Adentrar os portais da pós-graduação no Piauí, seja para um mestrado ou doutorado, é uma jornada que demanda estratégia, resiliência e, por que não, um toque de astúcia acadêmica (dizem os especialistas). A aprovação nesses programas exige a compreensão das nuances do cenário universitário local. Quais caminhos para passar em um mestrado ou doutorado por aqui? Convidamos, para esta edição da coluna, vozes experientes que desvelam pistas dessa empreitada.
As principais instituições de ensino superior do estado, como a Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e a Universidade Federal do Delta do Parnaíba (UFDPAR), mantêm uma oferta contínua de programas de pós-graduação stricto sensu (Mestrado e Doutorado). Os editais costumam ser abertos no segundo semestre, assim como no restante do país.
Tudo começa pelo mindset
Para a professora doutora em Ciência Política, docente da Universidade Federal do Piauí (UFPI), vinculada ao mestrado em Ciência Política e doutorado em Políticas Públicas, Olívia Perez, o primeiro passo é a mentalidade. Nem todo mundo que mira as pós-graduações estudou nas melhores escolas ou cresceu sendo validado como “inteligente”, mas segundo ela, nada disso é determinante para seguir a carreira acadêmica.

“A primeira dica é não achar que é um negócio impossível ou que não é para você. O mestrado e o doutorado devem ser para todas as pessoas. É possível chegar até lá. Mesmo que você não tenha estudado em uma escola considerada excelente, como foi o meu caso. A universidade precisa ser um espaço inclusivo. O acesso ao conhecimento científico não deve ficar restrito a poucos”, defende cientista social e política.
Ser aluno especial vale a pena?
Concluir uma disciplina do programa de pós-graduação antes mesmo de ser aprovado. De forma simplificada, é isso que significa ser um aluno especial. Não é pré-requisito para aprovação, mas é a aposta de muitos para encurtar caminhos entre o desejo de ingressar no programa e a vida acadêmica. O mesmo vale para os grupos de pesquisa que costumam ter acesso facilitado para interessados e permitem um aprofundamento nas vivencias de um pesquisador.
“Outra dica é assistir aula como aluno especial ou ouvinte. Muitos programas permitem cursar uma disciplina dessa forma. Vale escolher um professor cujo trabalho te interesse. Isso ajuda a se familiarizar com o ambiente da pós-graduação. Também permite conhecer colegas e compreender melhor o funcionamento do programa. Eu sempre acredito em redes e projetos. Trabalhos coletivos e colaborativos são importantes na vida acadêmica. Eles ampliam trocas e permitem aprender com outras trajetórias. Uma forma de fazer isso é se vincular a um grupo de pesquisa coordenado por um professor. Assim você acompanha discussões e atividades. Também passa a ter mais contato com temas do campo de estudo, pontuou Olívia Perez.
Não basta participar, tem que publicar
Dheiky Rocha, professor da Universidade Estadual do Piauí, mestre em Letras e doutor em Linguagem e Ensino, alerta para a necessidade iniciar as produções científicas previamente, para que dentro de um processo de seleção o candidato se mostre preparado e com repertório.

“Antes de concorrer a uma vaga, o candidato necessita cumprir algumas atividades acadêmicas para, justamente, enriquecer o seu currículo, como apresentar trabalhos em eventos científicos, publicar artigos e capítulos de livros, dentre outras atividades que são apontadas lá no próprio edital do seletivo. Isso é para que o candidato tenha mais chances de ser melhor classificado no processo seletivo, porque existe a etapa da prova de títulos”, explicou o professor da Uespi.
Projeto de pesquisa: como fazer
Ainda que nem todos os programas de pós-graduação no Piauí exijam prova escrita no processo seletivo, o projeto de pesquisa é um requisito obrigatório. É a partir dele que se delineia toda a investigação que será desenvolvida ao longo dos anos de mestrado ou doutorado. Por isso, aspectos como afinidade do candidato com o tema proposto, a aderência à linha de pesquisa do professor orientador e a clareza de seus próprios pontos de vista tornam-se elementos que merecem atenção para a construção de um projeto consistente e competitivo no processo de seleção.
“Por fim vem o projeto de pesquisa. É importante que ele tenha relação com o campo de pesquisa do professor. Isso facilita o diálogo acadêmico. Ao mesmo tempo o projeto precisa trazer algo próprio. A experiência de vida de cada pessoa pode contribuir para propor abordagens e explicações originais”, citou Olivia Perez ao Boletim Brio.
Estratégia na escolha do tema
É fundamental que o tema escolhido tenha relevância social. Isso porque a maior parte dos programas de pós-graduação está inserida em instituições públicas, mantidas com recursos públicos, o que pressupõe que o conhecimento produzido retorne, de alguma forma, em benefícios para a sociedade. Também é importante compreender que o projeto inicial tende a passar por mudanças ao longo do percurso acadêmico. A pesquisa é um processo de construção, e muitas vezes o projeto final acaba se diferenciando da ideia original.
“Eu diria que o candidato necessita realizar a sua inscrição em uma instituição de ensino que ofereça um curso que possua uma linha de pesquisa que atenda, que acolha o seu pré-projeto de pesquisa. Porque, antes de tudo, é o seu interesse em pesquisar que será a chave, digamos assim, para abrir essa porta, que é relativamente disputada hoje no Brasil. O pré-projeto deve propor um estudo que seja relevante ao debate contemporâneo. E, como uma terceira e última dica, eu digo que o candidato a aluno de pós-graduação precisa estar aberto a afinar, a adaptar o seu pré-projeto aos temas de interesse de pesquisa do seu pretenso orientador”, definiu Dheiky Rocha.
Conheça os professores
Para Vitor Sandes, atual diretor do Centro de Ciências Humanas e Letras da Universidade Federal do Piauí (CCHL/UFPI), professor associado da UFPI, lotado na Coordenação do Curso de Bacharelado em Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), as afinidades entre orientando e possível orientador precisam ser consideradas.

“Conheça os editais anteriores, as linhas de pesquisa do programa e os currículos dos professores. Saiba quais são os principais projetos desenvolvidos no programa e os principais trabalhos em desenvolvimento e publicados pelos professores. Assim você saberá que tipo de projeto você poderá desenvolver, direcionando-o para linha e para o possivel orientador/a”, declarou Vitor Sandes.
O que mais considerar no edital
A prova de títulos costuma ocorrer nas etapas finais do processo seletivo, e por isso muitos candidatos acabam não se atentando ao peso que ela realmente possui, especialmente em situações de desempate. Os editais geralmente estabelecem critérios que consideram formação acadêmica, participação em eventos, publicações e outras produções científicas para o ingresso nos programas de pós-graduação. No entanto, para se destacar acima da média, é importante ter atenção aos detalhes. É o que orienta o professor Diógenes Buenos Aires, Doutor em Letras. Professor da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), ele atua no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL). É professor convidado do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGEL/UFPI).
“É importante que o projeto que ele apresente esteja alinhado não só com a linha de pesquisa do programa, mas também com o que o orientador vem desenvolvendo em termos de pesquisa e orientação. Além disso, é importante estar atento à bibliografia do edital. Se você ainda não fez a seleção, veja o edital anterior, observe a bibliografia e como é a prova, porque isso dá um norte na hora de se preparar. Também é necessário ter atenção ao currículo, porque hoje, em termos de etapas, nós temos primeiro a prova escrita; depois, a nota do projeto; em seguida, a nota da entrevista; e, por último, o currículo. Na verdade, temos uma situação em que as notas nessas etapas anteriores costumam ser muito parecidas entre os candidatos, e a definição da colocação final da vaga também passa pelo currículo”, analisou Diógenes Buenos Aires.

Especialistas também destacam que a preparação para ingressar em um programa de pós-graduação pode começar ainda durante a graduação. Nesse período, é recomendável que o estudante participe de programas de iniciação científica, monitorias e outras atividades acadêmicas que contribuam para a formação do currículo. Para aqueles que já concluíram o curso e não tiveram essas oportunidades, uma alternativa é investir em especializações, além de apresentar trabalhos em eventos científicos e buscar a publicação de artigos. Essas experiências acadêmicas contam pontos na avaliação e podem influenciar diretamente a posição final do candidato no processo seletivo.
Uma dica extra
“Não deixe para a última hora. Um bom projeto de pesquisa depende de tempo para ser desenvolvido. Leia, conheça a fundo os principais trabalhos que tratam do assunto que você pretende estudar, converse com outros pesquisadores mais experientes que estudam o tema e revise bem seu projeto antes de submetê-lo ao processo seletivo. Seleção de mestrado e doutorado ocorre todos os anos e em vários programas e instituições. Não desista, caso não venha a ser aprovado de primeira. Tente entender as razões da não aprovação e aprimore os pontos que podem ser melhorados”, aconselhou o professor doutor Vitor Sandes.
Um livro indispensável
Com o objetivo de desmistificar o caminho para a pós-graduação, o jornalista piauiense e professor Orlando Maurício de Carvalho Berti apresenta em seu livro “Como Passar em um Mestrado?: Um guia para você compreender, fazer e passar nas seleções de Mestrado no Brasil (e até fora dele)”. A obra se destaca por oferecer um panorama completo do que é um mestrado, desde a compreensão de suas nuances até as táticas eficazes para navegar pelos rigorosos processos seletivos. Orlando, com sua grande experiência como professor, pesquisador e escritor com expertise em Comunicação, traz sua vasta vivência acadêmica em um guia prático, com um pouco de história pessoal e muita técnica, tornando-o um aliado indispensável para quem almeja a aprovação e o sucesso na jornada acadêmica superior.






