Historicamente associados a prestígio e a um ideal estético muitas vezes visto como inalcançável para a grande maioria das mulheres , os concursos de beleza seguem existindo e despertando fascínio e controvérsia ao delimitar padrões. No Piauí, porém, a trajetória de Paloma Rodrigues deixa de lado esse roteiro tradicional. Após emagrecer 32 quilos e retomar um sonho que já havia sido abandonado, a nova Miss Universe Piauí 2026 surge como a representação de uma mulher real que transformou a própria história por meio da saúde, da disciplina e da autoconfiança, tornando-se atleta de Beach Tennis, símbolo de beleza e superação no estado. Hoje (13/02), a coluna te conta essa história.

Ser Miss Piauí era um sonho antigo. Em 2015, Paloma já havia participado do concurso e conquistado o quarto lugar. Sempre teve vontade de retornar, mas via surgir junto com o desejo, muitos medos. Em 2026, ela sucede a piauiense Gabriela Lacerda, que é a atual Miss Universe Brasil 2025.
“Uma vozinha lá no fundo falava assim: não, você já está velha pra isso, você já engordou, já emagreceu, você não vai competir com essas menininhas, novinhas, que não têm a sua história, que não passaram pelo que você passou, não são casadas. Eu ainda não tenho filhos, mas só surgem essas inseguranças no subconsciente da gente. Então, esse título é uma história antiga, é um sonho antigo que hoje eu tenho a honra de realizar”, contou a Miss Piauí 2026 ao Boletim Brio.
Virada de chave
No virada do ano de 2023 para 2024, Paloma elaborou seu mural dos sonhos, reunindo imagens e metas que desejava alcançar ao longo do novo ano. Entre elas, definiu o compromisso com uma alimentação mais saudável e com o cuidado com o corpo. Colocou sua vida, seu destino e seus planos nas mãos de Deus, certa de que só conseguiria realizar o que havia projetado com essa condução espiritual.
“Antes da minha transformação, eu era uma empresária que administrava a empresa e eu vivia em um ambiente muito tóxico, com pessoas que faziam aquele ambiente ser um ambiente muito hostil, muito difícil de trabalhar. E eu convivia com pessoas muito difíceis, rodeada de mentiras, e eu não sabia o quanto aquele ambiente me fazia mal. E eu achava que eu me saía super bem, apesar de tudo. Eu achava que eu tava bem, que eu tava ótima. Eu não enxergava o tanto que eu tinha largado a minha saúde, o quanto que eu tinha ganhado peso. Eu sabia que eu tinha engordado, mas eu não sabia que eu tinha engordado tanto. Eu não via o quanto que eu procurava esconder a minha insatisfação com o meu corpo, com a maquiagem extremamente pesada, com cabelo extremamente longo, o cílio cada vez maior, a unha gigante, às vezes pontuda, às vezes não, as roupas que, às vezes, eu sensualizava demais na roupa, tentando achar ali uma alternativa para algo que eu não conseguia mudar tão rapidamente quando trocava a roupa, que era o meu peso, o meu corpo”, revelou Paloma Rodrigues.

“Quando emagreci, as pessoas passaram a ser mais gentis comigo”
Depois de perder 32 quilos, ela notou mudanças na forma como passou a ser tratada pelas pessoas.Em certas situações, em lojas de roupas, ouvia comentários diretos de que aquela peça não existia em seu tamanho e que a loja geralmente só pedia até o M ou, no máximo, o G.
“É impressionante que é inconsciente, é o cérebro que faz essa analogia, essa leitura. Não que eu era maltratada, não era maltratada, mas é impressionante como as pessoas nos tratam com muito mais gentileza, com mais disposição, com mais empatia, te enxergam. E é impressionante quando, por exemplo, tinha lojas em que as vendedoras chegavam pra mim já quase sem expectativa de venda, porque não tinha meu tamanho. E eu não me sentia mal, não. Eu sempre fui muito confiante, minha autoestima sempre foi muito boa, graças a Deus. Mas eu confesso que o tratar das pessoas mudou demais. Mudou muito”, relatou ao Boletim Brio.
De sedentária aos pódios de campeonatos de Beach Tennis
Paloma conheceu o beach tennis no fim de 2023. A prática revelou um traço de personalidade até então desconhecido, a competitividade. A necessidade de evoluir em quadra contribuiu para o processo de emagrecimento e para a construção de uma rotina disciplinada de treinos. Ao longo dessa jornada, ela também passou a influenciar outras pessoas pelo Instagram, criando uma rede de incentivo à vida saudável que hoje reúne milhares de seguidoras que acompanham e se inspiram.

“Eu sou extremamente competitiva e odeio perder. O beach tennis aflorou em mim esse senso competitivo que eu ainda não conhecia e me deu uma vontade enorme de melhorar, de emagrecer e de treinar cada vez mais para ficar mais rápida e mais ágil na areia. É um esporte que exige muito do físico, da velocidade, do salto, da precisão. Ele foi crucial para o meu emagrecimento porque me deu esse senso de que eu preciso estar melhor amanhã, melhor no próximo torneio, melhor sempre. E, através desse esporte, tenho alcançado muitas vidas e transformado também a vida das minhas amigas fit. Hoje sou amiga fit de quase 160 mil pessoas e posso dizer que o beach tennis se tornou parte da minha identidade, porque foi através dele que alcancei a minha melhor versão”, mencionou Paloma Rodrigues.
20 mil seguidores com um vídeo
A Miss Piauí 2026 conta que não planejou se tornar influenciadora. Tudo começou quando, depois de um tempo afastada das redes sociais, quando Paloma decidiu enfim atender aos pedidos insistentes de amigos, familiares e do marido e publicar, sem grandes pretensões, o seu antes e depois do processo de emagrecimento, construído apenas com atividade física e dieta. O vídeo rapidamente alcançou milhares de pessoas e, em poucos dias, cerca de 20 mil novos seguidores chegaram, revelando que a história dela, até então tão pessoal, tinha potencial de se tornar inspiração para um público amplo.
“Muita gente me mandou mensagem: ‘nossa, o seu vídeo me inspirou muito, o seu vídeo fez com que eu despertasse e começasse a pensar em mim, na minha alimentação. Poxa, eu tinha largado a minha dieta, mas agora eu vou voltar, eu vou permanecer porque o seu vídeo me inspirou, essa história me inspirou, você mostra que é possível. Paloma, eu não tinha dinheiro para poder comprar medicamento, para poder fazer cirurgia. Eu pensei que fosse impossível. As famosas aparecem aí, mas todas fazem cirurgia, tomam remédio, fazem mil procedimentos, e eu não tenho esse dinheiro. Você me mostrou que é possível, que é possível de forma natural’. Porque eu sou uma pessoa muito medrosa, eu jamais tomarei remédio, porque eu realmente sou muito medrosa. Eu sou a favor do método do emagrecimento natural. É o mais duradouro, é o mais saudável, é o que treina o seu cérebro, é a melhor coisa do mundo”, descreveu Paloma Rodrigues.

Suas seguidoras, carinhosamente chamadas de amigas fit, abraçaram seu estilo, seu jeito mais tradicional, seu gosto por jazz, blues, bossa nova e MPB. Esse vínculo genuíno, construído na aspiração e na identificação, tornou a comunidade criada no ambiente virtual um dos aspectos mais especiais da trajetória.
Por que contar essa história
O diferencial da história de Paloma está no fato de não ser uma trajetória perfeita ou idealizada, que muitas vezes aparecem nas redes sociais e com as quais poucas pessoas conseguem se identificar. A dela é uma história comum, humana, atravessada por vulnerabilidades, oscilações e desafios na relação com o corpo, com a autoestima, com a comida e com as emoções.
Ao longo do processo, ela se permitiu expor fragilidades, revisitar sonhos que estavam guardados, acreditar novamente na própria capacidade e escolher, conscientemente, o caminho mais difícil: o da mudança de comportamento e do enfrentamento das emoções sem recorrer a soluções imediatas ou medicamentos como muleta. Essa história é muito mais sobre resiliência e esperança em tornar-se aquilo que se quer.
“Eu quero ser lembrada como a miss da inspiração, da motivação, aquela miss que, na hora que você olhar para ela, você vai lembrar de que tudo é possível, você consegue tudo que você tanto sonha, só depende de você. Eu quero ser aquela miss que abraça, que é gentil, eu quero ser aquela miss que mostra que realmente eu trabalho por um propósito, que é de propósito que eu apareço todos os dias nas redes sociais, que eu apareço todo dia no meu Instagram para ajudar, para inspirar outras mulheres e poder salvar realmente uma vida que talvez estivesse perdida, que estava sem todas as esperanças, estava lá no fundinho do poço esperando alguém para ir lá buscar ela. A mensagem que eu quero deixar para as mulheres piauienses, mulheres reais, que a maioria são mães, donas de casa, trabalhadoras, com uma jornada tripla, dupla, é que tenham coragem de ser vocês mesmas. Tenham a audácia de ser quem você é. Tenha a coragem de impor o seu gosto, o seu limite”, concluiu a Miss Piauí 2026, Paloma Rodrigues.

O conceito do belo
Sabemos que os padrões de beleza são construções sociais e culturais subjetivas e mutáveis ao longo do tempo. Aqui no Piauí, essa transformação é visível quando se observa os concursos de Miss nas últimas décadas. Os critérios, os perfis e até a forma de se apresentar mudaram, acompanhando as transformações da sociedade, da moda e do olhar coletivo sobre o que é belo. Hoje, a beleza não é fixa, mas plural, construída e constantemente ressignificada pelo tempo e pela cultura.
O cabeleireiro internacional Karlos Wendell foi organizador de concursos de miss no Piauí durante muitos anos, ele analisa que universo dos concursos de beleza, antes envolto em um glamour restrito e distante da maioria das jovens, passou por um processo de popularização ao longo dos anos, ampliando o acesso e diversificando os perfis de candidatas.

“Na minha época, entre 2000 a 2004, mais ou menos, o padrão de beleza da época que eu fazia os concursos de Miss era o magro, né? A mulher tinha que ser magra, inteligente, claro, mas tinha que ter aquele padrão, ser alta, ser magra. Um pouquinho antes, quando eu comecei a trabalhar também, porque eu já fui Mister Piauí também, em 1998, o padrão era mais ‘cheinho’, era aquela mulher mais gostosa. Depois, nos anos 2000, começou a ser aquela modelo, a mulher mais magra, mais sem muita curva”, relembrou Karlos Wendell ao Boletim Brio.
Existe fórmula para ser miss?
Para Karlos Wendell, os concursos de Miss já ocuparam um espaço de destaque muito mais amplo no imaginário popular e na vida social. Inclusive, com poder de mudar o destino das ganhadoras no estado. Segundo ele, especialmente nas décadas de 1990 e 2000, essas competições eram cercadas por um glamour que mobilizava o público, ficando no foco da atenção do Piauí e de todo o Brasil diante das transmissões e das etapas que elegiam a Miss Piauí e a Miss Brasil. Havia expectativa coletiva, interesse da sociedade e um verdadeiro evento cultural em torno dessas coroações.
“Acho que todas as mulheres devem participar. Às vezes, imagina, tem uma mulher linda que ela é mais acima do peso e, às vezes, a mulher magra que não é tão bonita, não é tão charmosa, não tem aquele carisma. E eu acho que o carisma de uma miss é tudo. Ela pode não ser 100% bonita, mas se ela tiver carisma e ela tiver um sex appeal, acho que pra ser miss tem que ter algo diferente. Eu acho que realmente cada década, cada década ou de cinco em cinco anos, a beleza muda totalmente. Eu acho que a gente foi sempre muito, muito influenciado pela época. De cinco em cinco anos ou de dez em dez anos, as coisas foram mudando totalmente”, avaliou Karlos Wendell.
É fato que os padrões de beleza continuarão a existir e a reproduzir desigualdades históricas sobre o que é considerado belo, digno de admiração e valorização (frequentemente sob uma lógica eurocêntrica herdada de um país marcado pela colonização). O convite aqui é à compreensão de que esses referenciais são construções sociais, mutáveis e atravessadas pelo tempo e pela cultura, e não verdades absolutas capazes de determinar o valor de uma pessoa. É essencial que, sobretudo as mulheres, consigam olhar para esses padrões com maior senso crítico e desprendimento, reconhecendo que a busca por saúde, autoestima e bem-estar físico e mental deve existir, mas sem que o próprio corpo seja visto como obstáculo à felicidade, à aceitação ou à realização pessoal. Ao contrário, o caminho mais potente é aquele que passa pelo acolhimento, pelo cuidado e pelo respeito à própria história, permitindo que cada uma construa sua melhor versão sem submeter sua identidade a medidas rígidas de comparação ou validação externa.




1 comentário
Rafael Araujo
Como escreveu Guimarães Rosa:
“Quem não tem brio engorda”
Bem que poderíamos reler: Quem tem brio desengorda?
Cloves sintetiza Paloma e Guimarães quando diz: “É uma questão de brio! Você tem brio?
Valeu Boletim Brio, gostei da matéria. Vou já pra academia.