O tempo do luto

Talita Oliveira da Conceição tinha 26 anos. Nascida nos anos 2000, era estagiária de produção da TV Meio Norte e havia construído, no curto tempo de sua trajetória profissional, uma reputação de dedicação que extrapolava a função formal. Passou pelo Núcleo Digital, pelo Pod Meio, pela Revista Meio Norte. Em todas essas frentes, deixou, no testemunho dos colegas, a impressão de quem trabalha com alegria e atenção, de quem leva a sério o ofício sem perder a leveza. Era, segundo quem conviveu com ela, uma jovem cheia de sonhos. Estava começando.

Na noite de segunda-feira, 11 de maio, Talita estava no Rio de Janeiro. Era passageira de uma motocicleta que se chocou com um automóvel na Avenida Rei Pelé, perto da estação do Maracanã. Foi levada ao Hospital Municipal Souza Aguiar e não resistiu aos ferimentos. A notícia chegou ao Piauí ainda na madrugada, e na manhã seguinte o Grupo Meio Norte divulgou uma nota de pesar pela morte da colaboradora. Familiares, amigos e colegas de redação foram nomeados na dor.

Houve, nas horas seguintes ao falecimento, uma tristeza ampla e visível na comunidade jornalística piauiense. Em todos esses círculos, a sensação foi a mesma: a de que se perdia, mais uma vez, alguém que mal havia chegado.
É dessa sensação que emergiu, num segundo movimento, uma conversa entre jornalistas piauienses sobre o ritmo com que a notícia se espalhou.

Sem entrar em personificações, porque o caso específico interessa menos do que o que ele revela, há quem tenha lamentado o fato de parte dos colegas e familiares de Talita ter sabido da morte pela imprensa, antes que se completasse o ciclo de comunicação que normalmente cabe à família. Outros responderam que apurar uma morte e publicá-la é, afinal, o que se espera de um jornalista. A discussão tomou os formatos esperados em grupos de WhatsApp, alguma aspereza, alguma defesa, algum desencontro. Mas, no centro dela, sobrou uma pergunta legítima.

A pergunta é antiga e atravessa gerações: qual é o tempo que se deve a uma família antes de transformar uma morte em manchete? Houve um tempo em que o exercício do ofício pressupunha uma cadência específica para esse tipo de cobertura, checagem com a família, o tempo de respiração entre o fato e a publicação, a sensibilidade de adiar em algumas horas o que não perde nada se for publicado mais tarde. O comunicador da IELTV, Carlos
Gaethe, gravou um vídeo sobre o episódio, apontando o que descreveu como um choque de gerações dentro do Jornalismo piauiense.

A economia digital introduziu outra lógica. Nas redações de hoje, o “esperar mais um pouco” virou um cálculo difícil, às vezes contraintuitivo. Há jornalistas sérios e competentes em todos os formatos, e há um real dilema estrutural na cobertura digital contemporânea. Trata-se de reconhecer que o tempo do luto, antes uma convenção tácita do ofício, hoje precisa ser argumentado, defendido, justificado caso a caso.

Muitos profissionais mais jovens defenderam que era preciso esperar, respeitar o tempo da família e compreender que nem toda informação precisa ser publicada imediatamente apenas porque já se tornou disponível. Do outro lado, jornalistas mais experientes argumentaram a partir da lógica tradicional, da objetividade e da dinâmica histórica das redações, onde a rapidez sempre foi entendida como parte essencial do ofício. Ambos têm razão em algum nível. Ambos perdem alguma coisa quando deixam de escutar o outro lado.

Talita era jornalista. Estava começando. Trabalhava em uma redação onde foi descrita, pelos colegas, como alguém que deixava marca pelo profissionalismo e pelo carinho. É essa a notícia que permanece. E é em nome dela, não contra ninguém, mas em sua memória, que vale recolocar, com seriedade, a pergunta que sempre coube ao jornalismo bem feito: a quem se deve, primeiro, a notícia de uma morte?

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