Boletim 29/01/26
”Aquele que conquista pela força bruta, por mais hábil que seja, é também passível de derrotas ocasionais; já aquele que é capaz de enxergar o que não é visto e distinguir condições ainda não manifestas será vitorioso sempre. Sua vitória não terá qualquer imperfeição”, comentarista Zhang Yu, página 240 na edição da Penguin do livro “A arte da guerra”, do mestre chinês Sun Tzu. Favor, ler a edição original e não as releituras.
Um interlocutor ligado ao ministro do Desenvolvimento Social e senador Wellington Dias disse que 80% dos deputados federais e estaduais (“inclusive o X e o Y, que são dois ventrículos do Rafael (Fonteles, governador)”, palavras dele sobre os colegas) são do tipo: “Vai lá que a gente te apoia”. Mas na hora H ninguém fala nada, sabe como é? Foi o que aconteceu na noite de terça-feira, 26, na casa do deputado federal do PT Merlong Solano, que reuniu a alta esfera petista, tecnocratas e dinossauros para aparar as arestas. 123
Aparou? Bom, vamos fazer uma metáfora aqui. A colunista tentou, pasmem, costurar bordados em ponto cruz quando era adolescente. Na frente os desenhos ficavam “ok”, mas na parte de trás do pano, era um caos. A professora dizia que a parte de trás, escondida, tinha que ficar tão bonita como a da frente. A colunista largou os bordados, percebendo que não era a praia dela…
Digamos que agora, pós-reunião, a parte visível está mais ou menos aprumada: climinha meio chato, notas, coletivas, silêncios e tentativas de organização do discurso para fora. A invisível carece de ajustes, mas eles serão feitos (se possível, pois o homem é um bicho imprevisível), fora das câmeras. É como eu disse para minha professora de bordado: “Só consegui fazer desse jeito, professora. Serve?”. Ela disse que não era o ideal, mas servia sim…

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Tive uma ideia: troca o Júlio com o Washington Bandeira
Segundo um petista das antigas, que atendeu, atônito e meio cansado, o telefone de uma pobre coitada de uma jornalista numa tarde chuvosa (a pobre coitada é a cronista que vos escreve), o saldo da reunião é que “foi tudo confuso”:
“Foi a história que sempre lhe disse: Rafael Fonteles não abre mão do vice. Wellington Dias não tem força pra brecar, mas pensei que WDias ia ficar calado até o final. O que foi falado lá é que o problema não é a candidatura do Vinícius Dias a vice, filho dele, que ele (Wellington) retirou, o, problema é que o presidente Lula quer eleger dois senadores no Piauí… Sugeriram tirar o (ex-secretário de Educação, do PT, indicado por Rafael para vice) Washington Bandeira pro Senado e colocar o (deputado federal do PSD) Júlio César de vice. Foi objeto de discussão, mas não deu em nada”.
Pois é… Tem que combinar com os russos, ou melhor, com os Limas?
“A violência só constitui uma parte da guerra, e não é sequer a parte prioritária. O objetivo da guerra é dominar o oponente, ou seja, alterar a postura dele e induzir a submissão. O caminho mais econômico é o melhor: convencê-lo de sua inferioridade, de modo que ele se renda ou pelo menos recue sem que seja preciso combatê-lo”, comentarista John Minford, página 213 da “A arte da guerra”, do mestre chinês Sun Tzu.

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E o acordo, não vale não?
O que os aliados do governador Rafael Fonteles defendem (e a colunista ouviu da boca de um deles) é que: 1) Rafael é um político tido como cumpridor de palavra e, portanto, só está cumprindo o acordo com o PSD e a família de Júlio César de colocá-lo na chapa majoritária como candidato a senador. 2) Uma mudança de acordo, sob argumento de “maior chance de vitória com outra composição de chapa” é subjetiva pois Fonteles enxerga brechas e pontos de avanço na candidatura de Júlio (o que Wellington demonstra a políticos petistas que não vê da mesma forma).
“O Wellington faz um acordo, como fez na época do Themístocles Filho pra vice e colocou a Regina Sousa na véspera, e depois muda de ideia e não é por aí que as coisas são feitas agora. Estão querendo colocar o Rafael de vilão sendo que a única coisa que ele está fazendo é cumprir a palavra que ele deu ao PSD pelo acordo. As coisas não são por aí não…”, pontuou o rafaelista ao boletim, sob sigilo.
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Agora começou a prejudicar pra gente, então vamo parar a brincadeira
É de se destacar ainda o esforço do presidente estadual do PT, o deputado Fábio Novo, que está com o discurso azeitado para pacificar a sigla, pelo menos perante a opinião pública. Novo repudiou em coletiva de imprensa a “narrativa de disputa” entre Wellington e Rafael. Fez o papel que lhe é devido. A narrativa, é claro, existe (e a oposição se esbalda nela). Mas o fatos, ah os fatos… esses são incontornáveis!4

Tirando a espuma, o fato é que os petistas estão preocupados e acham que a situação vai “prejudicar a campanha do grupo” e que é “preciso demonstrar união do partido” e virar o disco. Até a colunista acha que já deu…
Um deputado federal foi objetivo, em off: “A compreensão nossa é que estamos com dificuldade com nosso próprio time. Sempre marchamos unidos, sempre resolvendo antes da eleição…”. Já um membro da oposição revelou ao boletim estar acompanhando tudo e que, por hora, a instrução do andar de cima é de “apenas ficar observando” e tentando sim, se beneficiar do suposto caos do lado de lá. Quem diria que o adversário aproveita-se dos nossos desacordos, não é mesmo?

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Te apoio mas não vou entrar com os dois pés
Consequências práticas: petistas acham que hoje (atenção, “hoje”, a colunista não disse “amanhã”), Wellington Dias discorda da estratégia de Rafael Fonteles de ter antecipado a escolha do vice na chapa majoritária e sinaliza que irá se manter distante, com participação protocolar na campanha de 2026.
“O Wellington está preocupado com o futuro de um grupo e não de uma pessoa só. Mas ele é a favor total da eleição do RF. Só que dos estados em que o PT disputa, o Piauí está melhor posicionado. Agora o Senado vai renovar 2/3 e o Piauí vai desperdiçar uma cadeira de senador”, argumentou um interlocutor político de Brasília, em reserva.
Resumindo: a discordância na base, caso não seja equacionada a tempo, pode sim beneficiar diretamente a campanha do senador Ciro Nogueira, do lado de lá, que os petistas dizem tanto querer derrotar (mas cujos atos só beneficiam Ciro direta ou indiretamente).

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O que verdadeiramente magoou
Por sua vez, o pessoal ligado a Wellington Dias no PT (a maioria, pois foi Wellington quem fundou o partido e a troca geracional leva tempo), acredita que o ministro é tratado “como se ele fosse um senador qualquer e de um partido qualquer”. “Quando WDias tava pra cair no ministério, não teve uma declaração pública a favor dele. Os eventos do Wellington, não tinha presença e por aí vai”, elenca um petista raiz, sobre as “mágoas”.
Para esse observador da cena, mesmo assim Wellington não reagirá: “Governar é uma coisa, controlar o futuro da política é outra. Ele é paciente demais. WDias não vai complicar a estratégia do projeto maior e não vai pro enfrentamento. Mas nunca vi o Wellington tão reticente e tão travado daquilo que ele é”, completou.
Já um apoiador de Rafael Fonteles pondera que “falta clareza” a Wellington Dias em explicitar exatamente qual é seu desejo e cálculo político futuro, considerando que, na opinião desse interlocutor “não é o Rafael que está privilegiando projetos pessoais”. Pessoas que orbitam o novo núcleo de poder petista enxergam que há “resistência” do “velho PT” em perceber que já houve uma troca de comando do grupo. A humilde cronista, como de praxe, traz os dois lados. Complicado…
“O guerreiro mais hábil jamais é beligerante, o guerreiro mais hábil jamais se enfurece, o que melhor sabe derrotar seus inimigos jamais se esforça. O caminho do céu é saber vencer sem esforço”, Tao Te Ching, capítulo 68, citado em “A arte da guerra”, página 212.

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Faz um conselho político, só te pedimos isso
Segundo um dos presentes no encontro (a colunista falou com vários e tem como cruzar e comprovar a veracidade e ponto de desacordo das versões), Rafael falou primeiro (deixando claro o nome de Bandeira como escolhido para vice e citando as pesquisas que referenciam o cenário de perspectivas positivas ao grupo), Wellington em segundo (aceitando e retirando o nome do filho, mas pontuando a estratégia nacional preferencial de eleger um senador do PT além da candidatura de Marcelo Castro no MDB com o objetivo de derrotar Ciro Nogueira no Piauí) e o deputado Fábio Novo em seguida, em intervenção tida como “serena”.
Rafael, segundo contam os presentes, anotou as sugestões recebidas, dentre elas a de que criasse um conselho político para dividir as decisões da gestão. “Acho que não vai acatar”, apostou um petista. Quem sabe, né?
Terminou o encontro, a turma se dispersou, uma parte ficou com Rafael numa sala e a outra com Wellington num outro espaço do amplo apartamento de Merlong Solano. Rafael, contam testemunhas, despediu-se do ministro na porta da segunda sala: “Boa noite ministro, estou indo”. Wellington acenou, contido.
“Creio que seja necessário escolher um general que seja moderado, dotado de autocontrole, vigilante, frugal, resistente ao trabalho, alerta (como diz Homero, ‘velozes qual a pluma e o pensamento’, livre de avareza”, Onassandro, estrategista grego do século I, citado em “A arte da guerra”, de Sun Tzu, página 181.

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Eu tenho a força (do povo)
Está escrito em “O Príncipe” e nos “Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, de Maquiavel, que o príncipe que tem o povo como aliado é quase inexpugnável. Exércitos, leis e alianças só se sustentam com consentimento popular. Rafael Fonteles é protegido da insatisfação de ala dos políticos pela opinião pública, que atua como um escudo. Ser popular nunca vai impedir ataques, mas torna o custo mais alto. Tanto é que sempre que há algum sinal de chateação na base, no dia seguinte (anotem), sai assim uma pesquisa de popularidade deixando claro que Rafael tem eles, o povo. Popularidade foi, é e sempre será antídoto.
“O fator mais crucial da liderança de Júlio César era a velocidade. Ele calculava e decidia com rapidez, movia-se com rapidez, e movendo-se, mantinha a iniciativa, e surpreendia e dividia as forças do inimigo. Em suas expedições, ele combinava ousadia e cautela, travava suas batalhas não apenas de acordo com planos, mas também conforme as oportunidades se apresentassem”, comentarista John Minford, página 198, “A arte da guerra”.

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O que esperar de Antônio Luiz
Novo secretário estadual de Segurança Pública e ex-Saúde, o auditor fiscal aposentado (além de músico) Antônio Luiz é conhecido no mundo político por “falar o que pensa na cara da pessoa e é objetivo”. Nesse caso, é parecido com o antecessor, Chico Lucas, agora confirmado como secretário nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Mas e as diferenças, quais são, questionou a colunista a uma figura próxima a Antônio Luiz?
“O perfil do Antônio Luiz é diminuir custos a todo e qualquer ponto. Princípio dele é da economicidade. Praticamente acabou com pagamentos indenizatórios na Sesapi. Todas as contratações de medicamentos davam problema no Piauí porque os que perdiam se matavam na licitação. Ganhavam com custo baixo e aí se fazia pagamento por contratação direto. Ele criou credenciamento para produtos provando que esse mercado é fluido no Piauí. Tanto que o software desenvolvido com a Etipi (Empresa de Tecnologia da Informação) foi adquirido em Pernambuco, que usa o mesmo sistema do Piauí”, respondeu o analista que senta em salas geladas nas adjacências do Palácio de Karnak.
Sobre a segurança, o desafio é mesmo não o enxugar despesas, que parece que já estão pra lá de enxutas, mas sim de conquistar a tropa e criar um estilo próprio, pós-Chico. Acima de tudo, a gestão anterior da Segurança era eficaz na criação e controle de narrativas para o volumoso público de massa (classes C, D e E). Essa é a missão.

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Vai ser um civil e eu já tava com essa ideia faz tempo
Os poucos decifradores da lógica no governo dos Rafaboys (nomenclatura usada popularmente para aliados de primeira hora do governador Rafael Fonteles) apostavam na saída de Antônio Luiz da Sesapi ainda em 2024, a pedido dele, frise-se. Mas, o secretário ficou, isso é um fato. A ida de Antônio Luiz para o lugar de Chico Lucas surpreendeu muitos, menos os que conhecem a Teoria dos Jogos de Fonteles, que priorizou (e não dá indícios de mudar), o controle de um civil sob as forças de segurança.
Assim sendo, com Chico Lucas dando sinais de que não permaneceria na Segurança num segundo governo de Rafael, Antônio Luiz já era cogitado no círculo interno da base governista para a sucessão. Frustrou a turma da Segurança? Sim. Mas a vida é isso aí mesmo, o leitor deve estar ciente.

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O que esperar de Dirceu
O médico Dirceu Campelo, agora oficialmente secretário de Saúde, é lido por aliados (e adversários) como alguém “preparado” e com currículo “invejável” na Medicina, além de respaldo onde importa: o andar de cima. “Ele é vivido e tem perfil técnico. É muito amigo do RF (Rafael Fonteles) e, de fato é um Rafaboy, dessa mesma turma dos Nolleto, Leonardo Martins, Pedro Rocha, essa cozinha pequena…”.

“Teoricamente tem na cota esse sacrifício de ter largado a vida profissional dele para o projeto do Rafael. É jovem, como Rafael, e o desafio é o mesmo do Antônio Luiz: de ser menos duro, especialmente num ano mais complexo, que é o eleitoral. Mas a superintendência dele na Saúde era uma das mais organizadas também”, completa outro interlocutor com compreensão das nuances e caminhos do Estado.
Mesmo com o currículo robusto, Dirceu estava no estágio probatório para assumir a Sesapi. Pelo visto, foi efetivado. Como será com a caneta na mão, é o que vamos ver a partir de agora.
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Se conselho fosse bom
O que está acontecendo sempre estará acima do que deveria estar acontecendo. Essa deve ser uma regra inegociável. Você só pode medir o nível de clareza das pessoas através de uma métrica: os resultados. E resultado significa “comportamento”. O padrão de comportamento ao longo do tempo sempre será superior a conceitos etéreos como “intenção”.
Coerência quer dizer que seus pensamentos, sentimentos e ações permanecem alinhados. Observe o que as pessoas cumprem, negociam ou negligenciam e se esses padrões são compatíveis com sua própria integridade. Definir o que é bom para você não é um ataque aos outros. Não confunda isso com julgamento moral, na verdade essa é uma espécie de autogoverno: como você governa suas escolhas a partir do momento em que seu sistema interno evolui.
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Cifrada do Senatus Romanus
Na disputa quadrienal para entrar no Reino dos Cavaleiros Sêniors, em Roma, boa parte dos 224 cavaleiros municipais do lado dos Brancos está bancando na cara de pau o voto no cavaleiro Azul, Cirius. É que o filho de um dos concorrentes, Julius, o cavaleiro Acelerado é muito presente nas suas bases. Presente até demais! Deixa os aliados apaixonados e a outra banda insatisfeita. “O Acelerado quase me mata na justiça com processo com o vereador dele lá na cidade. Se votar no pai dele, ele ficará mais forte, por isso não voto, pode vir o papa me pedir”, justifica um cavaleiro municipal.
Acelerado não é acostumado a perder e acredita que os acordos precisam ser cumpridos. A turma de Julius não se dá por vencida e ganhou peso para fazer a diferença na balança mas está p. da vida com Cirius, a quem acusam de ter “comprado” a candidatura do cavaleiro Sem Papas na Língua para bater em Julius durante o acirrado torneio quadrienal. Xiii… Mas, se o rei Harry Potter apertar o pessoal e cobrar a fidelidade total, será que resolve ou pode esquecer? E o cavaleiro Castrus, já comprou o terno da posse ou vai deixar para a véspera?
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Foto do dia
A turma do Direito espera que a gestão do desembargador José Wilson no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PI) justo nesse ano eleitoral seja “diferenciada”. Motivo, segundo jurisconsultos ouvidos pela colunista: Zé Wilson é próximo ao ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Superior Tribunal Eleitoral nesse mesmo biênio, o piauiense Kássio Nunes Marques. “Ele (Zé Wilson) tem tamanho pra ser independente como o próprio Sebastião Ribeiro (presidente antecessor) o foi”, aposta um advogado interessado no assunto.

Certo, alguma coisa a mais? “Sim, de diferente pode ter a parte de estruturação administrativa, por causa do Kássio. Quando o Marcus Vinícius Furtado Coelho foi presidente da OAB nacional, por exemplo, viabilizou muita coisa para o Piauí. Algum projeto piloto. Acho que não vai passar por um ‘normal’ e pode ter recurso para uma obra de legado. O prédio do TRE-PI está velho, da época do desembargador Alencar, que construiu quando era presidente há 20 anos…”.
Falando nisso, dizem os informados que a guerra para entrar nas bancas de defesa de Rafael Fonteles e do grupo de Ciro Nogueira está mais acirrada do que a disputa de voto de Ciro e Júlio César nas bases do interior… Tem futuro ex-juiz de um lado, tem advogada experiente do outro. Bancas desse tipo impulsionam carreiras. Ou então afundam, depende. Em breve a coluna traçará os perfis dos excelentíssimos. Uma pacienciazinha, leitor!
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A frase para pensar
“Entro na lama com os porcos, mas saio do outro lado limpo e de terno branco”, Norberto Odebrecht (1920-2014), empresário, em frase a ele atribuída, falando de sua relação com governo e políticos.
P.S:






