A morte do cão Orelha: que a vida te trate da mesma forma que você trata os animais

A Praia Brava, em Florianópolis, amanheceu diferente no dia em que o cão Orelha não estava mais lá. Para quem frequenta o local com regularidade, sua ausência foi a quebra de uma rotina afetiva. Orelha era um cão comunitário. Não tinha tutor individual, mas tinha muitos cuidadores. Não tinha casa com paredes, mas pertencia àquele território tanto quanto a areia, o vento e o mar. Sua morte é cercada por suspeitas de violência praticada por um grupo de quatro adolescentes. A juventude não apaga a gravidade da crueldade, nem transforma brutalidade em erro menor. Há responsabilidade, há previsão legal, há necessidade de resposta.

Cães comunitários são fruto de uma convivência possível entre humanos e natureza urbana. Vivem ali porque são aceitos, porque alguém alimenta, porque alguém cuida. Mas a brutalidade que interrompeu a vida de Orelha não começou no momento do ataque. Ela se constrói antes, na indiferença cotidiana, na banalização da dor alheia, na ideia silenciosa de que algumas vidas importam menos. A violência contra animais é, historicamente, um dos primeiros sinais de ruptura ética em uma sociedade. Onde o sofrimento do vulnerável é relativizado, algo essencial já foi perdido.

A morte de Orelha torna urgente a necessidade de apuração e punição dos envolvidos. Jovens não surgem no mundo desprovidos de referências morais. Eles são formados (ou deformados) pelos valores que absorvem dentro de casa, na convivência familiar, no que veem ser tolerado, justificado ou encoberto. A crueldade não nasce do nada. Ela é aprendida, permitida ou negligenciada.

No Brasil, a violência contra animais raramente encontra punição proporcional. Quando os envolvidos são adolescentes, o risco de tudo se perder em explicações convenientes é ainda maior. É o que tem gerado indignação nas redes sociais, o receito coletivo de que haja proteção desproporcional. Dois dos quatro suspeitos estariam fora do país. Familiares foram indiciados por coação de testemunhas. Em vez de colaboração, surgem tentativas de proteção que reforçam a ideia de que certas violências podem ser apagadas.

Menores de idade não são completamente isentos de consequências legais. Tratar a crueldade como erro juvenil é falhar novamente. O recado da internet hoje aos suspeitos e familiares (supostamente de família abastada e com influência em Santa Catarina), é : não aceitaremos que a violência seja naturalizada, relativizada ou esquecida. A vida animal não pode ser descartada sem resposta. Sociedades se definem menos por seus discursos e mais pelos limites que impõem à violência, sobretudo quando ela se dirige aos que não podem reagir. Exigir responsabilização é, portanto, preservar o princípio mínimo de que nenhuma existência, humana ou não, pode ser anulada sem consequências.

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