Motorista Gregório, Maria Rosa e finada Sérgia: injustiças, violências e pobreza no Piauí refletem histórias de santos populares e esperança através da fé

Maria do Amparo, dona de casa, criou sozinha dois filhos em Piracuruca, no Norte do Piauí. Segundo ela, a rotina é puxada, dividida entre o cuidado com a família e a ajuda a uma vizinha idosa, de quem, em troca, recebe alimentos, como carne, para o dia a dia. Recentemente, após uma queda, passou a conviver com uma dor persistente no braço. Procurou atendimento médico mais de uma vez, mas saiu dos consultórios sem um diagnóstico preciso da origem do incomodo. Diante da incerteza e da dor que não passa, recorreu ao que sempre lhe ofereceu algum alívio, a fé.

“Eu me peguei com Maria Rosa”, contou à Todavia. A devoção surgiu por indicação de amigos e, segundo ela, algumas graças já teriam sido alcançadas por meio das orações. “Fez muito bem”, descreveu. Sem muitas fotografias, Maria Aparecida enviou à coluna a imagem de sua carteira de identidade, um retrato simples, que traduz também a ausência de registros de uma vida atravessada por dificuldades.

Maria do Amparo (Foto enviada ao boletim)

A história dela é uma entre tantas pessoas, no Piauí e em outras regiões do país, que encontram na fé um caminho possível quando faltam respostas da ciência ou condições materiais, financeiras ou emocionais para enfrentar adversidades. É sobre esse universo que a reportagem se debruça: a chamada Piedade Popular, um fenômeno transmitido de geração em geração, marcado por narrativas de devoção a figuras que não foram canonizadas pela Igreja Católica, mas que conquistaram seguidores pela força de suas histórias.

Entre essas figuras está Maria Rosa, a quem Maria Aparecida atribui esperança e consolo. Longe de bater o martelo sobre o que é verdadeiro ou não, certo ou errado o Boletim Brio buscou compreender neste texto como a fé popular ilustra bem a história, as tradições e as próprias condições sociais do Piauí.

Maria Rosa: agredida e deixada para morrer pelo marido no Piauí

Misael Rodrigues, que estuda História na Universidade Federal do Piauí (UFPI), é devoto de Maria Rosa e fundador do grupo “Devotos de Maria Rosa”. À reportagem, ele narrou a trajetória da personagem que, mesmo sem canonização oficial da Igreja, mobiliza fiéis no Norte do Piauí.

De acordo com Misael, a história de Maria Rosa atravessa gerações pela oralidade. Ela seria uma mulher natural de Cocal, descrita como muito bonita, casada com um homem rico e de muitas posses. Segundo os relatos, esse homem teria chegado a matar uma pessoa escravizada por acreditar que ele estaria interessado pela esposa e, tomado por raiva, planejou também a morte de Maria Rosa, durante uma viagem onde ela encontraria com os pais. A narrativa aponta que ela foi violentamente agredida e enterrada por funcionários do marido, ainda com vida, em uma cova rasa, o que reforça, para os fiéis, a ideia de martírio.

Mais tarde, ela foi encontrada pelo pai, em seus últimos suspiros. Do lado de fora da terra, parte do punho, sua mão e uma imagem de Santo Antônio. “Nas tradições, muitas pessoas acreditam que quem anda com uma imagem de Santo Antônio não morre até ser encontrado”, disse Misael. Quando o familiar, o recolheu o santo do corpo, ela finalmente partiu. A história se espalhou e com isso, desde então, as pessoas vem fazendo promessas e romarias até o local onde se diz que ela foi encontrada.

Ilustração atribuída a imagem de Maria Rosa (Foto: reprodução/ Canal Hebert Frota)

Centro de devoção e romarias, santa popular do Piauí ganhou capela

Capela dedicada a Maria Rosa no interior de Piracuruca (Foto: reprodução/ Índio Apache)

Hoje, a cerca de 43 quilômetros do centro de Piracuruca, na comunidade Cajazeiras, está o local onde, segundo a tradição, teria sido enterrada Maria Rosa. O espaço, que antes era apenas um ponto de passagem, transformou-se ao longo do tempo em um lugar de fé, ganhou uma capela e se tornou destino de peregrinação, especialmente no mês de novembro, quando recebe visitantes de diversas cidades. Ali, os devotos deixam garrafas de água, flores e outros objetos como forma de agradecimento ou pedidos de graça, acreditando que naquele solo repousa o corpo da chamada “alma milagrosa”. A prática é um dos elementos mais visíveis da devoção.

“Foi crescendo entre o povo da região essa fé na alma de Maria Rosa. Pessoas que passavam por lá começaram a pedir intercessão, e muitos dizem que alcançaram graças. Hoje, você vê testemunhos, objetos deixados, gente que vai pagar promessa… É uma devoção que nasceu do povo e foi se espalhando”, relatou Misael.

Partes do corpo talhadas na madeira são deixadas na capela em pedido ou agradecimento de graças (Foto: reprodução)

Finada Sérgia: mãe que morreu de sede na mata também recebe devoção de fieis

A história de Maria Rosa não é a única na região. A conhecida finada Sérgia, uma mãe viúva, que viveu em meados de 1877, também mobiliza devoção popular na comunidade Jacaraí, também no Norte do estado. Segundo os relatos, ela era uma mãe que, em meio à escassez de alimentos no sertão nordestino, saiu com a filha pequena para caçar pequi, fruta bastante comum no interior. As duas se perderam na mata fechada. A criança conseguiu encontrar o caminho de volta, mas Sérgia não. Sozinha, passou dias sem água, chegando a colocar capim na boca para tentar umedecer os lábios. Após sua morte, o corpo foi encontrado posteriormente, e o local onde está enterrada também passou a receber visitas.

Hoje, fiéis deixam garrafas de água, flores e objetos, em reconhecimento ao sofrimento que ela enfrentou.

Túmulo onde se afirma que Sergia está enterrada (Foto: reprodução/ canal Piauí de Fé)

“Piedade Popular”: a fé que cria-se e vem do povo

A devoção as histórias de figuras como Maria Rosa e Sérgia se insere no que estudiosos e fiéis chamam de piedade popular, manifestações de fé que surgem fora das estruturas formais da Igreja, mas que dialogam com a religiosidade católica. Para Misael, que se dedica e estuda sobre o tema, os “santos populares” foram passando de geração para geração, através da oralidade, em períodos e regiões, onde não havia uma presença constante de padres ou sedes da igreja.

“Essa tradição da piedade popular é muito forte no Nordeste. Numa época em que não tinha tantos padres, foi o próprio povo que manteve a fé católica, com oratórios nas casas, novenas, procissões. No caso de Maria Rosa, é uma devoção que existe, tem muitos fiéis, mas ela não é canonizada. A Igreja não proíbe que as pessoas tenham devoção, mas também não reconhece oficialmente, porque não existe documentação. Não se tem data de nascimento, de morte, nem provas concretas. Algumas pessoas mais antigas dizem até que o local do túmulo pode nem ser exatamente onde hoje está a capela. Para um processo de canonização, a Igreja exige um levantamento rigoroso, documentos, investigação, e isso não existe no caso dela. Mesmo assim, a história foi sendo passada de geração em geração, de forma oral, e se tornou forte”, pontuou.

Misael Rodrigues fundou grupo de devotos de Maria Rosa (Foto: reprodução)

Uma história de injustiça que marca gerações em Teresina: motorista Gregório

Diversas histórias de mártires são consideradas milagrosas por fiéis no Piauí. Em Teresina, uma das figuras mais conhecidas é o motorista Gregório, que tem inclusive um monumento em sua homenagem na Avenida Marechal Castelo Branco. Sobre a história dele, a Todavia conversou com o diretor de cinema Thiago Furtado, que produziu o documentário “Água para Gregório”.

Recorte de jornal mostra episódio que aconteceu em Teresina (Foto: reprodução/ TV Clube)

Gregório era um motorista pobre que vivia no Piauí. Segundo relatos, ele foi preso após atropelar, de forma involuntária, o filho do tenente Florentino Cardoso. Em vez de um procedimento legal regular, a prisão ocorreu de maneira arbitrária, motivada pelo envolvimento pessoal da autoridade no caso, o que acabou desencadeando uma sequência de abusos que marcaram profundamente a história e deram origem à devoção popular em torno de Gregório. A brutalidade do caso mobilizou a população da época e, desde então, sua história passou a ser associada a milagres, especialmente ligados à proteção de motoristas e à fertilidade, dando origem a uma forte devoção popular que atravessa gerações.

Apesar de muitos relatos populares apontarem que Gregório teria morrido de sede, Thiago Furtado afirmou que a pesquisa histórica indica outra versão. “As pessoas falam popularmente que ele morreu de sede, mas isso é provado. Historicamente ele não morreu de sede. Ele morreu por tiros que foram dados na cabeça dele. Então ele ficou com muita sede, ele morreu com sede. Ele não morreu de sede”, explicou.

Faz parte da tradição, sobretudo, durante o Dia de Finados, que as pessoas levem garrafas de águas ao monumento que o faz homenagem.

Monumento dedicado para Gregório na Avenida Marechal (Foto: reprodução)

O motorista Gregório era um homem negro, afirma diretor de documentário

Representação mostra Gregório (Reprodução: Eduardo Crispim/ Madre Filmes)

A representação de Gregório também é alvo de debate. Em muitas imagens populares, ele aparece como um homem branco, o que contrasta com os achados da pesquisa realizada por Thiago Furtado. Segundo o diretor, há indícios históricos de que Gregório era um homem negro.

“Nas pesquisas, nas poucas fotos que tem, a gente percebe que ele era uma pessoa negra. E a primeira representação feita sobre a história do Gregório, que foi uma peça de teatro, ela tem também um ator negro, então é por isso que se tem a certeza de que ele era uma pessoa negra”, afirmou.

Há mais de uma década, existe um movimento para a beatificação do motorista Gregório, com a reunião de documentos e relatos históricos que possam sustentar o processo. Em Teresina, diversas pessoas relatam graças alcançadas ao pedir sua intercessão. A reportagem procurou a Arquidiocese para saber como anda o processo, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Thiago Furtado (Foto: Jonathan Dourado/ reprodução)

Devoções são reivindicadas pela população, afirma arqueólogo

No Piauí e em outras regiões do Nordeste, a força das devoções a santos populares está diretamente ligada à forma como a fé se enraizou no cotidiano das pessoas. Para o arqueólogo e mestre em Arqueologia pela UFPI, Lucas Sampaio, essa conexão ajuda a explicar por que a ideia de santidade encontra terreno fértil por aqui.

“As manifestações religiosas populares, aqui tratamos, ligadas ao Catolicismo, tem elementos de continuidade, como ritos, eleição de símbolos e desdobramentos de sua fé, cuja origem se dá por meio dos seus modos de vida, e essas características próprias que utilizam elementos como espaço da cidade e das ruas, apropriando-se e modificando a devoção dos sujeitos. Então, com a santificação, não seria diferente”, explicou.

Mais do que acreditar, o povo constrói essa fé com as próprias mãos e isso diz muito sobre como ela funciona na prática. Nessas histórias, o sagrado não está só nos altares, mas nas experiências de quem vive, sofre, espera e ressignifica.

“As devoções populares reverberam sobre as comunidades nas quais elas existem porque são descobertas, construídas, e reivindicadas por essa população consciente. A fé instaura ações, tradição, e sentido na vida das pessoas, e com o caminhar das mudanças do mundo, o que é pertinente acaba se tornando sustentado pela necessidade e por reafirmar identidades”, refletiu.

Arqueólogo Lucas Sampaio (Foto: reprodução)

Santos canônicos e santos populares: qual é a diferença, afinal?

Mesmo surgindo fora das regras oficiais, essas práticas não necessariamente entram em choque com a Igreja, na avaliação do arqueólogo, e, em certa medida, até ajudam a mantê-la viva. “Sem querer parecer polêmico, ao longo da minha pesquisa e todas as diferentes camadas que podem ser observadas a partir disso. A minha visão é de que a Igreja não tem nada a perder, com agentes religiosos que trabalham a favor dela, mesmo que operem sob uma lógica autônoma”, diz.

Quando se olha para os chamados santos oficiais, canonizados, há regras, etapas, critérios e um controle institucional bem definido. “Os santos oficiais estão sujeitos a regras, condições e talvez em certo grau, uma sistematização institucional. Ao longo da história eles tiveram um papel agregador, difusor e político para a Igreja Católica. E as regras para a Canonização existem para estabelecer precedentes que devem ser seguidos com muito critério, para que a prática da fé e a devoção não aconteçam fora do controle eclesiástico”, explicou.

Já os santos populares escapam desse roteiro: “Contudo, os santos ‘não-oficiais’ subvertem a ótica de todos os trâmites que seus ‘colegas’ estão sujeitos. Eles surgem em contextos, muitas vezes subalternizados, com ritos, aspectos de religiosidades transformadas em denúncia e sobrevivência por grupos e comunidades que ignoram as regras oficializadoras, e não buscam aprovação, repletas de ressignificações, hibridismos e voltadas para as demandas próprias”, concluiu.

Às vezes, precisamos mais do que a razão pode dar: histórias de santos populares trazem esperança

Na busca por entender o que são os santos populares do Piauí ou, como também são chamadas, as almas milagrosas de finados, a coluna encontrou histórias que são apenas um recorte entre tantas outras possíveis, mas que mostram um padrão que atravessa gerações. São narrativas marcadas por violência, injustiça, questões raciais, violência de gênero, pobreza e pela luta constante para sobreviver à escassez. Não é um mero acaso parte das histórias dos santos populares estarem relacionada a morte por sede em um sertão que vive a falta de água em muitas regiões.

São histórias de pessoas comuns que, alegóricas ou não, em vida, enfrentaram abusos de poder e situações extremas. Nesse contexto, é possível perceber como muitas pessoas, especialmente as mais vulneráveis, se veem refletidas nelas. Ao reconhecer nesses mártires experiências semelhantes às suas, encontram também uma forma de consolo, a ideia de que é possível suportar, resistir ou, ao menos, não estar sozinho diante da dor. Quando a vida se torna dura demais e não há respostas nas estruturas formais, a religião ocupa esse espaço, independentemente da crença, o ser humano parece precisar desse espaço para agarra-se.

E, nesse caminho, figuras como Maria Rosa, Sérgia e o motorista Gregório passam a representar uma ponte mais próxima entre o sofrimento humano e a esperança. São vistos como aqueles que viveram a mesma realidade e, por isso, podem interceder. Nos túmulos, nas capelas, nos objetos deixados, garrafas de água, flores, objetos, está também um retrato da realidade social do Piauí, da dor, da fé e da tentativa contínua de transformar o dia a dia com esperança.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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