A primeira aula do dia é às 05h20. Antes do amanhecer, já tem gente nas academias de musculação buscando mais saúde ou simplesmente na tentativa de “meter o shape”. A última aula do dia encerra às 21h. No meio da rotina, ele realiza o próprio treino, sem desculpas e para dar o exemplo. Enxerga o futuro da profissão como promissor e diz dedicar o mesmo amor ao ofício nos últimos 20 anos.
A Ápice esta falando do treinador de musculação e profissional de Educação Física, Anderson Belfort, de 42 anos, apontado como um dos mais procurados de Teresina na área e com atuação nas academias da zona Leste da capital.

Anderson Belfort afirma ter uma uma clientela fiel, com pessoas que treinam com ele há mais de dez anos. 95% dos seus clientes são mulheres. Hoje, tem também uma equipe. Os assistentes executam os treinos que ele monta na consultoria, que é um dos serviços que oferece, este com preço mais baixo como forma de escalar o atendimento e conseguir atingir outros públicos.
“UM PERSONAL TEM QUE TREINAR”
“O aluno quer atenção. Ele está te pagando, mas ele quer treinar de forma correta, ele quer ser corrigido, quer o cuidado profissional. Outra dica que eu daria é que você tem que usar o serviço que você vende, a imagem inicial é a que fica. Um personal tem que treinar, não precisa ser ‘fortão’, mas tem que ter um corpo atlético e vender uma imagem positiva”, destacou o treinador em entrevista à coluna.
Ele relembra as mudanças no mercado teresinense desde quando começou a trabalhar em 2005.
“Quando eu me formei eu comecei a trabalhar de carteira assinada na Academia Ricardo Paraguaçu. Eu tive o meu primeiro contato com ‘alunos de personal’. Eu tinha 24/25 anos. Nessa época, a academia cobrava 60% do valor que o profissional pagava e os outros 40% eram para o personal. A partir daí veio um boom dos personais e grande maioria já não concordava com essa divisão. Depois, as academias passaram a liberar esse valor e o que o personal cobrasse ficaria só para o personal. E a academia teria o atrativo de ter o personal para ter mais alunos na academia”, frisou Anderson Belfort.
COMO ACONTECE A DISPUTA POR ALUNOS?
O treinador de corrida e nutricionista Rogers Feitosa foi um dos pioneiros a apostar no mercado de endurance no Piauí, quando a corrida de rua ainda era uma promessa para Teresina, mas já demonstrava um crescimento acentuado no número de adeptos no Sul do Brasil. Ele viu nisso uma oportunidade e passou a convidar seus alunos de musculação para conhecerem a modalidade. Com humor, ele narrou experiências de disputa aos alunos que fazem parte da sua assessoria.
“Essa questão da disputa por aluno é um problema engraçado, mas com certeza tem, com certeza. Eu escuto isso de atletas. Eu nunca fui atrás de alguém que já treina com outro atleta, de oferecer algo para ele ou algo assim. A situação mais inusitada que eu já passei por isso, inclusive, foi de ter uma atleta meu me abordando num dia de treinamento dizendo que um ex-estagiário recém-formado que trabalhava comigo, havia criado a própria assessoria. Eu tive vários, inclusive, em Teresina. Várias assessorias em Teresina são de pessoas, estagiários ou profissionais que trabalhavam comigo ou de atletas que eu treinei e que foram cursar Educação Física e depois abriram assessoria”, contou.
A concorrência é tão intensa que, segundo ele, alguns personal trainers chegam a oferecer descontos ou preços mais baixos para atrair alunos que já treinam com outro profissional.
“Um deles [clientes] chegou dizendo, ‘ó, o fulano está oferecendo desconto para quem treina contigo e ir pra lá treinar com eles’. E eu fiquei assim, ‘caraca, sério, que doido’. Eu sempre ficava dando risada dessas coisas”, mencionou o treinador à Ápice.

A situação também foi confirmada por Anderson Belfort, sob a ótica das academias de musculação.
“Existe uma concorrência acirrada entre os personais. Têm muitos profissionais experientes e também têm uma leva de profissionais que estão saindo dos cursos de graduação. Isso se torna um pouco desafiador. A falta de qualificação, de especialização, dos profissionais também é algo que dificulta o cenário do mercado. Muitos não estão devidamente qualificados para fazer um bom atendimento. E tem também a dificuldade de manter os clientes”, avaliou o treinador.
O QUE FAZ UM BOM PERSONAL?
O entendimento sobre o comportamento humano, a comunicação interpessoal, a criação de conexão com os alunos, a humanidade na compreensão das diferentes realidades enfrentadas fora da academia, são apontadas como a liga que forma uma relação duradoura entre professor e aluno.
“Antes eu errava muito como personal porque eu ficava muito chateado quando o aluno atrasava, quando o aluno desmarcava o treino, ou alguma coisa do tipo. E eu fui percebendo que cada um tem seus problemas e suas dificuldades. Então, hoje, quando o aluno chega na academia você tem que procurar saber como ele está, como foi o final de semana dele, se ele bebeu, se ele não bebe, se está emocionalmente bem, até para você fazer alguma alteração no treino no decorrer do dia. É ter o conhecimento técnico, mas se preocupar com a pessoa, com o ser humano”, opinou Anderson Belfort.
“PERFEIÇÃO DE INSTAGRAM”
Rogers Feitosa defende a relação de honestidade com os alunos. Ele aponta que o treinador é sim, aquele que sabe passar as coordenadas e planejar a metodologia aplicada, mas aponta que é necessário se a ter a vida real de cada um e a deixar de lado as “perfeições de Instagram”.
“Uma coisa que pouca gente sabe, mas que é muito comum entre professores do ramo seria, eu acho que as pessoas, elas veem a maioria dos professores, treinadores de corrida, que são muito focados, são muito assíduos, que não quebram [param de correr antes do momento previsto na planilha] no treino, que fazem tudo certinho, igual o que está planejado. E não é bem assim, não, né? A gente é gente como a gente”.
“A gente é ser humano, a gente tem os mesmos problemas que os nossos atletas passam relacionados à rotina, trabalho, família, saúde. Então, essa perfeição, às vezes, de Instagram, mesmo com os treinadores de corrida, treinando também, participando de provas, ela não é 100% assim. Tem muita coisa normal que é normal para todo mundo e que é dificuldade para todo mundo também”, revelou Rogers Feitosa.
ESPECIALISTAS EM PÚBLICO FEMININO
A profissional de Educação Física, Kauan Moura, realiza o atendimento para alunos em academias numa média de 10h a 12h por dia de segunda-feira a sexta-feira, em Teresina. A paixão pela área surgiu com o desejo de dominar as técnicas de musculação e metodologia para ajudar no próprio desenvolvimento físico. Ela contou que “era muito magra” e sofria bullying. A partir disso, buscou ajudar outras pessoas a ter qualidade de vida através do exercício físico.

“Hoje em dia 90% do meu publico é feminino, porém atendo o sexo masculino com o mesmo vigor e competência. Assim como qualquer outra área existe sim algumas divergências por parte de alguns profissionais e falta de ética. Porém nunca tive nenhuma situação atípica, mas já vivenciei experiências de situações de outras profissionais. Em média com aulas presenciais acima de 10 mil reais [um profissional experiente consegue ganhar no Piauí hoje], podendo aumentar seu faturamento trabalhando de forma online, através de consultoria. O mercado para o profissional de Educação física é promissor, com o crescimento da conscientização da importância de cuidar da saúde física e mental”, avaliou Kauan Moura.
“AS MULHERES NÃO VÃO DISCUTIR MINHA AUTORIDADE”
Já para a professora Tcherly Araújo, o atendimento especializado para o público feminino se diferencia no desenvolvimento de habilidades de forma mais individualizada.
“As mulheres são mais compreensivas no sentido que elas não vão cogitar ou discutir minha autoridade como personal, se eu pedir para fazer algo, dificilmente elas não farão, fora o respeito, a didática e a compreensão em períodos específicos do mês como ciclo menstrual que interfere diretamente no modo de atendimento. Hoje, eu trabalho muito a minha imagem para expandir a procura pelo meu trabalho, mas 90% delas foram indicação delas mesmas, o famoso boca a boca”, citou.

Segundo ela, uma das principais dificuldades está na desvalorização da hora/aula, o que atrapalha o crescimento. “Têm alguns [personais trainers] ganhando muito bem, R$20 mil, R$25 mil no mês ou talvez até mais, porém foi uma construção de imagem muito bem feita para conseguir isso. Somos muito desvalorizados, não somos ‘essenciais’ o que torna o mercado frágil e volátil”, apontou Tcherly Araújo.
TEM MUITO ESTAGIÁRIO?
O presidente do Conselho Regional de Educação Física do Piauí (CREF), Danys Queiroz, relata que existe uma dificuldade em contratar profissionais para academias de musculação em Teresina, o que faz aumentar a busca por estagiários. Um dos trabalhos do CREF é fiscalizar e impedir que estagiários realizem trabalhos como profissionais, já que a denúncia mais comum que recebem no estado está relacionada ao exercício ilegal da profissão.
“O piso salário é R$1.719,11 [para 44 horas semanais], pouco mais que o salário mínimo. E com isso, tem um grande probleminha em relação a personais. Como o salário é muito baixo, a maioria dos profissionais não querem trabalhar nas academias. Então, está uma grande dificuldade de contrato para profissional no mercado. Se eu pego quatro personais cobrando R$600, eu trabalho duas horas por dia, três horas por dia e vou ganhar mais do que um professor que trabalha oito horas. Bem mais fácil. Há a busca de estagiário para poder suprir, só que o estagiário não pode trabalhar substituindo profissional”, revelou Danys Queiroz.

Outra realidade frequente é relacionada a desportistas que querem dar aulas do esporte que praticam. “Nós temos pessoas querendo trabalhar sem registro, aí aumenta o trabalho da fiscalização, porque as pessoas se acham no direito. Exemplo: quem foi jogador, do que esporte for, sem ser profissional da área; quem sabe fazer, acha que sabe ensinar. É a única área que a pessoa que se acha no direito de ensinar porque sabe fazer. Eu sei escrever e ler, mas eu não sei ensinar a escrever e ler. Então esse é o nosso maior desafio, a pessoa tem que se qualificar para que possa ensinar”, pontuou o presidente do CREF.
“OS QUERIDINHOS”: OS CINCO TREINADORES MAIS DISPUTADOS DO PIAUÍ (segundo fontes ouvidas pelo Boletim Brio)
Anderson Belfort
Francisco Filho
Bruno Morais
Alex Douglas
Kauan Moura
TEM FUTURO?
O CREF informou à coluna que, no Piauí, houve um crescimento de 28% no número de academias nos últimos dois anos. “O estado saiu de 936 academias registradas para 1196. Já passamos para quase 1230 academias, só este ano, mais 30 academias. Então cada dia que passa, também temos academias ofertando mais qualidade à população, porque a população. Eu fico por um lado otimista porque eu vejo cada dia mais a população buscando atividade física com orientação”, reportou Danys Queiroz.
Com o crescimento da percepção de importância relacionada à saúde, que ocorreu no país, após a pandemia da Covid-19, nota-se novas configurações de serviços oferecidos pelos profissionais de Educação Física. Hoje, aqui no estado, existe um público mais inclinado à prática esportiva e que tenta manter uma constância de treinos, de acordo com os profissionais ouvidos pela coluna.
Em meio a esse crescimento, também há uma realidade de piso salarial visto como insatisfatório por muitos professores, o que gera desânimo principalmente em quem está começando na área. Um profissional, ouvido pela coluna e que pediu sigilo, avaliou: “Um personal tem piso salarial muito abaixo para uma área tão atuante nos dias de hoje. Se você parar pra pensar, um atendente telemarketing chega a ganhar mais em caso de metas batidas. Não estou desmerecendo os telemarketing, apenas usando como exemplo uma área que não precisa de formação para poder atuar”, citou.
Para vencer essas barreiras, o conselho dos mais experientes é buscar qualificação, ter um diferencial no atendimento e confiar no fator “tempo”. “Hoje se o personal quer trabalhar e ele faz o básico que é respeitar horário, ter comprometimento, ser profissional, não faltar, fazer tudo de forma transparente com o aluno e dar o resultado, porque independente de qualquer coisa, você tem que dar o resultado para o aluno, ele consegue ganhar muito bem. Hoje, em média, qualquer profissional que começa na área e faz o básico, ele já ganha no mínimo de R$5mil a R$10mil. Hoje, temos profissionais aqui no mercado que chegam a ganhar de R$20 mil a R$40 mil por mês. Ganham bem mais do que quem faz concurso”, concluiu Anderson Belfort.






1 comentário
Igo Monteiro
👏👏👏