Na época da Semana Santa, muita gente que conviveu com uma família católica já teve a experiência de ver os pais ou avós vestindo apenas uma determinada cor, abstendo-se de comer carne e até de pentear os cabelos no período da quaresma, em nome de uma penitência, seja por uma semana ou alguns seguindo rigidamente os 40 dias que Jesus passou no deserto, segundo conta a Bíblia. Atualmente, muitos jovens mantém essas tradições, mas as penitências já não são exatamente as mesmas. Afinal, aquilo que era visto como lazer, passatempo ou luxo entre as gerações também mudou. Hoje, há quem se abstenha do celular, das redes sociais, do açúcar, das compras por impulso ou até do consumo de nichos de conteúdos, como perfis de fofoca. Mudam os objetos da renúncia, mas a lógica do ritual permanece, ainda é a necessidade de marcar um tempo diferente do tempo comum, de impor limites a si mesmo e de buscar, por meio da tradição, algum tipo de sentido para uma mudança interna.
No Piauí, o estado mais católico do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem inúmeras tradições, sobretudo durante a Semana Santa. Entre elas, está a Procissão de Bom Jesus dos Passos, em Oeiras, caminhada que reúne milhares de fiéis. Não apenas do município, nem só do estado, mas de outras regiões do país também, que se deslocam especificamente para viver esse momento de fé. Por iniciativa da Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi), com sanção do Governo do Estado, a procissão foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Piauí. Isso significa, na prática, que ela deixou de ser vista apenas como uma manifestação religiosa local para ser oficialmente reconhecida como parte da memória, da identidade e da herança coletiva do povo piauiense. Assim como tantas tradições desse período do ano, a procissão preserva seus símbolos centrais (o roxo da Quaresma, o silêncio, a dor, as promessas, a caminhada, o encontro entre mãe e filho), mas continua atual porque ainda responde a uma necessidade humana muito presente, constante em gerações, que é a de viver em comunidade e experimentar emoções, pertencimento e conexão com algo maior do que si mesmo.
Os rituais cumprem uma função social, organizam o tempo, dão forma à dor, criam memória coletiva e reforçam vínculos entre as pessoas. Em um cotidiano cada vez mais acelerado, fragmentado e individualista, esses momentos de suspensão ganham ainda mais valor. Assim, pode ser que os mais jovens praticantes da fé não percorram quilômetros descalços para cumprir uma promessa e coloquem no lugar disso não usar o celular. Mas, mesmo assim o
ritual, nesse sentido, permanece sendo uma tecnologia social de permanência, vínculo e significado.
No Brasil de hoje, ansioso, hiperconectado, desigual e emocionalmente exausto, a religiosidade se reorganizou. A fé parece se adaptar para continuar dizendo algo ao presente. E esse presente é marcado, como aponta o filósofo Byung-Chul Han, por uma sociedade do cansaço, em que o excesso de estímulos, desempenho, exposição e autocobrança produz sujeitos fatigados, dispersos e permanentemente sobrecarregados. É por isso a Semana Santa continua tão (e às vezes até mais) necessária para muitos. Porque ela propõe pausa. Em meio ao esgotamento, oferece comunhão. Preservar e ressignificar essas tradições, portanto, é um gesto de valorização cultural, de respeito, que mostra como os que vivem o hoje podem, sim, aprender com gerações passadas.




