Cobranças ilegais feitas por flanelinhas, mesmo após a aprovação da lei que regulamenta a atividade de guardadores de veículos, a permanência de carroceiros com exploração animal e uma sonhada “solução” para a precariedade do transporte público… Por que Teresina encontra tantas dificuldades para avançar em temas que outras capitais brasileiras já conseguiram enfrentar? Essa limitação é perceptível e não se explica só pela dificuldade de transformar debate, legislação e fiscalização em políticas a longo prazo, mas também por fatores sociais relacionados à própria forma de organização econômica e de vida no Piauí.
Esses temas até entram na agenda pública, geram discussão momentânea, audiências, manchetes e promessas, mas logo desaparecem. Foi assim com o debate sobre a regulamentação do trabalho dos carroceiros, foi assim com os flanelinhas, e segue sendo assim com o transporte. Parte disso se explica por um traço cultural.
Em uma economia pouco industrializada, fortemente dependente do comércio e do Estado, cria-se a expectativa de que tudo deve ser resolvido pelo poder público, ao mesmo tempo em que se enfraquece a pressão da sociedade civil organizada. Sem movimentos, associações atuantes e debate contínuo na opinião pública, decisões difíceis são constantemente adiadas. Outras cidades avançaram não por serem mais ricas, mas por sustentarem conflitos e escolhas políticas ao longo do tempo.
A cidade de Belém, no Pará, por exemplo, anunciou um canal específico para que a população possa denunciar flanelinhas que estiverem usando objetos para guardar vagas ou fazendo cobranças indevidas. Quando uma lei é aprovada, mas não se criam mecanismo para que ela funcione, ela de fato não dará frutos. Assim, as pessoas se viram como podem, pagam para evitar conflito, recorrem ao transporte informal, fingem não ver o problema. Não por indiferença, mas por descrença na ação coletiva e no poder público.
Teresina não é uma cidade sem virtudes. Pelo contrário. É uma capital menos violenta, menor em número de pessoas e, portanto, com relações mais próximas e um modo de viver que preserva laços. Os problemas evidentes são sintomas de uma sociedade, envolvendo os Poderes como um todo, que precisa amadurecer debates.




