Piauí é especialista em debater narrativa e amador em discutir números: ninguém liga para o Orçamento de 2026

Existe uma cena que se repete todo dezembro na Assembleia Legislativa do Piauí: deputados votam o orçamento do estado para o próximo ano. A galeria está vazia. A imprensa cobre com cobertura protocolar. As redes sociais ignoram completamente. E assim, quase sem testemunhas, decide-se para onde vão os R$ 34,6 bilhões, de receita bruta estimada, que movimentarão a vida de 3,3 milhões de piauienses. É o documento mais importante do ano. E ninguém está prestando atenção.

Enquanto isso, gastamos energia infinita discutindo quem jantou com quem, qual secretário está em rota de colisão com qual deputado, se fulano vai ser candidato em 2026. Mas e o orçamento? Orçamento é técnico. É chato. É planilha. Então deixamos para os “especialistas” – que conveniente.

 O problema é que o orçamento é ideologia em forma de número. É poder em estado puro. Cada linha daquele calhamaço burocrático responde a uma pergunta política: quem merece viver melhor no Piauí? Quem merece menos? Onde o estado escolhe investir? E principalmente: o que o estado escolhe ignorar?

 Historicamente, cerca de 40% das despesas são vinculadas ou obrigatórias (folha de pagamento, previdência, dívidas). Outros 25% vão para saúde e educação (mínimos constitucionais que todo mundo cumpre porque é obrigado). Sobram 35% de margem discricionária, ou seja, de escolha política real. É sobre esses 35% que ninguém fala. É aí que mora o jogo.

 As audiências públicas, obrigatórias por lei, são rituais vazios onde meia dúzia de técnicos apresenta slides para cadeiras vazias. A sociedade civil organizada, quando existe, não tem musculatura técnica para fazer escrutínio real. E o cidadão comum? Esse nem sabe que pode. Resultado: o Piauí se tornou especialista em debater narrativas e amador em debater números.

 Há quem diga que orçamento público é complexo demais para o cidadão comum entender. Que exige conhecimento técnico, linguagem especializada, paciência com tabelas infinitas. Pode ser. A verdade é que no Piauí, ainda tratamos o orçamento como segredo de Estado que, por generosidade, se torna “público” em PDF de 800 páginas sem busca. O orçamento está aí. Aberto, público, acessível. Resta saber se alguém vai ler antes que virem lei – e vire tarde demais.

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