O amor, apesar de tudo

Há algo curioso no modo como uma data dedicada ao amor nos convida, quase sem querer, a fazer as contas com o nosso. Entre as fotografias de casais, as declarações públicas e os pequenos inventários de felicidade que atravessam as redes neste 12 de junho, é comum que cada um volte os olhos para a própria vida afetiva e, às vezes, para aquilo que nela parece faltar. Psicólogos e psicanalistas já descreveram essa inquietação sazonal: uma espécie de ansiedade da data, feita menos do que se vê e mais do que se projeta sobre o que se vê.

A psicanálise tem uma maneira particular de olhar para isso, e ela começa por uma ideia que pode soar contraintuitiva: a falta não é um defeito do amor, é a sua condição.

Freud foi quem primeiro deu nome a essa engrenagem. Para ele, o que chamamos de amor nasce de uma busca que nunca se encerra, a procura por um objeto capaz de restituir uma satisfação primordial e perdida. Numa de suas formulações mais belas, dizia que encontrar o objeto amado é, no fundo, reencontrá-lo: amamos sempre à sombra de algo que julgamos ter tido e perdido. Não há, portanto, parceiro que preencha por inteiro essa lacuna, porque a lacuna é anterior a qualquer parceiro. Ela nos constitui.

Jacques Lacan, que releu Freud à sua maneira, levou a ideia adiante. O desejo, escreveu, é sempre desejo do Outro: desejamos ser reconhecidos, desejamos aquilo que supomos que o outro deseja, queremos existir no olhar de alguém. Vista por esse ângulo, a rede social não é uma aberração contemporânea, mas o palco mais recente de um anseio antiquíssimo: o de ser visto. O que mudou foi a escala da vitrine, não a natureza do desejo que a anima.

Se é assim, amar não é encontrar quem tape o buraco, mas encontrar quem aceite habitá-lo conosco. Lacan dizia que amar é dar o que não se tem: oferecer ao outro, justamente, a nossa falta, e acolher a dele. O afeto, nas suas muitas formas, é menos a promessa de uma plenitude do que a coragem de compartilhar uma incompletude. É isso que nos faz sentir, mesmo conscientes de tudo o que nos falta, estranhamente acompanhados.

Talvez seja esse o ponto em que o afeto encontra a saúde mental. Os laços que nos sustentam e que funcionam, ao mesmo tempo, como apoio e como espelho para a construção de quem somos não se restringem ao amor romântico. Há o amor das amizades longas, o dos vínculos familiares, o que dedicamos ao trabalho que nos significa, o cuidado quase silencioso que oferecemos e recebemos todos os dias. A data celebra os namorados; o amor, porém, é mais vasto e mais teimoso do que a data.

Vale celebrar, então. Dizer em voz alta, presentear, valorizar quem se ama, sem que isso precise se medir contra qualquer exposição alheia. Cada vínculo tem a sua própria gramática de alegrias e dificuldades, intransferível. E se há uma mensagem para pensarmos além dos Dia dos Namorados, talvez seja esta: a falta não é o avesso do amor. É, no fim das contas, o lugar de onde ele parte.

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