Facções criminosas testam diariamente os limites do Estado e, muitas vezes, encontram rachaduras por onde avançar. O caso da vez são as ameaças sofridas pelo delegado Charles Pessoa, ex-coordenador do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO). Ele tem um trabalho reconhecido em todo o estado e ganhou notoriedade nos últimos anos em abordagens matinais frequentes contra faccionados e com o bordão “configurem seus despertadores”.
A ousadia não está no conteúdo das mensagens, mas no cálculo por trás delas: intimidar para tentar fragilizar, medir a reação institucional e perceber até onde podem ir. O delegado Charles Pessoa, ao afirmar que segue sua rotina e não recua, verbaliza aquilo que, na prática, sustenta a linha tênue entre ordem e caos, ou seja, a coragem de agentes que enfrentam diariamente um crime organizado cada vez mais estruturado e violento.
Nenhuma ameaça é “superficial” quando se atua em um cenário assim. Nenhuma frase vaga deve ser subestimada quando o objetivo é desestabilizar quem investiga. Quando criminosos demonstram ousadia, o Estado precisa demonstrar capacidade. Quando testam fronteiras, o Estado precisa ampliá-las. Quando atacam o símbolo da lei, o Estado precisa reafirmar que o monopólio da força ainda lhe pertence.
O Piauí vive um momento de reorganização das facções, de disputas territoriais, de repressão altiva e de episódios violentos que fazem parte do cenário de insegurança que alimenta o crime. Se ameaçam até delegados, a resposta não pode ser simbólica. Tem que ser prática, visível e categórica.


