O brega morreu no Piauí? O que ficou depois de Raimundo Soldado e as reinvenções da Banda Spacial

A música piauiense sempre encontrou força nas raízes, no brega, no forró, no pé de serra e em tantas outras expressões que atravessam gerações e ajudam a formar a identidade cultural do estado. Se você tem mais de 30 anos, por exemplo, certamente já ouviu falar na Banda Spacial, que fez muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990, oriunda da cidade de Campo Maior, a cerca de 120 kms de Teresina, e nunca deixou de existir. Na coluna de hoje, trazemos um panorama desse mercado musical que permanece vivo e em constante reinvenção. Junto com ele, a visão da nova geração de intérpretes como Ivan Soldado, filho do cantor Raimundo Soldado, que marcou a música nordestina no final do século XX.

O ícone do brega

Permita uma breve volta no tempo para aguçar memórias musicais. O cantor maranhense Raimundo Soldado foi figura central da cultura popular nordestina dos anos 70 e 80. Soldado se destacou por unir romantismo, estética pop da época e elementos profundamente ligados ao Norte e Nordeste, como o carimbó e o forró. Suas composições entraram no imaginário musical piauiense, ganharam espaço em rádios, bailes e festivais de repercussão regional, especialmente quando faixas como “Abraçando Você”, “Você Gosta de Mim” e “Não Tem Jeito que Dê Jeito” despontaram. 

O Boletim Brio conversou com o filho do lendário Raimundo Soldado, Ivanildo Rocha, mais conhecido artisticamente como Ivan Soldado. A convivência intensa com o pai, multi-instrumentista e autodidata, marcou sua formação como artista. A sanfona, marca registrada de Raimundo Soldado, tornou-se também a espinha dorsal do seu projeto musical atual, que faz dupla com a cantora Alessandra.

“O que eu trouxe do estilo do meu pai foi a sanfona, o forró, as músicas, o jeito dele tocar e cantar, inspiram o meu projeto de Ivan Soldado e Alessandra. Aprendi com meu pai, Raimundo Soldado, a tocar vários instrumentos tais como teclado, bateria, contrabaixo, percussão. Meu foco não é a música brega, e sim o forró, mas os bregas que eu toco no meu projeto Raízes Nordestina são bem aceitos, principalmente as músicas de meu pai”, relata Ivan Soldado.

Ao falar sobre o repertório de Raimundo Soldado, uma música ganha destaque especial: Minha Santa Inês. A canção, que homenageia a cidade natal do pai, e também dele, provoca reações emocionadas no público e carrega um significado afetivo profundo para a família.

“Tem várias músicas dele que toca fundo assim no coração, mas tem uma especial que é a minha Santa Inês, e toda vez que eu toco a galera canta, dança, chora, tem gente que até chora. Minha Santa Inês é uma música especial, que era a terra dele, aonde eu nasci também, então essa música é especial. A meu ver, o brega moderno incorporou elementos eletrônicos, perdendo suas raízes. Eu prefiro os bregas de antigamente, anos 80, época que meu pai se destacou”, revelou em entrevista ao Boletim Brio.

Para ele, a força do brega clássico está nas histórias de amor e nas melodias que marcaram época e ainda hoje mobilizam sentimentos. Seu gosto pessoal permanece ancorado nas produções dos anos 80, justamente a época de maior destaque de Raimundo Soldado.

“As letras sobre história de amor de antigamente, as melodias para mim é o que deixa os bregas antigos ficarem cada vez mais forte no meio musical. Tenho muitos planos e sonhos, um deles é ser reconhecido nacionalmente, mostrar o meu trabalho, gravar um dvd com música de meu pai, uma homenagem, é um dos meus sonhos, né, ter mais espaço para mostrar o meu trabalho, e trabalhar, trabalhar muito, levando alegria para o povo”, mencionou Ivan Soldado.

O cantor Raimundo Soldado, ao longo da carreira, teve músicas incluídas até em trilhas de filmes internacionais e manteve uma presença forte nos palcos do Piauí, influenciando gerações de músicos locais e fortalecendo a identidade musical da região. Sua produção tornou-se referência para quem busca compreender como o brega se desenvolveu no Nordeste, especialmente no Piauí, onde suas canções ganharam enorme apelo popular. 

Misturando arranjos da jovem guarda com ritmos nordestinos, Raimundo Soldado criou uma assinatura sonora que dialogou com públicos diversos, dos bailes de Teresina às festas de cidades do interior. Seu legado, interrompido precocemente pela meningite que o levou em 2001, segue vivo pela força das canções, pela lembrança dos fãs e pela continuidade artística de seu herdeiro, que mantem sua história circulando entre Piauí, Maranhão e Tocantins.

Os 40 anos de história da Banda Spacial

A história da Banda Spacial começa antes mesmo do nome que a tornaria conhecida em Campo Maior e em tantos outros municípios. Tudo se inicia quando João Sérgio Gomes, ainda jovem e servindo o Exército, chega à cidade e se apresenta não apenas como militar, mas como sanfoneiro. Esse pequeno detalhe mudaria sua vida e também influenciaria a formação musical de uma geração inteira.

“Ao chegar aqui, servindo o Exército, ele comentou com o general ou capitão que era tocador, que tocava sanfona. A partir daí, nas folgas, ele começou a animar aniversários de 15 anos, festejos aqui de Campo Maior, com famílias influentes e com as amizades que foi fazendo. Ele então formou um trio, que levava o nome dele mesmo. Quando terminou o serviço militar, ele teve a visão de montar uma banda. Aí criou a banda, que ainda não tinha o nome atual. Na época, chamava-se ‘Os Amantes’, porque tocava muitas músicas românticas, baladas. Ele ingressou dois instrumentistas, ele sempre na sanfona, colocou guitarra e bateria (no lugar de zabumba), formando, assim, uma banda”, contou, em entrevista ao Boletim Brio, Edna Gomes, filha do fundador e uma das atuais donas da Banda Spacial. 

Com a popularidade crescente nas festas locais, João Sérgio começou a investir mais. Trouxe músicos de outros estados, ampliou o repertório e, aos poucos, consolidou o projeto para todo o Piauí. A mudança definitiva do nome viria de uma sugestão improvável e marcaria o início da fase mais conhecida da trajetória do grupo.

De onde vem o nome?

“A banda foi crescendo: ele colocou instrumentos de sopro, trouxe instrumentistas de sopro, fechou com a prefeitura e tocou Carnaval na praça. Sempre com aquela visão de ampliar e expandir o sucesso da banda. Com o tempo, começou a tocar fora: Castelo, Barras, região, até Teresina. Depois, já com mais estrutura, a sanfona ficou menos presente. Em uma conversa com um rapaz formado em Geografia, daqui mesmo de Campo Maior, ele comentou que queria mudar o nome da banda, colocar algo diferente, principalmente porque já tocavam bastante fora. Esse rapaz sugeriu ‘Spacial’. Todo mundo achou estranho, pois era início da década de 80, 1983 ou 1984. Mesmo assim, adotaram o nome Espacial”, lembrou Edna Gomes. 

A década de 1980 marca o período de maior expansão artística da banda. Com vocais múltiplos, repertório amplo e shows em várias cidades do Norte e Nordeste, a Banda Spacial se tornou referência no gênero de bailes, preservando a sonoridade dos anos 60 e 70. O fundador faleceu nos anos 2000 e mesmo com as mudanças inevitáveis ao longo dos anos, o grupo continuou em atuação, mantendo a tradição familiar. 

“Até hoje, investem nesse estilo; não fazem forró atual, piseiro e etc. Quando é para contrato, aí sim a banda segue com o repertório adequado ao evento. Quando isso aconteceu [o falecimento do pai], pensamos em encerrar a banda. Mas, pela amizade com os músicos, pela história e dedicação, recebemos muito apoio. Resolvemos continuar. Passamos por um período difícil recente, antes da pandemia, e depois retornamos aos poucos, priorizando contratos certos: formaturas, casamentos, prefeituras. Ele tinha uma dedicação enorme, e nós crescemos vendo isso. O legado ficou”, destacou Edna Gomes.

Como está a Banda Spacial hoje

Em 2025, a Banda Spacial segue atuante, preservando o estilo clássico de bailes, investindo em interpretações de músicas que marcaram época e adaptando o repertório quando necessário. Com até nove integrantes no palco, mantém a essência que preservou ao longo das últimas décadas. Alguns músicos estão há mais de 30 anos no grupo. 

“A gente quis continuar tanto pelo apego emocional quanto pela relação com os músicos, que são como família. Eles sentiram muito a ausência do meu pai, tanto pelo tratamento, pela amizade, quanto pelo apoio que ele sempre deu. Temos músicos com a gente desde o início: o Baixinho do Sax está até hoje; o Silvio César, vocalista, meu pai trouxe em 1989. Às vezes, ele só vai com o tecladista, e viajam juntos quando não tem agenda aqui; tentamos liberar quando possível. Mas o vocalista principal ainda é o Silvio César”, explicou Edna Gomes à Coluna Ápice. 

“Eu acho o termo brega preconceituoso”

Retrospectivamente, o brega e outros gêneros musicais enfrentaram forte resistência de uma elite cultural que buscava consolidar uma música popular brasileira mais intelectualizada, distante, porém, do gosto das classes populares. Para o professor João Sobrinho, do curso de Música da Universidade Federal do Piauí, essa rejeição não é um fenômeno isolado, mas parte de uma longa tradição de tensão entre a produção artística popular e setores intelectualizados da sociedade.

“Vários gêneros de música ao longo dos anos sofreram reações críticas. Vou dar alguns exemplos. A Bossa Nova por exemplo foi acusada de americanismo pela sua influência com relação ao jazz e ao impressionismo francês. Outro exemplo é com relação ao movimento jovem guarda. Esse movimento surge num período de efervescência política e por sua relação direta com os modismos e os modelos do rock foi considerado de alienado de não denuncia as dificuldades políticas do país. Eu acho o termo brega um pouco preconceituoso. Então alguns atores como Waldick Soriano, Reginaldo Rossi, José Ribeiro, Bartô Galeno, tinha um público cativo quer na minha opinião não era só composto pelas camadas mais humildes da sociedade. A classe média consumia essa música e rejeitava a música intelectualizada. Isso é fato”, afirmou o professor da UFPI.

Sertanejo universitário: uma atualização do brega

O professor destaca ainda que esse fenômeno permanece vivo na atualidade, visível no consumo massivo do chamado sertanejo universitário. Para ele, isso evidencia que a música romântica nunca deixou de dialogar com camadas diversas da população.

“Aliás podemos alargar esse pensamento até hoje com relação ao chamado sertanejo universitário que sem dúvida nenhuma bebe na fonte da música romântica o brega como queira chamar. Quem consome essa música? Ora. A classe média e a classe mais alta do ponto de vista econômico”, observou Sobrinho.

Ao comentar o cenário piauiense, Sobrinho lembra a importância de Roberto Muller na formação de um movimento romântico local e faz um panorama da criação musical dos anos 1970 no Estado.

“Com relação ao Piauí quem inaugura o movimento romântico é o Roberto Muller. Um cantor que viajou pelo interior do Piauí mostrando a sua música e fazendo muito sucesso. Os anos 70 o Piauí tinha o seguinte perfil do ponto de vista da criação musical. Tínhamos grupos que buscavam uma identidade regional. Temos outros criadores que bebiam na fonte de Torquato Neto construindo uma música mais intelectualizada, mais elaborada. E tínhamos um movimento o movimento jovem guarda e o movimento romântico. Tínhamos também alguns compositores independentes quer fazer uma música mais elaborada, vamos dizer assim sem uma influência identitária piauiense. Eu não vejo nenhum significado de identidade piauiense na música brega, como na música romântica da jovem guarda que marcou os anos 70 no Piauí. A Nossa identidade musical ainda depende muito da visão torquatiana e dos aportes regionais. É assim que eu vejo”, analisou o professor João Sobrinho.

A partir dessa análise, ele reforça que não enxerga a música brega como formadora direta da identidade cultural piauiense. Para ele, essa identidade reside principalmente nos ritmos tradicionais que emergem das raízes mais profundas do Estado. Apesar das dificuldades históricas para consolidar uma noção de identidade musical regional, Sobrinho acredita que avanços recentes podem indicar um futuro mais promissor.

“Para isso temos que buscar no nosso interior profundo, as comunidades quilombolas um verdadeiro sentido de uma música piauiense. Veja o exemplo de Pernambuco que carrega a sua identidade no frevo e no maracatu, a Bahia com seus afoxés e o samba de roda. Com relação à valorização da nossa produção cultural sim tivemos muita dificuldade em passar essa mensagem de identidade. Entretanto eu vejo as coisas hoje melhorando com relação a isso”, pontuou o professor.

“Não temos educação musical nas escolas”

João Sobrinho também chama atenção para o distanciamento entre o público e o repertório erudito, provocado principalmente pela ausência de educação musical sistemática nas escolas.

“Essa relação entre erudito e popular ela existe não só no Piauí, por falta de um histórico da audição musical da apreciação musical. Trata-se de educação musical nas escolas que praticamente não temos. Eu te pergunto quantas operas já foram encenadas em Teresina? Consertos? Só recentemente a orquestra de Teresina tá fazendo um papel de conduzir esse repertório para diversas regiões do Estado. Isso é uma contribuição muito importante. Não podemos desconhecer que existe uma música de consumo que está presente em bares churrascarias em espaços mais amplos, existe uma música que exige uma maior reflexão”, afirmou o docente.

Para ele, o futuro da música piauiense está ligado diretamente à preservação dos espaços de criação e à valorização dos artistas locais.

“Com relação ao futuro eu sempre digo que se deve preservar o ser humano no seu local de produção. Sem isso a cultura como um todo se fragmenta, se esfacela. O poder de aglutinação da Cultura é formado pelo lugar pelo espaço ecológico. Precisamos valorizar isso e apoiar realmente quem necessita de usufruir de um projeto cultural, e um financiamento cultural”, concluiu João Sobrinho.

A cultura popular piauiense sempre bebeu de diversas fontes, e, quando observamos esse processo ao longo das décadas, percebemos como esse repertório se expande continuamente. Cada geração incorpora novas referências, novos ritmos e novos modos de sentir e expressar. Contudo, essa ampliação também revela um ponto sensível: a falta de reconhecimento das nossas próprias raízes. Sem educação musical forte, sem compreender o que faz parte da nossa cultura e o que vem de fora, torna-se mais difícil nos reconhecermos, e até mesmo nos opormos, quando necessário, para, então, valorizarmos o que é nosso de verdade.

Essa ausência de educação musical reflete diretamente na maneira como tratamos nossos artistas. A falta de compreensão sobre o valor cultural de um trabalho reverbera na forma como se precifica um show, na capacidade de admiração, no ato de aplaudir, de respeitar e de reconhecer a importância de quem faz cultura. Estamos falando de uma classe que cria arte, entretenimento, lazer, e que, ao mesmo tempo, enfrenta inúmeros desafios e dificuldades para sobreviver daquilo que produz. Só assim seremos capazes de construir um futuro em que a cultura piauiense seja reconhecida, valorizada e protegida não apenas como entretenimento, mas como patrimônio vivo da nossa história e da nossa gente.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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