Quem viveu os tempos da Pink Elephant, as festas da Alludra e as noites animadas do Café de La Musique, Bendito Boteco, The Nashville e Apollo 11 certamente guarda lembranças de uma fase marcante da vida noturna de Teresina. Cada uma dessas casas de shows deixou sua assinatura na memória afetiva de quem viveu os tempos de ouro da noite teresinense, algumas, até marcaram gerações. O que todas elas têm em comum? Já não existem mais. Mas afinal, o que mudou? Por que o cenário do entretenimento noturno na capital piauiense encolheu tanto? Na edição desta semana da coluna, revisitamos essas histórias e reunimos diferentes olhares sobre as transformações que moldaram os últimos anos.
“Antes, sempre surgiam jovens promissores que faziam eventos, ganhavam, aumentavam o risco e acabavam se tornando donos de boates. Eu mesmo passei por isso. Hoje, não dá mais. A taxa Selic está alta, o crédito é impossível, pegar 500 mil reais no banco vira 1 milhão de reais para pagar, e a boate não roda mais. O pessoal quer beber em casa, a nova geração quer saúde, menos bebida. Isso tudo impactou”, declarou o empresário Victor Sampaio, ex-sócio das extintas boates Pink Elephant e Alludra, localizadas na Avenida Homero Castelo Branco, na zona Leste de Teresina, em entrevista ao Boletim Brio.

A fala revela experiências dos bastidores que se desenrolavam enquanto centenas de pessoas se divertiam e tiravam fotos com um elefante cor de rosa na franquia que operou até 2017, tornando-se Alludra, com os mesmos sócios logo em seguida. Na época, considerada a melhor e mais conceituada boate de Teresina.
São muitas variáveis de um nó emaranho em fios distintos. As transformações de hábitos de consumo são multifatoriais. Além da falta de incentivo governamental no empreendedorismo, Victor Sampaio também elenca os aspectos econômicos do país como obstáculos que não podem ser minimizados.
“A inflação mudou tudo. Antes, com 80 ou 100 reais, juntavam-se três ou quatro amigos, comprava-se um combo de vodca com energético e todo mundo se divertia. Hoje, uma cerveja com 10% já custa 20 reais e quatro delas nem fazem efeito. O mercado ficou caro demais para beber na rua. Antes havia os bares dos ‘novinhos’, que vendiam barato para garantir volume, e isso acabou. Hoje não existe mais bar que reúna os jovens com bebida acessível, isso sumiu”, descartou o empresário em entrevista ao Boletim Brio.

OS VELHOS PLAYBOYS TERESINENSES
Um empresário da noite geralmente conhece bem seu público. Naqueles tempos, onde o boom das redes sociais ainda não tinha acontecido, frequentar determinados ambientes e utilizar-se de alguns padrões de consumo diziam muito sobre identidade. Nesse caso, uma identidade coletiva, que se formava no coração na zona mais nobre da cidade e com forte influência sobre a juventude.
“Camisa polo, sapatênis da Polo, cordão de ouro com pingente de cavalo, cabelo penteado para o lado, iPhone 12, combo de Cîroc… no Nashville ou no Tio Armênio. Teresina é tão previsível”, mencionou um observador teresinense que terá o nome resguardado.
Impossível falar de entretenimento, sem citar o fator “busca por romance”, que se entrelaça com parte do público das casas de show. Com a difusão da internet rápida e das redes sociais, todo mundo tem na palma da mão uma espécie de “cardápio” (como disseram as pessoas consultadas pela Ápice) e muitas possibilidades de investir afetivamente em alguém e marcar os “dates” de uma forma muito mais rápida e virtual, do que a paquera à moda antiga.
“As redes sociais transformaram o modo como as pessoas se relacionam e se divertem. Muitos eventos agora são organizados via Instagram ou WhatsApp, reunindo públicos. Além disso, o entretenimento digital (lives, streaming, games, influenciadores) disputa diretamente a atenção e o tempo que antes eram destinados à vida noturna”, ressalta o empresário Marcus Sampaio, ex-sócio dos extintos empreendimentos Follow, Spazzio Site, Moon e Apollo.

O CASO VEGAS
No dia 14 de outubro, a 5ª Vara Cível de Teresina determinou a interdição imediata da boate Vegas Club, justificando o descumprimento na tutela de urgência para realizar uma obra de isolamento acústico na boate. Os descumprimentos teriam provocado um acúmulo de multa no valor de R$ 386 mil. O que estaria perturbando o sossego de moradores de prédios próximos.

Versão contestada pelo empresário David Barreto, um dos proprietários do estabelecimento, em nota de três laudas enviada ao Portal Lupa 1. “Um dos pontos de maior equívoco nas matérias preliminares residiu na inferência imediata e não comprovada de que o VEGAS CLUB estaria agindo com deliberado desprezo ou descumprimento habitual das decisões judiciais anteriores relativas à mitigação de ruídos. Tal alegação, embora pudesse ter encontrado terreno fértil na interpretação superficial do cenário de interdição, não reflete de forma alguma a realidade processual e a rigorosa cronologia dos fatos, conforme exaustivamente esclarecido pelo empresário responsável pela operação da casa noturna”.
Para ler a nota na íntegra, acesse aqui.
ROYAL E DOMINIQUE
Dentre as casas de shows que seguem em funcionamento e mantêm um público pagante, está a Royal, que ocupa o antigo espaço da Pink Elephant, da Alludra e do 309, na Avenida Homero Castelo Branco. Também permanecem em atividade o Dominique, localizado onde funcionava o antigo Urbano, na Avenida Dom Severino.

De acordo com relatos ouvidos pela coluna, nota-se uma presença mais significativa de pessoas das classes médias emergentes nesses ambientes. O conceito de festas “VIP” e de eventos na Zona Leste, voltados a um público mais restrito, perdeu força. Hoje, o público frequentador de casas de shows predominantemente, é mais diverso e plural, refletindo também transformações sociais e econômicas da cidade.
O FATOR MENINAS DO JOB
Quando soube que uma casa de show de Teresina havia fechado as portas, um teresinense reagiu com ironia: “Ué, e as meninas do job vão trabalhar onde?”
Nos últimos anos, algumas dessas casas passaram a ser frequentadas por trabalhadoras do sexo de forma mais acentuada e perceptível. Se antes o debate girava em torno do possível consumo de drogas entre jovens, hoje um dos temas mais comentados nas conversas sobre a noite teresinense é a presença das chamadas “meninas do job”.
Boa parte do que historicamente atrai o público para casas de shows é a sociabilidade: o encontro, o flerte, o desejo de romance. No entanto, com o crescimento desse público específico, algumas mulheres relatam sentir-se inibidas em frequentar tais espaços, o que acaba comprometendo o propósito inicial de reunir perfis diversos e promover convivência.
O fato é que a noite teresinense vem se transformando, não apenas em sua estética e comportamento, mas também em seus significados sociais. E, nesse contexto, as redes sociais, especialmente o Instagram, tornou-se uma vitrine de interação que acaba por espelhar as novas dinâmicas e fronteiras da boemia local.
“OS NOVINHOS MUDARAM”
O público universitário está diferente. Há quem diga que ficam satisfeitos com uma caixa de som e uma “festa” mais privada, no estilo “after”, com mais vantagens e custo benefício.
“Agora pra entrar numa boate é caro, cortesia sumiu, ingresso é 50 reais fácil. O ‘novinho’ que ganha 400 ou 500 reais de mesada, com faculdade e tudo, não consegue levar essa vida. Então preferem comprar uma vodka de 40 reais no supermercado, umas bebidas, vão pra casa de alguém com caixa de som e se divertem do mesmo jeito. São novos, querem farra, sem se preocupar tanto. A saúde também influencia. Hoje tem muitos influenciadores falando de saúde, produtividade, ficar bonito, que atrai gente bonita. Eles falam que não precisa estar em farra pra isso. Isso mudou o comportamento”, observou Victor Sampaio.
O mundo pós-pandemia, formado por corredores, entendidos de “shapes” e triatletas amadores, trazendo seus custos ao mercado de entretenimento musical.
RESUMINDO, POR QUE FECHAM AS PORTAS?
Com a palavra, quem já foi sócio de cinco empreendimentos nesse setor: “Geralmente é um conjunto de fatores, mas as questões financeiras costumam pesar mais. Manter uma casa noturna envolve altos custos fixos (estrutura, som, equipe, segurança, impostos) e uma grande dependência de público constante. O público de Teresina é conectado e busca experiências mais personalizadas, temáticos . Ainda há espaço para o lazer noturno, mas ele precisa ser reinventado, não basta só música alta e bebida, é preciso oferecer ambiente, identidade e propósito”, afirmou o empresário Marcus Sampaio.
SEM SOLUÇÃO, POR ORA
Manter uma casa de shows em Teresina se tornou um desafio de alto custo e alto risco. Cada noite é uma aposta: o público pode comparecer ou não. Somam-se a isso a ausência de incentivos governamentais, as dificuldades burocráticas para obtenção de licenças e os custos operacionais elevados, que acabam afastando parte do público mais jovem.
Por outro lado, as tentativas do empresariado de tornar os espaços mais acessíveis também criam um distanciamento de outro grupo: aquele que busca ambientes mais exclusivos, restritos a determinadas redes de amigos, onde o pertencimento e a identidade social são parte da experiência.
O mundo mudou. O esporte está em alta, os hábitos de consumo e de socialização se transformaram, e a vida saudável passou a ocupar o lugar que antes era do álcool e da madrugada. Ainda assim, existe demanda. Jovens continuam querendo sair, se divertir, viver experiências novas e bem atendidas.
O problema é que reunir todos esses desejos, acessibilidade, exclusividade, novidade e qualidade, dentro de um mesmo modelo de negócio parece, por ora, impossível. E talvez aí esteja a chave da decadência gradual das casas de show em Teresina: não na falta de público, mas na dificuldade de entregar o que o público realmente deseja.
A DICA DO EMPRESÁRIO 1
Empreender na noite é uma escola prática. Ensina sobre pessoas, gestão, timing e resiliência. O sucesso depende menos da estrutura e mais da capacidade de criar conexões reais. Foi um período de muito aprendizado, relacionamentos e visão estratégica, experiências que continuam gerando frutos até hoje. (Victor Sampaio)
A DICA DO EMPRESÁRIO 2
Não basta abrir um espaço; é preciso criar uma marca e uma comunidade. O público quer sentir que faz parte de algo novo e autêntico, e os empreendimentos que entendem isso duram um pouco mais. (Marcus Sampaio)





