“As meninas do job frequentam os mesmos ambientes que as esposas aqui em Teresina”. O tema pode ser considerado espinhoso para alguns, pois mexe em questões morais. As edições da Ápice se propõem a falar sobre “sociedade” e são amplos os assuntos que cabem neste nicho. Certamente, você já ouviu falar na expressão “job” (trabalho, em inglês), popularizada nos últimos anos como termo similar à prostituição, seriam as “acompanhantes de luxo”. Se você já frequentou alguns restaurantes e boates da zona Leste de Teresina, já notou que ali existe um mercado de “luxo paralelo”.
Ainda que nem todo trabalho sexual seja prostituição e partindo desse ponto, a Ápice conversou com clientes do mercado do “job”, intermediadores e um especialista da área de Antropologia. A seguir, relatos de como as coisas funcionam, perspectivas e nuances da realidade.
MODUS OPERANDI NA ZONA LESTE
Recentemente, viralizou nas redes sociais uma lista de casas de show “tradicionais” e restaurantes de Teresina (posteriormente apagada) onde era comum encontrar as “meninas do job”. Usuários do X (antigo Twitter) e Instagram não pouparam opiniões.

Um homem de classe média ouvido pela coluna, relatou: “Diferente do que acontece nas grandes boates em São Paulo, que todo mundo sabe que vai ter que pagar a conta no final, aqui não é exatamente assim. Já começou-se a ter uma noção. Com algumas é assim. Com outras, não. Aqui nem sempre isso acontece, eles (cliente e a garota) dividem coisas da vida, depois ele pode pagar até coisas maiores”.
Já passou o tempo das tradicionais casas de show associadas a strip-tease em Teresina, pelo menos é o que relata o público ouvido pela Ápice, e que solicitam o anonimato. Segundo um interlocutor, “não existem mais boates porque não é um público de todo dia”. Os tempos mudaram. A procura pelo sexo pago se manteve. Mas o modo de se relacionar já não é igual.
SAIBA QUAIS SÃO OS PONTOS DE ENCONTRO
A Ápice conversou com um intermediador de encontros, que explicou como funciona a logística mais frequente das acompanhantes de luxo de Teresina. Entre esses bares, onde elas e os clientes frequentam, há casos de mulheres que chegam a ser confundidas com as trabalhadoras do sexo. Segundo ele, a maioria são piauienses, mas há também aquelas que vêm de fora.
“Eu frequento muito o D* (casa de show de Teresina que terá o nome resguardado), antes tinha o 3* (menção a outra casa de show), lá era o point. Hoje, tem o V*, o B*, tem o F*, também, que é um dos lugares que as meninas do job mais frequentam. Têm muitos caras que saem com os amigos e quando veem uma menina bonita, bem arrumada, pede o número ou chama o garçom para perguntar quanto deu a conta. E, têm os políticos, muitos casados e que sempre ficam com meninas mais novas e bancam elas. Alguns, são clientes fixos”, contou um intermediador ouvido pela coluna.
PREÇOS E O PERFIL DAS MENINAS QUE ATENDEM O PÚBLICO A E B
“Para mim, existem dois tipos de job. Aquela que é a ‘peruona’, que é escancarado que faz job. E tem a comportada, a que faz tudo calada. Geralmente, elas não postam muita coisa no Instagram e viajam muito para outros estados. Elas escolhem esse caminho por causa da condição. Algumas não têm muita condição. Elas se tornam independentes. Quando é muito bonita cobram de R$800 a R$1 mil. Elas deixam bem claro antes, nem todos podem pagar. E tem book também, que eles escolhem pelo WhatsApp”, revelou o intermediador pedindo anonimato.
Além disso, ainda há sites de conteúdo adulto disponíveis para a marcação de encontros. Nos últimos anos, vem se popularizando os “onlyfans”, plataformas para comercialização de fotos e vídeos íntimos.

CLIENTE CONTA QUE COMEÇOU A CONTRATAR DO JOB EM REPARTIÇÃO PÚBLICA
“Eu comecei a me envolver com essas coisas quando eu fui trabalhar na C* – repartição pública de Teresina- foi a perdição da minha vida”, declarou um homem ouvido e que é cliente desse mercado.
Ele relata que um intermediador andava por esta instituição pública. “Geralmente, são homens que têm ‘muitas amigas’. Muitos são gays, andam sempre em restaurantes e pegam a fama. Então, mandam as fotos das meninas (book rosa) e se aproveitam disso. Geralmente, são meninas periféricas, algumas muito novas. Quando você vai olhar o Instagram delas, têm muitos figurões de Teresina seguindo. Aí, você imagina o porquê”.
ELAS SÃO DISCRETAS, EDUCADAS E GERAM ATÉ VÍNCULO EMOCIONAL
Um homem solteiro ouvido pela coluna relatou que essas profissionais do sexo costumam ser muito discretas, não invasivas e educadas, mas relata que já construiu vínculo com algumas delas. “Tem uma que eu conheço já há sete anos. Às vezes, ela me liga dia de domingo e a gente passa uma hora no telefone. Alivia a solidão”, contou.
Há quem se refira a elas como às “meninas da faculdade”, pois muitas pagam os estudos com o dinheiro adquirido no trabalho sexual.
UM OUTRO TIPO DE JOB
Eles – o público masculino que conversou com a Ápice – relataram que estão identificando um “outro tipo de job”. Um deles, reportou à coluna um pouco descontente: “Têm algumas que saem com a gente uma vez, a gente não paga nada. Têm seus empregos tradicionais, mas na hora que ela quer sair para um restaurante é pedindo dinheiro, e como fazem comigo, fazem com muitos outros”, afirmou.
A coluna tentou, diversas vezes, o contato com as acompanhantes de luxo para que elas mesmas contassem suas histórias, mas não obteve retorno.
A REALIDADE DAS PERIFERIAS
Para a presidente da Associação das Prostitutas do Piauí, Célia Gomes, faz um recorte da realidade teresinense. “Algumas casas [de prostituição] estão esvaziando. Temos dado muito destaque a questão da inclusão no mercado de trabalho. Algumas estão saindo, outras ainda frequentam. Não conheço nenhuma casa de show aberta aqui. Até porque isso configura-se agenciamento e torna-se crime. Pode até existir em sítios, ou em locais fora do alcance das polícias”, falou.

Segundo ela, a principal motivação que leva à entrada nesse ramo continua sendo a questão histórica da necessidade financeira. “Elas precisam trabalhar para sustentar as famílias, já que a gente não tem políticas públicas, a gente não tem trabalho suficiente para a população piauiense e teresinense. A trabalhadora sexual ela é ‘psicóloga’, ela é ouvinte, ela é ‘serviço social’ de clientes”, avaliou.
“NÃO TEMOS ÍNDICES DE VIOLÊNCIA”
Um avanço considerável para essa população foi a inclusão no Cadastro Brasileiro das Ocupações, o que facilita a correta aplicação de direitos trabalhistas e previdenciários. Ainda que a categoria não seja regulamentada como profissão. Célia Gomes tem sido uma voz potente no combate ao preconceito.
“Nós não temos o índice envolvendo violência às trabalhadoras sexuais. Violência tem mesmo é na casa das pessoas que vivem como marido e mulher. Nos bordeis, não está tendo porque lá tudo é conversado. ‘Você vai querer o quê’, ‘Você vai pagar quanto’. Temos muitas trabalhadoras sexuais que formam a família toda. São pessoas que não tiveram oportunidade e trabalham para isso. O futuro de uma trabalhadora sexual? O céu é o limite. Ela não é diferente de uma mãe de família, de uma doméstica. Não tem diferença. Isso que eu sempre quis desmistificar”, avaliou a presidente da Associação das Prostitutas do Piauí.
“NÃO SE VEEM COMO VÍTIMAS”
O cientista social e mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Marcos Paulo Magalhães, realizou pesquisas científicas sobre as relações de gênero, família e trabalho entre garotas de programa em Teresina. Em sua pesquisa de campo, ele frequentou bordeis do Centro da cidade e acrescenta a sua percepção.

“Era recorrente a gente ver rapazes de todas as classes sociais, inclusive, com condições financeiras mais abastadas frequentando o local. A maioria das garotas não são de Teresina, elas vêm de estados como Maranhão e o Pará, por exemplo. Existe um fluxo grande de mulheres desses estados e de outros. A prostituição tem esse caráter de circulação muito forte. Uma questão que era unânime era que nenhuma garota se via como vítima, elas rechaçavam essa postura de vítima”, pontuou o antropólogo à coluna.
MULHERES LASCIVAS?
A feminilidade é historicamente associada à passividade, doçura, às emoções, em detrimento da razão. Nos tempos de hoje, com base em todo o material colhido, nota-se que há, majoritariamente, uma consciência da escolha pela prostituição. A dependência financeira aprisiona, a independência liberta. O ramo é antigo, ainda que o mundo não seja o mesmo de antes.
“Uma coisa que para mim foi muito interessante, isso foi unânime, quando a gente pensa na postura da prostituta a gente pensa numa mulher lasciva que vai roubar o marido, que vai acabar com a família, num discurso de pânico moral; ou uma mulher que seja sofrida, que esteja em situação de violência, que esteja em situação de exploração sexual. E, na verdade, não era uma coisa nem outra. Eram mulheres como quaisquer outras, mulheres que lembravam minha mãe, minha prima, tinham mulheres idosas. Eram mulheres”, analisou o professor Marcos Paulo Magalhães.
“AQUI É MELHOR DO QUE TRABALHAR PARA GANHAR UM SALÁRIO MÍNIMO”
Generalizações desagregam. São muitos os contextos, as histórias e as origens sociais das trabalhadoras do sexo. Existe a questão da sobrevivência e existe o modo como se escolhe viver, os bens de consumo que se torna possível adquirir, os investimentos que podem ou não ser dados à família. Viver financeiramente melhor. Viajar mais. Esses itens pesam nesta balança. Prostituição pode ser sobre subsistência, mas também é sobre rebeldia.
“No meu contexto de pesquisa, a motivação era a mobilidade econômica. Elas falavam muito francamente ‘olha, aqui eu trabalho para mim mesma e não recebo salário mínimo. Então, aqui é melhor do que o emprego de salário mínimo’. Basicamente, todas as garotas com quem eu conversei são responsáveis pelo sustento de alguma pessoa da família, filhos, sobrinhos, afilhados, irmãos caçulas. Elas comentavam ‘o meu filho não estuda em escola do Governo, ele estuda numa escola particular’, ‘eu compro tênis pro meu irmão caçula que eu não pude ter’, narrou o pesquisador em Antropologia.
“MUITAS SÃO MULHERES CONSERVADORAS E COM MORALIDADE FORTE”
Adjetivos utilizados ao longo do tempo para contar a história das trabalhadoras sexuais formaram estereótipos que, com frequência, as desumanizam. Entre as mulheres também há a narrativa do “nós” e “elas”, a escolha por esse caminho é visto como um abismo que divide. Mas, há só divisões?
“Não é que a prostituição necessariamente foi a primeira opção ou seja algo que elas amem fazer. Elas colocam para si mesmas uma série de metas como a compra de uma casa, a construção do próprio negócio, construir kitnets para alugar. É uma busca por autonomia financeira e por essa consolidação. Elas falavam que tinham que ter um certo cuidado na vida porque algumas garotas se perdiam. A gente imagina os bordeis, geralmente, como um lugar totalmente sem regra, mas na verdade são garotas muito conservadoras e que tem uma moralidade muito forte”, relembrou o professor Marcos Paulo Magalhães.
PROSTITUIÇÃO EM UMA PALAVRA
Conduzindo a vela dos seus próprios barcos, quando a prostituição é uma atividade autônoma – o que é diferente de exploração sexual, registre-se – existe um rompimento moral com setores da sociedade que pode ser muito caro. Assim como, automaticamente, surge um senso de potência, de autorresponsabilidade para “arcar” com as consequências automáticas. As mulheres, quando comparadas aos homens, são desestimuladas à ambição. Mulheres são desincentivadas à guerra metaforicamente e literalmente, no Exército Brasileiro não podem ocupar as áreas combatentes como Infantaria, Cavalaria e Artilharia.
É preciso alguma coragem para seguir esse destino e reafirmá-lo todos os dias. Existiriam outros caminhos possíveis? Sim, certamente sim. Um ramo com muita exposição, vulnerabilidade e riscos. Ao mesmo tempo em que elas, nutrem um zelo de autopreservação. Ambivalência, é a palavra escolhida pelo pesquisador João Paulo Magalhães para definir a prostituição.
“Em 2017- 2021, quando ainda não se tinha um uso tão disseminado da PREP [comprimidos contendo medicamentos antivirais antes da relação sexual] as garotas faziam uso do preservativo até no sexo oral. Teve uma garota que ate me indagou ‘eu aposto que suas amigas não usam camisinha no sexo oral, eu uso. Só não uso com meu marido’. Elas têm um cuidado de si para se resguardar e que está ligado também ao ponto de vista moral. Isso é impar”, finalizou.





