria, de determinado nicho. Vamos lembrar que Teresina, no Centro, bem ou mal, ele nunca ficou esvaziado plenamente de eventos culturais. Nós temos, por exemplo, o próprio Sanatório Geral, o Carnaval, o evento do Estouradas, e a Casa Barro, que é mais recente”, destaca o professor de Economia da Universidade Federal do Piauí, João Soares.

O professor João Soares – Foto: Arquivo Pessoal

MAS ISSO VEIO PARA FICAR?

A carência de um nicho por ações culturais no Centro de Teresina é a primeira etapa de uma longa engrenagem que precisa existir para que esse momento não seja apenas uma chuva de verão. É necessário provocar a iniciativa privada, e claro, que o entes públicos promovam políticas públicas de estímulo e viabilidade para a execução de projetos.

“Viver o Centro dá um senso de apropriação, de valorização mesmo do seu pertencimento, do seu viver a cidade, usar a cidade, se apropriar, melhorar a sua estima. A gente diz: ‘nossa autoestima é muito baixa’, mas a cultura é um elemento também de fortalecimento, de superação. Então, talvez ainda falte que esses agentes, os empresários, de qualquer nível, mais informal ou menos informal, criem suas redes de cooperação, em vez de concorrência. Quando um ajuda o outro, todo mundo cresce. Por exemplo, lá na Rua 24 de Janeiro, você tinha a Toca do Plácido [bar], o Base [bar]. Um senta na calçada do outro e vai criando um lugar”, analisou o professor João Soares.

PÚBLICO E DESEJO, AQUI TEM

Quando se fala em Cultura, há um público atento e muito interessado. Por outro lado, tem outro que até estigmatiza quem fala muito sobre isso, há quem tampe os ouvidos e se volte somente à lógica produtiva. A proposta dessa edição é apontar a intersecção que existem entre Cultura e Economia. Neste caso, em nada excludentes. Além disso, frisa-se o imenso potencial que o Centro de Teresina possui e a demanda popular por iniciativas públicas e privadas que nasçam a partir de então.

“Dessa forma, se constrói uma sociedade mais diversa, mais criativa, mais consciente. Também abre caminhos para novas oportunidades. O Centro de Teresina é tão bonito, é tão importante porque tem aquela questão de valorizar a beleza arquitetônica da cidade, que é muito histórica. E Teresina tem muito disso, é tudo ali pela Zona Leste. E eu acho que a gente trazendo isso para o Centro, a gente consegue reviver. Reviver histórias, reviver o passado. Eu visualizo muito a Frei Serafim futuramente, que eu acho que está demorando, deveria ter vários bares, vários cafés, nesses casarões mesmo, aproveitar a arquitetura da cidade e transformar em restaurantes muito chiques”, defendeu o artista Bruno Mattarazzo.

Bruno Mattarazzo – Foto: Reprodução

NÃO HÁ LUGAR PARA OMISSÃO

Para que não seja apenas uma chuva de verão, é preciso cooperação. Acredita-se que mais ações possam surgir em breve que fortaleçam a ocupação do Centro por aqueles que ali se sentem em casa, acolhidos e participes da história da cidade. É uma tendência e que requer muitos passos futuros.

“Isso é uma forma de geração de ocupação, de renda, de postos de trabalho, mais informais do que formais, mas ainda assim, isso gera. Isso faz a economia se mexer, circular. E esse senso de pertencimento, que eu acho essencial, se relaciona diretamente com o patrimônio arquitetônico, com a manutenção de espaços públicos, com políticas voltadas para a cultura e o lazer. É importante frisar o papel do setor público. Ele vai ter que se movimentar também para garantir mais segurança para as pessoas, além de cuidar da questão do trânsito, da limpeza pública, da preocupação com o entorno. São muitas relações”, finalizou o professor João Soares.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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