Boletim 24/02/26
“Nós temos que pensar que cada um desses nossos príncipes têm um objetivo, e como nos é impossível saber seus segredos, é necessário que os avaliemos pelas palavras, pelas demonstrações e um pouco pelo que imaginamos”, carta de Francesco Vettori, embaixador junto ao papa e a Espanha, a Nicolau Maquiavel, um dos fundadores da Ciência Política moderna. Roma, 12 de julho de 1513. A colunista retirou essa e as demais citações da coluna de hoje do livro “O Príncipe”, de Maquiavel, na nova edição primorosa da editora Fósforo.

Da Humilde Cronista ao Caro Leitor
Brasília, 24 de fevereiro de 2026.
Meu caro leitor, recebi sua última carta sobre o confuso cenário eleitoral no Piauí. Demorei porque você sabe que o Carnaval não me incomoda, desde que depois eu possa me dedicar às minhas coisas. Vou responder a todos os pontos colocados, no entanto, entenda: tento ver o fim e não o meio. Escute com paciência onde suspeito que se engana e onde tenho certeza de que se engana.
“Quem não sabe se defender abraça quem é bom na esgrima”. Não sei de nada, mas talvez conheça duas ou três boas almas que sabem e contam, por educação ou consideração, o que se passa. Repasso a ti, sem filtro, o que ouvi da boca de gente que está no olho do furacão. Falo dos profissionais. Os amadores que me perdoem, aqui é briga de gigantes. Os profissionais só me pedem que as identidades sejam resguardadas. Acredito que a troca é justa e aceito a barganha. O conteúdo prevalece absolutamente fiel ao que foi ouvido.
“Eu não acredito que alguma coisa mais possa ser dita sobre essa matéria. Mesmo assim, para me sentir vivo e para lhe obedecer, direi o que me vem à mente…”, Nicolau Maquiavel a Francesco Vettori.

Lula e cúpula nacional do PT estão “achando estranho” conflito no Piauí
Começo informando que aqui em Brasília, o presidente nacional do PT, Edinho Silva e o presidente Lula são tudo, menos meninos. Eles já sabem do conflito interno entre os dois titãs do partido no Piauí: o popular (entre os eleitores) governador Rafael Fonteles, escolhido ao cargo por Wellington Dias, e o ministro do Desenvolvimento Social e senador, quatro vezes governador (esse, popular entre os políticos). O que estão achando? “Estranhando!”, respondeu um interlocutor da capital federal com quem conversei esses dias.
Se eles que mandam no partido estão incrédulos com a escalada da tensão, imagine nós, observadores da cena política. No meio dos ruídos, e só entre nós, aqui estão os fatos, separados pelos lados. Prefiro que você mesmo tire suas conclusões. No entanto, se tiver paciência, no final de tudo, direi brevemente o que avalio apenas para separar a espuma das ondas.
Ah, as palavras mais ouvidas nos últimos dias foram: “clima” e “ terrível”.

Petista ligado a Wellington: “Melhor o WDias ganhar com 51% do que RF (Rafael) ganhar com 80%”
“Quem está acostumado a ser grande não aceita ficar por baixo e acaba se colocando em perigo para tornar à sua posição”, Francesco Vettori a Nicolau Maquiavel.
Wellington Dias têm dito a aliados (gente confiável, que conheço há anos e tem histórico de falar a verdade) que pode ser candidato a governador agora em 2026, pelo PT. Pois é, pasme. Motivo: discorda da escolha do ex-secretário estadual de Educação Washington Bandeira como vice de Fonteles e acredita que o deputado federal Júlio César não vence, pelo PSD, a disputa ao Senado contra Ciro Nogueira (PP). Mas rachar a própria base e romper com o ex-pupilo, herdeiro político, só por causa disso? Me questiono, com sinceridade, o que não está sendo dito? As palavras criam o mundo, é verdade. Mas os gestos, a ação, o movem.
“Melhor o WDias ganhar com 51% do que RF (Rafael) ganhar com 80%. Numa eleição (contra Rafael e a oposição), o Wellington ganharia. Ele vai disputar contra quem? Joel (Rodrigues)? Margarete (Coelho), ambos do PP?”, me disse um petista ligado a Wellington. Ele mesmo admitiu que o fato desse discurso estar sendo proferido abertamente era o sinal de que algo muito esquisito acontece na base rafaelista. “No começo, eles (RF e WD) estavam se testando. Agora é guerra fria, cenário muito ruim”. Nisso, concordei com ele.

WDias pode romper porque não tem nada a perder, praticamente só indicou a Seid
Outro interlocutor, aqui de Brasília, explica nesses termos, que acredito ser de bom tom reproduzir: “Wellington não tem o que perder. O que aconteceu como o RF ao longo desses três anos é que ele retirou todo espaço que o Índio tinha, praticamente só tem a Seid que é o Maurinho (Mauro Eduardo). O desprestígio, isso tudo fez com que o WDias ficasse à vontade para romper com RF. Ainda que ele quisesse, mas tivesse prestígio, não romperia. Não coloco como causa (ter espaço político), mas coloco como barreira de impedimento”. Faz sentido para mim, e para você?
Mesmo assim, entendo que a especulação de uma candidatura de retorno de Wellington Dias ao Palácio de Karnak, ainda que não se efetive, causa dor no adversário. E o adversário não é Ciro Nogueira, você me entendeu.
Então cúpula do PT deixaria um governador bem avaliado sair da sigla porque um grupo de políticos discorda da estratégia de montagem da chapa majoritária? As coisas não estão indo longe demais, não? “Se RF sair do partido, o Wellington é candidato a governador do Lula e conseguiria boa parte da base com ele. Porque com o Wellington todo mundo participaria (do governo)”, defendeu.
“Ele (RF) é bem avaliado, mas não tem história dentro do partido e o Wellington acha que num embate seria vencedor em Brasília. Os políticos não se veem como sócios do governo e sim uma xxxx (áudio censurado em mais de 90 países) que pede um dinheiro e liberam”, completou outro agente político com quem converso na capital federal.

Chances de acordo: “Hoje, a meu ver, inviável”
Tudo passa por Brasília, mas talvez estejam esperando coisas demais. “Agora é esperar as conversas que o Wellington vai ter em Brasília essa semana. Quando o Lula chegar ele vai conversar, também vai falar com o pessoal da Nacional e ver qual é a decisão dele. Isso foi no dia da confusão, ele estava muito afetado pela emoção, etc, tudo que aconteceu e tal. Mas fazer acordo agora, ao meu ver, ficou inviável, acabou clima”. Será?
Petistas antigos defendem que enquanto o PT não anunciar o vice, o vice pode mudar
Rafael tem bancado Washington Bandeira com afinco inegável, assim como defendido a viabilidade da candidatura ao Senado de Júlio César na dobradinha com Marcelo Castro (MDB). Como o governador elevou muito o preço, qualquer recuo o deixaria como derrotado, convenhamos. Petistas antigos concordam, mas não se importam. “Ninguém tá nem aí pra desmoralização dele (RF). Ele saiu de férias e lançou o Washington no Twitter, sem falar com ninguém”, respondeu o petista.
Mas Washington Bandeira já foi anunciado, eu retruquei, como sinal de que uma mudança seria péssima para o próprio grupo, sinalizando indecisão e dando um presente para a oposição, também dividida entre Joel Rodrigues (preferência da base) e Margarete Coelho (preferida por Ciro Nogueira). “Não foi anunciado não, e é a isso que ele (Wellington) está se apegando. O anúncio do vice só pode ser feito pelo PT, seguindo o calendário e as instâncias”, completou um petista mais jovem.

Em qualquer jogo, tentar uma jogada estratégica e depois desistir significa quase que automaticamente, perder a credibilidade. Uma reputação passada torna suas ameaças futuras verossímeis. O discurso de posse de John Kennedy, no começo dos anos 60, na Guerra Fria, foi exatamente uma declaração pública do que ele estava disposto a fazer – e fez: “Que toda nação saiba, quer nos queira bem ou mal, que pagaremos qualquer preço, suportaremos qualquer fardo, enfrentaremos qualquer dificuldade, apoiaremos qualquer amigo, nos oporemos a qualquer inimigo para assegurar a sobrevivência e o êxito da liberdade.”
Já o ex-presidente republicano George Bush, o pai, disse em 1988: “Leiam meus lábios: não haverá impostos”. Mas aí, teve imposto novo no ano seguinte e a derrota dele em 1992. A história sempre dá aulas. São gratuitas, aliás.
Proposta para Regina ser vice ou Chico Lucas ser senador ou deixar vaga de Governo em 2030 aberta. Todas negadas por Rafael

No agitado final de semana que contou com uma reunião na casa de Rafael Fonteles, um encontro casual na residência da deputada do MDB, Ana Paula, e o aniversário do ex-secretário de Fazenda de Wellington Dias, Antônio Neto, só se falou disso. Frequentadores dos encontros dão versões parecidas, alegando que duas propostas foram feitas e negadas: a primeira, para a candidata a vice-governadora ser Regina Sousa (de novo), numa espécie de solução negociada e tampão de chapa pura com o intuito de adiar a escolha do vice que irá disputar a eleição (reeleição) em 2030. Isso, caso vençam, óbvio. Rafael não quis.
A segunda, para que o secretário nacional de Segurança Pública, Chico Lucas, disputasse o Senado no lugar de Júlio César neste pleito. Ao que consta, Chico declinou educadamente, saindo da linha de tiro. “Qual a lógica que tem o Chico Lucas ser candidato se ele acabou de assumir um cargo federal?”, questionou um deputado ao boletim. Lógica, nenhuma. Mas esse pessoal não é lá muito fã de lógica, não é mesmo?
“Apurei aqui que a insatisfação no dia da reunião foi porque foi proposto que em 2030 o Wellington pudesse escolher ao que se candidataria: se ao Senado ou ao Governo e o Rafael não quis. Foi a quarta proposta. A história da Regina foi mais por argumento do que por proposta porque ela não estaria disposta a topar qualquer tipo de candidatura. Wellington topou tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo e só fizeram esse pedido e não aceitaram…”, relatou um confiável participante das conversas petistas, sobre a versão que circula nas bandas de lá.

Apoiadores de WDias encomendam pesquisa testando o nome dele pro Governo em 2026
“Vai sair pesquisa sondando nome do Wellington Dias para o Governo”, adiantou um defensor da candidatura de Wellington contra Rafael na eleição de 2026. O Governo rafaelista também deve fazer pesquisa com o mesmo intuito – provavelmente sem divulgar, para não inflamar mais a história.
“Sabe o que pode acontecer?”, me questionou um petista escaldado. Respondi que não sabia, mas adoraria saber. “O RF (Rafael Fonteles) não abre mão de jeito nenhum (de indicar o vice-governador e ter Júlio César no Senado) e os dois lados têm dito isso. O RF falou uma coisa uma vez que deixou todo mundo intrigado e com pé atrás, de que seria candidato com o Bandeira de vice, independente do PT. Se o RF sair do partido, o Wellington sai como candidato do Lula. O RF iria pra qual partido? No esticar da corda, se o RF quiser montar uma chapa sozinho ele não seria candidato do grupo. Vários deputados defendem essa tese. Alimentam o Wellington. Ele (WDias) se sente estimulado”.
Está claro que o voo de Wellington não é solo. Mesmo assim, ainda entendo tudo isso muito mais como uma posição marcada e muito menos como um fato prestes a se materializar. Não o vejo candidato a governador contra Fonteles, só avalio que o custo político da compensação que os Rafaboys pagarão, aumentará muito mais. O que talvez, considerando as perdas dos petistas antigos, seja justo. Talvez.

Rafaelistas acreditam que WDias deveria admitir que quer voltar a ser governador em 2030: “O remédio pro Wellington era sol”
Percebi, nos últimos meses, que a mágoa do grupo antigo do PT era bem maior do que a irritação que os neopetistas (os Rafaboys) sentiam pelos dinossauros que reclamavam a indicação do vice ou, por último, do senador. Mas a balança reequilibrou. A raiva/chateação é mútua e equivalente.
“O remédio pro Wellington era sol. Expôr o que ele realmente quer com isso tudo”. E o que é mesmo? Eu ousei questionar. Meu interlocutor, frequentador discreto do lado rafaelista da história, respondeu sem titubear: “Wellington quer voltar ao Governo em 2030. Ele nunca desapegou da cadeira”.

“Fazer uma guerra no quintal de casa é algo relevante: qualquer pequeno movimento te faz perder o ânimo e te humilha, como a experiência demonstra todos os dias”, Maquiavel a Francesco Vettori.
Rafael evita “peitar”Wellington, enquanto narrativa de briga ganha espaço e vira “novelinha” popular
Me parece também que a guerra de narrativa é dominada por Wellington Dias, basicamente porque ele vocaliza toda uma insatisfação maior, difusa, do grupo governista, com Rafael e os Rafaboys. O governador, por sua vez, não “peita” Wellington e, até onde sei, não coordena ataques a ele no submundo virtual. “O Índio está capitalizando um descrédito da classe política com os Rafaboys. E o Rafael não enfrenta, respeita o Wellington”.
A maior parte da classe política está com Rafael de fato (com os cargos e tudo o mais a que têm direito, assim como as emendas, que são quase um cartão de crédito, digamos assim). Mas no discurso e no sentimento, ficam com Wellington Dias. “Eles (Rafaboys) não respeitam nem o Wellington, avalie a gente, né?”, disse um deputado que, no entanto, nunca cogitou romper com o governo Fonteles assim como segue, discretamente, dando corda e razão ao ministro.
No caos, alguns governistas estão angustiados (vide o presidente estadual do PT, Fábio Novo, realmente esforçando-se para preservar o partido. O que é uma luta inglória). Outros, se divertindo com o caos. A oposição agradece aos céus o presente. Mas talvez não tenha o ímpeto ou as condições de aproveitar a maré. Eu disse “talvez”.

Um inventário de mágoas acumuladas e ameaças veladas postas na mesa
Um político só é bem sucedido pra valer quando deixa o cargo e faz o sucessor. Wellington Dias queria ganhar e escolheu Rafael Fonteles para a sucessão em 2022. Fonteles era o mais talhado e venceu, interna e externamente, sejamos justos. Mas, o matemático tem visão lógica e linear, Wellington opera no subtexto dos afetos e não-ditos. Eles falam línguas diferentes. Eu me pergunto como esses dois se entenderam algum dia.
Dias acumulava decepções que Fonteles nem notava ao longo dos últimos três anos. Até a bomba explodir. “Rafael não retribuiu (a escolha em 2022), não devolveu, não foi deferente ao Wellington. O experimento do WDias de trazer uma nova geração ao poder deu super certo tanto que ele não está conseguindo voltar… Já ele (Wellington), não desapegou e acha que ainda é o governador!”, disse um jovem aliado de Rafael, que frisou que fala apenas por si. Ok.
“Estive no aniversario do Antônio Neto de 70 anos. WDias ficou lá até o Rafael chegar. Um entrou e outro saiu. No momento dos discursos, Rafael elogiou muito WD, em sua ausência. Os que estavam lá eram 80% wellingtonistas, dinossauros. A coisa está difícil. WD andava com o filho de mesa em mesa. Perguntei ao WD como estavam as conversas e ele disse que tinha uma luz no final do túnel. Mas um petista me disse que essa luz seria uma candidatura dele ou de alguém apoiado por ele”, ponderou um águia das antigas, confirmando o clima de incerteza que paira no ar rarefeito da Mesosfera.

Uma vez, e não me pergunte o contexto, fiz um teste em que me pediam uma lista de palavras e eu respondia o que cada uma significava. Penso de novo nesse teste. Palavra: “ameaça”. O que é uma ameaça? “Ameaça é uma regra responsiva que serve para punir os outro quando eles não fazem o que você quer. A ameaça vem com uma oferta de recompensa aos outros jogadores que agem de acordo com o que você gostaria”. Acertei?
Wellington ameaça Rafael com a carta imaginária de Lula e do PT nacional, enquanto acena à base de que com ele, os políticos serão mais ouvidos e acarinhados. Rafael ameaça destronar de vez Wellington, caso leve a cabo a derrota do ministro nas instâncias petistas com a cartada da excelente popularidade (que não justificaria, portanto, uma intervenção de cima para baixo). Ele sinaliza aos aliados ser um fiel cumpridor de acordos, ao contrário de outros acolá.
“Assim você poderá ver como primeiro os homens querem poder defender a si mesmos e não serem dominados por outros; disso, depois, partem para ofender e para querer dominar outros”, Maquiavel.

Opinião da humilde cronista:
Política significa “comprar riscos”. Tudo o que muito vale, muito custa. Ser governador, senador, deputado, síndico do condomínio, não importa: outros vão querer o que você deseja e vocês disputarão por isso. Às vezes, deve-se avançar, sem dó. Outras, engolir o ego e esperar.
Rafael talvez tenha sido paciente demais com Wellington quando este começou a se movimentar politicamente nos bastidores. Também parece ter sido apressado demais quando, depois de escolhido o vice, fez a insuficiente costura interna no PT. Faltou saber o tempo de acelerar e o tempo de esperar. Precisa falar com menos lógica a quem quer afago. Deve ser duro quando a reverência vai para os ares.

Wellington, por sua vez, não consegue tornar crível que suas resistências são apenas ao “jeito” de Rafael, supostamente “objetivo demais”, de conduzir a política. Como a campanha do PT deixou claro, eles se conheciam desde que Rafael era um menino e Fonteles passou oito anos no Governo dele. O que quer realmente Wellington Dias? Seria bom que fosse claro.
Mesmo que Rafael vença na composição da própria chapa de reeleição (e tem chances concretas disso, como prova o histórico do PT), a história não é apenas o final, é o processo para chegar até lá. O processo conta.
Recebi agora, antes de te enviar essa carta, a seguinte mensagem, de alguém que vive no seio mais restrito do PT: “Agora eu vou te falar… Aqui é comentário, não é informação. Praticamente não tem mais clima pra acordo, sabe? Eu vejo todo mundo dizendo que eles vão se entender e etc, mas não tem mais clima pra acordo porque o Wellington não está preocupado com Vinicius (Dias), com A ou com B, com C. Wellington está preocupado com a sobrevivência política dele, com o futuro político dele e qualquer coisa que agora, porventura, venha ser tentada, ele não consegue mais confiar”.
Prefiro não dizer mais nada, por enquanto.
Nada mais, a você, minhas saudações.
Da amiga, Humilde Cronista.
“Quanto ao estado das coisas no mundo, eu tiro a conclusão de que nós somos governados por um grupo de príncipes que têm, por natureza ou por acidente, tais características: temos um papa sábio, e por isso sério e cauteloso; um imperador instável e volúvel; um rei da Espanha desdenhoso e medroso; um rei da Inglaterra rico, feroz e desejoso de glória; suíços bestiais, vitoriosos e insolentes; nós, da Itália, pobres, ambiciosos e vis; os outros reis, não os conheço”, Maquiavel a Francesco Vettori.
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Vou tirar do meu e te ajudar a eleger mais um deputado
A peculiar história do auxílio que a chapa do PSD dará à chapa de federal do Republicanos, e vice-versa, pode ser compreendida da seguinte forma: uma voz do além, que mora no andar superior de um palácio, lembrou a um importante líder que ele tinha que votar na chapa governista ao Senado (para quem sofre de perda de memória recente, a chapa tem Júlio César, do PSD e Marcelo Castro, do MDB) e não em Ciro Nogueira, do PP (frisando isso porque algumas pessoas realmente esquecem…). Pois bem.
O líder disse que votava até no controverso Thanys Killian se fosse o caso, mas que o colega do outro partido teria que parar de “roubar” as bases dele e cumprir mais uma pequena lista de exigências (hipóteses: ceder 15 mil votos, resolver a fichinha de cavar uns 30 poços aculá e ajudar com a liberação de dois titãs da chapa de federal lado de lá para o lado de cá). É pouco ou quer mais? Nessa história tem tudo, menos menino besta…

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Sempre é de bom tom combinar com os russos
Tanto o ex-governador Wilson Martins quanto o deputado federal Marcos Aurélio Sampaio, ambos no PSD, pularam longe e praticamente colocaram a frase “Não conte comigo nessa, boa sorte, irmão” num outdoor na avenida Frei Serafim, em Teresina, quando foram convidados a discutir a migração para o Republicanos. É que o PSD faz três nomes (quase) que tranquilamente para a Câmara dos Deputados. Cotados: Georgiano Neto (na cadeira do pai), Castro Neto, reeleição e… Marcos Aurélio ou Wilson Martins, briga de gigantes.
“Se for pra juntar todo mundo no PSD (a chapa do Republicanos ir pro PSD), o que o Jadyel não aceita, tudo bem, mas pro pessoal do PSD ir pro Republicanos, não vai rolar”, disse um ouvinte das conversas na sala gelada, à colunista. Temos aquilo que se chama de “impasse”, leitor.
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Por enquanto fica assim
Um apostador profissional relatou à colunista que quando arrisca o próprio dinheiro (que não é pouco), joga nessas posições a respeito das probabilidades que ele enxerga para a Câmara dos Deputados nesse pleito:
“O Progressistas faz dois, que deve ser Júlio Arcoverde e Átila Filho; Republicanos faz um, o Jadyel (Alencar), o PSD faz três e poderia até fazer quatro (Georgiano Neto, Castro Neto e Marcos Aurélio ou Wilson Martins). O PT faz quatro: Zé Santana, Dr. Francisco, Flávio Nogueira, e o quarto é uma incógnita: delegado Charles pode estourar de votos ou não, ou disputa entre Florentino Neto e Merlong Solano”.
A colunista, que se considera uma iluminista, respeita a opinião de todos mas sempre acha de bom tom perguntar: combinaram com os russos (o povo)?1

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Revolta, tiro, porrada e bomba no assunto IPTU
Num grupo de Whatsapp formado por gente grande (digo, de dinheiro/poder grandes), incluindo políticos, empresários e magistrados, a reclamação em cima do prefeito Sílvio Mendes (União Brasil) – que está no grupo de zap e não saiu mesmo com a choradeira – é implacável por conta do aumento do IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana, tributo municipal que os proprietários de imóveis precisam pagar).
“O meu saiu de R$ 6 para R$ 10 mil, fora taxa de lixo. O imóvel valorizar não quer dizer que sua renda valorizou não…”, disse um empresário peso pesado.
Outro bem-nascido (e bem-sucedido) alfinetou por cima: “O que deverá ocorrer é o aumento da inadimplência. Eita povo ‘inteligente’”. Boa parte defende a judicialização da história. Xiii…

Antes que a turma venha dizer que é tudo “culpa da imprensa”, a colunista teve acesso às conversas (não estilo reunião do Supremo Tribunal Federal com o ministro Dias Toffoli sobre o Banco Master, porque aí já é um pouquinho demais), portanto, a reprodução das falas é fidedigna.
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Meus amigos, acho que vocês não entenderam…
Sílvio leu tudo e depois respondeu a turma. A colunista vai colocar abaixo o print para melhor visualização. Um dos integrantes do grupo do zap ficou surpreso pois o prefeito da capital anexou um documento: “Colocou até roteiro para entrevistas kkk”.


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Para ler, ver e ouvir
Ícone da elite política e midiática dos EUA, “príncipe da América”, John F. Kennedy Jr. faleceu em 1999, enquanto pilotava um avião particular que caiu no oceano. John, a esposa, Carolyn Bessette e a irmã dela, Lauren, morreram no acidente. Ele tinha 38 anos; ela, 33. A história deles, filmada por Ryan Murphy em “Love Story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette” (FX/Hulu, disponível no streaming da Disney) é, em parte, a crônica (com estética minimalista dos anos 90 e uma trilha maravilhosamente nostálgica) de um romance condenado, assim como um estudo sobre a balística da imagem. Vale a pena assistir.

Paul Anthony Kelly interpreta John John com uma leveza que esconde o fardo de ser o herdeiro de uma mitologia que ele nunca pediu para escrever, sendo filho do presidente americano John F. Kennedy e de Jacqueline Kennedy Onassis. Já Sarah Pidgeon captura Carolyn não como a “boneca de gelo” que as revistas esculpiram, mas como uma mulher que entendia, talvez melhor do que o marido, que a privacidade era o único luxo que o dinheiro não podia comprar. Os que vivem o poder sabem que sempre haverá um dilema entre o desejo interno de ser humano e a obrigação externa de ser um ícone.
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Se conselho fosse bom
Se você é alvo de historinhas maliciosas, patrulha e dedos apontados que dizem: “Quem ele (a) pensa que é?”, entenda que os ataques traduzidos significam: “Por que ele (a) e não eu?”. Pessoas fracas consideram o querer perigoso, morrem de medo de fazer alguma coisa significativa na vida (pois temem o fracasso) e, a partir disso, depreciam os outros que fazem o que elas não têm coragem. Quando alguém tenta distorcer sua imagem é porque, provavelmente, sua presença expõe algo neles que eles não conseguem encarar: incompetência, falta de liberdade, preguiça ou covardia.
Sabe as centenas, se não milhares de pessoas que você conheceu na vida? Adivinhe? Isso não é absolutamente nada. Existem 8 bilhões de pessoas no planeta. Nunca reaja levando em consideração uma fração de uma fração de pessoas que não significam nada. Há 99,9% do mundo que você nunca vai conhecer. Então por que você está se encolhendo? Reconheça que, fundamentalmente, essa é a sua vida. Assuma total propriedade da sua própria experiência.
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Cifrada das Coroações Não Acontecem por Acaso
No Sala do Trono Judicial (STJ), duas cadeiras só se libertam quando os astros se alinham, geralmente em anos de Aurora Boreal. Com um togado Capa Preta encrencado até dizer chega em movimentos marítimos pouco edificantes, o negócio que era complicado ficou um pouco menos difícil, abrindo espaço no tabuleiro fechado a sete chaves, para uma terceira cadeira…
A fresta inesperada está sendo aproveitada por um dos 11 togados de armadura máxima no Andar de Cima. Ele, que nasceu no Reino do Sol, tem um afilhado local que entra forte e discreto na disputa. “Te garanto que as peças estão sendo movimentadas agora”, confidenciou um leitor de brasões e fumaças, pedindo sigilo absoluto. Resta saber: será mais uma cruzada pelos quintos? Ou coroações do tipo precisam ser silenciosas e sempre reservarão surpresas? Quem viver, verá!
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Foto do dia
Brasília é um reino peculiar, em que os poucos que aqui chegam precisam provar de paciência, resistência atípica às intempéries, jogo de cintura e outros raros predicados da mesma estirpe (Ex: se fazer de doido, ou realmente ser um pouco louco, enfim, o leitor entendeu…). A quantidade de piauienses com força no debate nacional é restrita. Mas a questão nunca foi a quantidade e sim a qualidade, obviamente.
O longo preâmbulo é só para avisar que quem comprou passagem de avião, comprou, quem não comprou, não compra mais. No dia 11 de março, ocorre a posse do piauiense Joaquim Bezerra na presidência do Conselho Federal de Contabilidade. Não é pouca coisa, afinal, estamos falando de uma das posições mais estratégicas da governança profissional no Brasil, responsável por fiscalizar e representar mais de meio milhão de profissionais da contabilidade, além de editar as que dão credibilidade às informações financeiras e de confiança do mercado.

Pois bem: mesmo que tente ser discreto (mas não consegue, ora!), Joaquim Bezerra está no centro dos atuais debates estruturais de reforma tributária e controle de gastos públicos, sendo um interlocutor privilegiado junto ao Congresso e órgãos reguladores.
Com bom trânsito entre gregos e troianos, Joaquim teve carreira, ainda jovem, com ascensão no Grupo Claudino, no Piauí, e junto ao ex-senador João Vicente Claudino, no PTB. Depois subiu. A coluna avisa: acompanhará seus passos na capital federal.
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A frase para pensar
“Se você esperar à beira do rio por tempo suficiente, os corpos de seus inimigos passarão flutuando”, frase apócrifa, sugerida a Sun Tzu (544 a.C a 496 a.C), general e estrategista chinês.
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Música da semana
Vamos de “Meu caro Amigo” (música de 1976, de Chico Buarque e Francis Hime). Feita ironicamente em formato de carta ao dramaturgo exilado Augusto Boal no período da ditadura, é o relato de alguém que tenta explicar um país confuso a quem está “de fora”. Às vezes basta falar pouco para dizer muito. Espero que o leitor, meu caro amigo, tenha entendido…
“Meu caro amigo, eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra, tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”
- A expressão é atribuída a Garrincha, durante a preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1958. Antes de um jogo contra a Seleção Soviética de Futebol, o técnico explicou detalhadamente o plano tático brasileiro, descrevendo como o time deveria neutralizar os soviéticos. Garrincha perguntou: “Tá certo. Mas já combinaram com os russos?”. Genial. ↩︎





