
Às nove e meia da noite, quando muitos teresinenses estão voltando para casa, para descansar, os integrantes da Luar do São João estão chegando para o ensaio. Alguns vindos direto do trabalho, outros carregam mochilas da faculdade. O esforço é para colocar uma operação complexa em funcionamento e harmonia.
Para mover uma quadrilha junina como a Luar do São João em quadra durante uma apresentação, é preciso mobilizar mais de 200 pessoas ao longo de sete meses. Os ensaios começam ainda em novembro do ano anterior. A maioria dos integrantes tem entre 14 e 29 anos. Muitos trabalham durante o dia, estudam à noite e só conseguem chegar ao local de ensaio depois das 21h. Em alguns períodos, os encontros avançam até duas ou três horas da manhã. O custo da temporada pode se aproximar de R$ 1 milhão pela logística de figurinos, cenários, transporte e repertório musical.
Vista da arquibancada, durante as festas juninas, o espetáculo dura alguns minutos. Nos bastidores, tudo funciona quase como uma empresa cultural. Há costureiras, cenógrafos, coreógrafos, produtores, motoristas, carregadores, atores, dançarinos e uma diretoria responsável por captar recursos públicos e privados para manter o espetáculo de pé.
Foi para entender como esse pequeno grupo criado na zona Norte de Teresina chegou ao destaque nacional, sendo bicampeão do Festival da TV Globo Nordeste, o maior dessa modalidade, que a Todavia conversou com Ramon Patrese. Professor de Direito, advogado, auditor de controle externo do Tribunal de Contas do Estado do Piauí, ele também é o atual diretor da Luar do São João.
Ao longo da entrevista, repetiu uma palavra diversas vezes: compromisso. Foi ela que, segundo ele, permitiu ao grupo crescer em estrutura.

O carro que virou passagem para Recife
O advogado contou à Todavia, porém, que nem sempre o maior desafio é criar o melhor figurino ou escolher um enredo. Perguntado pela apuração sobre um momento marcante, ele relembrou que, em 2016, a Luar do São João havia conquistado vaga para representar o Piauí no Festival de Quadrilhas da TV Globo Nordeste, em Recife. Os integrantes estavam prontos para viajar, mas havia um problema: havia apenas um ônibus disponível. A estrutura, junto dos artistas, demandaria pelo menos mais dois veículos.
Depois de buscar ajuda junto ao poder público e não conseguir viabilizar o transporte, restava uma última alternativa. Pouco tempo antes, a quadrilha havia conquistado um carro zero quilômetro como premiação em uma competição local. Procuraram uma empresa de transporte e fizeram a proposta para o empresário que, segundo Ramon, achou uma “loucura”.
“Nós só tínhamos um ônibus, sendo que faltavam dois. Tentamos esses ônibus via governo, via prefeitura. Não conseguimos de forma alguma. Só que teve um evento aqui em Teresina em que a gente foi campeão e ganhamos um carro zero quilômetro. A gente se deslocou até uma empresa da Zona Sul que tinha ônibus. Por sorte, o dono estava lá. Fizemos a cotação e, quando ele falou o valor, eu disse: ‘Olha, a gente não tem dinheiro. Mas a gente tem um carro zero quilômetro. O carro é seu e a gente só quer viajar’”, relatou.

O empresário aceitou.
“A gente trocou um carro zero quilômetro pela viagem para Recife naquele ano de 2016”, frisou.
A história virou uma das mais lembradas dentro porque simboliza o que acreditam ser um compromisso coletivo do grupo em fazer o espetáculo acontecer.
Uma associação que virou quadrilha junina

A história da Luar do São João começou antes mesmo de a quadrilha existir. Em 5 de outubro de 2011, foi fundada a Associação Cultural Junina Terezina Show, entidade criada para desenvolver atividades culturais ligadas ao movimento junino. Foi dentro dela que surgiu o projeto de criar uma quadrilha competitiva que representasse Teresina nos festivais estaduais e nacionais.
A quadrilha recebeu o nome de Luar do São João e realizou suas primeiras apresentações em 2012. O idealizador do projeto foi Edilson Cavalcante, presidente da associação e uma das figuras centrais da trajetória do grupo, que permaneceu à frente da entidade até sua morte, em 2017.

“Do sétimo ao primeiro lugar”
Além do título no Cidade Junina, a quadrilha venceu o Festival Clube de Quadrilhas, resultado que garantiu sua primeira participação no Festival de Quadrilhas da TV Globo Nordeste. A estreia nacional, porém, ficou longe dos títulos que viriam anos depois. Em vez de desanimar, o grupo decidiu observar.
“Em 2014, a Luar do São João esteve pela primeira vez nesse evento. Ficamos na sétima posição. Nesse festival, historicamente, o Piauí costumava ficar nas últimas colocações, brigando com Maranhão e Bahia”, pontuou. “A partir de 2014, com a nossa ida para o Festival da Globo, nós começamos a tentar entender qual era o processo das quadrilhas campeãs, como é que elas faziam, qual era o processo produtivo delas. E começamos a trabalhar aqui o nosso próprio processo produtivo da Luar do São João”, acrescentou.

Até então, o Piauí raramente aparecia entre os favoritos da competição. O título nacional em 2019 colocou a quadrilha teresinense entre as referências do movimento junino nordestino. Nos anos seguintes, a Luar conquistou mais um título do Festival da TV Globo Nordeste, em 2023, ficou com o vice-campeonato em 2025, venceu três edições do Nordestão de Quadrilhas, competição que reúne algumas das principais quadrilhas da região, e conquistou o título nacional em 2022, em Minas Gerais.

Figurinos são referência nacional
Atualmente, o figurinista da Luar do São João, Francarlos Araújo, por exemplo, passou a atender grupos de diferentes estados brasileiros. Segundo Ramon, quadrilhas de lugares como Roraima, Bahia, Tocantins e Maranhão passaram a procurar profissionais ligados ao grupo para desenvolver figurinos e projetos visuais.
“A Luar do São João exporta a sua mão de obra. O nosso figurinista não confecciona só para a Luar. Ele é referência nacional. Tem quadrilhas de Roraima, da Bahia, do Tocantins e do Maranhão que vêm aqui para ele produzir os figurinos”, disse.

Nos anos seguintes, a associação também ampliou sua estrutura institucional. Obteve títulos de utilidade pública municipal e estadual, foi reconhecida como Ponto de Cultura e passou a acessar diferentes mecanismos de financiamento cultural.
Para Ramon, esse processo administrativo foi tão importante. “Nós conquistamos esse nível de organização que nos permite ter acesso aos recursos da cultura nos níveis federal, estadual e municipal. Para crescer, você precisa ter acesso a recursos maiores”, avaliou.

Como nasce um enredo

Perguntado pela Todavia sobre o processo criativo, Ramon explicou que a quadrilha junina parte quase sempre de uma mesma estrutura, que é o casamento. Há um noivo, uma noiva, um conflito e uma história construída em torno desse encontro. A partir dessa premissa, o que define todo o resto é a criatividade. Na Luar do São João, essa base já serviu para falar da capacidade de adaptação do povo nordestino, no espetáculo “Camaleão”, em 2016, da Tropicália, em 2019, do cuscuz, em 2022, de Santa Dulce dos Pobres, em 2023 e, neste ano, da lenda piauiense do Cabeço de Cuia, em uma releitura dos dias atuais.
“Em 2019, quando a gente foi campeão, o nosso tema foi Tropicália. Nós trouxemos Torquato Neto, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa. Era uma competição de música da época da Tropicália em que a noiva gostava de ir para as apresentações, mas o seu pai a proibia, porque era policial. Lá ela conheceu Torquato Neto, se apaixonou por ele e queria casar com ele, mas o pai proibia, porque ele era delegado de polícia e queria reprimir aqueles artistas da época da Tropicália”, pontuou. “Esse ano a gente vai fazer uma releitura da nossa lenda piauiense para trazer o enredo de um casamento que envolva a lenda do Cabeça de Cuia”, adiantou.

História do grupo se funde com a história de seus artistas
Na quadra, a história da Luar do São João também pode ser contada pela arte de quem dança. Pollyana Stella entrou no grupo ainda em 2012 e, desde então, viu a quadrilha deixar de ser um sonho de amigos da zona Norte para se tornar parte da sua própria formação artística e profissional. Bailarina, maquiadora, especialista em noivas e noiva da Luar, ela ocupa um dos papéis centrais do espetáculo, que é o da personagem em torno da qual o enredo se organiza.
Entre as lembranças que guarda estão o título de Rainha Junina Nacional, conquistado em 2013, e a recepção no aeroporto, em Teresina, com integrantes do grupo, faixas e cartazes. Em 2015, em um festival no Nordeste, lembra de ter ouvido a arquibancada gritar “é campeã”, embora o resultado oficial tenha sido outro. Para ela, esses episódios ajudaram a marcar a percepção de que a Luar começava a se firmar fora do Piauí.
“A Luar representa algo muito importante na minha vida. São 15 anos, metade da minha vida e a maior parte da minha construção artística e profissional. Meu coração está na Luar. Ser a noiva e levar a cada ano um personagem diferente, que transmite força, determinação, identidade e paixão, é algo muito significativo”, destacou.

A temporada 2026 da Luar do São João terá início no próximo dia 14, durante o tradicional Esquenta Junino da Luar, realizado no Iate Clube de Teresina.





