O Centro de Teresina voltou? Ou nunca saiu do jogo? Franquias e projetos habitacionais prometem movimentar economia

O Centro de Teresina voltou ao radar dos investidores. A chegada do Grupo Mateus à Avenida Frei Serafim, com uma nova unidade em construção no prédio onde funcionava o antigo Hiper Bompreço, somada à consolidação de operações como Burger King e McDonald’s e à expectativa pela instalação da Selfit Academias, reacendeu uma pergunta antiga no comércio local: afinal, vale a pena investir no Centro, em meio as vultuosas críticas sobre mobilidade, segurança e suposto esvaziamento? 

Grandes marcas puxam novo ciclo

A Avenida Frei Serafim, considerada um dos eixos financeiros e institucionais da capital, concentra fluxo intenso diário de trabalhadores, estudantes e usuários do transporte público. A aposta de grandes redes indica confiança na retomada do fluxo urbano e na reocupação da área central. O consultor de franquias Walisson Rodrigues, que atuou na operação do McDonald’s na Frei Serafim, contou em entrevista ao Boletim Brio que está trabalhando para trazer uma rede de academias de musculação para o Centro.

“O McDonald’s tivemos dificuldades para obter a autorização por conta de uma parada de ônibus. Foi muito difícil porque eles questionavam que a parada tinha nove anos. O McDonald’s trouxe 50 empregos. Hoje já está com três anos de operação. Acredito que viveremos um upgrade naquela região toda, em termos habitacionais e comerciais. Eu vi que alguns pontos bem estratégicos estão virando galeria, e isso multiplica mais operações e mais diversificação de segmento”, contou Walisson Rodrigues. 

A lógica é que grandes marcas funcionam como âncoras, aumentam a circulação e elevam a percepção de segurança e vitalidade econômica. Tendo potencial de desencadear um efeito em cascata em toda a cadeia produtiva. 

“Esvaziamento? Não aqui na loja”

Se as grandes redes nacionais enxergam potencial, o empreendedor local reitera a percepção. Na Rua Coelho de Resende, onde fica um dos principais pontos comerciais da rede Coxinha no Cone, em uma parada de ônibus, a dinâmica é sustentada pelo fluxo contínuo. Heldo Almendra, proprietário da loja, em entrevista ao Boletim Brio relatou uma experiência sólida e bem sucedida no Centro. 

“A nossa loja fica numa parada de ônibus. São quase 11 anos de loja aberta. E o principal ganho que a gente tem é porque está na parada, e nessa parada há muitos estudantes, trabalhadores e pessoas que estão indo para as linhas. E com isso compensa muito, porque nosso lanche é um lanche barato e rápido. Então, a gente tem um grande volume de vendas de lanche, de coxinhas, refrigerantes, água mineral, do cliente que está esperando o ônibus e tem cinco, seis, dez reais ali no bolso e consegue comprar um lanche para aguardar o almoço ou o lanche da tarde, ou para o jantar. E é uma parada com grande volume, de manhã até a noite, e com isso a gente está tendo, graças a Deus, resultados muito bons naquela localidade e pretendemos ficar lá por muitos anos também”, destacou Heldo Almendra. 

O caso demonstra que, no Centro, há espaço para lucratividade consistente no longo prazo quando o modelo de negócio combina localização estratégica com clareza sobre a “dor” do público consumidor e sobre onde ele efetivamente está.

Centro de Teresina tem vários projetos de habitação em andamento

Para o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio (Sindilojas), Tertulino Passos, a retomada do Centro passa também pelo retorno de moradores e por investimentos públicos em infraestrutura. Ele avalia que, diante do fortalecimento do comércio nos bairros, do esvaziamento residencial e das dificuldades relacionadas ao transporte público e à segurança, o Centro precisa se reinventar para não perder relevância. Segundo ele, projetos já estão em andamento, e os valores de locação de pontos comerciais tornaram-se mais atrativos do que em outras regiões da cidade.

“O momento é esse das pessoas retornarem. Existe uma perspectiva bastante favorável de termos muitas pessoas circulando pelo Centro, inclusive morando. Porque o próprio Governo anunciou que onde era a Secretaria de Segurança vai ser um complexo residencial, então só aí você vai trazer, no mínimo, 300 apartamentos e, no mínimo, 500 ou 600 pessoas morando ali no Centro. E já tem outros empreendimentos que também estão em fase de projetos na prefeitura, ali próximo à Praça João Luiz, e tem outros próximos à Praça do Liceu. Então tudo isso são perspectivas bastante positivas para que as pessoas possam retornar aos seus investimentos no Centro. Aquilo que estava embaixo está começando a subir novamente, claro que de uma maneira tímida. Antigamente era tudo concentrado no Centro, agora como é muito pulverizado, claro que fica meio dividido, mas ainda é positivo o retorno para o Centro da cidade”, frisou Tertulino Passos ao Boletim Brio

Diante da expansão dos projetos habitacionais, o Sindlojas tem cobrado de forma recorrente do Poder Público a garantia de infraestrutura adequada para acompanhar esse crescimento, com investimentos em limpeza urbana, iluminação pública, segurança e ampliação da rede de ensino na região.

O alerta do varejo tradicional

Nem todos, porém, mantêm o mesmo formato de aposta. E não é que o comércio dos bairros seja lá esse mar de rosas. A empresária Ana Cláudia, ex-proprietária da rede de lojas de roupas, Rainha do 20, encerrou suas atividades após quase uma década no mercado, no início desse ano. 

“Manter estrutura física exige um esforço financeiro e emocional muito grande, e eu sempre fui muito consciente em relação à saúde da empresa. O comércio de bairros passou por um momento de fortalecimento, especialmente no período pós-pandemia, quando as pessoas buscavam proximidade e comodidade. Nos últimos anos percebo uma estabilidade com tendência à oscilação. O consumidor está mais cauteloso e muito influenciado pelo preço, principalmente com a expansão do comércio online. A decisão de compra hoje passa pelas redes sociais; a vitrine física precisa estar integrada ao digital. Isso impactou diretamente meu modelo de negócio, pois a Rainha do 20 nasceu com proposta baseada em preço competitivo em loja física. Com a força das grandes plataformas online, foi necessário repensar formatos e estratégias”, revelou a empreendedora Ana Cláudia ao Boletim Brio

Vale a pena investir?

O Centro de Teresina vive um momento de transição. Há sinais de reestruturação, ancorados por grandes investimentos comerciais e expectativa de reocupação residencial. O Centro ensaia um novo ciclo e, como todo ciclo urbano, exigirá adaptação, planejamento e visão de longo prazo. Todos os caminhos passam pela necessidade de eficiência estratégica de negócio.

Sempre que este veículo aborda o tema “Centro de Teresina” fica evidente o forte apelo popular em torno da preservação deste espaço histórico marcado pela memória afetiva e pela presença humana que ajudou a construir a identidade de milhões de teresinenses. Ao mesmo tempo, persistem críticas relacionadas a problemas urbanos na região. 

O que se observa agora é um movimento simultâneo: há um desejo público de revitalização do Centro e também um interesse da iniciativa privada, especialmente com a aposta em projetos habitacionais. A sustentabilidade desse processo não se pode prever e dependerá da continuidade dos investimentos por parte do poder público e da adesão persistente do setor empresarial. Grandes franquias só se instalam após criteriosos estudos de mercado, o que indica a existência de demanda. Para além disso, a consolidação desse novo momento passa por conhecimento de público, produto e operação, garantindo viabilidade e margem de lucro. Há demanda? Há demanda! Crises formam, por consequência, oportunidades. É preciso prestar atenção.

Shelda Magalhães

É coordenadora-geral da Agência Brio Comunicação. Foi coordenadora de Comunicação da OAB-PI (2022-2024). Foi âncora da TV Antena 10/ Record TV e da TV Band Piauí. Foi repórter da TV Antena 10. Atuou como repórter do Portal OitoMeia. É jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). É certificada em Marketing Digital, Branding Pessoal e de Marca.
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