A infância é uma fase de descobertas e por mais que, ao chegar na idade adulta tenhamos a tendência de esquecer, também é recoberta de pressões aos pequenos. Nessa fase, meninos e meninas buscam incansavelmente um lugar de pertencimento, uma forma de serem aceitos por algum grupo. Infelizmente, algumas vezes, esse desejo de se encaixar ultrapassa limites e expõe crianças a situações de humilhação, violência e até risco de morte.
Foi o que aconteceu em Canto do Buriti, a 403 km de Teresina. Um menino de apenas 12 anos, desafiado por colegas, pulou de uma ponte de cinco metros de altura. O salto, gravado em vídeo, mostra o garoto caindo de costas e reclamando de dores na coluna.
Informações divulgadas pelo portal Cidade Verde, pontuam que ele fazia tratamento psiquiátrico e teria aceitado o desafio sob a
promessa de receber uma farda, junto da pressão dos colegas que observavam tudo filmando. Esse caso pode e deve ser considerado bullying.
O constrangimento e a manipulação que fizeram a criança agir são formas de violência escolar. Bullying não é apenas xingar ou bater. É toda forma de pressão que humilha, ameaça ou coloca alguém em posição de inferioridade diante de outros.
Infelizmente, episódios como esse não são isolados. Segundo um levantamento realizado peloInstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 23% dos brasileiros declararam ter sofrido bullying em algum momento da sua vida. A cada semana, novos relatos surgem na mídia. Uma menina de 10 anos, Alice, morreu após ser agredida dentro de uma escola municipal de Belém do São Francisco, no Sertão de Pernambuco, após recusar um beijo de um colega. O laudo do Instituto Médico Legal (IML) apontou que ela teve um traumatismo craniano ao cair e bater a cabeça.
A literatura e o cinema já alertaram para isso. Em Carrie, a Estranha, clássico de Stephen King adaptado para o cinema, uma adolescente vítima de bullying constante explode em tragédia. Embora seja uma narrativa de ficção, a obra permanece atual porque traduz uma verdade incômoda de que a escola, que deveria ser espaço de aprendizado e acolhimento, muitas vezes se torna palco de hierarquias cruéis, onde quem é diferente ou mais vulnerável acaba alvo de zombaria, chantagem e violência.
No caso específico ocorrido no Piauí, de um lado, é perceptível como o ambiente escolar e social influencia uma criança de 12 anos (a pressão dos colegas, a ideia de “provar coragem”, os desafios que circulam até como brincadeira, mas que colocam vidas em risco). Isso mostra uma fragilidade na orientação e acompanhamento das crianças e adolescentes, porque, nessa idade, eles ainda não têm plena noção das consequências. E tem ainda a dimensão da saúde mental, uma vez que o menino fazia acompanhamento psiquiátrico. Ou seja, além de uma atitude impensada, havia vulnerabilidade emocional envolvida.
Assim, o caminho nesse caso deve ser o de compreender as origens dessa prática, e nesse sentido o papel do Conselho Tutelar e da Polícia é fundamental para investigar de onde partiu a ideia e como ela se espalhou entre as crianças. Só assim será possível agir para que novos episódios não aconteçam.
Se quisermos um futuro mais humano, precisamos ensinar desde cedo que coragem não é ceder à pressão dos colegas, mas ter a liberdade de dizer “não” sem medo de ser punido por isso. Essa é a lição que a sociedade inteira precisa aprender.




