A repaginação do “velho”: bancas e sebos de Teresina sobrevivem à disputa com internet e leitores que pagam R$ 1 mil por “edições raras”

Antônio de Pádua, mais conhecido por gerações de leitores como Seu Dentinho, encerrou neste ano as atividades do sebo de livros que manteve por mais de meio século em Teresina, nas proximidades da praça Pedro II, na Antonino Freire, a menor avenida do mundo. O acervo do local, robusto o bastante para ocupar um galpão, também foi recolhido para onde o livreiro vive hoje em dia, em um sítio na zona rural da capital. O fechamento aconteceu por problemas de saúde, relacionados a Doença de Alzheimer.

O termo, um “sebo” é uma livraria especializada em livros usados, que compra, vende e troca obras, oferecendo alternativas mais acessíveis e livros raros ou difíceis de encontrar, sendo um local onde se garimpa literatura com um toque de história e cultura, muitas vezes com itens como discos e revistas antigas também.

Antônio de Pádua, mais conhecido como “Seu Dentinho” (Foto: Amauri Caricatura/ reprodução)

Quem ajuda a contar essa história é o irmão de Dentinho, Davi Martinellis, um homem de 73 anos. Quando a Todavia o encontrou, ele caminhava pelo calçadão da rua, com um copo de café de plástico.

Também livreiro, com mais de 40 anos de atuação no ramo, ele contou que o irmão começou ainda criança, aos 12 anos, quando as “revistas em quadrinho”, os chamados gibis, eram febre em Teresina. “A gente andava com a revista no braço”, relembrou. Na época, segundo ele, os jovens iam ao cinema, e lá, trocavam revistas com outros leitores, uma memória presente no imaginário de quase todo teresinense com mais de 30 anos.

“Ele começou criança, com 12 anos. A gente andava com a revista no braço, trocava revista desde aquele tempo. A gente vinha assistir filme só pra trocar mesmo. Primeiro foram as mesinhas, aí começaram a botar as mesinhas, depois conseguiram botar a banca. Tinha o raspa, tirava, mexia, implicava, tudo foi indo. Isso foi na época da ditadura. Só depois, quando entrou um prefeito chamado Raimundo Wall Ferraz, já na década de 80, foi que ele cedeu pra gente ficar com as bancas, sem o raspa. Foi aí que a gente conseguiu ficar”, contou.

Davi perto de banca do irmão, Dentinho (Foto: Paula Sampaio/Todavia)

Sobre o costume da época, o servidor público José Pedro Araújo, em seu blog, Folhas Avulsas, onde escreve crônicas, relatou que os jovens chegavam para assistir a um determinado filme já trazendo a sua revista em quadrinhos debaixo do braço para a troca por outra não lida com os “gibizeiros”. Entre eles, títulos como Almanaque Disney, um Chico Bento, ou um cowboy estrelado pelo Tex Willer. E depois de alguma negociação, deixava com o dono da banca um troco, a torna, além do seu gibi, e adentrava ao cinema para aguardar o início da projeção do filme. E, enquanto isto, na companhia de inúmeros outros cinéfilos, passava a ler a sua revista. Era um hábito, fazia parte do programa. [Leia aqui]

Ele próprio, Davi, só começou no negócio anos mais tarde, quando teve o seu primeiro filho e decidiu entrar no ramo também. Com as reformas urbanas da região da Praça Pedro II, os trabalhadores foram realocados. “A praça era só um lajeado. Depois fizeram uma imitação da praça antiga, dos anos 60 pra trás, e botaram a gente pra cá”, relatou. Mais tarde, foram deslocados para o corredor atual onde passaram a atuar de forma mais estável.

Dentinho seguiu trabalhando até recentemente. Segundo Davi, por volta do mês de setembro começaram a ficar mais evidentes os problemas de saúde. Hoje, Davi toca o trabalho no espaço, com a ajuda de um filho. “Durante a semana quem fica é ele. Eu venho mais aos sábados, até meio-dia”, disse. Uma reportagem do portal ClubeNews chegou a mostrar, em 2023, o acervo de livros de Dentinho, na sede física que ficava em frente a sua banca [leia aqui].

Sebo de Livros “O Dentinho” (Foto: Isadora Cavalcante/Portal ClubeNews/ reprodução)

Vendedores de livros chegavam a faturar R$ 300 por dia

A Todavia apurou que no auge, os vendedores de livros chegavam a faturar até R$ 300 em um sábado, um dia bom para vendas. Atualmente, chegam a fechar R$ 30, no mesmo dia típico.

 Perguntando se o negócio que foi iniciado pelo irmão seria passado para outras gerações, Davi avaliou que a tendência é “acabar”, dizendo que dificilmente um jovem encosta numa banca pra comprar um livro.

“Os jovens hoje não leem mais. Hoje eles só querem olhar o celular. Dificilmente um jovem encosta numa banca pra pegar um livro e comprar. Já passa de cabeça baixa, com o celular na mão. Acabou. Nossa leitura, nossa cultura, ela vai acabar. Antes da pandemia ainda era bom, mas a pandemia afastou mais o leitor da banca, porque o leitor começou a ler no celular. Antes tinha afastado uma faixa de uns 30%, hoje afastou 80%, 90%. A gente ainda faz negócio com pessoas de 30 e poucos anos, 40 anos, e com alguns jovens de 15, 16, mas é raro. Eu me admiro quando vejo um jovem lendo dentro do ônibus. Nos anos 80, até antes da internet, a gente via jovem no ônibus lendo livro, lendo revistinha do Pato Donald, do Zé Carioca, da Turma da Mônica, um Tex. Hoje eu me espanto, estou lhe falando sério, quando vejo um jovem lendo um livro dentro do ônibus eu fico pensando se não encenação”, brincou.

Obras que, um dia, já estiveram entre as mais procuradas na banca de Davi (Foto: Paula Sampaio)

Davi afirmou que nas décadas passadas a leitura era incentivada pela própria televisão: “Antigamente, a Globo fazia umas entrevistas. Uma vez, o jornalista perguntou para o Renato Gaucho (ex-jogador e treinador de futebol) qual era o livro que ele estava lendo e ele respondeu ‘A arte da guerra’, no outro dia isso aqui estava cheio, procurando por ele, não deu para quem quis”, pontuou a ser questionado o que ele acha que poderia ser feito para incentivar a volta da frequência nas bancas.

Livros por R$ 100 e até pedidos de raridades por R$ 1 mil

Proprietário do sebo, Clemente (Foto: Paula Sampaio)

A lógica dos sebos e das livrarias de rua se mostram nas histórias que atravessam o balcão. Em meio a pilhas de livros e revistas antigas, um outro vendedor, conhecido como Clemente, em entrevista à Todavia, lembrou de um episódio que ajuda a dimensionar o valor simbólico desses acervos. Um cliente procurava uma edição específica da Revista O Cruzeiro, uma das publicações mais importantes do país no século XX. Ao encontrar o exemplar desejado, o comprador afirmou que pagaria R$ 1 mil por aquela edição.

Criada em 1928, se tornou a mais influente do país entre as décadas de 1930 e 1960. Ela moldou o jornalismo moderno no Brasil.

A revista do empresário Assis Chateaubriand, tinha grandes reportagens, fotojornalismo, reportagem investigativa e trazia uma diagramação moderna para a época. Suas edições são valorizadas nos dias de hoje, porque trazem reportagens históricas (política, cultura, comportamento) e registram momentos-chave do Brasil do século XX, por isso têm grande valor para colecionadores, pesquisadores e historiadores.

Capas da revista “O Cruzeiro” (Foto: Montagem/boletim brio)

A Todavia destaca essa fala de Clemente, pois ela desmitifica as bancas de rua como apenas um lugar de livros baratos, mas um espaço onde circulam raridades e fragmentos da memória brasileira e mais importe, piauiense.

Clemente contou que já vendeu ali um livro que reúne toda a história do conselheiro Saraiva, obra difícil de encontrar em livrarias convencionais. Em outro momento, dois livros considerados raros, por ele, um sobre bens tombados da Caixa Econômica Federal e outro sobre o Espírito Santo, em coleção completa foram adquiridos por um professor. Eram obras pertencentes ao acervo de uma senhora que havia falecido.

Para Clemente, esses casos mostram que o leitor que realmente busca conhecimento não se afastou por causa da internet. “Esse pessoal que gosta mesmo não se afastou”, observou. Segundo ele, quando encontram na internet um livro anunciado por valores elevados, muitos também recorrem ao sebo, onde ainda é possível garimpar o mesmo título por um preço acessível.

“Aqui anda todo tipo de pessoa, até as ‘indecentes’”, diz vendedor

O vendedor explicou que ali, circulam aposentados, escritores, leitores antigos e pessoas de diferentes origens sociais. Para ele, aquelas bancas são um espaço cultural esquecido pelo poder público, mas importantes para manter viva a leitura, a memória e o acesso democrático ao livro. Um espaço que acolhe quem é excluído de outros espaços, preserva obras raras e atende leitores que a internet não supriu.

“Aqui temos livros de vários preços, de R$ 5 até R$ 50. Quem vem mais são aposentados e escritores. Antes da pandemia, todos ficavam aqui, depois, alguns morreram. Tem um cliente que é fiel, vem há vários anos. Ele diz que não vai a livrarias tradicionais porque lá não se sente à vontade, não conversa. Aqui vem todo tipo de pessoa, se posso usar a palavra, pessoas ‘indecentes’, mal vestidas. É um lugar onde todo tipo de pessoa entra. No shopping ou numa livraria tradicional, essas pessoas seriam discriminadas”, declarou.

Proprietário do sebo, Clemente (Foto: Paula Sampaio)

O que mais vende atualmente são apostilas, diz dono de banca

Atualmente, como observou a Todavia ao conversar com os vendedores, as bancas se classificam em dois tipos: aquelas que são sebos, de fato, e vendem livros e revistas antigas e atuais e aquelas que se dedicam exclusivamente a materiais de estudos, acadêmicos e, sobretudo, apostilas para concursos.  

A banca comandada por Antônio Marques funciona em um dos pontos tradicionais da Avenida Antonino Freire, bem em frente ao Palácio de Karnak. Foi um dos espaços por onde passou o famoso jornaleiro Joel, que faleceu aos 73 anos, nesta ano de 2025.

Antônio assumiu a banca quando o antigo responsável, Fabiano, foi para São Paulo e repassou o ponto. A partir daí, ele passou a tocar o negócio. Ao falar sobre o público, Antônio deixa claro que a banca ainda tem consumo, embora diferente de antes.

Os produtos que mais saem hoje não são jornais tradicionais, mas revistas de caça-palavras, gibis, e principalmente material apostilado, que ele aponta como o forte da banca. “Ainda há muito consumo. Hoje vendem bem as revistas de caça-palavras, os gibis, e trabalhamos principalmente com material apostilado, que é o forte da banca. A procura é grande”, disse.

Antônio Marques (Foto: Paula Sampaio)

A reportagem da Todavia buscou ouvir o atual responsável pela banca que pertenceu a Joel, também localizada na Praça Pedro II. No entanto, ele preferiu não conceder entrevista, a pedido da família.

Joel Costa em sua banca (Foto: Reprodução)

Bancas de jornais e revistas: “lugares de controle, de risco e de desejo”

As bancas de jornais, livrarias e cebos sempre ocuparam um lugar que vai muito além do comércio. Nos anos 1970, especialmente durante a Ditadura, eles funcionavam ao mesmo tempo como lugares de controle, de risco e de desejo. Controle, porque o Estado censurava a imprensa e monitorava a circulação de informações, risco, porque jornais podiam ser apreendidos, causando prejuízo econômico e desejo, porque, em uma época sem a internet e com poucos meios de comunicação, esses eram os pontos principais para quem precisava se informar, acompanhar política, cultura e o cotidiano da cidade. É o que explica o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutorando em História, Carlos Mota, ao analisar o papel desses locais na formação da cidade.

Ele lembra ainda que havia uma relação íntima entre o leitor e o jornal impresso. A leitura fazia parte da rotina diária, e o público conhecia exatamente a organização das páginas.

“Até meados do século XX, os índices de analfabetismo em Teresina eram muito altos, muito elevados, então boa parte da sociedade nem sequer tinha acesso à leitura, não tinha esse hábito e muitas vezes nem dominava esses instrumentos de leitura, livros e jornais. Nos anos 70 e durante todo o período da Ditadura, o Brasil passou por um processo de censura nos meios de comunicação, e as bancas de jornal eram um lugar de controle, porque muitos jornais chegavam às bancas e depois poderiam ser apreendidos, o que causava prejuízo econômico aos donos das bancas. Muitas vezes, quando uma página que normalmente tinha notícia política aparecia com uma receita de bolo ou com informações climáticas, isso significava que aquele conteúdo tinha sido censurado. Hoje, com o advento da internet, houve uma democratização do acesso à informação, mas isso também abriu espaço para a desinformação e para a dificuldade de concentração, porque as pessoas estão acostumadas com informações rápidas”, declarou.

Carlos Mota, professor do Departamento de História da UFPI (Foto: reprodução)

Ao ser perguntado sobre o esvaziamento das bancas de livros, jornais e revista e dos sebos do centro da cidade, o professor citou que as perdas também tem a ver com a falta de protagonismo da região, os fluxos urbanos mudaram, e isso impactou diretamente os espaços culturais. Ainda existe uma comunidade leitora, mas ela hoje tem outras formas de acesso aos livros, a internet, Kindle, entregas rápidas o que reduz a frequência nesses locais físicos. Apesar disso, ele defende que livrarias, bancas e sebos continuam sendo lugares de descoberta, onde o encontro com o inesperado é possível, algo que a compra online não oferece.

“Isso muitas vezes facilita, mas também tem um contraponto: quando você compra pela internet, geralmente já sabe ou tem uma ideia do livro que deseja. A ausência da ida à livraria faz com que se perca a possibilidade de, estando ali, encontrar um título que você não esperava e esse é justamente um dos aspectos mais interessantes das livrarias”, disse.

O professor também ponderou que há uma perda simbólica para a cidade. Esses eram lugares de memória, onde experiências, hábitos e formas de viver a cidade se construíam. As bancas, ao desaparecerem ou perderem importância, acabam sendo empurradas para um campo do esquecimento, mesmo tendo sido centrais na vida urbana por décadas. “Eu acho sempre importante, nesse debate sobre memória, entender que memória não é apenas lembrança, mas também esquecimento. Muitas vezes a gente pensa a memória só como algo que guarda, mas ela também tem essa capacidade de esquecer. A memória é viva, é seletiva, está em constante transformação. Aquilo que você tinha como memória sobre algo pode se transformar com o tempo”, refletiu.

O que o leitor contemporâneo tem buscado?

Ao final, a sensação que fica é que as bancas do Centro não desapareceram apenas por causa da tecnologia, mas porque a cidade foi mudando a forma de se encontrar consigo mesma. Também porque esses espaços estavam entranhados na própria história de vida de seus proprietários, que, mesmo diante de mudanças drásticas, conseguiram mantê-los abertos. Isso é um feito e tanto.

Apesar de o Piauí figurar entre os estados com índices elevados de analfabetismo, há, sim, um público fiel e apaixonado pela leitura. Esse interesse tem impulsionado sebos e livrarias, inclusive as tradicionais, a se reinventarem para seguir existindo. Cafés integrados aos espaços de venda, presença em shoppings, programações culturais e até a disputa por atenção, onde ela é mais intensa, nas redes sociais, fazem parte desse movimento. É o caso do sebo da mediadora do Movimento Leia Mulheres Teresina, que realiza eventos e encontros com suas leitoras.

O leitor contemporâneo busca preços acessíveis, mas também curadoria, novas possibilidades de relação com a leitura e o encontro com uma comunidade que, mesmo tendo resumos na internet ou explicações “mastigadas” pela Inteligência Artificial, ainda prefere o bom e velho livro. O livro continua sendo central, mas passa a dividir protagonismo com a experiência, o acolhimento e o sentido. As novas perspectivas para livrarias e sebos, portanto, parecem menos ligadas à sobrevivência comercial isolada e mais à capacidade de se afirmarem como espaços físicos ou virtuais de encontro, memória viva e reinvenção cultural em uma cidade que, apesar das desigualdades, insiste em ler.

Paula Sampaio

É coordenadora de conteúdo da Brio Comunicação. Jornalista pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) e mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí (UFPI).
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