Votação para diminuir número de deputados do Piauí cria cenário de caos: inflação no preço do voto e bolsa de apostas dos desistentes

Boletim 23/06/25

“Tô pronto pra guerra, mas todo mundo tá em caldo de pinto”, avisa um deputado, ouvido pelo boletim sobre a faca na cabeça dos políticos piauienses no Senado Federal, que precisa decidir até 30 de junho se atualiza (para menos ou para mais) a quantidade de deputados a que cada estado brasileiro tem direito, como determina o STF com base no Censo 2022.

Se manter o que o STF determinou, o Piauí é um dos maiores perdedores nessa equação, diminuindo de 10 para 8 deputados federais e de 30 para 24 estaduais. Para os políticos, ter mandato é vida, não ter, é morte. Salve-se quem puder?

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Quem desiste e quem vende a desistência

Desistências já são contabilizadas caso as cadeiras diminuam de fato. Na turma dos federais, onde o jogo é contado na casa dos dois dígitos de estalecas, ninguém pode desperdiçar tempo ($). “A prioridade é os com mandato. Sem mandato, o Santana (secretário estadual de Trabalho) até deve ser mantido, mas vai sobrar pro G (deputado estadual que pleiteia ser federal) desistir”, analisa um observador do andar de cima, onde os ventos são gelados.

Para o político, que conhece os pares, além dos desistentes, haverá ainda os “vendedores”. De quê? Ora, de desistência! “Uns vão vender desistência, outros vão gastar mais”, resumiu. 

Nomes na Assembleia Legislativa? “O X e o Y (vereadores de Teresina), o Y e o Z (suplentes de deputado do PT, ligados a cidades do interior são os primeiros e o W (suplente da oposição) que vai apoiar o J (candidato, irmão de deputado da base)”, aposta um outro deputado que garante, ele próprio não desiste e já precificou quanto a campanha ficará mais cara: “Uns 25% mais cara, uns R$ 3 milhões a mais”. Faça as contas, leitor, faça as contas…

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Sobrou até pro Severo

Sobrou até para o presidente da Assembleia Legislativa do Piauí, Severo Eulálio (MDB). Mas o que Severo poderia ter feito, se o problema é lá (ou cá) em Brasília? “Não se movimentou do jeito que era pra se movimentar”, criticou um deputado ouvido pela colunista. Como gosta (ou tenta) ser justo, o boletim ouviu um defensor do presidente da Alepi: “Ele fez a parte dele e articulou em Brasília sim, agora o resto não é com ele, ai, ai”.

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E eu com isso?

Apesar de mobilizados (mais ou menos), a cúpula do Governo estadual e os candidatos majoritários para 2026 não estão movendo mundos e fundos por causa da diminuição da bancada do Piauí, o que revela um pouco mais sobre o tipo de jogo que está sendo jogado.

Afinal, não são as cadeiras de senador, governador e vice que estão em xeque, não é? E quanto menos jogadores nessa partida, menos gente para chorar, pedir e pressionar, é ou não é? Me corrijam, por obséquio, se eu estiver errada… (é raro, mas acontece com frequência).

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Mais cadeiras, menos Piauí

Placar de hoje, ouvido de um político forte de Brasília: “Muito dividido. Tá um páreo duro. Se for virtual a votação, a gente acredita que o (Davi) Alcolumbre trabalha pra aprovar (manutenção de vagas para o Piauí). Não será tarefa fácil como tem gente que pensa que é”. É aquilo leitor, quer moleza, senta no pudim… 

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Pesos e medidas

Com 3,3 milhões de habitantes, o Piauí já sofre com desproporção crônica: cada parlamentar piauiense “vale” 415 mil eleitores, enquanto um deputado por Roraima (que tem 652 mil habitantes) representa apenas 81,5 mil pessoas. Moral da história: se perder representação, o Piauí fica ainda mais enfraquecido nas disputas por emendas e políticas federais.

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A matemática da sub-representação 

Há quem argumente que aumentar o número de deputados é um custo a mais para os cofres públicos (o que é verdade), mas ter menos deputados tem consequências reais em Brasília porque os estados com bancadas maiores conseguem mais espaço em comissões estratégicas, mais recursos no Orçamento e maior poder de barganha em votações. A verdade é que aqui na capital federal, São Paulo (70 deputados) e Minas Gerais (50) são blocos quase intocáveis. O Piauí mal consegue formar maioria simples para pautas regionais e olhe lá! 

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Tudo posso naquele que me fortalece

Uma abelhinha xereta, enviada pela coluna ouviu a conversa de dois políticos na “Marcha para Jesus”, que explicava o grau de influência de cada político da base governista no segmento evangélico. O zumbido foi esse: “O eleitorado aqui do segmento é 35% ligado ao coronel Carlos Augusto, 35% do Tiago Vasconcelos e 30% dividido pela maioria dos líderes”, desenhou o interlocutor. O deputado emedebista João Mádison chegou na hora e brincou que tinha seus por cento também, já que possui ligações com a Igreja Batista. 

Se antes o Nordeste era visto como um bloco monolítico de esquerda, hoje é um mosaico de influências e o voto evangélico pode definir eleições apertadas. Sim, o presidente Lula ainda mantém força na região, mas sua margem de vantagem diminuiu justamente em áreas de forte presença pentecostal. Ignorar o que querem politicamente os evangélicos não é uma opção.

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Domine ou seja dominado

Os amadores confundem, mas há três tipos de poder e não apenas um: o poder político (o único que pode recorrer, em última instância, à força, pois tem o monopólio dela); o poder econômico (que se vale da posse de determinados bens, necessários ou percebidos como tais, e escassos, para induzir os que não possuem a adotar uma dada conduta) e o poder ideológico (o que usa informações, certas formas de saber e doutrinas, para exercer influência sobre o comportamento alheio).

Em comum, os três tipos de poder mantém a sociedade dividida entre: fortes e fracos (poder político), ricos e pobres (poder econômico) e sábios e ignorantes (poder ideológico). Em resumo, como disse o filósofo e historiador político italiano Noberto Bobbio, entre inferiores e superiores. Domine um poder ou então, seja dominado. 

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Eles venceram

O voto do ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, favorável à OAB-PI, foi bastante comemorado ontem pelos advogados piauienses porque definiu quem deve ocupar vaga ímpar aberta para desembargador pelo Quinto Constitucional no Tribunal de Justiça do Piauí. 

A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público alegava que a vaga era do MP-PI, a OAB-PI dizia que era dela e, no meio disso, o ex-presidente da Ordem no Piauí, Celso Barros Neto, chegou a aprovar uma lista sêxtupla, votada por conselheiros estaduais, ainda no final do ano passado. Depois de tanto periculum in mora (risco na demora), um pouco de exceção da verdade real e pitadas de princípio da insignificância, o desfecho se desenha? Palpites?

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Para ler, ver e ouvir

Num mundo onde trabalhos essenciais como o de limpeza, são os mais desvalorizados (e os etéreos, como “traders”, exaltados), “Entre dois mundos” (nos cinemas) tem a magistral (o adjetivo não é superlativo, é descritivo) Juliette Binoche no papel de uma escritora que se infiltra como trabalhadora temporária no mercado de subempregos franceses com limpeza de barcos e serviços domésticos. Do diretor Emmanuel Carrère (sim, o excelente escritor também dirige filmes tão bons quanto a literatura que produz), o filme expõe as engrenagens invisíveis da precarização do trabalho. 

Binoche tanto observa como é absorvida por um sistema que reduz seres humanos a “mão de obra descartável”. O filme é permeado de dicotomias: há raiva, mas também solidariedade espontânea; exploração, mas também micro-resistências cotidianas. É denúncia social, da tradição do cinema francês, e questionamento ético, afinal, sempre existirá uma assimetria fundamental entre quem documenta e quem vive a realidade documentada (eu que o diga).

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Se conselho fosse bom

É engraçado o quanto as pessoas estão preocupadas em serem copiadas. Com a Inteligência Artificial, qualquer um pode cuspir um clone seu antes que você boceje após acordar. Não ligue para as cópias, se preocupe em ser ultrapassado. Quando alguém lhe copiar, você já deve estar trabalhando na próxima coisa. Ninguém é melhor em ser você do que você mesmo.

Não vence quem tem o segredo mais bem guardado, vence quem evolui, cria e vive em movimento. Os imitadores ficarão presos à margem enquanto você será o produto padrão. Os outros serão sempre versões suas desatualizadas. Todas as cópias são vazias porque não têm a sua centelha mágica. Ser você mesmo é libertador. Deixe as pessoas copiarem seus últimos movimentos enquanto você faz os próximos dez.

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Cifrada dos Amadores e dos Profissionais

No Reino da Cidadela da Capital muitas coisas misteriosas podem acontecer, inclusive as prestações de contas emitidas com o selo real saírem trocadas e com atrasos (culpa da empresa que gerencia o pombo-correio, claro!). A situação deixou a turma dos sábios das eras antigas chateada. Mas por que mesmo? 

“Não estamos entendendo, parece que desaprenderam…”, lamenta um, que faz parte do reino atual, assim como  fez do reinado anterior dos Ramphastidae. Para o sábio, a culpa é dos novatos, que ganharam espaço e confiança desproporcional às competências. “O X e o Y são ótimos em fazer obras, mas péssimos em orçamento do Tesouro Real. O rei ainda adora bater na gestão do Z (antigo rei, da mesma estirpe dos sábios) e os amigos do falecido Z estão no reinado, tudo calado”. Ihh, gente…

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Foto do dia

Quem saiu em defesa do vice-governador Themístocles Filho (MDB) para permanecer na vaga de vice do governador Rafael Fonteles em 2026 foi o ex-homem forte da gestão Themístocles na Alepi e hoje aliado do deputado Georgiano Neto (PSD), Marco Maia. Mesmo em outro grupo político, o suplente de vereador de Teresina acredita que Themístocles tem sua parcela de contribuição na boa avaliação da gestão Fonteles: 

“Sem contar os 18 anos que passou na Alepi, o que ele fez pelo PT no Piauí, fora do PT, ninguém fez mais do que o Themístocles. Ele tem uma parcela significativa de contribuição para que o PT tenha a força que tem hoje no Piauí. E isso precisa ser reconhecido na hora da composição da chapa”, pontuou Marco Maia ao boletim. A César o que é de César?

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A frase para pensar

“Sr. Bond, existe um ditado em Chicago: ‘Uma vez é acaso. Duas vezes é uma coincidência. A terceira vez é uma ação inimiga”, Auric Goldfinger, em Goldfinger e Ian Fleming.

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Feito à mão

Não dá para não falar da guerra. A charge do dia do Rico de hoje é sobre a escalada do conflito entre Irã e Israel (e Estados Unidos).

Sávia Barreto

Sávia Barreto, jornalista, fundadora e diretora-geral do Boletim Brio. Mestra em Comunicação, pesquisou Análise de Discursos e Eleições na Universidade Federal do Piauí. Cursou Doutorado em Políticas Públicas (Ufpi), estudando desigualdade de gênero. Graduada em Comunicação Social na Universidade Estadual do Piauí. Estudou Ciências Sociais (Ufpi). Tem MBA em Comunicação Política e Sociedade pela ESPM, São Paulo. Integra o grupo de estudos “Estratégia, Dados e Soberania” na UNB e é diretora de Comunicação Estratégica da ONG “Fórum para Tecnologia Estratégica dos Brics”, em Brasília, onde reside. Com 17 anos de experiência em redações do Piauí, trabalhou nos últimos dois anos como comentarista e colunista de política em Brasília. Trabalha com consultoria em branding e gerenciamento de reputação digital na Brio Comunicação Estratégica.
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